A interpretao dos sonhos
(Primeira parte)










VOLUME IV
(1900)



DIE
TRAUMDEUTUNG
von
Dr. SIGMUND FREUD

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FLECTERE SI NEQUEO SUPEROS, ACHERONTA MOVEBO.
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LEIPZIG UND WIEN.
FRANZ DEUTICKE.
1900


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        INTRODUO
          

(2)
BIBLIOGRAFIA
 
(a) EDIES ALEMS:        
1900        Die Traumdeutung. Leipzig e Viena: Franz Deuticke. Pgs. iv +                      375
1909        2 ed. (Ampliada e revista.) Mesmos editores. Pgs. vii389.
1911        3 ed. (Ampliada e revista.) Mesmos editores. Pgs. x + 418.
1914        4 ed. (Ampliada e revista.) Mesmos editores. Pgs. x + 498.
1919        5 ed. (Ampliada e revista.) Mesmos editores. Pgs. ix + 474.
1921        6 ed. (Reimpresses da 5 ed., exceto pelo novo prefcio e 1922        7 ed.  pela bibliografia revista.) Pgs. vii + 478        
1925        Vol. II e parte do Vol. III de Freud, Gesammelte Schriften.         (Ampliada e revista.) Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler         Psychoanalytischer 
Verlag. Pg. 543 e 1-185.                
1930        8 ed. (Ampliada e revista.) Leipzig e Viena: Franz Deuticke.         Pgs. x + 435.                
1942        Em volume Duplo II & III de Freud, Gesammelte Werke.         (Reimpresso da 8 ed.) Londes: Imago Publishing Co. Pgs.         xv e 1-642.        

(b) TRADUES INGLESAS:
1913        Por A. A. Brill. London: George Allen & Co.; Nova Ioque: The         Macmillan Co. Pgs. xiii + 510.
1915        2 ed. Londess; George Allen & Unwin; Nova Ioque: The         Macmillan Co. Pgs. xii + 510.
1932        3 ed. (Completamente revista e em grande parte reescrita por         vrios colaboradores no especificados.) London: George Allen         & Unwin; 
Nova Ioque: The Macmillan Co. Pg. 600.
1938        Em The Basic Writings of Sigmund Freud. Pgs. 181-549.         (Reimpresso da 3 e. com a omisso de quase todo o         Captulo I.) Nova Ioque: Random 
House. 
          
          A atual traduo para o ingls, inteiramente nova,  de James Strachey.
          
          Na realidade, Die Traumdeutung apareceu pela primeira vez em 1899. Esse fato  mencionado por Freud no incio de seu segundo artigo sobre Josef Popper 
(1932c): "Foi no inverno de 1899 que meu livro sobre a interpretao dos sonhos (embora sua pgina de rosto estivesse ps-datada com o novo sculo) finalmente surgiu 
diante de mim". Mas agora temos informaes mais exatas por sua correspondncia com Wilhelm Fliess (Freud, 1950a). Em sua carta de 5 de novembro de 1899 (Carta 123), 
Freud anuncia que "ontem, finalmente, o livro apareceu"; e pela carta precedente parece que o prprio Freud recebera de antemo dois exemplares, cerca de uma quinzena 
antes, um dos quais enviara a Fliess como presente de aniversrio.
          A Interpretao dos Sonhos foi um dos dois livros - Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1950d) foi o outro - que Freud manteve mais ou menos sistematicamente 
"atualizados"  medida que foram passando por suas edies sucessivas. Aps a terceira edio da presente obra, as alteraes nela feitas no foram indicadas de 
maneira alguma, o que produziu um efeito algo confuso sobre o leitor das edies posteriores, visto que o novo material s vezes implicava um conhecimento de modificaes 
dos pontos de vista de Freud que datam de pocas muito posteriores ao perodo em que o livro foi originalmente escrito. Numa tentativa de superar essa dificuldade, 
os editores da primeira edio das obras completas de Freud (as Gesammelte Schriften) reimprimiram a primeira edio de A Interpretao dos Sonhos em sua forma original 
num s volume, e enfeixaram num segundo volume todo o material que fora acrescentado depois. Infelizmente, contudo, o trabalho no foi efetuado de modo muito sistemtico, 
pois os prprios acrscimos no foram datados e, com isso, grande parte da vantagem do plano foi sacrificada. Nas edies subseqentes, voltou-se ao antigo volume 
nico e no diferenciado.
          O maior nmero de acrscimos versando sobre qualquer assunto isolado  constitudo, sem dvida, pelos que dizem respeito ao simbolismo nos sonhos. Freud 
explica, em sua "Histria do Movimento Psicanaltico" (1914d), bem como no incio do Captulo VI, Seo E (pg. [1]) desta obra, que chegou tardiamente a uma compreenso 
plena da importncia dessa faceta do assunto. Na primeira edio, o exame do simbolismo limitou-se a algumas pginas e a um nico sonho modelo (dando exemplos de 
simbolismo sexual) no final da seo sobre as "Consideraes sobre a Representabilidade", no Captulo VI. Na segunda edio (1909), nada foi acrescentado a essa 
seo; mas, por outro lado, vrias pginas sobre o simbolismo sexual foram inseridas no fim da seo sobre "Sonhos Tpicos", no Captulo V. Estas foram consideravelmente 
ampliadas na terceira edio (1911), enquanto o trecho original do Captulo VI continuou ainda inalterado. Eraevidente que uma reorganizao h muito se fazia necessria, 
e, na quarta edio (1914), uma seo inteiramente nova sobre o Simbolismo foi introduzida no Captulo VI, e para ela transps-se ento o material sobre o assunto 
que se acumulara no Captulo V, junto com grande quantidade de material inteiramente novo. No se fizeram quaisquer modificaes na estrutura do livro nas edies 
posteriores, embora outro grande volume de material tenha sido acrescido. Aps a verso em dois volumes (1925) - isto , na oitava edio (1930) - alguns trechos 
da seo sobre "Sonhos Tpicos" no Captulo V, que haviam sido totalmente abandonados numa fase anterior, foram reinseridos.
          Na quarta, na quinta, na sexta e na stima edies (isto , de 1914 at 1922), dois ensaios de autoria do Otto Rank (sobre "Os Sonhos e a Literatura Criativa" 
e "Sonhos e Mitos") foram publicados no final do Captulo VI, mas foram posteriormente omitidos.
          Restam as bibliografias. A primeira edio continha uma lista de cerca de oitenta livros, e  grande maioria deles Freud faz referncias no texto. Esta 
lista permaneceu inalterada na segunda e na terceira edies; porm, na terceira, uma segunda relao foi acrescentada, contendo cerca de quarenta livros escritos 
desde 1900. Da por diante, ambas as listas comearam a aumentar rapidamente, at que, na oitava edio, a primeira delas continha cerca de 260 obras, e a segunda, 
mais de 200. Nessa fase, somente uns poucos ttulos da primeira lista (pr-1900) eram de livros realmente mencionados no texto de Freud, enquanto, por outro lado, 
a segunda lista (ps-1900, como se pode inferir das prprias observaes de Freud em seus vrios prefcios) no pde realmente atualizar-se de acordo com a produo 
de escritos analticos ou quase-analticos sobre o assunto. Alm disso, muitas das obras citadas por Freud no texto no eram encontradas em nenhuma das duas listas. 
Parece provvel que, a partir da terceira edio, Otto Rank tenha-se tornado o principal responsvel por essas bibliografias. Uma carta de Freud a Andr Breton, 
datada de 14 de dezembro de 1932 (1933e), declara explicitamente que, na quarta edio e nas que vieram a seguir, as bibliografias ficaram inteiramente a cargo de 
Rank.
          
          (2) HISTRICO
          A publicao da correspondncia de Freud com Fliess permite-nos acompanhar a redao de A Interpretao dos Sonhos com certa riqueza dedetalhes. Na "Histria 
do Movimento Psicanaltico" (1914d), Freud escreveu, rememorando seu lento ritmo de publicao nos primeiros tempos: "A Interpretao dos Sonhos, por exemplo, foi 
concluda, em todos os seus aspectos essenciais, no comeo de 1896, mas s foi escrita no vero de 1899". Da mesma forma, nas notas introdutrias a seu trabalho 
sobre as conseqncias psicolgicas da distino anatmica entre os sexos (1925j), ele escreveu: "Minha Interpretao dos Sonhos e meu 'Fragmento da Anlise de um 
Caso de Histeria' (1905e)... foram sustados por mim - se no durante os nove anos impostos por Horcio, ao menos por quatro ou cinco anos, antes que eu permitisse 
que fossem publicados." Estamos agora em condies de ampliar e, sob certos aspectos, corrigir essas rememoraes, com base em provas contemporneas do autor.
          Alm de vrias referncias dispersas ao assunto - que, em sua correspondncia, remontam a pelo menos 1881 -, as primeiras importantes publicadas sobre 
o interesse de Freud pelos sonhos aparecem no curso de uma longa nota de rodap ao primeiro de seus casos clnicos (o da Sra. Emmy von N., com data de 15 de maio), 
nos Estudos sobre a Histeria, de Breuer e Freud (1895). Examina ele o fato de que os pacientes neurticos parecem ter necessidade de associar umas com as outras 
quaisquer idias que porventura estejam simultaneamente presentes em suas mentes. Prossegue ele: "No faz muito tempo, pude convencer-me da intensidade de uma compulso 
dessa espcie  associao, a partir de algumas observaes feitas num campo diferente. Durante vrias semanas, vi-me obrigado a trocar minha cama habitual por uma 
mais dura, na qual tive sonhos numerosos ou mais ntidos, ou na qual talvez no tenha conseguido atingir a profundidade normal do sono. No primeiro quarto de hora 
depois do acordar, recordava-me de todos os sonhos que tivera durante a noite e me dei ao trabalho de anot-los e tentar solucion-los. Consegui relacionar todos 
esses sonhos com dois fatores: (1) com a necessidade de elaborar quaisquer idias de que s tivesse tratado de modo superficial durante o dia - que tivessem sido 
apenas mencionados, e afinal no tivessem sido tratados; e (2) com a compulso de vincular quaisquer idias que pudessem estar presentes no mesmo estado de conscincia. 
O carter absurdo e contraditrio dos sonhos pode ser investigado at a ascendncia no controlada deste segundo fator."
          Infelizmente, no se pode datar esse trecho com exatido. O prefcio ao volume foi escrito em abril de 1895. Uma carta de 22 de junho de 1894 (Carta 19) 
parece implicar que os casos clnicos j estavam concludos nessa ocasio, e isso certamente j havia ocorrido em 4 de maro de 1895. A cartade Freud dessa data 
(Carta 22)  de particular interesse, por dar o primeiro vislumbre da teoria da realizao de desejo: no decorrer dessa carta, Freud cita a histria do "sonho de 
convenincia" do estudante de medicina que se acha includo nas pg. [1]-[2] deste volume. Entretanto, foi somente em 24 de julho de 1895 que a anlise de seu prprio 
sonho com a injeo de Irma - o sonho modelo do Captulo II - estabeleceu essa teoria em definitivo na mente de Freud. (Ver Carta 137, de 12 de junho de 1900). Em 
setembro desse mesmo ano (1895), Freud escreveu a pimeira parte de seu "Projeto para uma Psicologia Cientfica" (publicado como apndice  correspondncia com Fliess), 
e as Sees 19, 20 e 21 do "Projeto" constituem uma primeira abordagem de uma teoria coerente dos sonhos. Ele j inclui muitos elementos importantes que reaparecem 
na presente obra, tais como (1) o carter de realizao de desejos dos sonhos, (2) seu carter alucinatrio, (3) o funcionamento regressivo da mente nas alucinaes 
e nos sonhos (o que j fora apontado por Breuer em sua contribuio terica aos Estudos sobre a Histeria), (4) o fato de o estado do sonho envolver paralisia motora, 
(5) a natureza do mecanismo de deslocamento nos sonhos, e (6) a semelhana entre os mecanismos dos sonhos e dos sintomas neurticos. Mais do que isso, contudo, o 
"Projeto" traz uma indicao clara do que , provavelmente, a mais crucial das descobertas dadas ao mundo em A Interpretao dos Sonhos - a distino entre os dois 
diferentes modos de funcionamento psquico, os Processos Primrio e Secundrio.
          Isso, contudo, est longe de esgotar a importncia do "Projeto" e das cartas a Fliess escritas em relao a tal "Projeto" em fins de 1895. No  exagero 
afirmar que grande parte do stimo captulo de A Interpretao dos Sonhos e, de fato, dos estudos "metapsicolgicos" posteriores de Freud s se tornou plenamente 
inteligvel a partir da publicao do "Projeto".
          Os estudiosos dos escritos tericos de Freud tm estado cientes de que, at mesmo em suas especulaes psicolgicas mais profundas, encontra-se pouco ou 
nenhum debate sobre alguns dos conceitos mais fundamentais de que ele se vale: conceitos, por exemplo, como os de " energia psquica", "somas de excitao", "catexia", 
"quantidade", "qualidade", "intensidade", e assim por diante. Praticamente, a nica abordagem explcita de uma discusso desses conceitos nas obras publicadas de 
Freud  a penltima frase de seu primeiro trabalho sobre "As Neuropsicoses de Defesa" (1894a), no qual formula a hiptese de que "nas funes mentais, deve-se distinguir 
algo - uma carga de afeto ou soma de excitao - que possui todas as caractersticas de uma quantidade (embora no tenhamos meios de medi-la) passvel de aumento, 
diminuio, deslocamento e descarga, e que se espalhasobre os traos mnmicos das representaes como uma carga eltrica espalhada pela superfcie de um corpo". 
A escassez de explicao dessas idias to bsicas nos escritos posteriores de Freud sugere que ele presumia que elas fossem uma coisa to natural para seus leitores 
quanto eram para ele mesmo; e devemos nossa gratido  correspondncia com Fliess, publicada postumamente, por lanar muita luz precisamente sobre esses pontos obscuros.
          Naturalmente,  impossvel entrarmos aqui em qualquer exame pormenorizado do assunto, e o leitor deve ser encaminhado ao prprio volume (Freud, 1905a) 
e sua elucidativa introduo feita pelo Dr. Kris. O ponto crucial da questo, entretanto, pode ser indicado de maneira bem simples. A essncia do Projeto de Freud 
estava na idia de combinar num todo nico duas teorias de origem diferente. A primeira delas derivava, em ltima anlise, da escola fisiolgica de Helmholtz, da 
qual o professor de Freud, o fisiologista Brcke, era um membro destacado. De acordo com essa teoria, a neurofisiologia, e conseqentemente a psicologia, eram regidas 
por leis puramente fsico-qumicas. Tal, por exemplo, era a "lei da constncia", freqentemente mencionada por Freud e por Breuer e expressa nos seguintes termos 
em 1892 (num rascunho postumamente publicado, Breuer e Freud, 1940): "O sistema nervoso se esfora por manter constante em seu estado funcional algo que pode ser 
descrito como a 'soma de excitao'." A maior parte de contribuio terica feita por Breuer (outro discpulo da escola de Helmholtz) aos Estudos sobre a Histeria 
foi uma complexa construo elaborada em harmonia com essas linhas. A segunda grande teoria evocada por Freud em seu Projeto foi a doutrina anatmica do neurnio, 
que estava obtendo a aceitao dos neuroanatomistas no fim da dcada de 1880. (O termo "neurnio" s foi introduzido por Waldeyer em 1891.) Essa doutrina estabelecia 
que a unidade funcional do sistema nervoso central era uma clula distinta, sem nenhuma continuidade anatmica direta com as clulas adjacentes. As frases iniciais 
do Projeto mostram claramente como sua base residia numa combinao dessas duas teorias. Seu objetivo, escreveu Freud, era "re-presentar os processos psquicos como 
estados quantitativamente definidos de partculas materiais especificveis". Em seguida, ele postulou que essas "partculas materiais" eram os neurnios, e que a 
distino entre se acharem eles num estado de atividade ou num estado de repouso era feita por "quantidade" que estava "sujeita s leis gerais do movimento". Assim, 
um neurnio poderia estar "vazio" ou "cheio de uma certa quantidade", ou seja "catexizado". A "excitao nervosa" deveria ser interpretada como uma "quantidade" 
fluindo atravs de um sistema de neurnios, e essa corrente poderia encontrar resistncia ou ser facilitada, conforme o estado das "barreiras de contato" entre os 
neurnios. (Somente depois, em 1897,  que o termo "sinapse" foi introduzido por Foster e Sherrington.) O funcionamento de todo o sistema nervoso estaria sujeito 
a um princpio geral de "inrcia", segundo o qual os neurnios sempre tendem a se livrar de qualquer "quantidade" de que possam estar cheios - um princpio correlato 
ao princpio da "constncia". Utilizando como tijolos esses e outros conceitos semelhantes, Freud construiu um modelo altamente complexo e extraordinariamente engenhoso 
da mente como uma mquina neurolgica.
          Um papel preponderante foi desempenhado no esquema de Freud por uma diviso hipottica dos neurnios em trs classes ou sistemas, diferenciados de acordo 
como seus modos de funcionamento. Desses, os dois primeiros relacionavam-se, respectivamente, aos estmulos externos e s excitaes internas. Ambos funcionavam 
numa base apenas quantitativa, isto , suas aes eram inteiramente determinadas pela magnitude das excitaes nervosas que incidiam sobre eles. O terceiro sistema 
estava correlacionado com as diferenas qualitativas que distinguem as sensaes e sentimentos conscientes. Essa diviso dos neurnios em trs sistemas constituiu 
a base de complexas explicaes fisiolgicas de coisas como o funcionamento da memria, a percepo da realidade, o processo de pensamento, e tambm os fenmenos 
dos sonhos e dos distrbios neurticos.
          Entretanto, as obscuridades e dificuldades comearam a se acumular, e durante os meses que se seguiram  redao do "Projeto", Freud revisou continuamente 
suas teorias. Com o passar do tempo, seu interesse foi-se desviando gradualmente dos problemas neurolgicos e tericos para os problemas psicolgicos e clnicos, 
e ele acabou por abandonar todo o esquema. E quando, alguns anos depois, no captulo VII desta obra, Freud retomou o problema terico - embora por certo jamais abandonasse 
a crenade que uma base fsica da psicologia seria finalmente estabelecida -, o fundamento neurofisiolgico foi aparentemente abandonado. No obstante - e  por 
esse motivo que o "Projeto"  importante para os leitores de A Interpretao dos Sonhos - grande parte do modelo geral do esquema anterior, assim como muitos de 
seus elementos, foram transpostos para o novo esquema. Os sistemas de neurnios foram substitudos por sistemas ou instncias psquicos; uma "catexia" hipottica 
da energia psquica tomou o lugar da "quantidade" fsica; o princpio da inrcia tornou-se a base do princpio do prazer (ou, como Freud o denominou aqui, do princpio 
do desprazer). Alm disso, alguns dos relatos pormenorizados dos processos psquicos apresentados no Captulo VII muito devem a seus precursores fisiolgicos e podem 
ser compreendidos com mais facilidade mediante referncia a eles. Isso se aplica, por exemplo,  descrio do armazenamento dos traos de memria nos "sistemas mnmicos", 
ao exame da natureza dos desejos e das diferentes formas de satisfaz-los, e  nfase dada ao papel desempenhado pelos processos verbais de pensamento na adaptao 
s exigncias da realidade.
          Tudo isso  amplamente suficiente para justificar a assero de Freud que a A Interpretao dos Sonhos "estava concluda, em todos os seus aspectos essenciais, 
no comeo de 1896". No obstante, estamos agora em condies de acrescentar algumas ressalvas. Por exemplo, a existncia do complexo de dipo s foi estabelecida 
no vero e outono de 1897 (Cartas 64 a 71); e, embora isso no constitusse por si s uma contribuio direta  teoria dos sonhos, mesmo assim desempenhou um papel 
relevante ao ressaltar as razes infantis dos desejos inconscientes subjacentes aos sonhos. De importncia terica mais evidente foi a descoberta da onipresena, 
nos sonhos, do desejo de dormir. Isso s foi anunciado por Freud em 9 de junho de 1899 (Carta 108). Alm disso, a primeira insinuao do processo de "elaborao 
secundria" parece ter-se verificado numa carta de 7 de julho de 1897 (Carta 66). A semelhana de estrutura entre os sonhos e os sintomas neurticos j fora assinalada, 
como vimos, no "Projeto" de 1895, e houve aluses peridicas a ela at o outono de 1897. Curiosamente, contudo, da por diante parece ter cado no esquecimento, 
pois  anunciada em 3 de janeiro de 1899 (Carta 101) como uma nova descoberta e como uma explicao da razo por que o livro permanecera inacabado por tanto tempo.
          A correspondncia com Fliess permite-nos acompanhar com alguns detalhes o processo efetivo de composio. A idia de escrever o livro  mencionada por 
Freud pela primeira vez em maio de 1897, mas  rapidamente posta de lado, provavelmente porque seu interesse comeara a centralizar-se, naquela poca, em sua auto-anlise, 
que iria conduzi-lo, durante o vero,  descoberta do complexo de dipo. No fim do ano, o livro foi retomado e, nos primeiros meses de 1898, um primeiro esboo de 
toda a obra parece ter sido concludo, com exceo do primeiro captulo. O trabalho no livro foi paralisado em junho daquele ano e s foi reiniciado aps as frias 
de vero. Em 23 de outubro de 1898 (Carta 99), Freud escreve que o livro "permanece estacionrio, inalterado; no tenho nenhum motivo para prepar-lo para publicao, 
e a lacuna na psicologia |isto , o Captulo VII|, bem como a lacuna deixada pela eliminao do sonho modelar completamente analisado |cf. parg. seguinte|, so 
entraves a sua concluso que ainda no superei". Verificou-se uma pausa de longos meses, at que de repente, e como escreve o prprio Freud, "sem nenhum motivo particular", 
o livro comeou a se movimentar de novo em fins de maio de 1899. Da por diante, continuou com rapidez. O primeiro captulo, versando sobre a literatura, que sempre 
fora um bicho-papo para Freud, foi concludo em junho, sendo as primeiras pginas enviadas ao tipgrafo. A reviso dos captulos intermedirios foi completada em 
fins de agosto, e o ltimo captulo, sobre psicologia, foi inteiramente reescrito, sendo as pginas finais despachadas no incio de setembro.
          Tanto o manuscrito como as provas eram regularmente submetidos por Freud a Fliess para receberem sua apreciao crtica. Fliess parece ter exercido considervel 
influncia sobre a forma final do livro e ter sido responsvel pela omisso (evidentemente, por motivo de discrio) da anlise de um importante sonho do prprio 
Freud (cf. pargr. ant.). Mas as crticas mais severas provieram do prprio autor e foram dirigidas principalmente contra o estilo e a forma literria. "Creio", 
escreveu ele em 21 de setembro de 1899 (Carta 119), depois de terminado o livro, "que minha autocrtica no era de todo injustificada. Oculto em alguma parte de 
mim, tambm eu tenho senso fragmentrio da forma, uma apreciao da beleza como uma espcie de perfeio; e as frases complicadas de meu livro sobre os sonhos, apoiadas 
em expresses indiretas e com vises oblquas de seu contedo, ofenderam gravemente algum ideal dentro de mim. E  difcil que eu esteja errado em considerar essa 
falta de forma como sinal de um domnio incompleto do material".
          Mas, apesar dessas autocrticas, e a despeito da depresso que se seguiu ao desprezo quase total do livro pelo mundo exterior - apenas 351 exemplares foram 
vendidos nos seis primeiros anos aps a publicao - A Interpretao dos Sonhos sempre foi considerada por Freud como sua obra mais importante: "Um discernimento 
claro como esse", como escreveu em seu prefcio  terceira edio inglesa, "s acontece uma vez na vida."
          
          (3) A ATUAL EDIO INGLESA
          Esta traduo se baseia na oitava edio alem (1930), a ltima a ser publicada durante a vida do autor. Ao mesmo tempo, difere de todas as edies anteriores 
(tanto alems como inglesas) num aspecto importante, pois tem a natureza de uma edio "Variorum". Envidaram-se esforos para indicar, com datas, todas as alteraes 
substanciais introduzidas no livro, desde sua primeira edio. Sempre que se abandonou algum material ou que este foi muito modificado em edies posteriores, o 
trecho cancelado ou a verso mais antiga  apresentado numa nota de rodap. A nica exceo  que os dois apndices de Rank ao Captulo VI foram omitidos. A questo 
de sua incluso foi seriamente considerada, mas resolveu-se no faz-la. Os ensaios so inteiramente autnomos e no guardam nenhuma relao direta com o livro de 
Freud; teriam ocupado mais ou menos outras 50 pginas, e particularmente para os leitores de lngua inglesa, no esclareceriam nada, visto tratarem principalmente 
da literatura e mitologia germnicas.
          As bibliografias foram refundidas por completo. A primeira delas contm uma lista de todas as obras realmente citadas no texto ou nas notas de rodap. 
Essa bibliografia foi tambm disposta para servir de ndice de Autores. A segunda bibliografia encerra todas as obras da lista alem pr-1900 no efetivamente citadas 
por Freud. Pareceu que valia a pena imprimi-la, visto no ser acessvel com facilidade nenhuma outra bibliografia comparavelmente completa da literatura mais antiga 
sobre os sonhos. Os textos posteriores a 1900, salvo pelos realmente citados e, por conseguinte, includos na primeira bibliografia, no foram levados em considerao. 
Deve-se, contudo, fazer uma advertncia no tocante a ambas as minhas listas. Uma pesquisa demonstrou uma proporo muito elevada de erros nas bibliografias alems.
          Estes foram corrigidos sempre que possvel, mas um nmero considervel de verbetes revelou-se impossvel de localizar em Londres, e estes (que so distinguidos 
por um asterisco) devem ser considerados suspeitos.
          Os acrscimos feitos pelo editor vm entre colchetes. Muitos leitores, sem dvida, ficaro irritados com o nmero de referncias e outras notas explicativas. 
As referncias, contudo, dizem respeito essencialmente aos escritos do prprio Freud, encontrando-se um nmero muito reduzido em relao a outros autores (afora, 
naturalmente, as referncias feitas pelo prprio Freud). Seja como for, deve-se encarar o fato de que A Interpretao dos Sonhos constitui um dos grandes clssicos 
da literatura cientfica e de que o tempo veio consider-la como tal. O editor espera e acredita que as referncias, e mais particularmente as remisses a outras 
partes da prpria obra, possam realmente tornar mais fcil aos verdadeiros estudiosos acompanhar os pontos intrincados do material. Os leitores em busca de mero 
entretenimento - se  que existem - devem revestir-se da firme determinao de desprezar esses parnteses.
          Cabe acrescentar algumas palavras sobre a prpria traduo. Grande ateno teve que ser dispensada,  claro, aos pormenores da redao do texto dos sonhos. 
Nos casos em que a traduo inglesa se afigura inusitadamente rgida ao leitor, ele pode presumir que a rigidez foi imposta por alguma exigncia verbal determinada 
pela interpretao que vir a seguir. Quando h incoerncias entre diferentes verses do texto do mesmo sonho, ele pode presumir que h incoerncias paralelas no 
original. Essas dificuldades verbais culminam nos exemplos bastante freqentes em que uma interpretao depende inteiramente de um trocadilho. Existem trs mtodos 
de lidar com tais situaes. O tradutor pode omitir o sonho por completo, ou substitu-lo por outro sonho paralelo, quer derivado de sua prpria experincia, quer 
inventado ad hoc. Esses dois mtodos foram adotados em carter predominante nas primeiras tradues do livro. Mas h srias objees contra eles. Devemos lembrar, 
mais uma vez, que estamos lidando com um clssico cientfico. O que queremos conhecer so os exemplos escolhidos por Freud - e no outrem. Conseqentemente, esta 
traduo adotou a pedante e cansativa terceira alternativa de manter o trocadilho alemo original, explicando-o trabalhosamente entre colchetes ou numa nota de rodap. 
Qualquer graa que se pudesse extrair dele se evapora por completo nesse processo. Mas esse, infelizmente,  um sacrifcio que tem de ser feito. 
          Na cansativa tarefa de leitura das provas tipogrficas recebeu-se a ajuda generosa (entre outros) da Sra. R. S. Partridge e do Dr. C. F. Rycroft. A Sra.Partridge 
 tambm em grande parte responsvel pelo ndice alfabtico. A reviso das bibliografias esteve predominantemente a cargo do Sr. G. Talland.
          Finalmente, o editor deseja expressar seus agradecimentos ao Dr. Ernest Jones por sua constante orientao e estmulo. Poder-se- constatar que o primeiro 
volume de sua biografia de Freud lana inestimvel luz sobre os antecedentes desta obra como um todo, bem como sobre muitos de seus pormenores.
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
        Prefcio
          
          Tentei neste volume fornecer uma explicao da interpretao dos sonhos e, ao faz-lo, creio no ter ultrapassado a esfera de interesse abrangida pela 
neuropatologia. Pois a pesquisa psicolgica mostra que o sonho  o primeiro membro de uma classe de fenmenos psquicos anormais, da qual outros membros, como as 
fobias histricas, as obsesses e os delrios, esto fadados, por motivos prticos, a constituir um tema de interesse para os mdicos. Como se ver a seguir, os 
sonhos no podem fazer nenhuma reivindicao semelhante de importncia prtica, mas seu valor terico como paradigma,  por outro lado, proporcionalmente maior. 
Quem quer que tenha falhado em explicar a origem das imagens onricas dificilmente poder esperar compreender as fobias, obsesses ou delrios, ou fazer com que 
uma influncia teraputica se faa sentir sobre eles.
          Mas a mesma correlao que responde pela importncia do assunto deve tambm ser responsabilizada pelas deficincias desta obra. Os encadeamentos rompidos 
que com tanta freqncia interrompem minha apresentao nada mais so do que os numerosos pontos de contato entre o problema da formao dos sonhos e os problemas 
mais abrangentes da psicopatologia. Estes no podem ser tratados aqui, mas, se o tempo e as foras o permitirem e houver mais material  disposio, eles sero objeto 
de comunicaes posteriores.
          As dificuldades de apresentao foram aumentadas ainda mais pelas peculiaridades do material que tive de utilizar para ilustrar a interpretao de sonhos. 
Tornar-se- claro, no decorrer da prpria obra, o motivo por que nenhum dos sonhos j relatados na literatura do assunto ou coligidos de fontes desconhecidas poderia 
ter qualquer serventia para meus propsitos. Os nicos sonhos dentre os quais pude escolher foram os meus e os de meus pacientes em tratamento psicanaltico. Mas 
fui impedido de utilizar o segundo material pelo fato de que, nesse caso, os processos onricos estavam sujeitos a uma compilao indesejvel, em vista da presena 
adicional de caractersticas neurticas. Mas, se quisesse relatar meus prprios sonhos, a conseqncia inevitvel  que eu teria de revelar ao pblico maior nmero 
de aspectos ntimos de minha vida mental do que gostaria, ou do que  normalmente necessrio para qualquer escritor que seja um homem de cincia e no um poeta. 
Tal foi a penosa mas inevitvel exigncia, e me submeti a ela para no abandonar por completo a possibilidade de fornecer a comprovao de minhas descobertas psicolgicas. 
Naturalmente, contudo, no pude resistir  tentao de aparar as arestas de algumas de minhasindiscries por meio de omisses e substituies. Sempre que isso aconteceu, 
porm, o valor de meus exemplos se viu drasticamente reduzido. Posso apenas manifestar a esperana de que os leitores deste livro se coloquem em minha difcil posio 
e me tratem com indulgncia, e, alm disso, que qualquer um que encontre alguma espcie de referncia a si prprio em meus sonhos se disponha a conceder-me o direito 
 liberdade de pensamento - ao menos em minha vida onrica, se no em qualquer outra rea.
          
          
          
          
        Captulo I - A LITERATURA CIENTFICA QUE TRATA DOS PROBLEMAS DOS SONHOS
          
          Nas pginas que seguem, apresentarei provas de que existe uma tcnica psicolgica que torna possvel interpretar os sonhos, e que, quando esse procedimento 
 empregado, todo sonho se revela como uma estrutura psquica que tem um sentido e pode ser inserida num ponto designvel nas atividades mentais da vida de viglia. 
Esforar-me-ei ainda por elucidar os processos a que se devem a estranheza e a obscuridade dos sonhos e por deduzir desses processos a natureza das foras psquicas 
por cuja ao concomitante ou mutuamente oposta os sonhos so gerados. A essa altura, minha descrio se interromper, pois ter atingido um ponto em que o problema 
dos sonhos se funde com problemas mais abrangentes cuja soluo deve ser abordada com base num material de outra natureza.
          Apresentarei,  guisa de prefcio, uma reviso do trabalho empreendido por autores anteriores sobre o assunto, bem como a posio atual dos problemas dos 
sonhos no mundo da cincia, visto que, no curso de meu exame, no terei muitas ocasies de voltar a esses tpicos. Pois, apesar de muitos milhares de anos de esforo, 
a compreenso cientfica dos sonhos progrediu muito pouco - fato to genericamente aceito na literatura que parece desnecessrio citar exemplos para confirm-lo. 
Nesses escritos, dos quais consta uma relao ao final de minha obra, encontram-se muitas observaes estimulantes e uma boa quantidade de material interessante 
relacionado com nosso tema, porm pouco ou nada que aborde a natureza essencial dos sonhos ou oferea uma soluo final para qualquer de seus enigmas. E menos ainda, 
 claro, passou para o conhecimento dos leigos estudiosos.
          Talvez se possa indagar qual ter sido o ponto de vista adotado em relao aos sonhos pelas raas primitivas dos homens e que efeito os sonhos teriam exercido 
na formao de suas concepes do mundo e da alma; e esse  um assunto de to grande interesse que s com extrema relutncia meabstenho de abord-lo nesse sentido. 
Devo encaminhar meus leitores s obras-padro de Sir John Lubbock, Herbert Spencer, E. B. Tylor e outros, e acrescentarei apenas que s poderemos apreciar a ampla 
gama desses problemas e especulaes quando tivermos tratado da tarefa que aqui se coloca diante de ns - a interpretao dos sonhos.
          A viso pr-histrica dos sonhos sem dvida ecoou na atitude adotada para com os sonhos pelos povos da Antiguidade clssica. Eles aceitavam como axiomtico 
que os sonhos estavam relacionados com o mundo dos seres sobre-humanos nos quais acreditavam, e que constituam revelaes de deuses e demnios. No havia dvida, 
alm disso, de que, para aquele que sonhava, os sonhos tinham uma finalidade importante, que era, via de regra, predizer o futuro. A extraordinria variedade no 
contedo dos sonhos e na impresso que produziam dificultava, todavia, ter deles qualquer viso uniforme, e tornava necessrio classific-los em numerosos grupos 
e subdivises conforme sua importncia e fidedignidade. A posio adotada perante os sonhos por filsofos isolados na Antiguidade dependia, naturalmente, at certo 
ponto, da atitude destes em relao  adivinhao em geral.
          Nas duas obras de Aristteles que versam sobre os sonhos, ele j se tornaram objeto de estudo psicolgico. Informam-nos as referidas obras que os sonhos 
no so enviados pelos deuses e no so de natureza divina, mas que so "demonacos", visto que a natureza  "demonaca", e no divina. Os sonhos, em outras palavras, 
no decorrem de manifestaes sobrenaturais, mas seguem as leis do esprito humano, embora este,  verdade, seja afim do divino. Definem-se os sonhos como a atividade 
mental de quem dorme, na medida em que esteja adormecido. 
          Aristteles estava ciente de algumas caractersticas da vida onrica. Sabia, por exemplo, que os sonhos do uma construo ampliada aos pequenos estmulos 
que surgem durante o sono. "Os homens pensam estar caminhando no meio do fogo e sentem um calor enorme, quando h apenas um pequeno aquecimento em certas partes." 
E dessa circunstncia infere ele a concluso de que os sonhos podem muito bem revelar a um mdico os primeiros sinais de alguma alterao corporal que no tenha 
sido observada na viglia.
          Antes da poca de Aristteles, como sabemos, os antigos consideravam os sonho no como um produto da mente que sonhava, mas como algo introduzido por uma 
instncia divina; e, j ento, as duas correntes antagnicas que iremos encontrar influenciando as opinies sobre a vida onrica em todos os perodos da histria 
se faziam sentir. Traou-se a distino entre os sonhos verdadeiros e vlidos, enviados ao indivduo adormecido para adverti-lo ou predizer-lhe o futuro, e os sonhos 
vos, falazes e destitudos de valor, cuja finalidade era desorient-lo ou destru-lo.
          Gruppe (1906, 2, 390) cita uma classificao dos sonhos, de Macrobius e Artemidorus [de Daldil (ver em [1])], seguindo essa orientao "Os sonhos eram 
divididos em duas classes. Supunha-se que uma classe fosse influenciada pelo presente ou pelo passado, mas sem nenhum significado futuro. Abrangia o enunia ou insomnia, 
que reproduzia diretamente uma certa representao ou o seu oposto - por exemplo, de fome ou sua saciao -, e o jantsmata, que emprestava uma extenso fantstica 
 representao - por exemplo, o pesadelo ou ephialtes. A outra classe, ao contrrio, supostamente determinava o futuro. Abrangia (1) profecias diretas recebidas 
num sonho (o crhmatismV ou oraculum), (2) previses de algum evento futuro (o rama ou visio), e (3) sonhos simblicos, que precisavam de interpretao (o neiroV 
ou somnium). Essa teoria persistiu durante muitos sculos."
          Essa variao no valor que se deveria atribuir aos sonhos estava intimamente relacionada com o problema de "interpret-los". Em geral, esperavam-se importantes 
conseqncias dos sonhos. Mas nem todos eles eram imediatamente compreensveis, e era impossvel dizer se um sonho inteligvel em particular no estaria fazendo 
alguma comunicao importante. Isso proporcionou o incentivo para que se elaborasse um mtodo mediante o qual o contedo ininteligvel de um sonho pudesse ser substitudo 
por outrocompreensvel e significativo. Nos ltimos anos da Antiguidade, Artemidorus de Daldis foi considerado a maior autoridade na interpretao dos sonhos, e 
a sobrevivncia de sua obra exaustiva [Oneirocritica] deve compensar-nos pela perda dos outros escritos sobre o mesmo assunto.
          A viso pr-cientfica dos sonhos adotada pelos povos da Antigidade estava, por certo, em completa harmonia com sua viso do universo em geral, que os 
levou a projetar no mundo exterior, como se fossem realidades, coisas que de fato s gozavam de realidade dentro de suas prprias mentes. Alm disso, seu ponto de 
vista sobre os sonhos levava em conta a principal impresso produzida na mente desperta, pela manh, pelo que resta de um sonho na memria: uma impresso de algo 
estranho, advindo de outro mundo e contrastando com os demais contedos da mente. A propsito, seria um erro supor que a teoria da origem sobrenatural dos sonhos 
est desprovida de defensores em nossos prprios dias. Podemos deixar de lado os escritores carolas e msticos, que de fato esto perfeitamente justificados em permanecerem 
ocupados com o que restou do outrora amplo domnio do sobrenatural enquanto esse campo no  conquistado pela explicao cientfica. Mas, alm deles, depara-se com 
homens de viso esclarecida, sem quaisquer idias extravagantes, que procuram apoiar sua f religiosa na existncia e na atividade de foras espirituais sobre-humanas 
precisamente pela natureza inexplicvel dos fenmenos dos sonhos. (Cf. Haffner, 1887.) A alta estima em que  tida a vida onrica por algumas escolas de filosofia 
(pelos seguidores de Schelling, por exemplo)  nitidamente um eco da natureza divina dos sonhos que era incontestada na Antiguidade. Tampouco chegaram ao fim os 
debates acerca do carter premonitrio dos sonhos e de seu poder de predizer o futuro, pois as tentativas de dar uma explicao psicolgica tm sidoinsuficientes 
para cobrir o material coletado, por mais decididamente que as simpatias dos que so dotados de esprito cientfico se inclinem contra a aceitao de tais crenas.
           difcil escrever uma histria do estudo cientfico dos problemas dos sonhos porque, por mais valioso que tenha sido esse estudo em alguns pontos, no 
se pode traar nenhuma linha de progresso em qualquer direo especfica. No se lanou nenhum fundamento de descobertas seguras no qual um pesquisador posterior 
pudesse edificar algo; ao contrrio, cada novo autor examina os mesmos problemas de novo e recomea, por assim dizer, do incio. Se eu tentasse relacionar em ordem 
cronolgica aqueles que tm escrito sobre o assunto e apresentasse um sumrio de seus pontos de vista sobre os problemas dos sonhos, teria de abandonar qualquer 
esperana de apresentar um quadro geral abrangente do atual estado dos conhecimentos sobre o assunto. Optei, portanto, por estruturar meu relato de acordo com tpicos, 
e no com autores, e  medida que for levantando cada problema relacionado com o sonho, apresentarei qualquer material que a literatura contenha para sua soluo.
          Visto, contudo, ter-me sido impossvel englobar toda a literatura sobre o tema, amplamente dispersa como  e invadindo muitos outros campos, sou compelido 
a pedir a meus leitores que se dem por satisfeitos desde que nenhum fato fundamental ou ponto de vista importante seja deixado de lado em minha descrio.
          At pouco tempo atrs, a maioria dos autores que escreviam sobre o assunto sentia-se obrigada a tratar o sono e os sonhos como um tpico nico, e em geral 
abordava, alm disso, condies anlogas fronteirias  patologia e estados semelhantes aos sonhos, como as alucinaes, vises etc. As ltimas obras, pelo contrrio, 
mostram preferncia por um tema restrito e tomam por objeto, talvez, alguma questo isolada no campo da vida onrica. Agradar-me-ia ver nessa mudana de atitude 
a expresso de uma convico de que, nessas questes obscuras, s ser possvel chegar a explicaes e resultados sobre os quais haja acordo mediante uma srie de 
investigaes pormenorizadas. Uma pesquisa detalhada desse tipo, predominantemente psicolgica por natureza,  tudo o que tenho a oferecer nestas pginas. Tive poucas 
oportunidades de lidar com o problema do sono, posto que esse  essencialmente um problema da fisiologia, muito embora uma das caractersticas do estado de sono 
deva ser a de promover modificaes nas condies de funcionamento do aparelho mental. A literatura sobre o tema do sono, conseqentemente, no  considerada adiante.
          As questes levantadas por uma indagao cientfica sobre os fenmenos dos sonhos como tais podem ser agrupadas sob as epgrafes que se seguem, embora 
no se possa evitar certa dose de superposio.
           (A) A RELAO DOS SONHOS COM A VIDA DE VIGLIA
          
          
          O julgamento simplista de viglia feito por algum que tenha acabado de acordar presume que seus sonhos, mesmo que no tenham eles prprios vindo de outro 
mundo, ao menos o haviam transportado para outro mundo. O velho fisilogo Burdach (1838, 499), a quem devemos um relato cuidadoso e sagaz dos fenmenos dos sonhos, 
expressou essa convico num trecho muito citado: "Nos sonhos, a vida cotidiana, com suas dores e seus prazeres, suas alegrias e mgoas, jamais se repete. Pelo contrrio, 
os sonhos tm como objetivo verdadeiro libertar-nos dela. Mesmo quando toda a nossa mente est repleta de algo, quando estamos dilacerados por alguma tristeza profunda, 
ou quando todo o nosso poder intelectual se acha absorvido por algum problema, o sonho nada mais faz do que entrar em sintonia com nosso estado de esprito e representar 
a realidade em smbolos." I. H. Fichte (1864, 1, 541), no mesmo sentido, fala efetivamente em "sonhos complementares" e os descreve como um dos benefcios secretos 
da natureza autocurativa do esprito. Strmpell (1877, 16) escreve um sentido semelhante em seu estudo sobre a natureza e origem dos sonhos - uma obra ampla e merecidamente 
tida em alta estima: "O homem que sonha fica afastado do mundo da conscincia de viglia." E tambm (ibid., 17): "Nos sonhos, nossa recordao do contedo ordenado 
da conscincia de viglia e de seu comportamento normal vale tanto como se estivesse inteiramente perdido." E de novo (ibid., 19) escreve que "a mente  isolada, 
nos sonhos, quase sem memria, do contedo e assuntos comuns da vida de viglia".
          A grande maioria dos autores, contudo, assume um ponto de vista contrrio quanto  relao entre os sonhos e a vida de viglia. Assim, diz Haffner (1887, 
245): "Em primeiro lugar, os sonhos do prosseguimento  vida de viglia. Nossos sonhos se associam regularmente s representaes que estiveram em nossa conscincia 
pouco antes. A observao acurada quase sempre encontra um fio que liga o sonho s experincias da vspera." Weygandt (1893, 6) contradiz especificamente o enunciado 
de Burdach que acabo de citar: "Pois muitas vezes, e aparentemente na maioria dos sonhos, pode-se observar que eles de fato nos levam de volta  vida comum, em vez 
de libertar-nos dela." Maury (1878, 51) apresenta uma frmula concisa:"Nous rvons de ce que nous avons vu, dit, dsir ou fait"; enquanto Jessen, em seu livro sobre 
psicologia (1855, 530), observa mais extensamente: "O contedo de um sonho , invariavelmente, mais ou menos determinado pela personalidade individual daquele que 
sonha, por sua idade, sexo, classe, padro de educao e estilo de vida habitual, e pelos fatos e experincias de toda a sua vida pregressa."
          A atitude menos comprometedora sobre esta questo  adotada por J. G. E. Maass, o filsofo (1805, [1, 168 e 173]), citado por Winterstein (1912): "A experincia 
confirma nossa viso de que sonhamos com maior freqncia com as coisas em que se centralizam nossas mais vivas paixes. E isso mostra que nossas paixes devem ter 
influncia na formao de nossos sonhos. O homem ambicioso sonha com os lauris que conquistou (ou imagina ter conquistado) ou com aqueles que ainda tem de conquistar: 
j o apaixonado se ocupa, em seus sonhos, com o objeto de suas doces esperanas... Todos os desejos e averses sensuais adormecidos no corao podem, se algo os 
puser em movimento, fazer com que o sonho brote das representaes que esto associadas com eles, ou fazer com que essas representaes intervenham num sonho j 
presente."
          A mesma concepo foi adotada na Antigidade quanto  dependncia do contedo dos sonhos em relao  vida de viglia. Radestock (1879, 134) relata-nos 
como, antes de iniciar sua expedio contra a Grcia, Xerxes recebeu judiciosos conselhos de natureza desencorajadora, mas foi sempre impelido por seus sonhos a 
prosseguir, ao que Artabanus, o velho e sensato intrprete persa dos sonhos, observou-lhe pertinentemente que, via de regra, os quadros onricos contm aquilo que 
o homem em estado de viglia j pensa.
          O poema didtico de Lucrcio, De rerum natura, encerra o seguinte trecho (IV, 962):
          Et quo quisque fere studio devinctus adhaeretaut quibus in rebus multum sumus ante moratiatque in ea ratione fuit contenta magis mens,in somnis eadem plerumque 
videmur obire;causidici causas agere et componere leges,induperatores pugnare ac proelia obire...
          
          Ccero (De divinatione, II, lxvii, 140) escreve exatamente no mesmo sentido que Maury tantos anos depois: "Maximeque reliquiae rerum earum moventur in 
animis et agitantur de quibus vigilantes aut cogitavimus aut egimus."
          A contradio entre esses dois pontos de vista sobre a relao entre vida onrica e vida de viglia parece de fato insolvel.  portanto relevante, nesta 
altura, relembrar o exame do assunto por Hildebrandt (1875, 8 e segs.), que acredita ser completamente impossvel descrever as caractersticas dos sonhos, salvo 
por meio de "uma srie de [trs] contrastes que parecem acentuar-se em contradies". "O primeiro desses contrastes", escreve ele, " proporcionado, por um lado, 
pela completude com que os sonhos so isolados e separados da vida real e atual, e, por outro, por sua constante interpretao e por sua constante dependncia mtua. 
O sonho  algo completamente isolado da realidade experimentada na vida de viglia, algo, como se poderia dizer, como uma existncia hermeticamente fechada e toda 
prpria, e separada da vida real por um abismo intransponvel. Ele nos liberta da realidade, extingue nossa lembrana normal dela, e nos situa em outro mundo e numa 
histria de vida inteiramente diversa, que, em essncia, nada tem a ver com a nossa histria real..." Hildebrandt prossegue demonstrando como, ao adormecermos, todo 
o nosso ser, com todas as suas formas de existncia, "desaparece, por assim dizer, por um alapo invisvel". Ento, talvez o sonhador empreenda uma viagem martima 
at Santa Helena para oferecer a Napoleo, que ali se encontra prisioneiro, uma barganha primorosa em vinhos da Mosela.  recebido com extrema afabilidade pelo ex-imperador 
e chega quase a lamentar-se quando acorda e sua curiosa iluso  destruda. Mas, comparemos a situao do sonho, prossegue Hildebrandt, com a realidade. O sonhador 
nunca foi negociante de vinhos, nem jamais desejou s-lo. Nunca fez uma viagem martima e, se o fizesse, Santa Helena seria o ltimo lugar do mundo que escolheria 
para visitar. No nutre quaisquer sentimentos de simpatia para com Napoleo, mas, ao contrrio, um violento dio patritico. E, alm disso tudo, nem sequer era nascido 
quando Napoleo morreuna ilha, de modo que ter quaisquer relaes pessoais com ele estaria alm dos limites da possibilidade. Assim, a experincia onrica parece 
algo estranho, inserido entre duas partes da vida perfeitamente contnuas e compatveis entre si.
          "E contudo", continua Hildebrandt [ibid., 10], "o que parece ser o contrrio disso  igualmente verdadeiro e correto. Apesar de tudo, o mais ntimo dos 
relacionamentos caminha de mos dadas, creio eu, com o isolamento e a separao. Podemos mesmo chegar a dizer que o que quer que os sonhos ofeream, seu material 
 retirado da realidade e da vida intelectual que gira em torno dessa realidade... Quaisquer que sejam os estranhos resultados que atinjam, eles nunca podem de fato 
libertar-se do mundo real; e tanto suas estruturas mais sublimes como tambm as mais ridculas devem sempre tomar de emprstimo seu material bsico, seja do que 
ocorreu perante nossos olhos no mundo dos sentidos, seja do que j encontrou lugar em algum ponto do curso de nossos pensamentos de viglia - em outras palavras, 
do que j experimentamos, externa ou internamente.
          
          
           (B) O MATERIAL DOS SONHOS - A MEMRIA NOS SONHOS
          
          Todo o material que compe o contedo de um sonho  derivado, de algum modo, da experincia, ou seja, foi reproduzido ou lembrado no sonho - ao menos isso 
podemos considerar como fato indiscutvel. Mas seria um erro supor que uma ligao dessa natureza entre o contedo de um sonho e a realidade esteja destinada a vir 
 luz facilmente, como resultado imediato da comparao entre ambos. A ligao exige, pelo contrrio, ser diligentemente procurada, e em inmeros casos pode permanecer 
oculta por muito tempo. A razo disso est em diversas peculiaridades exibidas pela faculdade da memria nos sonhos, e que, embora geralmente observadas, at hoje 
tm resistido  explicao. Vale a pena examinar essas caractersticas mais de perto.
           possvel que surja, no contedo de um sonho, um material que, no estado de viglia, no reconheamos como parte de nosso conhecimento ou nossa experincia. 
Lembramo-nos, naturalmente, de ter sonhado com a coisa em questo, mas no conseguimos lembrar se ou quando a experimentamos na vida real. Ficamos assim em dvida 
quanto  fonte a que recorreu o sonho e sentimo-nos tentados a crer que os sonhos possuem uma capacidade de produo independente. Ento, finalmente, muitas vezes 
aps um longo intervalo, alguma nova experincia relembra a recordao perdida do outro acontecimento e, ao mesmo tempo, revela a fonte de sonho. Somos assim levados 
a admitir que, no sonho, sabamos e nos recordvamos de algo que estava alm do alcance de nossa memria de viglia.
          Um exemplo particularmente impressionante disso  fornecido por Delboeuf [1885, [1]], extrado de sua prpria experincia. Viu ele num sonho o quintal 
de sua casa, coberto de neve, e sob ela encontrou dois pequenos lagartos semicongelados e enterrados. Sendo muito afeioado aos animais, apanhou-os, aqueceu-os e 
os levou de volta para o pequeno buraco que ocupavam na alvenaria. Deu-lhes ainda algumas folhas de uma pequena samambaia que crescia no muro, as quais, como sabia, 
eles muito apreciavam.No sonho, ele conhecia o nome da planta: Asplenium ruta muralis. O sonho prosseguiu e, aps uma digresso, voltou aos lagartos. Deboeuf viu 
ento, para sua surpresa, dois outros lagartos que se ocupavam dos restos da samambaia. Depois, olhou ao redor e viu um quinto e a seguir um sexto lagarto, que se 
dirijam para o buraco no muro, at que toda a estrada fervilhava com uma procisso de lagartos, todos se movimentando na mesma direo... e assim por diante.
          Quando desperto, Delboeuf sabia os nomes em latim de pouqussimas plantas, e Asplenium no estava entre eles. Para sua grande surpresa, pde confirmar 
o fato de que realmente existe uma samambaia com esse nome. Sua denominao correta  Asplenium ruta muraria, que fora ligeiramente deturpada no sonho. Isso dificilmente 
poderia ser uma coincidncia; e, para Delboeuf, continuou a ser um mistrio o modo como viera a conhecer o nome "Asplenium" no sonho.
          O sonho ocorreu em 1862. Dezesseis anos depois, quando o filsofo visitava um de seus amigos, viu um pequeno lbum de flores prensadas, do tipo dos que 
so vendidos aos estrangeiros como lembrana em algumas partes da Sua. Comeou ento a recordar-se de algo - abriu o herbrio, encontrou a Asplenium de seu sonho 
e viu o nome em latim, escrito por seu prprio punho, abaixo da flor. Os fatos podiam agora ser verificados. Em 1860 (dois anos antes do sonhos com os lagartos), 
uma irm desse mesmo amigo, em viagem de lua-de-mel, fizera uma visita a Delboeuf. Trazia consigo o lbum, que seria um presente dela ao irmo, e Delboeuf deu-se 
ao trabalho de escrever sob cada planta seca o nome em latim, ditado por um botnico.
          Um feliz acaso, que tornou esse exemplo to digno de ser recordado, permitiu a Delboeuf reconstruir mais uma parte do contedo do sonho at sua fonte esquecida. 
Um belo dia, em 1877, aconteceu-lhe pegar um velho volume de um peridico ilustrado, e nele encontrar uma fotografia de toda a procisso de lagartos com que sonhara 
em 1862. O volume trazia a data de 1861, e Delboeuf se lembrava de ter sido assinante da publicao desde seu primeiro nmero.
          O fato de os sonhos terem sob seu comando lembranas que so inacessveis na vida de viglia  to notvel, e de tal importncia terica, que eu gostaria 
de chamar ainda mais ateno para ele, relatando mais alguns sonhos "hipermnsicos". Maury [1878, 142] conta-nos como, por algum tempo, a palavra "Mussidan" surgia 
e ressurgia em sua mente durante o dia. Nada sabia a respeito dela, a no ser que era o nome de uma pequena cidade da Frana. Certa noite, sonhou que conversava 
com algum que lhe dizia tervindo de Mussidan, e que, ao lhe perguntarem onde ficava isso, respondia ser uma pequena cidade do Departamento de Dordogne. Ao acordar, 
Maury no nutria nenhuma crena na informao que lhe fora transmitida no sonho; soube por um jornaleiro, contudo, que era perfeitamente correta. Nesse caso, a realidade 
do conhecimento superior do sonho foi confirmada, mas no se descobriu a fonte esquecida desse conhecimento.
          Jessen (1855, 551) relata um fato muito semelhante num sonho datado de poca mais remota: "A essa classe pertence, entre outros, um sonho do velho Scaliger 
(citado por Hennings, 1874, 300), que escreveu um poema em louvor dos famosos homens de Verona. Um homem chamado Brugnolus apareceu-lhe num sonho e se queixou de 
ter sido desprezado. Embora Scaliger no conseguisse lembrar-se de jamais ter ouvido falar dele, escreveu alguns versos a seu respeito. Seu filho soube posteriormente, 
em Verona, que algum chamado Brugnolus de fato fora ali famoso como crtico."
          O Marqus d'Hervey de St. Denys [1867, 305], citado por Vaschide (1911, 23 e seg.), descreve um sonho hipermnsico que possui uma peculiaridade especial, 
pois foi seguido de outro que completou o reconhecimento do que, a princpio, foi lembrana no identificada: "Certa feita, sonhei com uma jovem de cabelos dourados, 
a quem vi conversando com minha irm enquanto lhe mostrava um bordado. Ela me pareceu muito familiar no sonho e pensei j t-la visto muitas vezes. Depois que acordei, 
ainda tinha seu rosto muito nitidamente diante de mim, mas era totalmente incapaz de reconhec-lo. Voltei a dormir e o quadro onrico se repetiu... Mas, nesse segundo 
sonho, falei com a dama de cabelos louros e perguntei-lhe se j no tivera o prazer de conhec-la antes, em algum lugar. 'Naturalmente', respondeu ela, 'no se lembra 
da plage em Pornic?' Despertei imediatamente e pude ento recordar-me com clareza de todos os pormenores associados com a atraente viso do sonho."
          O mesmo autor [ibid., 306] (tambm citado por Vaschide, ibid., 233-4) conta como o msico seu conhecido ouviu num sonho, certa vez, uma melodia que lhe 
pareceu inteiramente nova. S muitos anos depois foi que ele encontrou a mesma melodia numa velha coleo de peas musicais, embora ainda assim no pudesse recordar-se 
de t-la examinado algum dia.
          Sei que Myers [1892] publicou toda uma coletnea de sonhos hipermnsicos dessa natureza nas Atas da Sociedade de Pesquisas Psquicas, mas, infelizmente, 
no tenho acesso a elas.Ningum que se ocupe de sonhos pode, creio eu, deixar de descobrir que  fato muito comum um sonho dar mostras de conhecimentos e lembranas 
que o sujeito, em estado de viglia, no est ciente de possuir. Em meu trabalho psicanaltico com pacientes nervosos, do qual falarei mais adiante, tenho condies, 
vrias vezes por semana, de provar aos pacientes, com base em seus sonhos, que eles de fato esto bem familiarizados com citaes, palavras obscenas etc., e que 
as utilizam em seus sonhos, embora tenham-nas esquecido em sua vida de viglia. Acrescentei mais um caso inocente de hipermnsia num sonho, em vista de grande facilidade 
com que foi possvel descobrir a fonte do conhecimento acessvel apenas no sonho.
          Um de meus pacientes, no decurso de um sonho bastante prolongado, sonhou que pedira um "Kontuszwka" quando se encontrava num caf. Depois de me dizer 
isso, perguntou-me o que era um "Kontuszwka", pois nunca ouvira esse nome. Pude responder-lhe que se tratava de um licor polons e que ele no poderia ter inventado 
esse nome, que h muito me era familiar pelos anncios afixados nos tapumes. De incio, ele no me quis dar crdito, mas, alguns dias depois, aps concretizar seu 
sonho num caf, notou o nome num tapume na esquina de uma rua pela qual devia ter passado pelo menos duas vezes ao dia durante vrios meses.
          Eu mesmo tenho observado, em relao a meu prprio sonho, o quanto  uma questo de acaso descobrir-se ou no a fonte dos elementos especficos de um sonho. 
Assim  que, durante anos, antes de concluir este livro, fui perseguido pela imagem de uma torre de igreja de desenho muito simples, que eu no lembrava ter visto 
jamais. E ento, de sbito, reconheci-a com absoluta certeza numa pequena estao da linha frrea entre Salzburgo e Reichenhall. Isso ocorreu na segunda metade da 
dcada de 1890, e eu viajara naquela linha pela primeira vez em 1896. Em anos a freqente repetio, em meus sonhos, da imagem de determinado lugar de aparncia 
inusitada tornou-se para mim um verdadeiro incmodo. Numa relao especial especfica comigo,  minha esquerda, eu via um espao escuro onde reluziam diversas figuras 
grotescas de arenito. Uma vaga lembrana  qual eu no queria dar crdito dizia-me tratar-se da entrada de uma cervejaria. Mas no consegui descobrir nem o significado 
do quadro onrico nem sua origem. Em 1907, ocorreu-me estar em Pdua, que, lamentavelmente, eu no pudera visitar desde 1895. Minha primeira visita quela encantadora 
cidade universitria fora uma decepo, pois euno pudera ver os afrescos de Giotto na Madonna dell'Arena. Voltara a meio caminho da rua que leva at l ao ser informado 
de que a capela estava fechada naquele dia. Em minha segunda visita, doze anos depois, resolvi compensar isso, e a primeira coisa que fiz foi encaminhar-me para 
a capela da Arena. Na rua que conduz a ela,  minha esquerda e, com toda probabilidade, no ponto do qual retornara em 1895, deparei com o lugar que tantas vezes 
vira em meus sonhos, com as figuras de arenito que faziam parte dele. Era, de fato, o acesso ao jardim de um restaurante.
          Uma das fontes de onde os sonhos retiram material para reproduo - material que, em parte, no  nem recordado nem utilizado nas atividades do pensamento 
de viglia -  a experincia da infncia. Citarei apenas alguns dos autores que observaram e ressaltaram esse fato.
          Hildebrandt (1875, 23): "J admiti expressamente que os sonhos s vezes trazem de volta a nossas mentes, com um maravilhoso poder de reproduo, fatos 
muito remotos e at mesmo esquecidos de nosso primeiros anos de vida."
          Strmpell (1877, 40): "A posio  ainda mais notvel quando observamos como os sonhos por vezes trazem  luz, por assim dizer, das mais profundas pilhas 
de destroos sob as quais as primeiras experincias da meninice so soterradas em pocas posteriores, imagens de localidades, coisas ou pessoas especficas, inteiramente 
intactas e com todo o seu vio original. Isso no se limita s experincias que criaram uma viva impresso quando ocorreram, ou que desfrutam de alto grau de importncia 
psquica e retornaram depois, num sonho, como autnticas lembranas com as quais a conscincia de viglia se regozija. Ao contrrio, as profundezas da memria, nos 
sonhos, tambm incluem imagens de pessoas, coisas, localidades e fatos que datam dos mais remotos tempos, que nunca tiveram nenhuma importncia psquica ou mais 
que um plido grau de nitidez ou que h muito perderam o que teriam possudo de uma coisa ou de outra, e que, por conseguinte, parecem inteiramente estranhos e desconhecidos 
tanto para a mente que sonha quanto para a mente em estado de viglia, at que sua origem mais remota tenha sido descoberta."
          Volkelt (1875, 119): " especialmente notvel a facilidade com que as recordaes da infncia e da juventude ganham acesso aos sonhos. Os sonhos continuamente 
nos relembram coisas em que deixamos de pensar e que h muito deixaram de ser importantes para ns."
          Como os sonhos tm a seu dispor material oriundo da infncia, e dado que, como todos sabemos, esse material se acha obliterado, em sua maiorparte, por 
lacunas em nossa faculdade consciente da memria, essas circunstncias do margem a curiosos sonhos hipermnsicos, dos quais, mais uma vez, darei alguns exemplos.
          Maury (1878, 92) relata como, quando criana, costumava ir freqentemente de Meaux, que era seu torro natal,  aldeia vizinha de Trilport, onde o pai 
supervisionava a construo de uma ponte. Certa noite, num sonho, ele se viu em Trilport e, mais uma vez, brincava na rua da aldeia. Um homem, envergando uma espcie 
de uniforme, dirigiu-se a ele. Maury perguntou-lhe como se chamava e ele respondeu que seu nome era C., e que era vigia da ponte. Maury despertou com um sentimento 
de ceticismo quanto  exatido da lembrana, e perguntou a uma velha empregada, que estivera com ele desde sua infncia, se ela conseguia recordar-se de um homem 
com aquele nome. Mas  claro", foi a resposta, "ele era o vigia da ponte quando seu pai a estava construindo."
          Maury (ibid., 143-4) fornece outro exemplo igualmente bem corroborado da exatido de uma lembrana da infncia, surgida num sonho. O sonho ocorreu a um 
certo Monsieur F., que, quando criana, vivera em Montbrison. Vinte e cinco anos depois de partir dali, resolveu rever a cidade natal e alguns amigos da famlia 
que no encontrara desde ento. Na noite que precedeu sua partida, sonhou que j estava em Montbrison e que, perto da cidade, encontrava um cavalheiro a quem no 
conhecia de vista, mas que lhe dizia ser Monsieur T., um amigo de seu pai. No sonho, Monsieur F. estava ciente de que, quando criana, conhecera algum com aquele 
nome, mas, em seu estado de viglia, no se lembrava mais da aparncia dele. Passados alguns dias, chegou realmente a Montbrison, achou o local que no sonho lhe 
parecera desconhecido, e ali encontrou um cavalheiro que reconheceu imediatamente como o Monsieur T. do sonho. A pessoa real, contudo, aparentava ser muito mais 
velha do que parecera no sonho.
          Nesse ponto, posso mencionar um sonho que eu mesmo tive, no qual o que tinha de ser reconstrudo no era uma impresso, mas uma ligao. Sonhei com algum 
que, no sonho, eu sabia ser o mdico de minha cidade natal. Seu rosto era indistinto, mas se confundia com a imagem de um dos professores da minha escola secundria, 
com quem ainda me encontro ocasionalmente. Quando acordei, no conseguia descobrir que ligao haveria entre esses dois homens. Entretanto, fiz a minha me algumas 
perguntas sobre esse mdico que remontava aos primeiros anos de minha infncia, e soube que ele tinha apenas um olho. O professor cuja fisionomia se sobrepusera 
 do mdico no sonho tambm s tinha uma vista. Fazia trinta e oito anos que eu vira o mdico pela ltima vez e, ao que eu sabia, nunca pensara nele em minha vida 
de viglia, embora uma cicatriz em meu queixo pudesse ter-me feito recordar suas atenes para comigo.
          Diversos autores, por outro lado, asseveram que na maioria dos sonhos se encontram elementos derivados dos ltimos dias antes de sua ocorrncia; e isso 
parece ser uma tentativa de contrabalanar a excessiva nfase dada ao papel desempenhado na vida onrica pelas experincias da infncia. Assim, Robert (1886, 46) 
realmente declara que os sonhos normais, de modo geral, dizem respeito apenas s impresses dos ltimos dias. Verificaremos, porm, que a teoria dos sonhos elaborada 
por Robert torna-lhe essencial destacar as impresses mais recentes, deixando fora de alcance as mais antigas. No obstante, o fato que ele afirma permanece correto, 
como posso confirmar por minhas prprias pesquisas. Um autor norte-americano, Nelson [1888, 380 e seg.],  de opinio que as impresses mais freqentemente empregadas 
num sonho decorrem do penltimo ou do antepenltimo dia antes que o sonho ocorra - como se as impresses do dia imediatamente anterior ao sonho no fossem suficientemente 
atenuadas ou remotas.
          Vrios autores, preocupados em no lanar dvidas sobre a ntima relao entre o contedo dos sonhos e a vida de viglia, tm-se surpreendido com o fato 
de as impresses com que os pensamentos de viglia se acham intensamente ocupados s aparecerem nos sonhos depois de terem sido um tanto postas de lado pelas atividades 
do pensamento diurno. Assim, aps a morte de um ente querido, as pessoas em geral no sonham com ele logo de incio, enquanto se acham dominadas pela dor (Delage, 
1891, [40]). Por outro lado, uma das mais recentes observadoras, a Srta. Hallam (Hallam e Weed, 1896, 410-11), coligiu exemplos em contrrio, assim afirmando o direito 
de cada um de ns ao individualismo psicolgico nesse aspecto.
          A terceira, mais surpreendente e menos compreensvel caracterstica da memria nos sonhos  demonstrada na escolha do material reproduzido. Pois o que 
se considera digno de ser lembrado no , como na vida de viglia,apenas o que  mais importante, mas, pelo contrrio, tambm o que  mais irrelevante e insignificante. 
No tocante a este ponto, citarei os autores que deram expresso mais vigorosa  sua estupefao.
          Hildebrandt (1875, 11): "Pois o fato notvel  que os sonhos extraem seus elementos no dos fatos principais e excitantes, nem dos interesses poderosos 
e imperiosos do dia anterior, mas dos detalhes casuais, do fragmentos sem valor, poder-se-ia dizer, do que se vivenciou recentemente, ou do passado mais remoto. 
Uma morte na famlia, que nos tenha comovido profundamente e sob cuja sombra imediata tenhamos adormecido tarde da noite,  apagada de nossa memria at que, com 
nosso primeiro momento de viglia, retorna a ela novamente com perturbadora violncia. Por outro lado, uma verruga na testa de um estranho que vimos na rua, e em 
quem no pensamos mais depois de passar por ele, tem um papel a desempenhar em nosso sonho..."
          Strmpell (1877, 39): "H casos em que a anlise de um sonho demonstra que alguns de seus componentes, na realidade, provm de experincias do dia precedente 
ou do dia anterior a este, mas de experincias to sem importncia e to triviais, do ponto de vista da conscincia de viglia, que foram esquecidas logo aps sua 
ocorrncia. As experincias dessa natureza incluem, por exemplo, observaes acidentalmente entreouvidas, aes desatentamente observadas de outra pessoa, vislumbres 
passageiros de pessoas ou coisas, ou fragmentos isolados do que se leu, e assim por diante."
          Havelock Ellis (1899, 77); "As emoes profundas da vida de viglia, as questes e os problemas pelos quais difundimos nossa principal energia mental voluntria, 
no so os que se costumam apresentar de imediato  conscincia onrica. No que diz respeito ao passado imediato, so basicamente as impresses corriqueiras, casuais 
e 'esquecidas' da vida cotidiana que reaparecem em nossos sonhos. As atividades psquicas mais intensamente despertas so as que dormem mais profundamente."
          Binz (1878, 44-5) efetivamente faz dessa peculiaridade especfica da memria nos sonhos uma oportunidade para expressar sua satisfao com as explicaes 
dos sonhos que ele prprio sustentou: "E os sonhos naturais levantam problemas semelhantes. Por que nem sempre sonhamos com as impresses mnmicas do dia que acabamos 
de viver? Por que, muitas vezes, sem nenhum motivo aparente, mergulhamos, em vez disso, no passado remoto e quase extinto? Por que a conscincia, nos sonhos, recebe 
com tanta freqncia a impresso de imagens mnmicas indiferentes, enquanto as clulas cerebrais, justamente onde trazem as marcas mais sensveis do que se experimentou, 
permanecem, em sua maioria, silenciosas e inertes, a menosque tenham sido incitadas a uma nova atividade pouco antes, durante a vida de viglia?"
           fcil perceber como a notvel preferncia demonstrada pela memria, nos sonhos, por elementos indiferentes, e conseqentemente despercebidos da experincia 
de viglia est fadada a levar as pessoas a desprezarem, de modo geral, a dependncia que os sonhos tm da vida de viglia, e pelo menos a dificultar, em qualquer 
caso especfico, a comprovao dessa dependncia. Assim, a Srta. Whiton Calkis (1893, 315), em seu estudo estatstico de seus prprios sonhos e dos de seu colaborador, 
verificou que em onze por cento do total no havia nenhuma conexo visvel com a vida de viglia. Hildebrandt (1875, [12 e seg.]) est indubitavelmente certo ao 
afirmar que seramos capazes de explicar a gnese de todas as imagens onricas se dedicssemos tempo e empenho suficientes  investigao de sua origem. Ele se refere 
a isso como "uma tarefa extremamente trabalhosa e ingrata. Pois, em geral, termina por desenterrar dos mais remotos pontos dos compartimentos da memria toda sorte 
de fatos psquicos totalmente sem valor e por arrastar  luz, mais uma vez, do esquecimento em que fora mergulhado talvez na primeira hora aps sua ocorrncia, toda 
sorte de momento completamente irrelevante do passado." S posso lamentar que esse autor de aguda viso se tenha deixado impedir de seguir a trilha que teve esse 
comeo inauspicioso; se a tivesse seguido, ela o teria levado ao prprio cerne da explicao dos sonhos.
          O modo como a memria se comporta nos sonhos , sem sombra de dvida, da maior importncia para qualquer teoria da memria em geral. Ele nos ensina que 
"nada que tenhamos possudo mentalmente uma vez pode se perder inteiramente" (Scholz, 1893, 59); ou, como o exprime Delboeuf [1885, 115], "que toute impression, 
mme la plus insignifiante, laisse une trace inaltrable, indfiniment susceptible de reparatre au jour". Essa  uma concluso a que tambm somos levados por muitos 
fenmenos patolgicos da vida mental. Certas teorias sobre os sonhos, que mencionaremos adiante, procuram explicar seu absurdo e incoerncia por meio de um esquecimento 
parcial do que sabemos durante o dia. Quando tivermos em mente a extraordinria eficincia que acabamos de ver exibida pela memria nos sonhos, teremos um sentimento 
vivo da contradio que essas teorias envolvem.
          Talvez nos ocorra que o fenmeno do sonhar possa ser inteiramente reduzido ao da memria: os sonhos, poder-se-ia supor, so a manifestao de uma atividade 
reprodutiva que  exercida mesmo durante a noite e que constitui um fim em si mesma. Isso se coadunaria com afirmaes como as que foram formuladas por Pilcz (1899), 
segundo as quais existe uma relao fixa observvel entre o momento em que um sonho ocorre e seu contedo, sendo as impresses do passado mais remoto reproduzidas 
nos sonhos durante o sono profundo, enquanto as impresses mais recentes surgem ao amanhecer. Mas tais pontos de vista so intrinsecamente improvveis, em vista 
da maneira como os sonhos lidam com o material a ser lembrado. Strmpell [1877, 18] frisa, com razo, que os sonhos no reproduzem experincias. Eles do um passo 
 frente, mas o prximo passo da seqncia  omitido, ou aparece de forma alterada, ou  substitudo por algo inteiramente estranho. Os sonhos no produzem mais 
do que fragmentos de reprodues; e isso constitui uma regra to geral que nela  possvel basear concluses tericas.  verdade que existem casos excepcionais em 
que um sonho repete uma experincia to completamente quanto est ao alcance de nossa memria de viglia. Delboeuf [1885, 239 e seg.] conta-nos como um de seus colegas 
da universidade teve um sonho que reproduzia, em todos os detalhes, um perigoso acidente de carruagem que ele sofrera, do qual escapou quase por milagre. A Srta. 
Calkins (1893) menciona dois sonhos cujo contedo foi uma reproduo exata de um acontecimento do dia anterior, e eu mesmo terei oportunidade, mais adiante, de relatar 
um exemplo por mim observado de uma experincia infantil que reapareceu num sonho sem qualquer modificao. [Ver em [1] [2] e [3].]
          
          
           (C) OS ESTMULOS E AS FONTES DOS SONHOS
          
          H um ditado popular que diz que "os sonhos decorrem da indigesto", e isso nos ajuda a entender o que se pretende dizer com estmulos e fontes dos sonhos. 
Por trs desses conceitos h uma teoria segundo a qual os sonhos so o resultado de uma perturbao do sono: no teramos um sonho a menos que algo de perturbador 
acontecesse durante nosso sono, e o sonho seria uma reao a essa perturbao.
          Os debates sobre as causas estimuladoras dos sonhos ocupam um espao muito amplo na literatura sobre o assunto. Obviamente, esse problema s poderia surgir 
depois de os sonhos se terem tornado alvo de pesquisas biolgicas. Os antigos, que acreditavam que os sonhos eram inspirados pelos deuses, no precisavam ir em busca 
de seu estmulo: os sonhos emanavam da vontade de poderes divinos ou demonacos, e seu contedo provinha do conhecimento ou do objetivo desses poderes. A cincia 
foi imediatamente confrontada com a questo de determinar se o estmulo ao sonho era sempre o mesmo ou se haveria muitos desses estmulos; e isso envolvia a questo 
de a explicao das causas dos sonhos se enquadrar no domnio da psicologia ou, antes, no da fisiologia. A maioria das autoridades parece concordar na suposio 
de que as causas que perturbam o sono - isto , as fontes dos sonhos - podem ser de muitas espcies, e que tanto os estmulos somticos quanto as excitaes mentais 
podem vir a atuar como instigadores dos sonhos. As opinies diferem amplamente, contudo, na preferncia demonstrada por uma ou outra fonte dos sonhos e na ordem 
de importncia atribuda a elas como fatores na produo dos sonhos.
          Qualquer enumerao completa das fontes dos sonhos leva ao reconhecimento de quatro tipos de fonte, e estes tambm tm sido utilizados para a classificao 
dos prprios sonhos. So eles: (1) excitao sensoriais externas (objetivas); (2) excitaes sensoriais internas (subjetivas); (3) estmulos somticos internos (orgnicos); 
e (4) fontes de estimulao puramente psquicas.
          
          (C) 1. ESTMULOS SENSORIAIS EXTERNOS
          
          O jovem Strmpell [1883-4; trad. ingl. (1912, 2, 160), filho do filsofo cujo livro sobre os sonhos j nos deu vrias idias acerca dos problemas onricos, 
publicou um clebre relato de suas observaes sobre um de seus pacientes, que sofria de anestesia geral da superfcie do corpo e paralisia de vrios de seus rgos 
sensoriais superiores. Quando se fechava o pequeno nmero de canais sensoriais desse homem que permaneciam abertos ao mundo exterior, ele adormecia. Ora, quando 
ns mesmos desejamos dormir, temos o hbito de tentar produzir uma situao semelhante  da experincia de Strmpell. Fechamos nossos canais sensoriais mais importantes, 
os olhos, e tentamos proteger os outros sentidos de todos os estmulos ou de qualquer modificao dos estmulos que atuam sobre eles. Ento adormecemos, muito embora 
nosso plano jamais se concretize inteiramente. No podemos manter os estmulos completamente afastados de nossos rgos sensoriais, nem podemos suspender inteiramente 
a excitabilidade de nossos rgos dos sentidos. O fato de um estmulo razoavelmente poderoso nos despertar a qualquer momento  prova de que, "Mesmo no sono, a alma 
est em constante contato com o mundo extracorporal". Os estmulos sensoriais que chegam at ns durante o sono podem muito bem tornar-se fontes de sonhos.
          Ora, h inmeros desses estmulos, que vo desde os inevitveis, que o prprio estado de sono necessariamente envolve ou precisa tolerar de vez em quando, 
at os eventuais, que despertam estmulos que podem pr, ou de fato pem, termo ao sono. Uma luz forte pode incidir sobre os olhos, ou um rudo pode se fazer ouvir, 
ou alguma substncia de odor pronunciado poder estimular a membrana mucosa do nariz. Por movimentos involuntrios durante o sono, podemos descobrir alguma parte 
do corpo e exp-lo a sensaes de frio, ou, mediante uma mudana de posio, podemos provocar sensaes de presso ou contato.  possvel que sejamos picados por 
um mosquito, ou algum pequeno incidente durante a noite talvez afete vrios dos nossos sentidos ao mesmo tempo. Alguns observadores atentos coligiram toda uma srie 
de sonhos em que houve uma correspondncia to grande entre um estmulo constatado ao despertar e uma parte do contedo do sonho que foi possvel identificar o estmulo 
como a fonte do sonho.
          Citarei, de autoria de Jessen (1855, 527 e seg.), uma srie desses sonhos, que podem ser ligados a uma estimulao sensorial objetiva e mais ou menos acidental.
          "Todo rudo indistintamente percebido provoca imagens onricas correspondentes. Uma trovoada nos situa em meio a uma batalha; o cantar de um galo pode 
transmudar-se no grito de terror de um homem; o ranger de uma porta pode produzir um sonho com ladres. Se os lenis da cama carem durante a noite, talvez sonhemos 
que estamos andando nus de um lado para outro, ou ento caindo n'gua. Se estivermos atravessados na cama e com os ps para fora da beirada, talvez sonhemos que 
estamos  beira de um tremendo precipcio ou caindo de um penhasco. Se a cabea ficar debaixo do travesseiro, sonharemos estar debaixo de uma pedra enorme, prestes 
a nos soterrar sob seu peso. Os acmulos de smen provocam sonhos lascivos e as dores locais produzem idias de estarmos sendo maltratados, atacados ou feridos...
          "Meier (1758, 33) sonhou, certa feita, que era dominado por alguns homens que o estendiam de costas no cho e enfiavam uma estaca na terra entre seu dedo 
do p e o dedo ao lado. Enquanto imaginava essa cena no sonho, acordou e verificou que havia um pedao de palha entre seus dedos. Em outra ocasio, segundo Hennings 
(1784, 258), quando Meier apertara muito o colarinho da roupa de dormir no pescoo, sonhou que estava sendo enforcado. Hoffbaeur (1796, 146) sonhou, quando jovem, 
que estava caindo de um muro alto, e ao acordar, viu que a armao da cama desabara e ele realmente cara no cho... Gregory relata que, certa vez, quando estava 
com os ps num saco de gua quente, sonhou ter subido at o cume do Monte Etna, onde o cho esta insuportavelmente quente. Outro homem, que dormia com um cataplasma 
quente na cabea, sonhou que estava sendo escalpelado por um bando de peles-vermelhas, enquanto um terceiro, que usava uma camisa de dormir mida, imaginou que estava 
sendo arrastado por uma correnteza. Um ataque de gota repentinamente surgido durante o sono levou um paciente a acreditar que estava nas mos da Inquisio e sendo 
torturado no cavalete (Macnisch [1835, 40])."
          O argumento baseado na semelhana entre o estmulo e o contedo do sonho se fortalece quando  possvel transmitir deliberadamente um estmulo sensorial 
 pessoa adormecida e nela produzir um sonho correspondente quele estmulo. De acordo com Macnisch (loc. cit.), citado por Jessen (1855, 529), experimentos dessa 
natureza j foram feitos por Girou de Buzareingues [1848, 55]. "Ele deixara o joelho descoberto e sonhou que estava viajando de noite numa diligncia. A esse respeito, 
ele observa que os viajantes porcerto esto cientes de como os joelhos ficam frios  noite num coche. Noutra ocasio, ele deixou descoberta a parte posterior da 
cabea e sonhou que estava participando de uma cerimnia religiosa ao ar livre. Cabe explicar que, no pas onde morava, era costume manter sempre a cabea coberta, 
exceto em circunstncias como essas."
          Maury (1878, [154-6]) apresenta algumas novas observaes sobre sonhos produzidos nele mesmo. (Diversos outros experimentos foram mal-sucedidos.)
          (1) Algum fez ccegas em seus lbios e na ponta do nariz com uma pena. - Ele sonhou com uma forma medonha de tortura: uma mscara de piche ora colocada 
em seu rosto e depois puxada, arrancando-lhe a pele.
          (2) Algum afiou uma tesoura num alicate. - Ele ouviu o repicar de sinos, seguido por sinais de alarma, e se viu de volta aos dias de junho de 1848.
          (3) Deram-lhe gua-de-colnia para cheirar. - Ele se viu no Cairo, na loja de Johann Maria Farina. Seguiram-se algumas aventuras absurdas que ele no soube 
reproduzir.
          (4) Beliscaram-lhe levemente o pescoo. - Ele sonhou que lhe aplicavam um emplastro de mostarda e pensou no mdico que o tratara quando criana.
          (5) Aproximaram um ferro quente de seu rosto. - Sonhou que os "chauffeurs" haviam penetrado na casa e foravam seus moradores a dar-lhes dinheiro, enfiando-lhes 
os ps em braseiros. Apareceu ento a Duquesa de Abrantes, de quem ele era secretrio no sonho.
          (8) Pingaram uma gota d'gua em sua testa. - Ele estava na Itlia, suava violentamente e bebia vinho branco de Orvieto.
          (9) Fez-se com que a luz de uma vela brilhasse repetidamente sobre ele atravs de uma folha de papel vermelho. - Sonhou com o tempo e com o calor, e se 
viu novamente numa tempestade que enfrentara no Canal da Mancha.
          Outras tentativas de produzir sonhos experimentalmente foram relatadas por Hervey de Saint-Denys [1867, 268 e seg. e 376 e seg.], Weygandt (1893) e outros.
          Muitos autores teceram comentrios sobre "a notvel facilidade com que os sonhos conseguem enfrentar uma impresso sbita vinda do mundo dos sentidos em 
sua prpria estrutura, de modo que esta surge sob a aparncia de uma catstrofe previamente preparada a que se chegou gradativamente" [(Hildebrandt, 1875, [36])]. 
"Em minha juventude", prossegue esse autor, "eu costumava usar um despertador para me levantar regularmente numa determinada hora. Por centenas de vezes deve ter 
acontecido de o rudo produzido por esse instrumento se enquadrar num sonho aparentemente nico e tivesse alcanado seu fim precpuo no que era clmax logicamente 
indispensvel." [Ibid., 37.]
          Citarei trs desses sonhos despertadores, agora num outro sentido. [Ver em. [1]-[2]]
          Volket (1875, 108 e seg.) escreve: "Um compositor, certa feita, sonhou que estava dando uma aula e tentando esclarecer determinado ponto a seus alunos. 
Quando acabou de faz-lo, voltou-se para um dos meninos e perguntou-lhe se havia entendido. Este respondeu-lhe aos gritos, como um possesso: 'Oh ja! [Oh, sim!]'. 
Ele comeou a repreender o menino asperamente por estar gritando, mas toda a classe irrompeu em gritos, primeiro de 'Orja!', depois de 'Eurjo!' e finalmente de 'Feuerjo!'Neste 
ponto ele foi despertado por gritos reais de 'Feurjo!' na rua."
          Garnier (1872, [1, 476]) conta como Napoleo I foi despertado pela exploso de uma bomba enquanto dormia em sua carruagem. Sonhou que estava novamente 
atravessando o Tagliamento sob o bombardeio austraco, e por fim, sobressaltado, acordou gritando: "Estamos perdidos!"
          Um sonho de Maury (1878, 161) tornou-se famoso. Estava doente e de cama em seu quarto, com a me sentada a seu lado, e sonhou que estava no Reinado do 
Terror. Aps testemunhar diversas cenas pavorosas de assassinato, foi finalmente levado perante o tribunal revolucionrio. L viu Robespierre, Marat, Fouquier-Tinville 
e o resto dos soturnos heris daqueles dias terrveis. Foi interrogado por eles, e depois de alguns incidentes que no guardou na memria, foi condenado e conduzido 
ao local de execuo, cercado por uma multido enorme. Subiu ao cadafalso e foi amarrado  prancha pelo carrasco. A guilhotina estava preparada e a lmina desceu. 
Ele sentiu a cabea sendo separada do corpo, acordou em extrema angstia - eviu que a cabeceira da cama cara e lhe atingira as vrtebras cervicais, tal como a lmina 
da guilhotina as teria realmente atingido.
          Esse sonho constituiu a base de um interessante debate entre Le Lorain (1894) e Egger (1895) na Revue philosophique. A questo levantada foi se e como 
era possvel que algum, ao sonhar, condensasse tal quantidade de material aparentemente superabundante, no curto perodo transcorrido entre a percepo do estmulo 
emergente e o despertar.
          Os exemplos dessa natureza deixam a impresso de que, de todas as fontes dos sonhos, as mais bem confirmadas so os estmulos sensoriais objetivos durante 
o sono. Alm disso, eles constituem rigorosamente as nicas fontes levadas em conta pelos leigos. Quando se pergunta a um homem culto, que no esteja familiarizado 
com a literatura dos sonhos, como  que estes surgem, ele responde infalivelmente com uma referncia a algum exemplo de seu conhecimento em que um sonho tenha sido 
explicado por um estmulo sensorial objetivo descoberto aps o despertar. A investigao cientfica, contudo, no pode parar a. Ela encontra uma oportunidade de 
formular outras perguntas no fato observado de que o estmulo que incide sobre os sentidos durante o sono no aparece no sonho em sua forma real, mas  substitudo 
por outra imagem que, de algum modo, est relacionada com ele. Todavia, a relao que liga o estmulo do sonho ao sonho que dele resulta , para citarmos as palavras 
de Maury (1854, 72), "une affinit quelconque, mais qui n'est pas unique et exclusive". Consideremos, a esse respeito, trs dos sonhos de Hildebrandt com despertadores 
(1875, 37 e seg.). A questo que eles levantam  porque o mesmo estmulo teria provocado trs sonhos to diferentes, e porque teria provocado estes, e no outros.
          "Sonhei, ento, que, numa manh de primavera, eu estava passeando e caminhando pelos campos verdejantes, quando cheguei a uma aldeia vizinha, onde vi os 
aldees em seus melhores trajes, com livros de hinos debaixo do brao, afluindo para a igreja em bandos. Claro! Era domingo, e o servio religioso matutino logo 
estaria comeando. Resolvi participar dele, mas primeiro, como estava sentindo calor por causa da caminhada, fui at o cemitrio que circundava a igreja para me 
refrescar. Enquanto lia algumas das inscries das lpides, ouvi o sineiro subindo para a torre da igreja e, no alto da mesma, vi ento o sino do vilarejo, que logo 
daria o sinal para o comeo das preces. Por um bom tempo, l ficou imvel, e depois comeoua balanar, e de repente, seu repicar passou a soar de maneira ntida 
e penetrante - to ntida e penetrante que ps termo a meu sono. Mas o que estava tocando era meu despertador."
          "Eis aqui outro exemplo. Fazia um dia claro de inverno e as ruas estavam cobertas por uma espessa camada de neve. Eu havia concordado em participar de 
um grupo para um passeio de tren, mas tive de esperar muito tempo antes de chegar a notcia de que o tren se achava  porta. Seguiram-se ento os preparativos 
para entrar - o tapete de pele foi estendido, ajeitou-se o agasalho para os ps - e finalmente ocupei meu lugar. Mas, ainda assim, o momento da partida foi retardado, 
at que um puxo nas rdeas deu aos cavalos, que esperavam, o sinal da partida. Eles partiram e, com uma violenta sacudidela, os pequenos guizos do tren comearam 
a produzir seu conhecido tilintar - com tal violncia, de fato, que num instante se rompeu a fina teia de meu sonho. E, mais uma vez, era apenas o som estridente 
do despertador."
          "E agora, um terceiro exemplo. Eu olhava para uma copeira que ia levando vrias dzias de pratos empilhados uns sobre os outros, andando pelo corredor 
que dava para a sala de jantar. A pilha de loua em seus braos me pareceu prestes a perder o equilbrio. 'Cuidado', exclamei, ('seno voc vai deixar cair tudo!'. 
Seguiu-se, como de praxe, a inevitvel resposta: ela estava acostumada quele tipo de trabalho, e assim por diante. Entrementes, meu olhar ansioso seguia a figura 
que avanava. E ento - justamente como eu esperava - ela tropeou na soleira da porta e a frgil loua escapuliu e, numa verdadeira sinfonia de rudos, espatifou-se 
em mil pedaos no cho. Mas o barulho prosseguiu sem cessar, e logo j no parecia ser estrondoso retinir da loua se quebrando; comeou a se transformar no som 
de uma campainha - e essa campainha, como agora percebia meu eu desperto, era apenas o despertador cumprindo seu dever."
          A questo de por que a mente confunde a natureza dos estmulos sensoriais objetivos nos sonhos recebe quase a mesma resposta de Strmpell (1877, [103]) 
e de Wundt (1874, 659 e seg.): a mente recebe estmulos que a alcanam durante o sono sob condies favorveis  formao de iluses. Uma impresso sensorial  reconhecida 
por ns e corretamente interpretada - isto ,  situada no grupo de lembranas a que, de acordo com todas as nossas experincias, ela pertence - contanto que a impresso 
seja suficientemente forte, ntida e duradoura, e contanto que tenhamos tempo suficiente a nosso dispor para considerar o assunto. Se essas condies no forem satisfeitas, 
confundiremos o objeto que  a fonte da impresso: formaremos uma iluso sobre ele. "Se algum fizer uma caminhada pelo campo e tiver uma percepo indefinida de 
umobjeto distante, poder a princpio pensar que se trata de um cavalo." Vendo mais de perto, poder ser levado a interpret-la como uma vaca deitada, e a imagem 
poder finalmente transformar-se em definitivo num grupo de pessoas sentadas no cho. As impresses de estmulos exteriores recebidas pela mente durante o sono so 
de natureza similarmente vaga; e com base nisso, a mente cria aluses, visto que um nmero maior ou menor de imagens mnmicas  despertado pela impresso, e  atravs 
destas que ela adquire seu valor psquico. De qual dos numerosos grupos de lembranas em causa as imagens correlatas sero despertadas, e qual das possveis conexes 
associativas ser por conseguinte posta em ao - tambm essas questes, segundo a teoria de Strmpell, so indeterminveis e ficam, por assim dizer, abertas  deciso 
arbitrria da mente.
          Nesta altura, defronta-se-nos uma escolha entre duas alternativas. Podemos admitir como um fato que  impossvel examinar ainda mais as leis que regem 
a formao dos sonhos; e podemos, conseqentemente, deixar de inquirir se haver ou no outros determinantes que regem a interpretao atribuda por aquele que sonha 
 iluso evocada pela impresso sensorial. Ou, por outro lado, podemos suspeitar de que o estmulo sensorial que atinge o sujeito adormecido desempenha apenas um 
modesto papel na gerao de seu sonho, e que outros fatores determinam a escolha das imagens mnmicas que nele sero despertadas. De fato, se examinarmos os sonhos 
experimentalmente produzidos de Maury (que relatei com tal riqueza de detalhes exatamente por esse motivo), seremos tentados a dizer que o experimento, de fato, 
explica a origem de apenas um elemento dos sonhos; o restante de seu contedo parece autnomo demais e excessivamente definido em seus detalhes para ser explicvel 
apenas pela necessidade de se ajustar ao elemento experimentalmente introduzido de fora. De fato, comea-se a ter dvidas sobre a teoria das iluses e o poder das 
impresses objetivas de darem forma aos sonhos, quando se verifica que essas impresses, por vezes, esto sujeitas, nos sonhos, s mais peculiares e exageradas interpretaes. 
Assim, Simon (1888) relata-nos um sonho no qual via algumas figuras gigantescas sentadas  mesa, e ouvia distintamente o pavoroso som do estalido produzido pelo 
fechamento de suas mandbulas ao mastigarem. Quando despertou, ouviu o barulho dos cascos de um cavalo que passava a galope por sua janela. O rudo feito pelos cascos 
do cavalo talvez tenha sugerido idias provenientes de um grupo de lembranas ligadas s Viagens de Gulliver - os gigantes de Brobdingnag e o virtuoso Houyhnhnms 
- se  que posso arriscar uma interpretao sem a ajuda do autor do sonho. No ser provvel, portanto, que a escolha de um grupo to inusitado de lembranas como 
esse tenha sido facilitada por motivos outros que no apenas o estmulo objetivo?
          
          (C)  2. EXCITAES SENSORIAIS INTERNAS (SUBJETIVAS)
          
          Apesar de quaisquer objees em contrrio,  foroso admitir que o papel desempenhado na causao dos sonhos pelas excitaes sensoriais objetivas durante 
o sono permanece indiscutvel. E se, por sua natureza e freqncia, esses estmulos parecem insuficientes para explicar todas as imagens onricas, somos incentivados 
a buscar outras fontes de sonhos anlogas a eles em seu funcionamento. No sei dizer quando despontou pela primeira vez a idia de se levarem em conta as excitaes 
internas (subjetivas) dos rgos dos sentidos, juntamente com os estmulos sensoriais externos.  fato, porm, que isso  feito, mais ou menos explicitamente, em 
todas as discusses mais recentes da etiologia dos sonhos. "Um papel essencial  tambm desempenhado, creio eu", escreve Wundt (1874, 657), "na produo das iluses 
que ocorrem nos sonhos, pelas sensaes visuais e auditivas subjetivas que nos so familiares, no estado de viglia, como as reas amorfas de luminosidade que se 
tornam visveis para ns quando nosso campo visual  obscurecido, como o tinido ou zumbido nos ouvidos, e assim por diante. Especialmente importante entre elas so 
as excitaes subjetivas da retina.  dessa forma que se deve explicar a notvel tendncia dos sonhos a fazerem surgir diante dos olhos objetos semelhantes ou idnticos, 
em grande nmero. Vemos diante de ns inmeros pssaros, borboletas, peixes, contas coloridas, flores, etc. Aqui, a poeira luminosa no campo obscurecido da viso 
assume uma forma fantstica, e os numerosos pontos de que ela se compe so incorporados ao sonho como um nmero equivalente de imagens separadas; e estas, em vista 
de sua mobilidade, so consideradas como objetos mveis. - Isso tambm constitui, sem dvida, a base da grande predileo demonstrada pelos sonhos por toda sorte 
de figuras de animais, pois a imensavariedade de tais formas pode se ajustar facilmente  forma especfica assumida pelas imagens luminosas subjetivas."
          Como fontes de imagens onricas, as excitaes sensoriais subjetivas possuem a vantagem bvia de no dependerem, como as objetivas, de circunstncias fortuitas 
externas. Esto  mo, como se poderia dizer, sempre que delas se necessita como explicao. Mas esto em desvantagem, comparadas aos estmulos sensoriais objetivos, 
no sentido de que seu papel na instigao de um sonho  pouco ou nada acessvel  confirmao e a experimentao. A principal prova em favor do poder de instigao 
de sonhos das excitaes sensoriais subjetivas  fornecida pelo que se conhece como "alucinaes hipnaggicas", ou, para empregar a expresso de Johannes Mller 
(1826), "fenmenos visuais imaginativos". Estes consistem em imagens, com freqncia muito ntidas e rapidamente mutveis, que tendem a surgir - de forma bastante 
habitual em algumas pessoas - durante o perodo do adormecimento; e tambm podem persistir por algum tempo depois de os olhos se abrirem. Maury, que era altamente 
sujeito a elas, procedeu a seu exame exaustivo e sustenta (como fez Mller [ibid., 49 e seg.] antes dele) a ligao e mesmo a identidade delas com as imagens onricas. 
Para produzi-las, diz ele (Maury, 1878, 59 e seg.), faz-se necessria uma certa dose de passividade mental, um relaxamento do esforo de ateno. No entanto, basta 
cair num estado letrgico desse tipo por apenas um segundo (contanto que se tenha a necessria predisposio) para que se experimente uma alucinao hipnaggica. 
Depois disso, pode-se acordar novamente, e  possvel que o processo se repita vrias vezes at que afinal se adormea. Maury verificou que, quando lhe acontecia 
acordar mais uma vez aps um intervalo muito prolongado, ele conseguia detectar em seu sonho as mesmas imagens que lhe haviam flutuado diante dos olhos como alucinaes 
hipnaggicas antes de adormecer. (Ibid., 134 e seg.). Foi o que ocorreu, em certa ocasio, com diversas figuras grotescas, de feies contorcidas e estranhas coiffures, 
que o importunaram com extrema persistncia enquanto ele adormecia, e com as quais se lembrou de ter sonhado depois de acordar. De outra feita, quando sentia fome, 
por ter entrado num regime frugal, teve uma viso hipnaggica de um prato e de uma mo a segurar um garfo, que se servia da comida do prato. No sonho seguinte, estava 
sentado a uma mesa farta e ouvia o barulho feito com os garfos pelas pessoas que jantavam. Ainda numa outra ocasio, quando foi dormir com os olhos irritados e doloridos, 
teve uma alucinao hipnaggica com alguns sinais microscopicamente pequenos, que s pde decifrar um a um, com extrema dificuldade; despertou uma hora depois e 
selembrou de um sonho em que havia um livro impresso com tipos muito pequenos, que ele lia com grande esforo.
          Alucinaes auditivas de palavras, nomes e assim por diante tambm podem ocorrer hipnagogicamente, da mesma forma que as imagens visuais, e ser ento repetidas 
num sonho - tal como uma ouverture anuncia os temas principais que se iro ouvir uma pera.
          Um observador mais recente das alucinaes hipnaggicas, G. Trumbull Ladd (1892), seguiu a mesma orientao de Mller e Maury. Depois de praticar um pouco, 
tornou-se capaz de se acordar repentinamente, sem abrir os olhos, dois a cinco minutos aps haver adormecido gradualmente. Assim, teve oportunidade de comparar as 
sensaes retinianas que acabavam de desaparecer com as imagens onricas que lhe persistiam na memria. Declara ele que foi possvel, em todos os casos, reconhecer 
uma relao interna entre as duas, pois os pontos e as linhas luminosos da luz idiorretnica proporcionavam, por assim dizer, um contorno ou diagrama das figuras 
mentalmente percebidas no sonho. Por exemplo, uma disposio dos pontos luminosos da retina em linhas paralelas correspondeu a um sonho em que ele vira, claramente 
dispostas diante de si, algumas linhas de matria impressa que estava lendo. Ou, para empregar suas prprias palavras, "a pgina nitidamente impressa que eu estava 
lendo no sonho evaneceu-se num objeto que se afigurou, perante minha conscincia de viglia, como um trecho de uma pgina impressa real, vista atravs de um orifcio 
oval num pedao de papel, a uma distncia grande demais para que se pudesse distinguir mais do que um fragmento ocasional de uma palavra, e, mesmo assim, indistintamente". 
Ladd  de opinio (embora no subestime o papel desempenhado nesse fenmeno pelos fatores centrais [cerebrais]) que  difcil ocorrer um nico sonho visual sem que 
haja participao de material fornecido pela excitao retiniana intra-ocular. Isso se aplica especialmente aos sonhos que ocorrem logo depois de algum adormecer 
num quarto escuro, ao passo que a fonte de estmulo para os sonhos que ocorrem de manh, pouco antes do despertar,  a luz objetiva que penetra nos olhos num quarto 
que se vai clareando. A natureza mutvel, e perpetuamente alternante, da excitao da luz idiorretnica corresponde precisamente  sucesso de imagens em constante 
movimento que nos  mostrada por nossos sonhos. Ningum que d importncia a essas observaes de Ladd h de subestimar o papel desempenhado nos sonhos por essas 
fontes subjetivas de estimulao, pois, como sabemos, as imagens visuais constituem o principal componente de nossos sonhos. As contribuies dos outros sentidos, 
salvo o da audio, so intermitentes e de menor importncia. lembrou de um sonho em que havia um livro impresso com tipos muito pequenos, que ele lia com grande 
esforo.
          Alucinaes auditivas de palavras, nomes e assim por diante tambm podem ocorrer hipnagogicamente, da mesma forma que as imagens visuais, e ser ento repetidas 
num sonho - tal como uma ouverture anuncia os temas principais que se iro ouvir uma pera.
          Um observador mais recente das alucinaes hipnaggicas, G. Trumbull Ladd (1892), seguiu a mesma orientao de Mller e Maury. Depois de praticar um pouco, 
tornou-se capaz de se acordar repentinamente, sem abrir os olhos, dois a cinco minutos aps haver adormecido gradualmente. Assim, teve oportunidade de comparar as 
sensaes retinianas que acabavam de desaparecer com as imagens onricas que lhe persistiam na memria. Declara ele que foi possvel, em todos os casos, reconhecer 
uma relao interna entre as duas, pois os pontos e as linhas luminosos da luz idiorretnica proporcionavam, por assim dizer, um contorno ou diagrama das figuras 
mentalmente percebidas no sonho. Por exemplo, uma disposio dos pontos luminosos da retina em linhas paralelas correspondeu a um sonho em que ele vira, claramente 
dispostas diante de si, algumas linhas de matria impressa que estava lendo. Ou, para empregar suas prprias palavras, "a pgina nitidamente impressa que eu estava 
lendo no sonho evaneceu-se num objeto que se afigurou, perante minha conscincia de viglia, como um trecho de uma pgina impressa real, vista atravs de um orifcio 
oval num pedao de papel, a uma distncia grande demais para que se pudesse distinguir mais do que um fragmento ocasional de uma palavra, e, mesmo assim, indistintamente". 
Ladd  de opinio (embora no subestime o papel desempenhado nesse fenmeno pelos fatores centrais [cerebrais]) que  difcil ocorrer um nico sonho visual sem que 
haja participao de material fornecido pela excitao retiniana intra-ocular. Isso se aplica especialmente aos sonhos que ocorrem logo depois de algum adormecer 
num quarto escuro, ao passo que a fonte de estmulo para os sonhos que ocorrem de manh, pouco antes do despertar,  a luz objetiva que penetra nos olhos num quarto 
que se vai clareando. A natureza mutvel, e perpetuamente alternante, da excitao da luz idiorretnica corresponde precisamente  sucesso de imagens em constante 
movimento que nos  mostrada por nossos sonhos. Ningum que d importncia a essas observaes de Ladd h de subestimar o papel desempenhado nos sonhos por essas 
fontes subjetivas de estimulao, pois, como sabemos, as imagens visuais constituem o principal componente de nossos sonhos. As contribuies dos outros sentidos, 
salvo o da audio, so intermitentes e de menor importncia.
          
          (C) 3. ESTMULOS SOMTICOS ORGNICOS INTERNOS
          
          Visto estarmos agora empenhados em buscar as fontes dos sonhos dentro do organismo, e no fora dele, devemos ter em mente que quase todos os nossos rgos 
internos, embora mal nos dem qualquer informao sobre seu funcionamento enquanto sadios, tornam-se uma fonte de sensaes predominantemente penosas quando se acham 
no que descrevemos como estados de excitao, ou durante as doenas. Essas sensaes devem ser equiparadas aos estmulos sensoriais ou penosos que nos chegam do 
exterior. A experincia de sculos reflete-se - para citarmos um exemplo - nas observaes de Strmpell sobre o assunto (1877, 107): "Durante o sono, a mente atinge 
uma conscincia sensorial muito mais profunda e ampla dos eventos somticos do que durante o estado de viglia.  obrigada a receber e a ser afetada por impresses 
de estmulos provenientes de partes do corpo e de modificaes do corpo das quais nada sabe enquanto desperta." Um escritor to remoto quanto Aristteles j considerava 
perfeitamente possvel que os primrdios de uma doena se pudessem fazer sentir nos sonhos, antes que se pudesse observar qualquer aspecto dela na vida de viglia, 
graas ao efeito amplificador produzido nas impresses pelos sonhos. (Ver em [1].) Tambm os autores mdicos, que certamente estavam longe de acreditar no poder 
proftico dos sonhos, no contestaram seu significado como pressagiadores de doenas. (Cf. Simon, 1888, 31, e muitos outros autores mais antigos.)
          Alguns exemplos do poder diagnosticador dos sonhos parecem ser invocados em pocas mais recentes. Assim, Tissi (1898, 62 e seg.) cita a histria de Artigues 
(1884, 43) sobre uma mulher de quarenta e trs anos de idade que, embora aparentemente em perfeita sade, foi durante alguns anosatormentada por sonhos de angstia. 
Passando ento por um exame mdico, verificou-se que estava no estgio inicial de uma afeco cardaca, da qual veio finalmente a falecer.
          Os distrbios pronunciados dos rgos internos agem, obviamente, como instigadores de sonhos em inmeros casos. A freqncia dos sonhos de angstia nas 
doenas do corao e dos pulmes  geralmente admitida. Realmente, essa faceta da vida onrica  colocada em primeiro plano por tantas autoridades que me contento 
com uma mera referncia  literatura: Radestock [1879, 70], Spitta [1882, 241 e seg.], Maury [1878, 33 e seg.], Simon (1888), Tissi [1898, 60 e segs.]. Tissi chega 
a ser de opinio que o rgo especfico afetado d um cunho caracterstico ao contedo do sonho. Assim, os sonhos dos que sofrem doenas cardacas costumam ser curtos 
e tm um fim assustador no momento do despertar; seu contedo quase sempre inclui uma situao que implica uma morte horrvel. Os que sofrem de doenas pulmonares 
sonham com sufocao, grandes aglomeraes e fugas, e esto notavelmente sujeitos ao conhecido pesadelo. (A propsito, pode-se observar que Boerner (1855) conseguiu 
provocar este ltimo experimentalmente, deitando-se com o rosto voltado para a cama ou cobrindo as vias respiratrias.) No caso de distrbios digestivos, os sonhos 
contm idias relacionadas com o prazer na alimentao ou a repulsa. Finalmente, a influncia da excitao sexual no contedo dos sonhos pode ser adequadamente apreciada 
por todos mediante sua prpria experincia, e fornece  teoria de que os sonhos so provocados por estmulos orgnicos seu mais poderoso apoio.
          Alm disso, ningum que consulte a literatura sobre o assunto poder deixar de notar que alguns autores, como Maury [1878, 451 e seg.] e Weygandt (1893), 
foram levados ao estudo dos problemas onricos pelo efeito de suas prprias doenas sobre o contedo dos seus sonhos.
          No obstante, embora esses fatos estejam verificados sem sombra de dvida, sua importncia para o estudo das fontes dos sonhos no  to grande como se 
poderia esperar. Os sonhos so fenmenos que ocorrem em pessoas sadias - talvez em todos, talvez todas as noites - e  bvio que a doena orgnica no pode ser includa 
entre suas condies indispensveis. E o que nos interessa no  a origem de certos sonhos especiais, mas a fonte que provoca os sonhos comuns das pessoas normais.
          Basta-nos apenas dar mais um passo  frente, contudo, para encontrarmos uma fonte de sonhos mais copiosa do que qualquer outra que tenhamos considerado 
at agora, uma fonte que, a rigor, parece nunca poder esgotar-se. Se se verificar que o interior do corpo, quando se acha enfermo, torna-se umafonte de estmulos 
para os sonhos, e se admitirmos que, durante o sono, a mente, estando desviada do mundo exterior, pode dispensar maior ateno ao interior do corpo, parecer-nos- 
plausvel supor que os rgos internos no precisam estar doentes para provocar excitaes que atinjam a mente adormecida - excitaes que, de algum modo, transformam-se 
em imagens onricas. Enquanto despertos, estamos cnscios de uma sensibilidade geral difusa, ou cenestesia, mas apenas como uma qualidade vaga de nosso estado de 
esprito; para essa sensao, de acordo com a opinio mdica, todos os sistemas orgnicos contribuem com uma parcela.  noite, porm, parece que essa mesma sensao, 
ampliada numa poderosa influncia e atuando atravs dos seus vrios componentes, torna-se a fonte mais vigorosa e, ao mesmo tempo, a mais comum para instigar imagens 
onricas. Se assim for, resta apenas investigar as leis segundo as quais os estmulos orgnicos se transmudam em imagens onricas.
          Chegamos aqui  teoria da origem dos sonhos preferida por todas as autoridades mdicas. A obscuridade em que o centro do nosso ser (o "moi splanchnique", 
como o chama Tissi [1898, 23]) fica vedado a nosso conhecimento e a obscuridade que cerca a origem dos sonhos coincidem bem demais para no serem relacionadas uma 
com a outra. A linha de raciocnio que encara a sensao orgnica vegetativa como a formadora dos sonhos tem, alm disso, uma atrao particular para os mdicos, 
por permitir uma etiologia nica para os sonhos e as doenas mentais, cujas manifestaes tanto tm em comum, j que as mudanas cenestsicas e os estmulos provenientes 
dos rgos internos so tambm predominantemente responsabilizados pela origem das psicoses. No  de surpreender, portanto, que a origem da teoria da estimulao 
somtica remonte a mais de uma fonte independente.
          A linha de argumentao desenvolvida pelo filsofo Schopenhauer, em 1851, exerceu uma influncia decisiva em diversos autores. Nossa imagem do universo, 
na opinio dele,  alcanada pelo fato de nosso intelecto tomar as impresses que o atingem de fora e remodel-las segundo as formas de tempo, espao e causalidade. 
Durante o dia, os estmulos vindos do interior do organismo, do sistema nervoso simptico, exercem, no mximo, um efeito inconsciente sobre nosso estado de esprito. 
Mas,  noite, quando j no somos ensurdecidos pelas impresses do dia, as que provm de dentro so capazes de atrair a ateno - do mesmo modo que,  noite, podemos 
ouvir o murmrio de um regato que  abafado pelos rudos diurnos. Mas, como pode o intelecto reagir a esses estmulos seno exercendo sobre eles sua prpria funo 
especfica? Os estmulos por conseguinte, so remodeladoscomo formas que ocupam espao e tempo e obedecem s regras da causalidade, e assim surgem os sonhos [cf. 
Schopenhauer, 1862, 1, 249 e segs.]. Scherner (1861) e, depois dele, Volkelt (1875) esforaram-se em seguida por pesquisar com maior riqueza de detalhes a relao 
entre os estmulos somticos e as imagens onricas, mas adiarei meu exame dessas tentativas at chegarmos  seo que versa sobre as vrias teorias acerca dos sonhos. 
[Ver em [1]]
          O psiquiatra Krauss [1859, 255], numa investigao conduzida com notvel consistncia, reconstri a origem dos sonhos e deliria, de um lado, e dos delrios, 
de outro, at o mesmo fator, a saber, sensaes organicamente determinadas.  quase impossvel pensar em qualquer parte do organismo que no possa ser o ponto de 
partida de um sonho ou de um delrio. As sensaes organicamente determinadas "podem ser divididas em duas classes: (1) as que constituem a disposio de nimo geral 
(cenestesia) e (2) as sensaes especficas imanentes nos principais sistemas do organismo vegetativo. Dentre estas ltimas devem-se distinguir cinco grupos: (a) 
sensaes musculares, (b) respiratrias, (c) gstricas, (d) sexuais e (e) perifricas." Krauss supe que o processo pelo qual as imagens onricas surgem com base 
nos estmulos somticos  o seguinte: a sensao despertada evoca uma imagem cognata, de conformidade com alguma lei de associao. Combina-se com a imagem numa 
estrutura orgnica,  qual, no entanto, a conscincia reage anormalmente, pois no presta nenhuma ateno  sensao e dirige toda ela para as imagens concomitantes 
- o que explica por que os verdadeiros fatos foram mal interpretados por tanto tempo. Krauss tem um tempo especial para descrever esse processo: a "transubstanciao" 
das sensaes em imagens onricas.
          A influncia dos estmulos somticos orgnicos sobre a formao dos sonhos  quase universalmente aceita hoje em dia; mas a questo das leis que regem 
a relao entre eles  respondida das mais diversas maneiras, e muitas vezes por afirmaes obscuras. Com base na teoria da estimulao somtica, a interpretao 
dos sonhos defronta-se assim com o problema especial de atribuir o contedo de um sonho aos estmulos orgnicos que o causaram; e, quando as normas de interpretao 
formuladas por Scherner (1861) no so aceitas, muitas vezes nos vemos diante do fato desconcertante de que a nica coisa que revela a existncia do estmulo orgnico 
 precisamente o contedo do prprio sonho.
          H uma razovel dose de concordncia, contudo, quanto  interpretao de vrias formas de sonhos que so descritos como "tpicos", por ocorrerem num grande 
nmero de pessoas e com contedo muito semelhante. So eles os conhecidos sonhos de cair de grandes alturas, de dentes que caem, de voar e do embarao de estar despido 
ou insuficientemente vestido. Este ltimo sonho  atribudo simplesmente ao fato de a pessoa adormecida perceber que atirou longe os lenis e est exposta ao ar. 
O sonho com a queda dos dentes  atribudo a um "estmulo dental", embora isso no implique, necessariamente, que a excitao dos dentes  patolgica. De acordo 
com Strmpell [1877, 119], sonhar que se est voando  a imagem que a mente considera apropriada como interpretao do estmulo produzido pela elevao e pelo abaixamento 
dos lobos pulmonares nas ocasies em que as sensaes cutneas no trax deixam de ser conscientes:  esta ltima circunstncia que leva  sensao ligada  idia 
de flutuar. Diz-se que o sonho com as quedas de grandes alturas se deve a um brao que passa a pender do corpo ou a um joelho flexionado que se estende de sbito, 
num momento em que a sensao de presso cutnea comea a no mais ser consciente; os movimentos em questo fazem com que as sensaes tteis voltem a se tornar 
conscientes, e a transio para a conscincia  psiquicamente representada pelo sonho de estar caindo (ibid., 118). O evidente ponto fraco dessas tentativas de explicao, 
por mais plausveis que sejam, est no fato de que, sem quaisquer outras provas, elas podem produzir hipteses bem-sucedidas de que este ou aquele grupo de sensaes 
orgnicas entra ou desaparece da percepo mental, at se obter uma configurao que proporcione uma explicao do sonho. Mais adiante, terei oportunidade de voltar 
 questo dos sonhos tpicos e de sua origem. [Ver em [1]-[2] e [3]]
          Simon (1888, 34 e segs.) tentou deduzir algumas das normas que regem a forma pela qual os estmulos orgnicos determinam os sonhos resultantes, comparando 
uma srie de sonhos semelhantes. Afirma ele que, quando um aparelho orgnico que normalmente desempenha um papel na expresso de uma emoo  levado, por alguma 
causa estranha durante o sonho, ao estado de excitao que geralmente se produz pela emoo, surge ento um sonho que contm imagens adequadas  emoo em causa. 
Outra regra estipula que, se um rgo estiver em estado de atividade, excitao ou perturbao durante o sono, produzir imagens relacionadas com o desempenho da 
funo executada pelo rgo em questo.
          Mourly Vold (1896) disps-se a provar experimentalmente, num setor especfico, o efeito sobre a produo dos sonhos que  sustentado pela teoria da estimulao 
somtica. Seus experimentos consistiram em alterar a posio dos membros de uma pessoa adormecida e comparar os sonhos resultantes com as alteraes efetuadas. Eis 
como enuncia seus resultados:
          (1) A posio de um membro no sonho corresponde aproximadamente a sua posio na realidade. Assim, sonhamos com o membro numa posio esttica quando ele 
se acha efetivamente imvel.
          (2) Ao sonharmos com um membro em movimento, uma das posies experimentadas no processo de concluir o movimento corresponde, invariavelmente,  posio 
real do membro.
          (3) A posio do prprio membro do sonhador pode ser atribuda, no sonho, a alguma outra pessoa.
          (4) Pode-se ter um sonho de que o movimento em questo est sendo impedido.
          (5) O membro que se encontra na posio em questo pode aparecer no sonho como um animal ou um monstro, em cujo caso se estabelece uma certa analogia entre 
eles.
          (6) A posio de um membro pode dar margem, no sonho, a pensamentos que tenham alguma relao com o membro. Dessa forma, em se tratando dos dedos, sonhamos 
com nmeros.
          Estou inclinado a concluir desse tipo de resultados que nem mesmo a teoria da estimulao somtica conseguiu eliminar inteiramente a visvel ausncia de 
determinao na escolha das imagens onricas a serem produzidas.
          
          (C) 3. FONTES PSQUICAS DE ESTIMULAO
          
          Enquanto abordvamos as relaes dos sonhos com a vida de viglia e o material onrico, verificamos que os mais antigos e mais recentes estudiosos dos 
sonhos eram unnimes na crena de que os homens sonham com aquilo que fazem durante o dia e com o que lhes interessa enquanto esto acordados [em [1]]. Tal interesse, 
transposto da vida de viglia para o sono, seria no somente um vnculo mental, um elo entre os sonhos e a vida, como tambm nos proporcionaria uma fonte adicional 
de sonhos, que no seria de se desprezar. De fato, tomado em um conjunto com os interesses que se desenvolvem durante o sono - os estmulos que afetam a pessoa adormecida 
-, talvez ele pudesse ser suficiente para explicar a origem de todas as imagens onricas. Mas tambm ouvimos a afirmao oposta, ou seja, a de que os sonhos afastam 
o sujeito adormecido dos interesses diurnos e que, em regra geral, s comeamos a sonhar com as coisas que mais nos impressionaram durante o dia depois de elas terem 
perdido o sabor de realidade na vida de viglia. [Ver em [1] e [2]] Assim, a cada passo que damos em nossa anlise da vida onrica, sentimos que  impossvel fazer 
generalizaes sem nos resguardarmos por meio de ressalvas como "freqentemente", "via de regra" ou "na maioria dos casos", e sem estarmos dispostos a admitir a 
validade das excees.
          Se fosse verdade que os interesses de viglia, juntamente com os estmulos internos e externos durante o sono, bastam para esgotar a etiologia dos sonhos, 
deveramos estar em condies de dar uma explicao satisfatria da origem de todos os elementos de um sonho: o enigma das fontes dos sonhos estaria resolvido, e 
restaria apenas definir a parcela cabvel, respectivamente, aos estmulos psquicos e somticos em qualquer sonho especfico. Na realidade, tal explicao completa 
de um sonho jamais foi obtida, e quem quer que tenha tentado consegui-la deparou com partes (geralmente muito numerosas) do sonho sobre cuja origem nada pde dizer. 
Est claro que os interesses diurnos no so fontes psquicas to importantes dos sonhos quanto se poderia esperar das asseres categricas de que todas as pessoas 
continuam a transpor seus assuntos dirios para seus sonhos.
          No se conhecem quaisquer outras fontes psquicas dos sonhos. Assim, ocorre que todas as explicaes dos sonhos apresentadas na literatura sobre o assunto 
- com a possvel exceo das de Scherner, que sero abordadas posteriormente [ver em [1]] - deixam uma grande lacuna quando se trata de atribuir uma origem s imagens 
de representao que constituem o material mais caracterstico dos sonhos. Nessa situao embaraosa, a maioria dos que escrevem sobre o assunto tende a reduzir 
ao mnimo o papel desempenhado pelos fatores psquicos na instigao dos sonhos, visto ser to difcil chegar a esses fatores.  verdade que esses autores dividem 
os sonhos em duas classes principais - as "causadas pela estimulao nervosa" e as "causadas pela associao", das quais as ltimas tm sua fonte exclusivamente 
na reproduo [de material j vivenciado] (cf. Wundt, 1874, 657). No obstante, no conseguem fugir a uma dvida: saber "se algum sonho pode ocorrer sem ser impulsionado 
por algum estmulo somtico" (Volket, 1875, 127).  difcil at mesmo dar uma descrio dos sonhos puramente associativos. "Nos sonhos associativos propriamente 
ditos, noh nenhuma possibilidade de existir tal ncleo slido [derivado da estimulao somtica]. At mesmo o prprio centro do sonho est apenas frouxamente reunido. 
Os processos de representao que no so regidos pela razo ou pelo bom-senso em nenhum sonho, j nem sequer se mantm ligados aqui por quaisquer excitaes somticas 
ou mentais relativamente importantes, ficando assim entregues a suas prprias mudanas caleidoscpicas e a sua prpria confuso embaralhada." (ibid., 118.) Wundt 
(1874, 656-7) tambm procura minimizar o fator psquico na provocao dos sonhos. Declara que no parece haver justificativa para se considerarem os fantasmas dos 
sonhos como puras alucinaes;  provvel que a maioria das imagens onricas consista de fato em iluses, uma vez que surgem de tnues impresses sensoriais que 
jamais cessam durante o sono. Weygandt (1893, 17) adotou esse mesmo ponto de vista e generalizou sua aplicao. Ele afirma, no tocante a todas as imagens onricas, 
"que suas causas primrias so estmulos sensoriais e que s depois  que as associaes reprodutivas ficam ligadas a eles". Tissi (1898, 183) vai ainda mais longe, 
ao estabelecer um limite para as fontes psquicas de estimulao: "Les rves d'origine absolument psychique n'existent pas"; e (ibid., 6) "les penses de nos rves 
nous viennent du dehors..."
          Os autores que, como o eminente filsofo Wundt, adotam uma posio intermediria, no deixam de observar que, na maioria dos sonhos, os estmulos somticos 
e os instigadores psquicos (sejam eles desconhecidos ou identificados como interesses diurnos) atuam em cooperao.
          Verificaremos mais tarde que o enigma da formao dos sonhos pode ser solucionado pela revelao de uma insuspeitada fonte psquica de estimulao. Entrementes, 
no teremos nenhuma surpresa ante a superestimao do papel desempenhado na formao dos sonhos por estmulos que no decorrem da vida mental. No apenas eles so 
fceis de descobrir e at mesmo passveis de confirmao experimental, como tambm a viso somtica da origem dos sonhos est em perfeita harmonia com a corrente 
de pensamento predominante na psiquiatria de hoje.  verdade que a predominncia do crebro sobre o organismo  sustentada com aparente confiana. No obstante, 
qualquer coisa que possa indicar que a vida mental  de algum modo independente de alteraes orgnicas demonstrveis, ou que suas manifestaes so de algum modo 
espontneas, alarma o psiquiatra moderno, como se o reconhecimento dessas coisas fosse trazer de volta, inevitavelmente, os dias da Filosofia da Natureza [ver em 
[1]] e de viso metafsica da natureza da mente. As suspeitas dos psiquiatras puseram a mente, por assim dizer, sob tutela, e agora eles insistem em que nenhum de 
seus impulsos tenha permisso de sugerir que ela dispe de quaisquer meios prprios. Esse comportamento apenas mostra quo pouca confiana eles realmente depositam 
na validade de uma relao causal entre o somtico e o psquico. Mesmo quando uma pesquisa mostra que a causa aprofundada tem de levar mais adiante a trilha e descobrir 
uma base orgnica para o fato mental. Mas se, no momento, no podemos enxergar alm do psquico, isso no  motivo para negar-lhe a existncia.
          
          
          
          
          
          (D) POR QUE NOS ESQUECEMOS DOS SONHOS APS O DESPERTAR
          
           fato proverbial que os sonhos se desvanecem pela manh. Naturalmente, eles podem ser lembrados, pois s tomamos conhecimento dos sonhos por meio de nossa 
recordao deles depois de acordar. Com freqncia, porm, temos a sensao de nos termos lembrado apenas parcialmente de um sonho, e de que houve algo mais nele 
durante a noite; podemos tambm observar como a lembrana de um sonho, que ainda era ntida pela manh, se dissipa, salvo por alguns pequenos fragmentos, no decorrer 
do dia; muitas vezes sabemos que sonhamos, sem saber o que sonhamos; e estamos to familiarizados com o fato de os sonhos serem passveis de ser esquecidos que no 
vemos nenhum absurdo na possibilidade de algum ter tido um sonho  noite e, pela manh, no saber o que sonhou, nem sequer o fato de ter sonhado. Por outro lado, 
ocorre s vezes que os sonhos mostram extraordinria persistncia na memria. Tenho analisado sonhos de pacientes meus, ocorridos h vinte e cinco anos ou mais, 
e lembro-me ainda de um sonho que eu prprio tive h mais de trinta e sete anos e que, no entanto, est mais ntido que nunca em minha memria. Tudo isso  muito 
notvel e no  inteligvel de imediato.
          A explicao mais detalhada do esquecimento dos sonhos  a que nos fornece Strmpell [1877, 79 e seg.]. Trata-se, evidentemente, de um fenmeno complexo, 
pois Strmpell o atribuiu no a uma causa nica, mas a toda uma srie delas.
          Em primeiro lugar, todas as causas que conduzem ao esquecimento na vida de viglia operam tambm no tocante aos sonhos. Quando estamos acordados, normalmente 
nos esquecemos, de imediato, de inmeras sensaes e percepes, seja porque foram fracas demais ou porque a excitao mental ligada a elas foi excessivamente pequena. 
O mesmo se aplica a muitas imagens onricas: so esquecidas por serem fracas demais, enquanto outras imagens mais fortes, adjacentes a elas, so recordadas. O fator 
da intensidade, contudo, decerto no  suficiente, por si s, para determinar se uma imagem onrica ser lembrada. Strmpell [1877, 82] admite, assim como outros 
autores (p. ex. Calkin, 1893, 312), que muitas vezes nos esquecemos de imagens onricas que sabemos terem sido muito ntidas, enquanto grande nmero das que so 
obscuras e carentes de fora sensorial situam-se entre as que so retidas na memria. Alm disso, quando acordados, tendemosfacilmente a esquecer um fato que ocorra 
apenas uma vez e a reparar mais depressa naquilo que possa ser percebido repetidamente. Ora, a maioria das imagens onricas constituem experincias nicas; e esse 
fato contribui imparcialmente para fazer com que esqueamos todos os sonhos. Uma importncia muito maior prende-se a uma terceira causa do esquecimento. Para que 
as sensaes, as representaes, os pensamentos e assim por diante atinjam certo grau de suscetibilidade para serem lembrados,  essencial que no permaneam isolados, 
mas que sejam dispostos em concatenaes e agrupamentos apropriados. Quando um verso curto de uma composio potica  dividido nas palavras que compem e estas 
so embaralhadas, torna-se muito difcil record-lo. "Quando as palavras so convenientemente dispostas e colocadas na ordem apropriada, uma palavra ajuda a outra, 
e o todo, estando carregado de sentido,  facilmente assimilado pela memria e retido por muito tempo. Em geral,  to difcil e inusitado conservar o que  absurdo 
como reter o que  confuso e desordenado." [Strmpell, 1877, 83.] Ora, na maioria dos casos, faltam aos sonhos inteligibilidade e ordem. As composies que constituem 
os sonhos so desprovidas das qualidades que tornariam possvel record-las, sendo esquecidas porque, via de regra, desfazem-se em pedaos no momento seguinte. Radestock 
(1879, 168), contudo, alega ter observado que os sonhos mais peculiares  que so recordados com mais clareza, e isso, deve-se admitir, dificilmente se coadunaria 
com o que acaba de ser dito.
          Strmpell [1877, 82 e seg.] acredita que alguns outros fatores oriundos da relao entre o sonhar e a vida de viglia so de importncia ainda maior na 
causao do esquecimento dos sonhos. A tendncia dos sonhos a serem esquecidos pela conscincia de viglia , evidentemente, apenas a contrapartida do fato j mencionado 
[em [1]] de que os sonhos quase nunca se apoderam de lembranas ordenadas da vida de viglia. Dessa forma, as composies onricas no encontram lugar em companhia 
das seqncias psquicas de que a mente se acha repleta. Nada existe que nos possa ajudar a nos lembrarmos delas. "Desse modo, as estruturas onricas esto, por 
assim dizer, aladas acima do piso de nossa vida mental, e flutuam no espao psquico como as nuvens no firmamento, dispersas pelo primeiro sopro de vento." (Strmpell, 
1877, 87.) Alm disso, aps o despertar, o mundo dos sentidos exerce presso e se apossa imediatamente da ateno com uma fora qual muito poucas imagens onricas 
conseguem resistir, de modo que tambm nisso temos outro fator que tende na mesma direo. Os sonhos cedem ante as impresses de um novo dia, da mesma forma que 
o brilho das estrelas cede  luz do sol.
          Por fim, h outro fato que se deve ter em mente como passvel de levar os sonhos a serem esquecidos, a saber, que a maioria das pessoas tem muito pouco 
interesse em seus sonhos. Qualquer pessoa, tal como um pesquisador cientfico, que preste ateno a seus sonhos por certo perodo de tempo, ter mais sonhos do que 
de hbito - o que sem dvida significa que passa a se lembrar de seus sonhos com maior facilidade e freqncia.
          Duas outras razes por que os sonhos so esquecidos, que Benini [1898, 155-6] cita como tendo sido propostas por Bonatelli [1880] como acrscimos s mencionadas 
por Strmpell, parecem de fato j estar abrangidas por estas ltimas. So elas: (1) que a alterao da cenestesia entre os estados de sono e de viglia  desfavorvel 
 reproduo recproca entre eles; e (2) que o arranjo diferente do material ideacional nos sonhos os torna intraduzveis, por assim dizer, para a conscincia de 
viglia.
          Em vista de todas as razes em favor do esquecimento dos sonhos,  de fato muito notvel (como insiste o prprio Strmpell [1877, 6]) que tantos deles 
sejam retidos na memria. As repetidas tentativas dos que escrevem sobre o assunto no sentido de explicitarem as normas que regem a lembrana dos sonhos equivalem 
 admisso de que, tambm aqui, estamos diante de algo enigmtico e inexplicado. Certas caractersticas especficas das lembrana dos sonhos foram acertadamente 
ressaltadas em poca recente (cf. Radestock, 1879, [169], e Tissi, 1898, [148 e seg.].), como o fato de que, quando um sonho parece, pela manh, ter sido esquecido, 
ainda assim pode ser recordado no decorrer do dia, caso seu contedo, embora esquecido, seja evocado por alguma percepo casual.
          Mas a lembrana dos sonhos, em geral,  passvel de uma objeo que est fadada a reduzir radicalmente o valor de tais sonhos na opinio crtica. Visto 
que uma proporo to grande dos sonhos se perde por completo, podemos muito bem duvidar se nossa lembrana do que resta deles no ser falseada.
          Essas dvidas quanto  exatido da reproduo dos sonhos tambm so expressas por Strmpell (1877, [119]): "Assim, pode facilmente acontecer que a conscincia 
de viglia, inadvertidamente, faa interpolaes na lembrana de um sonho: persuadimo-nos de ter sonhado com toda sorte de coisas que no estavam contidas nos sonhos 
efetivamente ocorridos."
          Jessen (1855, 547) escreve com especial nfase sobre esse ponto: "Alm disso, ao se investigar e interpretar sonhos coerentes e consistentes, deve-seter 
em mente uma circunstncia particular que, ao que me parece, at agora recebeu muito pouca ateno. Nesses casos, a verdade  quase sempre obscurecida pelo fato 
de que, ao recordarmos tal tipo de sonhos, quase sempre - no intencionalmente e sem notarmos esse fato - preenchemos as lacunas nas imagens onricas. Raramente 
ou nunca um sonho coerente foi de fato to coerente quanto nos parece na lembrana. Mesmo o maior amante da verdade dificilmente consegue relatar um sonho digno 
de nota sem alguns acrscimos ou retoques.  to acentuada a tendncia da mente humana a ver tudo de maneira concatenada que, na memria, ela preenche, sem querer, 
qualquer falta de coerncia que possa haver num sonho incoerente."
          Algumas observaes feitas por Egger [1895, 41], embora sem dvida tenham sido alcanadas independentemente, soam quase como uma traduo desse trecho 
de Jessen: "...L'observation des rves a ses difficults spciales et le seul moyen d'viter tout erreur en pareille matire est de confier au papier sans le moindre 
retard ce que l'on vient d'prouver et de remarquer; sinon, l'oubli vient vite ou total ou partiel; l'oubli total est sans gravit; mais lubli partiel est perfide; 
car si l'on se met ensuite  raconter ce que l'on n'a pas oubli, on est expos  complter par imagination les fragments incohrents et disjoints fournis par la 
mmoire (...); on devient artiste  son insu, et le rcit priodiquement rpt s'impose  la crance de son auteur, qui, de bonne foi, le prsente comme un fait 
authentique, dment tabli selon les bonnes mthodes..."
          Idias muito semelhantes so expressas por Spitta (1882, 338), que parece crer que  somente quando tentamos reproduzir um sonho que introduzimos algum 
tipo de ordem em seus elementos frouxamente associados: "modificamos coisas que se acham meramente justapostas, transformando-as em seqncias ou cadeias causais, 
isto , introduzimos um processo de conexo lgica que falta ao sonho."
          
          Visto que a nica verificao que temos da validade de nossa memria  a confirmao objetiva, e visto que ela no  obtenvel no tocante aos sonhos, que 
so nossa experincia pessoal e cuja nica fonte de que dispomos  nossa rememorao, que valor podemos ainda atribuir a nossa lembrana dos sonhos?"
          
          (E) AS CARACTERSTICAS PSICOLGICAS DISTINTIVAS DOS SONHOS
          
          Nosso exame cientfico dos sonhos parte do pressuposto de que eles so produtos de nossas prprias atividades mentais. No obstante, o sonho acabado nos 
deixa a impresso de algo estranho a ns. Estamos to pouco obrigados a reconhecer nossa responsabilidade por ele que [em alemo] somos to aptos a dizer "mir hat 
getrumt" ["tive um sonho", literalmente "um sonho veio a mim"] quanto "ich habe getrumt" ["sonhei"]. Qual a origem desse sentimento de que os sonhos so estranhos 
a nossa mente? Em vista de nossa discusso das fontes dos sonhos, devemos concluir que a estranheza no pode ser causada pelo material que penetra o contedo deles, 
uma vez que esse material, em sua maior parte,  comum aos sonhos e  vida de viglia. Surge a questo de determinar se, nos sonhos, no haver modificaes nos 
processos da mente que produzam a impresso ora examinada; por isso, faremos uma tentativa de traar um quadro dos atributos psicolgicos dos sonhos.
          Ningum ressaltou com maior preciso a diferena essencial entre o sonhar e a vida de viglia, ou tirou dela concluses de maior alcance, do que G. T. 
Fechner, num trecho de sua obra Elemente der Psychophysik (1889, 2, 520-1). Em sua opinio, "nem o mero rebaixamento da vida mental consciente a um nvel inferior 
ao do limiar principal, nem o desvio da ateno das influncias do mundo externo so suficientes para explicar as caractersticas da vida onrica quando contrastadas 
com a vida de viglia. Ele suspeita, antes, de que a cena de ao dos sonhos [seja] diferente da cena da vida de representaes de viglia. "Se a cena de ao da 
atividade psicofsica fosse a mesma no sono e no estado de viglia, os sonhos s poderiam ser, segundo meu ponto de vista, um prolongamento, num grau inferior de 
intensidade, da vida de representaes de viglia, e alm disso, seriam necessariamente do mesmo material e forma. Mas os fatos so bem diferentes disso."
          No est claro o que Fechner tinha em mente ao se referir a essa mudana de localizao da atividade mental, nem tampouco, ao que eu saiba, qualquer outra 
pessoa seguiu a trilha indicada por suas palavras. Podemos, penso eu, descartar a possibilidade de dar  frase uma interpretao anatmica e supor que ela se refere 
 localizao cerebral fisiolgica, ou mesmo s camadas histolgicas do crtex cerebral.  possvel, porm, que a sugesto venha finalmente a se revelar sagaz e 
frtil, se puder ser aplicada a um aparelho mental composto por vrias instncias dispostas seqencialmente, uma aps outra.
          Outros autores se contentaram em chamar a ateno para as caractersticas distintivas mais tangveis da vida onrica e em adot-las como ponto de partida 
para tentativas que visavam a explicaes de maior alcance.
          Observou-se, justificadamente, que uma das principais peculiaridades da vida onrica surge durante o prprio processo de adormecimento, podendo ser descrita 
como um fenmeno anunciador do sonho. De acordo com Scheiermacher (1862, 351), o que caracteriza o estado de viglia  o fato de que a atividade do pensar ocorre 
em conceitos, e no em imagens. J os sonhos pensam essencialmente por meio de imagens e, com a aproximao do sono,  possvel observar como,  medida que as atividades 
voluntrias se tornam mais difceis, surgem representaes involuntrias, todas elas se enquadrando na categoria de imagens. A incapacidade para o trabalho de representaes 
do tipo que vivenciamos como intencionalmente desejado e o surgimento (habitualmente associado a tais estados de abstrao) de imagens - estas so duas caractersticas 
perseverantes nos sonhos, que a anlise psicolgica dos sonhos nos fora a reconhecer como caractersticas essenciais da vida onrica. J tivemos ocasio de ver 
[pg. 69 e segs.] que essas imagens - alucinaes hipnaggicas - so, elas prprias, idnticas em seu contedo s imagens onricas.
          Os sonhos, portanto, pensam predominantemente em imagens visuais - mas no exclusivamente. Utilizam tambm imagens auditivas e, em menor grau, impresses 
que pertencem aos outros sentidos. Alm disso, muitas coisas ocorrem nos sonhos (tal como fazem normalmente na vida de viglia) simplesmente como pensamentos ou 
representaes - provavelmente, bem entendido, sob a forma de resduos de representaes verbais. No obstante, o que  verdadeiramente caracterstico dos sonhos 
so apenas os elementos de seu contedo que se comportam como imagens, que se assemelham mais s percepes, isto , que so como representaes mnmicas. Deixando 
de lado todos os argumentos, to familiares aos psiquiatras,sobre a natureza das alucinaes, estaremos concordando com todas as autoridades no assunto ao afirmar 
que os sonhos alucinam - que substituem os pensamentos por alucinaes. Nesse sentido, no h distino entre as representaes visuais e acsticas: tem-se observado 
que, quando se adormece com a lembrana de uma seqncia de notas musicais na mente, a lembrana se transforma numa alucinao da mesma melodia; ao passo que, quando 
se volta a acordar - e os dois estados podem alternar-se mais de uma vez durante o processo do adormecimento - a alucinao cede lugar, por sua vez,  representao 
mnmica, que , ao mesmo tempo, mais fraca e qualitativamente diferente dela.
          A transformao de representaes em alucinaes no  o nico aspecto em que os sonhos diferem de pensamentos correspondentes na vida de viglia. Os sonhos 
constroem uma situao a partir dessas imagens; representam um fato que est realmente acontecendo; como diz Spitta (1882, 145), eles "dramatizam" uma idia. Mas 
essa faceta da vida onrica s pode ser plenamente compreendida se reconhecermos, alm disso, que nos sonhos - via de regra, pois h excees que exigem um exame 
especial - parecemos no pensar, mas ter uma experincia: em outras palavras, atribumos completa crena s alucinaes. Somente ao despertarmos  que surge o comentrio 
crtico de que no tivemos nenhuma experincia, mas estivemos apenas pensando de uma forma peculiar, ou, dito de outra maneira, sonhando.  essa caracterstica que 
distingue os verdadeiros sonhos do devaneio, que nunca se confunde com a realidade.
          Burdach (1838, 502 e seg.) resume com as seguintes palavras as caractersticas da vida onrica que examinamos at agora: "Figuram entre as caractersticas 
essenciais dos sonhos: (a) Nos sonhos, a atividade subjetiva de nossa mente aparece de forma objetiva, pois nossas faculdades perceptivas encaram os produtos de 
nossa imaginao como se fossem impresses sensoriais. (...) (b) O sono significa um fim da autoridade do eu. Da o adormecimento trazer consigo certo grau de passividade 
(...) As imagens que acompanham o sono s podem ocorrer sob a condio de que a autoridade do eu seja reduzida."
          O passo seguinte consiste em tentar explicar a crena que a mente deposita nas alucinaes onricas, crena esta que s pode surgir depois de ter cessado 
uma espcie de atividade "autoritria" do eu. Strmpell (1877) argumenta que, neste sentido, a mente executa sua funo corretamente e de conformidade com seu prprio 
mecanismo. Longe de serem meras representaes, os elementos dos sonhos so experincias mentais verdadeiras e reais do mesmo tipo das que surgem no estado de viglia 
atravs dos sentidos.(ibid., 34.) A mente em estado de viglia produz representaes e pensamentos em imagens verbais e na fala; nos sonhos, porm, ela o faz em 
verdadeiras imagens sensoriais. (Ibid., 35.) Alm disso, existe uma conscincia espacial nos sonhos, visto que sensaes e imagens so atribudas a um espao externo, 
tal como o so na viglia. (Ibid., 43.) Se, no obstante, ela comete um erro ao proceder assim,  porque no estado do sono lhe falta o nico critrio que torna possvel 
estabelecer uma distino entre as percepes sensoriais provenientes de fora e de dentro. Ela est impossibilitada de submeter suas imagens onricas aos nicos 
testes que poderiam provar sua realidade objetiva. Alm disso, despreza a distino entre as imagens que s so arbitrariamente intercambiveis e os casos em que 
o elemento do arbtrio se acha ausente. Ela comete um erro por estar impossibilitada de aplicar a lei da causalidade ao contedo de seus sonhos. (Ibid., 50-1.) Em 
suma, o fato de ter-se afastado do mundo externo  tambm a razo de sua crena no mundo subjetivo dos sonhos.
          Delboeuf (1885, 84) chega  mesma concluso aps argumentos psicolgicos um pouco diferentes. Acreditamos na realidade das imagens onricas, diz ele, porque 
em nosso sono no dispomos de outras impresses com as quais compar-las, por estarmos desligados do mundo exterior. Mas a razo pela qual acreditamos na veracidade 
dessas alucinaes no  por ser impossvel submet-las a um teste dentro do sonho. O sonho pode parecer oferecer-nos esses testes: pode deixar-nos tocar a rosa 
que vemos - e, ainda assim, estaremos sonhando. Na opinio de Delboeuf, existe apenas um critrio vlido para determinar se estamos sonhando ou acordados, e esse 
 o critrio puramente emprico do fato de acordarmos. Concluo que tudo o que experimentei entre adormecer e acordar foi ilusrio quando, ao despertar, verifico 
que estou deitado e despido na cama. Durante o sono, tomei as imagens onricas por imagens reais graas a meu hbito mental (que no pode ser adormecido) de supor 
a existncia de um modo externo com o qual estabeleo um contraste com meu prprio ego.
          Assim, o desligamento do mundo externo parece ser considerado como o fator que determina as caractersticas mais marcantes da vida onrica. Vale a pena, 
portanto, citar algumas observaes perspicazes feitas h muito tempo por Burdach, que lanam a luz sobre as relaes entre a mente adormecida e o mundo externo, 
e que so a conta certa para nos impedir de dar grande valor s concluses tiradas nas pginas anteriores. "O sono", escreve ele, "s pode ocorrer sob a condio 
de que a mente no seja irritada por estmulos sensoriais. (...) Mas a precondio real do sono no  tanto a ausncia de estmulos sensoriais, mas antes a falta 
de interesse neles. Algumas impresses sensoriais, a rigor, podem ser necessria para acalmar a mente. Assim, o moleiro s consegue dormir se estiver ouvindo o estalido 
de seu moinho, e quem quer que encare como precauo necessria manter uma lamparina acesa durante a noite acha impossvel dormir no escuro." (Burdach, 1838, 482.)
          "No sono, a mente se isola do mundo externo e se retrai de sua prpria periferia. (...) No obstante, a conexo no se interrompe inteiramente. Se no 
pudssemos ouvir nem sentir enquanto estamos efetivamente adormecidos, mas s depois de acordarmos, seria inteiramente impossvel despertarmos (...) A persistncia 
da sensao  comprovada com mais clareza ainda pelo fato de que o que nos desperta no  sempre a mera fora sensorial deuma impresso, mas seu contexto psquico: 
um homem adormecido no  despertado por uma palavra qualquer mas, se for chamado pelo nome, acorda... Assim, a mente adormecida distingue diferentes sensaes (...) 
 por essa razo que a falta de um estmulo sensorial pode despertar um homem, caso esteja relacionada com algo de importncia representativa para ele; assim  que 
o homem com a lamparina acesa acorda se ela se apagar, e o mesmo acontece com o moleiro, se seu moinho parar. Em outras palavras, ele  despertado pela cessao 
de uma atividade sensorial; e isso implica que tal atividade era percebida por ele, mas, como era indiferente, ou antes, satisfatria, no lhe perturbava a mente." 
(Ibid., 485-6.)
          Mesmo que desprezemos essas objees - e de modo algum elas so insignificantes -, teremos de confessar que as caractersticas da vida onrica que consideramos 
at agora, e que foram atribudas a seu desligamento do mundo externo, no explicam inteiramente seu estranho carter. Pois, de outro modo, deveria ser possvel 
retransformar as alucinaes de um sonho em representaes, e suas situaes em pensamentos, e assim solucionar o problema da interpretao dos sonhos. E isso  
realmente o que fazemos quando, depois de acordar, reproduzimos de memria um sonho; mas, quer consigamos efetuar essa retraduo inteiramente ou apenas em parte, 
o sonho continuar to enigmtico quanto antes.
          E, com efeito, todas as autoridades presumem, sem hesitar, que ainda outras e mais profundas modificaes do material de representaes da vida de viglia 
tm lugar nos sonhos. Strmpell (1877, 27-8) esforou-se por apontar uma dessas modificaes no seguinte trecho: "Com a cessao do funcionamento sensorial e da 
conscincia vital normal, a mente perde o solo onde se enrazam seus sentimentos, desejos, interesses e atividades. Tambm os estados psquicos - sentimentos, interesses, 
juzos de valor -, que esto ligados a imagens mnmicas na vida de viglia, ficam sujeitos a (...) uma presso obscurecedora, como resultado da qual sua ligao 
com tais imagens se rompe; as imagens perceptuais das coisas, pessoas, lugares, acontecimentos e aes na vida de viglia so reproduzidas separadamente em grande 
nmero, mas nenhuma delas leva consigo seu valor psquico. Esse valor  desligado delas e, assim, elas flutuam na mente a seu bel-prazer..." De acordo com Strmpell, 
o fato de as imagens serem despojadas de seu valor psquico (fato este que, por sua vez, remonta ao desligamento do mundo externo) desempenha um papel preponderante 
na criao da impresso de estranheza que distingue os sonhos da vida real em nossa memria.
          J vimos [em [1]] que o adormecimento envolve, de imediato, a perda de uma de nossas atividades mentais, qual seja, nosso poder de imprimir uma orientao 
intencional  seqncia de nossas representaes. Vemo-nos agora diante da sugesto, que afinal  plausvel, de que os efeitos do estado de sono podem estender-se 
a todas as faculdades da mente. Algumas destas parecem ficar inteiramente suspensas, mas surge ento a questo de saber se as demais continuam a funcionar normalmente 
e se, nessas condies, so capazes de trabalho normal. E aqui se pode perguntar se as caractersticas distintivas dos sonhos no podem ser explicadas pela reduo 
da eficincia psquica no estado do sono - uma idia que encontra apoio na impresso causada pelos sonhos em nosso julgamento de viglia. Os sonhos so desconexos, 
aceitam as mais violentas contradies sem a mnima objeo, admitem impossibilidades, desprezam conhecimentos que tm grande importncia para ns na vida diurna 
e nos revelam como imbecis ticos e morais. Quem quer que se comportasse, quando acordado, da maneira peculiar s situaes dos sonhos, seria considerado louco. 
Quem quer que falasse, quando acordado, da maneira como as pessoas falam nos sonhos, ou descrevesse o tipo de coisas que acontecem nos sonhos, dar-nos-ia a impresso 
de ser apalermado ou dbil mental. Parecemos no fazer mais do que pr a verdade em palavras quando expressamos nossa opinio extremamente desfavorvel sobre a atividade 
mental nos sonhos e asseveramos que, neles, as faculdades intelectuais superiores, em particular, ficam suspensas ou, pelo menos, gravemente prejudicadas.
          As autoridades exibem uma inusitada unanimidade - as excees sero tratadas adiante [em [1]] - ao expressarem opinies dessa natureza sobre os sonhos; 
e esses julgamentos levam diretamente a uma teoria ou explicao especfica da vida onrica. Mas  chegado o momento de eu deixar as generalidades e apresentar, 
em seu lugar, uma srie de citaes de vrios autores - filsofos e mdicos - sobre as caractersticas psicolgicas dos sonhos.
          Segundo Lemoine (1855), a "incoerncia" das imagens onricas constitui a caracterstica essencial dos sonhos.
          Maury (1878, 163) concorda com ele: "Il n'y a pas de rves absolument raisonnables et qui ne contiennent quelque incohrence, quelque anachronisme, quelque 
absurdit."
          Spitta [1882, 193] cita Hegel como afirmando que os sonhos so destitudos de qualquer coerncia objetiva e razovel.
          Dugas [1897a, 417] escreve: "Le rve c'est l'anarchie psychique affetive et mentale, c'est le jeu des fonctions livres  elles-mmes e s'exerant sans 
contrle et sans but; dans le rve l'esprit est un automate spirituel".
          Mesmo Volkelt (1875, 14), cuja teoria est longe de considerar a atividade psquica durante o sono como destituda de propsito, fala no "relaxamento na 
desconexo e na confuso da vida ideativa, que no estado de viglia se mantm unida pela fora lgica do ego central."
          O absurdo das associaes de representaes que ocorrem nos sonhos dificilmente poderia ser criticado com mais agudeza do que por Ccero. (De divinatione, 
II, [LXXI, 146]): "Nihil tam praepostere, tam incondite, tam monstruose cogitari potest, quod non possimus somniare."
          Fechner (1889, 2, 522) escreve: " como se a atividade psicolgica tivesse sido transportada do crebro de um homem sensato para o de um idiota."
          Radestock (1879, 145): "De fato, parece impossvel descobrir quaisquer leis fixas nessa atividade louca. Depois de se furtarem ao rigoroso policiamento 
exercido sobre o curso das representaes de viglia pela vontade racional e pela ateno, os sonhos se dissolvem num louco redemoinho de confuso caleidoscpica."
          Hildebrandt (1875, 45): "Que saltos surpreendentes o sonhador  capaz de dar, por exemplo, ao extrair inferncias! Com que calma se dispe a ver as mais 
familiares lies da experincia viradas pelo avesso! Que contradies risveis est pronto a aceitar nas leis da natureza e da sociedade antes que, como se costuma 
dizer, as coisas vo alm de um chiste e a tenso excessiva do contra-senso o desperte. Calculamos, sem nenhum escrpulo, que trs vezes trs so vinte; no ficamos 
nem um pouco surpresos quando um co cita um verso de um poema, ou quando um morto anda at seu tmulo com as prprias pernas, ou quando vemos uma pedra flutuando 
na gua; dirigimo-nos solenemente, numa importante misso, at o Ducado de Bernburg ou Principado de Liechtenstein para inspecionarmos suas foras navais; ou somos 
persuadidos a nos alistar nos exrcitos de Carlos XII pouco antes da batalha de Poltava."
          Binz (1878, 33), tendo em mente a teoria dos sonhos que se baseia em impresses como essas, escreve: "O contedo de pelo menos nove dentre dez sonhos  
absurdo. Neles reunimos pessoas e coisas que no tm a menor relao entre si. No momento seguinte, h uma mudana no caleidoscpio e somos confrontados com um novo 
agrupamento, ainda mais sem nexo e louco, se  que isso  possvel, do que o anterior. E assim prossegue o jogo mutvel do crebro incompletamente adormecido, at 
que despertamos, levamos a mo  testa e ficamos imaginando se ainda possumos a capacidade para idias e pensamentos racionais."
          Maury (1878, 50) encontra um paralelo para a relao entre as imagens onricas e os pensamentos de viglia que h de ser altamente significativo para os 
mdicos. "La production de ces images que chez l'homme veill fait le plus souvent natre la volont, correspond, pour l'intelligence,  ce que sont pour la motilit 
certains mouvementes que nous offre la chore et las affections paralytiques..." E considera os sonhos, alm disso, como "toute une srie de dgradations de la facult 
pensante et raisonnante." (Ibid., 27.)
          Quase no chega a ser necessrio citar os autores que repetem a opinio de Maury em relao s vrias funes mentais superiores. Strmpell (1877, 26), 
por exemplo, observa que nos sonhos - mesmo,  claro, onde no h contra-senso evidente - h um eclipse de todas as operaes lgicas da mente que se baseiam em 
relaes e conexes. Spitta (1882, 148) declara que as representaes que ocorrem nos sonhos parecem estar inteiramente afastadas da lei de causalidade. Radestock 
(1879 [153-4]) e outros autores insistem na fraqueza de julgamento e de inferncia caracterstica dos sonhos. Segundo Jodl (1896, 123), no existe faculdade crtica 
nos sonhos, nenhum poder de corrigir um grupo de percepes mediante referncia ao contedo geral da conscincia. Observa o mesmo autor que "toda sorte de atividade 
consciente ocorre nos sonhos, mas apenas de forma incompleta, inibida e isolada". As contradies em que os sonhos se envolvem com nosso conhecimento de viglia 
so explicadas por Stricker (1879, 98) e muitos outros como causadas por fatos que so esquecidos nos sonhos ou pelo desaparecimento de relaes lgicas entre as 
representaes. E assim por diante.
          No obstante, os autores que costumam adotar uma viso to desfavorvel do funcionamento psquico nos sonhos admitem que ainda resta neles um certo resduo 
de atividade mental. Isso  explicitamente admitido por Wundt, cujas teorias tm exercido uma influncia significativa em muitos outros pesquisadores neste campo. 
Qual , poder-se-ia perguntar, a natureza do resduo de atividade mental normal que persiste nos sonhos? H um consenso mais ou menos geral de que a faculdade reprodutiva, 
a memria, parece ser a que menos sofre, e at mesmo de que mostra certa superioridade a essa mesma funo na vida de viglia (ver Seo B), embora parte dos absurdos 
dos sonhos parea explicvel pela propenso da memria a esquecer. Na opinio de Spitta (1882, 84 e seg.), a parte da mente que no  afetada pelo sono  a vida 
dos nimos, e  esta que dirige os sonhos. Por "nimo" ["Gemt"] ele quer dizer "o conjunto estvel de sentimentos que constitui a mais ntima essncia de um ser 
humano".
          Scholz (1893, 64) acredita que uma das atividades mentais que atua nos sonhos  a tendncia a submeter o material onrico a uma "reinterpretao em termos 
alegricos". Tambm Siebeck (1877, 11) v nos sonhos uma faculdade mental de "interpretao mais ampla", que  exercida sobre todas as sensaes e percepes. H 
uma dificuldade especfica para avaliar a posio que ocupa, nos sonhos, o que constitui, evidentemente, a mais elevada das funes psquicas: a conscincia. Visto 
que tudo o que sabemos dos sonhos provm da conscincia, no pode haver dvida de que ela persiste neles; contudo, Spitta (1882, 84-5) acredita que o que persiste 
nos sonhos  apenas a conscincia, e no a autoconscincia. Delboeuf (1885, 19), no entanto, se confessa incapaz de perceber essa distino.
          As leis de associao que regem a seqncia de representaes so vlidas para as imagens onricas e, a rigor, sua predominncia  ainda mais ntida e 
acentuadamente expressa nos sonhos. "Os sonhos", afirma Strmpell (1877, 70), "seguem seu curso, ao que parece, segundo as leis quer das representaes simples, 
quer dos estmulos orgnicos que acompanham tais representaes - isto , sem serem de forma alguma afetados pela reflexo, pelo bom-senso, ou pelo gosto esttico, 
ou pelo julgamento moral." [Ver em [1] e [2] [3].]
          Os autores cujos pontos de vista estou agora apresentando retratam o processo da formao dos sonhos mais ou menos da seguinte maneira. A totalidade dos 
estmulos sensoriais gerados durante o sono, a partir das vrias fontes que j enumerei [ver Seo C], despertam na mente, em primeiro lugar, diversas representaes 
que aparecem sob a forma de alucinaes, ou, mais propriamente, segundo Wundt [ver em [1]], de iluses, em vista de sua derivao de estmulos externos e internos. 
Essas representaes vinculam-se de acordo com as conhecidas leis da associao e, de conformidade com as mesmas leis, convocam uma outra srie de representaes 
(ou imagens). Todo esse material  ento trabalhado, na medida em que o permita, pelo que ainda resta das faculdades mentais de organizao e pensamento em ao. 
(Ver, por exemplo, Wundt [1874, 658] e Weygandt [1893].) Tudo o que permanece irrevelado so os motivos que decidem se a convocao das imagens decorrentes de fontes 
no externas se processar por uma cadeia de associaes ou por outra.
          J se observou muitas vezes, no entanto, que as associaes que ligam as imagens onricas entre si so de natureza muito especial e diferem das que funcionam 
no pensamento de viglia. Assim, Volkelt (1875, 15) escreve: "Nos sonhos, as associaes parecem travar uma luta livre, de acordo com semelhanas e conexes fortuitas 
que mal so perceptveis. Todos os sonhos esto repletos desse tipo de associaes desalinhadas e superficiais." Maury (1878, 126) atribui enorme importncia a essa 
caracterstica da maneira como as representaes se vinculam nos sonhos, uma vez que ela lhe permite traar uma analogia muito estreita entre a vida onrica e certos 
distrbios mentais. Ele especifica duas caractersticas bsicas de um "dlire": "(1) une action spontane et comme automatique de l'esprit; (2) une association vicieuse 
et irrgulire des ides." O prprio Maury apresenta dois excelentes exemplos de sonhos que ele mesmo teve, nos quais as imagens onricas se ligavam meramente por 
meio de uma semelhana no som das palavras. Certa vez, ele sonhou que estava numa peregrinao (plerinage) a Jerusalm ou Meca; aps muitas aventuras, viu-se visitando 
o qumico Pelletier, que, depois de conversar um pouco, deu-lhe uma p (pelle) de zinco; na parte seguinte do sonho, esta se transformou numa espada de lmina larga. 
(Ibid., 137.) Em outro sonho, estava andando por uma estrada e lendo o nmero de quilmetros nos marcos; a seguir, encontrava-se numa mercearia onde havia uma grande 
balana, e um homem punha nela pesos de quilogramas para pesar Maury; disse-lhe ento o merceeiro: "O senhor no est em Paris, mas na ilha de Gilolo." Seguiram-se 
vrias outras cenas, nas quais ele viu uma Loblia, e depois o General Lopes, sobre cuja morte lera pouco antes. Finalmente, enquanto jogava loto, acordou. (Ibid., 
126.)
          Sem dvida, porm, estaremos aptos a constatar que no se deixou passar em contradio essa baixa estimativa do funcionamento psquico nos sonhos - embora 
a contradio quanto a esse ponto no parea nada fcil. Por exemplo, Spitta (1882, 118), um dos depreciadores da vida onrica, insiste em que as mesmas leis psicolgicas 
que regem a vida de viglia tambm se aplicam aos sonhos; e outro, Dugas (1897a), declara que "le rve n'est pas draison ni mme irraison pure". Mas tais afirmaes 
tm pouco valor, na medida em que seus autores no fazem nenhuma tentativa de concili-las com suas prprias descries da anarquia psquica e da ruptura de todas 
as funes que predominam nos sonhos. Parece, contudo, ter ocorrido a alguns outros autores que a loucura dos sonhos talvez no seja desprovida de mtodo e possa 
at ser simulada, como a do prncipe dinamarqus sobre o qual se fez esse arguto julgamento. Estes ltimos autores no podem ter julgado pelas aparncias, ou ento 
a aparncia a eles apresentada pelos sonhos deve ter sido diferente.
          Assim, Havelock Ellis (1899, 721), sem se deter no aparente absurdo dos sonhos, refere-se a eles como "um mundo arcaico de vastas emoes e pensamentos 
imperfeitos" cujo estudo talvez nos revele estgios primitivos da evoluo da vida mental.
          O mesmo ponto de vista  expresso por James Sully (1893, 362), numa forma que , ao mesmo tempo, mais abrangente e mais perspicaz. Suas palavras merecem 
ainda mais ateno tendo em mente que ele talvez estivesse mais firmemente convencido do que qualquer outro psiclogo de que os sonhos tm um significado disfarado. 
"Ora, nossos sonhos constituem um meio de conservar essas personalidades sucessivas [anteriores]. Quando adormecidos, retornamos s antigas formas de encarar as 
coisas e de senti-las, a impulsos e atividades que nos dominavam muito tempo atrs."
          O sagaz Delboeuf (1885, 222) declara (embora cometa o erro de no apresentar qualquer refutao do material que contradiz sua tese): "Dans le sommeil, 
hormis la perception, toutes les facults de l'esprit, intelligence, imagination, mmoire, volont, moralit, restent intactes dans leur essence; seulement elles 
s'apliquent  des objets imaginaires et mobiles. Le songeur est un acteur qui joue  volont les fous et les sages, les bourreaux et les victimes, les nains et les 
gants, les dmons et les anges."
          O mais ferrenho oponente dos que procuram depreciar o funcionamento psquico nos sonhos parece ser o Marqus d'Hervey de Saint-Denys [1867], com quem Maury 
travou viva controvrsia, e cujo livro, apesar de todos os meus esforos, no consegui obter. Maury (1878, 19) escreve a respeito dele: "M. le Marquis d'Hervey prte 
 l'intelligence durant le sommeil, toute sa libert d'action et d'attention et il ne semble faire consister le sommeil que dans l'occlusion des sens, dans leur 
fermeture au monde extrieur; en sorte que l'homme qui dort ne se distingue gure, selon sa manire de voir, de l'homme qui laisse vaguer sa pense en se bouchant 
les sens; toute la diffrence qui spare alors la pense ordinaire de celle du dormeur c'est que, chez celui-ci, l'ide prend une forme visible, objective et ressemble, 
 s'y mprendre,  la sensation dtermine par les objetes extrieurs; le souvenir revt l'apparence du fait prsent." A isso Maury acrescenta "qu'il y a une diffrence 
de plus et capitale  savoir que les facults intellectuelles de l'homme endormi n'offrent pas l'quilibre qu'elles gardent chez l'homme veill."
          Vaschide (1911, 146 e seg.) nos fornece uma exposio mais clara do livro de Hervey de Saint-Denys e cita dele um trecho [1867, 35] sobre a aparente incoerncia 
dos sonhos: "L'image du rve est la copie de l'ide. Le pincipal est l'ide; la vision n'est qu'accessoire. Ceci tabli, il faut savior suivre la marche des ides, 
il faut savoir analyser le tissu des rves; l'incohrence devientes... alors comprhensible, les conceptions les plus fantasques deviennent des faits simples et 
parfaitement logiques- Les rves les plus bizarres trouvent mme une explication des plus logiques quand on sait les analyser."
          Johan Strcke (1913, 243) salientou que uma explicao semelhante da incoerncia dos sonhos fora proposta por um autor mais antigo, Wolf Davidson (1799, 
136), cuja obra me era desconhecida; "Todos os notveis saltos dados por nossas representaes nos sonhos tm sua base na lei da associao; s vezes, contudo, essas 
conexes ocorrem na mente de maneira muito obscura, de modo que muitas vezes nossas representaes parecem ter dado um salto, quando, de fato, no houve salto algum."
          A literatura sobre o assunto mostra, assim, uma gama muito ampla de variao quanto ao valor que ela atribui aos sonhos como produtos psquicos. Essa amplitude 
se estende desde o mais profundo menosprezo, do tipo com que nos familiarizamos, passando por indcios de uma valorizao ainda no revelada, at uma supervalorizao 
que coloca os sonhos numa posio muito mais elevada do que qualquer das funes da vida de viglia. Hildebrandt (1875, 19 e seg.), que, como j soubemos [ver em 
[1]], enfeixou todas as caractersticas psicolgicas da vida onrica em trs antinomias, vale-se dos dois pontos extremos dessa faixa de valores para compor seu 
terceiro paradoxo: "trata-se de um contraste entre uma intensificao da vida mental, um realce dela que no raro corresponde ao virtuosismo e, por outro lado, uma 
deteriorao e um enfraquecimento que muitas vezes submergem abaixo do nvel da humanidade. No tocante  primeira, poucos h dentre ns que no possam afirmar, por 
nossa prpria experincia, que vez por outra surge, nas criaes e tramas do gnio dos sonos, uma tal profundeza e intimidade da emoo, uma delicadeza do sentimento, 
uma clareza de viso, uma sutileza de observao e um tal brilho do esprito que jamais alegaramos ter permanentemente a nosso dispor em nossa vida de viglia. 
H nos sonhos uma encantadora poesia, uma alegoria arguta, um humor incomparvel, uma rara ironia. O sonho contempla o mundo  luz de um estranho idealismo e, muitas 
vezes, reala os efeitos do que v pela profunda compreenso de sua natureza essencial. Retrata a beleza terrena ante nossos olhos num esplendor verdadeiramente 
celestial e reveste a dignidade com a mais alta majestade; mostra-nos nossos temores cotidianos da mais aterradora forma e converte nosso divertimento em chistes 
de uma pungncia indescritvel. E algumas vezes, quando estamos acordados e ainda sob o pleno impacto de uma experincia como essa, no podemos deixar de sentir 
que jamais em nossa vida o mundo real nos ofereceu algo que lhe fosse equivalente."
          Podemos muito bem perguntar se os comentrios depreciativos citados nas pginas anteriores e esse entusistico elogio tm alguma possibilidade de estar 
relacionados com a mesma coisa. Ser que algumas de nossas autoridades desprezaram os sonhos disparatados, e outras, os profundos e sutis? E, se ocorrerem sonhos 
de ambas as espcies, sonhos que justificam ambos os julgamentos, no seria um desperdcio de tempo buscar qualquer caracterstica psicolgica distintiva dos sonhos? 
No ser bastante dizer que nos sonhos tudo  possvel - desde a mais profunda degradao da vida mental at uma exaltao dela que  rara nas horas de viglia? 
Por mais conveniente que fosse uma soluo desse tipo, o que se ope a ela  o fato de que todos os esforos para pesquisar o problema dos sonhos parecem basear-se 
na convico de que realmente existe uma caracterstica distintiva, que  universalmente vlida em seus contornos essenciais e que limparia do caminho essas aparentes 
contradies.
          No h dvida de que as realizaes psquicas dos sonhos receberam um reconhecimento mais rpido e mais caloroso durante o perodo intelectual que agora 
ficou para trs, quando a mente humana era dominada pela filosofia, e no pelas cincias naturais exatas. Pronunciamentos como o de Schubert (1814, 20 e seg.), de 
que os sonhos constituem uma libertao do esprito em relao ao poder da natureza externa, uma liberao da alma entre os grilhes dos sentidos, e outros comentrios 
semelhantes do jovem Fichte (1864, 1, 143 e seg.) e de outros, todos os quais retratam os sonhos como uma elevao da vida mental a um nvel superior, parecem-nos 
agora quase ininteligveis; hoje em dia, so repetidos apenas pelos msticos e pelos carolas. A introduo do modelo de pensamento cientfico trouxe consigouma reao 
na apreciao dos sonhos. Os autores mdicos, em especial, tendem a considerar a atividade psquica nos sonhos como trivial e desprovida de valor, enquanto os filsofos 
e os observadores no profissionais - os psiclogos amadores - cujas contribuies para esse assunto especfico no devem ser desprezadas - tm conservado (numa 
afinidade mais estreita com o sentimento popular) a crena no valor psquico dos sonhos. Quem quer que se incline a adotar uma viso depreciativa do funcionamento 
psquico nos sonhos preferir, naturalmente, atribuir a fonte deles  estimulao somtica; ao passo que os que acreditam que a mente preserva, ao sonhar, a maior 
parte de suas capacidades de viglia no tm nenhuma razo,  claro, para negar que o estmulo ao sonho pode surgir dentro da prpria mente que sonha.
          Dentre as faculdades superiores que at uma sbria comparao pode inclinar-se a atribuir  vida onrica, a mais acentuada  a da memria; j examinamos 
longamente [na Seo B] as provas nada incomuns em defesa desse ponto de vista. Outro ponto de superioridade da vida onrica, muitas vezes louvado pelos autores 
mais antigos - o de que ela se eleva acima da distncia no tempo e no espao -, pode ser facilmente comprovado como no tendo base nos fatos. Como frisa Hildebrandt 
(1875, [25]), essa vantagem  ilusria, pois o sonhar se eleva acima do tempo e do espao precisamente da mesma forma que o pensamento de viglia, e pela simples 
razo de que ele  apenas uma forma de pensamento. Tem-se alegado, em defesa dos sonhos, que eles desfrutam ainda de outra vantagem sobre a vida de viglia em relao 
ao tempo - que so independentes da passagem do tempo ainda sob outro aspecto. Sonhos como o que teve Maury com seu prprio guilhotinamento (ver pg. [1]) parecem 
indicar que um sonho  capaz de comprimir um espao muito maior do que a quantidade de material de representaes com que pode lidar nossa mente em estado de viglia. 
Essa concluso, no entanto, tem sido contestada por vrios argumentos; desde o trabalho de Le Lorrain (1894) e Egger (1895) sobre a durao aparente dos sonhos, 
desenvolveu-se um longo e interessante debate sobre o assunto, mas parece improvvel que a ltima palavra j tenha sido dita acerca dessa questo sutil e das profundas 
implicaes que ela envolve.
          Relatos de numerosos casos, bem como a coletnea de exemplos feitos por Chabaneix (1897), parecem tornar indiscutvel o fato de que os sonhos so capazes 
de dar prosseguimento ao trabalho intelectual diurno e lev-lo a concluses que no foram alcanadas durante o dia, e que podem resolver dvidas e problemas e constituir 
a fonte de uma nova inspirao para os poetas e compositores musicais. Mas, embora o fato seja indiscutvel, suas implicaes esto abertas a muitas dvidas, que 
levantam questes de princpio.
          Por fim, considera-se que os sonhos tm o poder de adivinhar o futuro. Temos aqui um conflito em que um ceticismo quase insupervel se defronta com asseres 
obstinadamente repetidas. Sem dvida alguma, estaremos agindo com acerto no insistindo em que esse ponto de vista no tem nenhum fundamento nos fatos, pois  possvel 
que, dentro em breve, muitos dos exemplos citados venham a encontrar explicao no mbito da psicologia natural.
          
          (F) O SENTIDO MORAL NOS SONHOS
          
          Por motivos que s se tornaro evidentes depois que minhas pesquisas sobre os sonhos forem levadas em conta, isolei do assunto da psicologia dos sonhos 
o problema especial de determinar se e at que ponto as inclinaes e sentimentos morais se estendem at a vida onrica. Tambm aqui nos vemos diante dos mesmos 
pontos de vista contraditrios que, curiosamente, vimos adotados por diferentes autores no tocante a todas as outras funes da mente durante os sonhos. Alguns asseveram 
que os ditames da moralidade no tm lugar nos sonhos, enquanto outros sustentam no menos categoricamente que o carter moral do homem persiste em sua vida onrica.
          O recurso  experincia comum dos sonhos parece estabelecer, sem sombra de dvida, a correo do primeiro desses pontos de vista. Jessen (1855, 553) escreve: 
"Tampouco nos tornamos melhores nem mais virtuosos no sono. Pelo contrrio, a conscincia parece ficar silenciosa nos sonhos, pois neles no sentimos nenhuma piedade 
e podemos cometer os piores crimes - roubo, violncia e assassinato - com completa indiferena e sem quaisquer sentimentos posteriores de remorso."
          Radestock (1879, 164): "Deve-se ter em mente que ocorrem associaes e vinculam-se representaes nos sonhos sem nenhum respeito pela reflexo, bom-senso, 
gosto esttico ou julgamento moral. O julgamento extremamente fraco e a indiferena tica reina, suprema."
          Volkelt (1875, 23): "Nos sonhos, como todos sabemos, os procedimentos so particularmente irrefreados nos assuntos sexuais. O prprio indivduo que sonha 
fica inteiramente despudorado e destitudo de qualquer sentimento ou julgamento moral; alm disso, v todos os demais, inclusive aqueles por quem nutre o mais profundo 
respeito, entregues a atos com os quais ficaria horrorizado em associ-los quando acordado, at mesmo em seus pensamentos."
          Em oposio diametral a estas, encontramos declaraes como a de Schopenhauer [1862, 1, 245], no sentido de que qualquer pessoa que aparea num sonho age 
e fala em completo acordo com seu carter. K. P. Fischer (1850, 72 e seg.), citado por Spitta (1882, 188), declara que os sentimentos e anseios subjetivos, ou os 
afetos e as paixes, revelam-se na liberdade da vida onrica, e que as caractersticas morais das pessoas se refletem em seus sonhos.
          Haffner (1887, 251): "Com raras excees (...) o homem virtuoso  virtuoso tambm em seus sonhos; resiste s tentaes e se mantm afastado do dio, da 
inveja, da clera e de todos os outros vcios. Mas o pecador, em geral, encontra em seus sonhos as mesmas imagens que tinha ante seus olhos quando acordado."
          Scholz [1893, 62]: "Nos sonhos est a verdade: nos sonhos aprendemos a conhecer-nos tal como somos, a despeito de todos os disfarces que usamos perante 
o mundo [sejam eles enobrecedores ou humilhantes] (...) O homem honrado no pode cometer um crime nos sonhos, ou, se o fizer, ficar to horrorizado com isso como 
com algo contrrio  sua natureza. O imperador romano que condenou  morte um homem que sonhara ter assassinado o governante estaria justificado em faz-lo, se raciocinasse 
que os pensamentos que se tm nos sonhos tambm se tm quando em estado de viglia. A expresso corriqueira 'eu nem sonharia em fazer tal coisa' tem um significado 
duplamente correto, quando se refere a algo que no pode encontrar guarida em nosso corao nem em nossa mente." (Plato, ao contrrio, considerava que os melhores 
homens so aqueles que apenas sonham com o que os outros fazem em sua vida de viglia.)
          Pfaff (1868, [9]), citado por Spitta (1882, 192), altera a formulao de um ditado familiar: "Diz-me alguns de teus sonhos e te direi quem  teu eu interior."
          O problema da moral nos sonhos  tomado como o centro do interesse por Hildebrandt, de cujo pequeno volume j fiz tantaz citaes - pois, de todas as contribuies 
ao estudo dos sonhos com que deparei, ele  o mais perfeito quanto  forma e o mais rico de idias. Tambm Hildebrandt [1875, 54] formula como norma que, quanto 
mais pura a vida, mais puro o sonho, e quanto mais impura aquela, mais impuro este. Ele cr que a natureza moral do homem persiste nos sonhos. "Enquanto", escreve 
ele, "at o mais grosseiro erro de aritmtica, at a mais romntica inverso das leis cientficas, at o mais ridculo anacronismo deixa de nos perturbar, ou mesmo 
de despertar nossas suspeitas, nunca perdemos de vista a distino entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, ou entre a virtude e o vcio. No importa quanto 
do que nos acompanha durante o dia desaparea em nossas horas de sono, oimperativo categrico de Kant  um companheiro que nos segue to de perto em nossos calcanhares 
que no nos podemos ver livres dele nem quando adormecidos, (...) Mas isso s pode ser explicado pelo fato de que o que  fundamental na natureza do homem, seu ser 
moral, est fixado com firmeza demais para ser afetado pelo embaralhamento caleidoscpico ao qual a imaginao, a razo, a memria e outras dessas faculdades tm 
de se submeter nos sonhos." (Ibid., 45 e seg.)
           medida que prossegue o debate sobre esse assunto, contudo, ambos os grupos de autores comeam a exibir notveis mudanas e incoerncias em suas opinies. 
Os que sustentam que a personalidade moral do homem deixa de funcionar nos sonhos deveriam, pelo rigor da lgica, perder todo o interesse nos sonhos imorais. Poderiam 
rejeitar qualquer tentativa de responsabilizar o sonhador por seus sonhos, ou de deduzir da maldade de seus sonhos que haveria um trao maligno em seu carter, com 
a mesma confiana com que rejeitariam uma tentativa semelhante de deduzir do absurdo de seus sonhos que as atividades intelectuais dele, na vida de viglia, seriam 
destitudas de valor. O outro grupo, que acredita que o "imperativo categrico" se estende aos sonhos, deveria logicamente aceitar uma responsabilidade irrestrita 
pelos sonhos imorais. S nos restaria esperar, pelo bem deles, que eles mesmos no tivessem tais sonhos repreensveis, capazes de perturbar sua slida crena em 
seu prprio carter moral.
          Parece, no entanto, que ningum  to confiante assim quanto a at que ponto  bom ou mau, e que ningum pode negar a lembrana de ter tido seus prprios 
sonhos imorais. Pois os autores de ambos os grupos, independentemente da oposio entre suas opinies sobre a moralidade onrica, fazem esforos para explicar a 
origem dos sonhos imorais; e surge uma nova diferena de opinio, conforme a origem deles seja baseada nas funes da mente ou nos efeitos perniciosos produzidos 
na mente por causas somticas. Assim, a lgica imperativa dos fatos compele tanto os defensores da responsabilidade como da irresponsabilidade da vida onrica a 
se aliarem no reconhecimento de que a imoralidade dos sonhos tem uma fonte psquica especfica.
          Os que crem que a moral se estende aos sonhos, porm, mostram-se cautelosos para evitar assumir completa responsabilidade por seus sonhos. Assim, escreve 
Haffner (1887, 250): "No somos responsveis por nossos sonhos, visto que neles nosso pensamento e nossa vontade so privados do nico fundamento com base no qual 
nossa vida possui verdade e realidade. (...) Por essa razo, nenhum desejo onrico ou ao onrica pode ser virtuoso ou pecaminoso." No obstante, prossegue ele, 
os homens so responsveis por seus sonhos pecaminosos na medida em que os provocam indiretamente.Eles tm o dever de limpar moralmente suas mentes, no s na vida 
de viglia como tambm, mas especialmente, antes de irem dormir.
          Hildebrandt [1875, 48 e seg.] nos fornece uma anlise muito mais profunda dessa mescla de rejeio e aceitao da responsabilidade pelo contedo moral 
dos sonhos. Argumenta que, ao considerar a aparncia imoral dos sonhos, deve-se fazer uma concesso  forma dramtica em que eles se expressam,  compresso que 
fazem dos mais complicados processos de reflexo nos mais curtos perodos de tempo, e tambm  forma pela qual, como at ele admite, os elementos de representao 
se tornam confusos e privados de sua significncia. Ainda assim, Hildebrandt confessa que sente enorme hesitao, em pensar que toda a responsabilidade pelos pecados 
e erros dos sonhos pode ser repudiada.
          "Quando estamos ansiosos por negar alguma acusao injusta, especialmente uma acusao que se relacione com nossos objetivos e intenes, muitas vezes 
usamos a frase 'eu nunca sonharia com tal coisa'. Desse modo expressamos, por um lado, nosso sentimento de que a regio dos sonhos  a mais remota e distante das 
reas em que somos responsveis por nossos pensamentos, j que os pensamentos nessa regio acham-se to frouxamente ligados com nosso eu essencial que mal podem 
ser considerados como nossos; mas, ainda assim, visto nos sentirmos expressamente obrigados a negar a existncia desses pensamentos nessa regio, admitimos indiretamente, 
ao mesmo tempo, que nossa autojustificao no seria completa caso no se estendesse at esse ponto. E penso que nisso falamos, embora inconscientemente, a linguagem 
da verdade." (Ibid., 49.)
          " impossvel pensar em qualquer ato de um sonho cuja motivao original no tenha passado, de um modo ou de outro - fosse como desejo, anseio ou impulso 
-, atravs da mente desperta." Devemos admitir, prossegue Hildebrandt, que esse impulso original no foi inventado pelo sonho; o sonho simplesmente o copiou e desdobrou, 
meramente elaborou de forma dramtica um fragmento de material histrico que encontrou em ns; meramente dramatizou as palavras do Apstolo: "Todo aquele que odeia 
seu irmo  assassino." [1 Joo 3, 15.] E embora, depois de acordarmos, conscientes da nossa fora moral, possamos sorrir de toda a elaborada estrutura do sonho 
pecaminoso, mesmo assim o material original de que derivou a estrutura no conseguir despertar um sorriso. Sentimo-nos responsveis pelos erros do sonhador - no 
por sua totalidade, mas por uma certa percentagem. "Em suma, se compreendemos, nesse sentido quase incontestvel, as palavras de Cristo, de que 'do corao procedem 
os maus pensamentos' [Mateus 15, 19], dificilmente escaparemos  convico de queum pecado cometido num sonho traz em si pelo menos um mnimo obscuro de culpa." 
(Hildebrandt, 1875, 51 e segs.)
          Assim, Hildebrandt encontra a fonte da imoralidade dos sonhos nos germes e indcios de impulsos malficos que, sob a forma de tentaes, atravessam nossa 
mente durante o dia; e ele no hesita em incluir esses elementos imorais em sua estimativa do valor moral de uma pessoa. Esses mesmos pensamentos, como sabemos, 
e essa mesma avaliao deles,  que conduziram os devotos e santos de todas as pocas a se confessarem mseros pecadores.
          Naturalmente, no h dvida quanto  existncia geral de tais representaes incompatveis; elas ocorrem na maioria das pessoas e em outras esferas que 
no a da tica. Por vezes, entretanto, tm sido julgadas com menos seriedade. Spitta (1882, 194) cita algumas observaes de Zeller [1818, 120-1] que so relevantes 
a esse respeito: " raro uma mente ser to bem organizada a ponto de possuir completo poder em todos os momentos e de no ter o curso regular e livre de seus pensamentos 
constantemente interrompido, no s por representaes no essenciais como tambm por representaes decididamente grotescas e disparatadas. Com efeito, os maiores 
pensadores viram-se obrigados a se queixar dessa confuso oniride, incmoda e torturante de representaes que perturbava suas reflexes mais profundas e seus mais 
solenes e sinceros pensamentos."
          Uma luz mais reveladora  lanada sobre a posio psicolgica dessas idias incompatveis por meio de outra observao de Hildebrandt (1875, 55), no sentido 
de que os sonhos nos proporcionam um vislumbre ocasional de profundezas e recessos de nossa natureza a que em geral no temos acesso em nosso estado de viglia. 
Kant expressa a mesma idia num trecho de sua Anthropologie [1798], onde declara que os sonhos parecem existir para nos mostrar nossas naturezas ocultas e nos revelar 
no o que somos, mas o que poderamos ter sido se tivssemos sido criados de maneira diferente. Radestock (1879, 84) afirma igualmente que, com freqncia, os sonhos 
no fazem mais do que nos revelar o que no admitiramos para ns mesmos, e que,portanto,  injusto de nossa parte estigmatiz-los como mentirosos e impostores. 
Erdmann [1852, 115] escreve: "Os sonhos nunca me mostraram o que devo pensar de um homem; mas, ocasionalmente, tenho descoberto por meio de um sonho, para meu prprio 
grande assombro, o que realmente penso de um homem e como me sinto em relao a ele." De modo semelhante, I. H. Fichte (1864, 1, 539) observa: "A natureza de nossos 
sonhos proporciona um reflexo muito mais verdadeiro de toda a nossa inclinao do que somos capazes de descobrir sobre ela por meio da auto-observao na vida de 
viglia."
          Observa-se que o surgimento de impulsos alheios a nossa conscincia moral  meramente anlogo ao que j aprendemos - ao fato de os sonhos terem acesso 
a um material ideativo que est ausente em nosso estado de viglia ou desempenha nele apenas um pequeno papel. Assim, escreve Benini (1898, 149): "Certe nostre inclinazioni 
che si credevano soffocate e spente da un pezzo, si ridestano; passioni vecchie e sepolte rivivono: cose e persone a cui non pensiamo mai, ci vengono dinanzi." E 
Volkelt (1875, 105): "Tambm algumas representaes que penetraram na conscincia de viglia quase despercebidas, e que talvez nunca tenham sido re-evocadas pela 
memria, com muita freqncia anunciam sua presena na mente atravs de sonhos." A esta altura, finalmente, podemos relembrar a assero de Schleiermacher [ver em 
[1]] de que o ato de adormecer  acompanhado pelo aparecimento de "representaes involuntrias" ou imagens involuntrias.
          Podemos, portanto, classificar em conjunto, sob a epgrafe de "representaes involuntrias", todo o material de representaes cujo surgimento, tanto 
nos sonhos imorais quanto nos sonhos absurdos, nos causa tanto espanto. H, porm, um importante ponto de diferenciao: as representaes involuntrias na esfera 
moral contradizem nossa atitude mental costumeira, ao passo que as outras simplesmente nos causam uma impresso de estranheza. Ainda no se tomou nenhuma providncia 
no sentido de um conhecimento mais profundo que pudesse solucionar essa distino.
          Surge em seguida a questo da importncia do aparecimento de representaes involuntrias nos sonhos, da luz que pode ser lanada pelo surgimento noturno 
desses impulsos moralmente incompatveis na psicologia da mente desperta e da que sonha. E aqui encontramos uma nova diviso de opinies e mais um agrupamento diferente 
das autoridades. A linha de pensamento adotada por Hildebrandt e outros que partilham de sua posio fundamental conduz, inevitavelmente,  viso de que os impulsos 
morais possuem certo grau de poder at mesmo na vida de viglia, embora seja um poder inibido, incapaz de se impor  ao, e que, no sono, desativa-se algo que atua 
como uma inibio durante o dia e nos impede de nos conscientizarmos da existncia de tais impulsos. Assim, os sonhos revelariam a verdadeira natureza do homem, 
embora no toda a sua natureza, e constituiriam um meio de tornar o interior oculto da mente acessvel a nosso conhecimento.  somente em premissas como essas que 
Hildebrandt [1875, 56] pode basear sua atribuio aos sonhos de poderes de advertncia, que atraem nossa ateno para as fraquezas morais de nossa mente, da mesma 
forma que os mdicos admitem que os sonhos podem trazer males fsicos no observados a nossa ateno consciente. Do mesmo modo, Spitta deve estar adotando esse ponto 
de vista quando, ao falar [1882, 193 e seg.] nas fontes de excitao que afetam a mente (na puberdade, por exemplo), consola o sonhador com a certeza de que ele 
ter feito tudo o que est em seu poder se levar uma vida rigorosamente virtuosa em suas horas de viglia, e se tomar o cuidado de suprimir os pensamentos pecaminosos 
sempre que eles surgirem, e de impedir sua maturao e transformao em atos. Segundo essa viso, poderamos definir as "representaes involuntrias" como "representaes 
que foram "suprimidas" durante o dia, e teramos de encarar seu surgimento como um fenmeno mental autntico.
          Outros autores, porm, consideram injustificvel esta ltima concluso. Assim, Jessen (1855, 360) acredita que as representaes involuntrias, tanto nos 
sonhos como no estado de viglia, e tambm nos estados febris e outras situaes de delrio, "tm o carter de uma atividade volitiva que foi posta em repouso e 
de uma sucesso mais ou menos mecnica de imagens e representaes provocadas por impulsos internos". Tudo o que um sonho imoral prova quanto  vida mental do sonhador 
 que, segundo a viso de Jessen, em alguma ocasio ele teve conhecimento do contedo de representaes em questo; certamente no constitui evidncia de um impulso 
mental prprio do sonhador.
          No tocante a outro autor, Maury, chega quase a parecer que tambm ele atribui ao estado onrico uma capacidade no de destruio arbitrria da atividade 
mental, mas de decomposio dela em seus elementos constitutivos. Assim escreve ele sobre os sonhos que transgridem os ditames da moral: "Ce sont nos penchants qui 
parlent et qui nous font agir, sans que la conscience nous retienne, bien que parfois elle nous avertisse. J'ai mes dfauts et mes penchants vicieux;  l'tat de 
veille je tche de lutter contre eux, et il m'arrive assez souvent de n'y pas succomber. Mais dans mes songes j'y succombe toujours ou pour mieux dire j'agis par 
leur impulsion, sans crainte et sans remords. (...) Evidemment les visions qui se droulent devant ma pense et qui constituen le rve, me sont suggres par les 
incitations que je ressens et que ma volont absente ne cherche pas  refouler." (Maury, 1878, 113.)
          Ningum que acredite na capacidade dos sonhos de revelar uma tendncia imoral do sonhador, a qual esteja realmente presente, embora suprimida ou oculta, 
poderia expressar seu ponto de vista mais precisamente do que nas palavras de Maury: "En rve l'homme se rvle donc tout entier  soi-mme dans sa nudit et sa 
misre natives. Ds qu'il suspend l'exercice de sa volont, il devient le jouet de toutes les passions contres lesquelles,  l'tat de veille, la conscience, le 
sentiment de l'honneur, la crainte nous dfendent." (Ibid., 165.) Num outro trecho encontramos as seguintes frases pertinentes: "Dans le songe, c'est surtout l'homme 
instinctif qui se rvle. (...) L'homme revient pour ainsi dire  l'tat de nature quand il rve; mais moins les ides acquises ont pntr dans encore sur lui l'influence 
dans le rve." (Ibid., 462.) E Maury prossegue relatando,  guisa de exemplo, como, em seus sonhos, ele , no raro, vtima da prpria superstio que combate em 
seus textos com particular veemncia.
          Essas reflexes penetrantes de Maury, contudo, perdem seu valor na investigao da vida onrica, pelo fato de ele considerar os fenmenos que observou 
com tanta exatido como no passando de provas de um "automatisme psychologique" que, em sua opinio, domina os sonhos, e que ele encara como o oposto exato da atividade 
mental.
          Stricker (1879, [51]) escreve: "Os sonhos no consistem unicamente em iluses. Quando, por exemplo, num sonho algum tem medo de ladres, os ladres,  
verdade, so imaginrios - mas o medo  real." Isso nos chama a ateno para o fato de os afetos nos sonhos no poderem ser julgados da mesma forma que o restante 
de seu contedo; e nos confrontamos com o problema de determinar que parte dos processos psquicos que ocorrem nos sonhos deve ser tomada como real, isto , que 
parte tem o direito de figurar entre os processos psquicos da vida de viglia.
          
          (G) TEORIAS DO SONHAR E DE SUA FUNO
          
          Qualquer investigao sobre os sonhos que procure explicar o maior nmero possvel de suas caractersticas observadas de um ponto de vista particular, 
e que, ao mesmo tempo, defina a posio ocupada pelos sonhos numa esfera mais ampla de fenmenos merece ser chamada de teoria dos sonhos. Verificaremos que as vrias 
teorias diferem no sentido de selecionarem uma ou outra caracterstica dos sonhos como sendo a essencial e de tornarem-na como ponto de partida para suas explicaes 
e correlaes. No precisa ser necessariamente possvel inferir uma funo do sonhar (seja ela utilitria ou no) a partir da teoria. No obstante, visto termos 
o hbito de buscar explicaes teleolgicas, estaremos mais propensos a aceitar teorias que estejam ligadas com a atribuio de uma funo ao sonhar.
          J travamos conhecimento com vrios grupos de pontos de vista que merecem ser mais ou menos intitulados de teorias dos sonhos neste sentido do termo. A 
crena sustentada na Antiguidade de que os sonhos eram enviados pelos deuses para orientar as aes dos homens constitua uma teoria completa dos sonhos, proporcionando 
informaes sobre tudo o que valia a pena saber a respeito deles. Desde que os sonhos passaram a ser objeto da pesquisa cientfica, desenvolveu-se um nmero considervel 
de teorias, inclusive algumas que so extremamente incompletas.
          Sem a inteno de fazer qualquer enumerao exaustiva, podemos tentar dividir as teorias dos sonhos, grosso modo, nos trs seguintes grupos, conforme seus 
pressupostos subjacentes quanto ao volume e  natureza da atividade psquica nos sonhos.
          (1) Existem teorias, como a de Delboeuf [1885, 221 e seg.], segundo as quais a totalidade psquica continua nos sonhos. A mente, presumem elas, no dorme, 
e seu aparelho permanece intacto; como se enquadra nas condies do estado de sono, que diferem das da vida de viglia, seu funcionamento normal necessariamente 
produz resultados diferentes durante o sono. Surge, no tocante a essas teorias, a questo de saber se elas so capazes de extrair todas as distines do estado de 
sono. Alm disso, no h nenhuma possibilidade de elas poderem sugerir qualquer funo para o sonhar; elas no fornecem nenhuma razo pela qual devamos sonhar, pela 
qual o complexo mecanismo do aparelho psquico deva continuar a funcionar mesmo quando colocado em circunstncias para as quais no parece destinar-se. As nicas 
reaes adequadas pareceriam ser ou o sono sem sonhos, ou, havendo interferncia de estmulos perturbadores, o despertar - e no a terceira alternativa, a de sonhar.
          (2) Existem as teorias que, pelo contrrio, pressupem que os sonhos implicam um rebaixamento da atividade psquica, um afrouxamento das conexes e um 
empobrecimento do material acessvel. Essas teorias implicam atriburem-se ao sono caractersticas inteiramente diferentes das sugeridas, por exemplo, por Delboeuf. 
O sono, segundo essas teorias, exerce vasta influncia sobre a mente; no consiste apenas no isolamento da mente em relao ao mundo externo; em vez disso, ele se 
impe ao mecanismo mental e o deixa temporariamente fora de uso. Se  que posso arriscar uma analogia extrada da esfera da psiquiatria, direi que o primeiro grupo 
de teorias interpreta os sonhos segundo o modelo da parania, enquanto o segundo grupo faz com que eles assemelhem  deficincia mental ou aos estados confusionais.
          A teoria segundo a qual apenas um fragmento da atividade psquica encontra expresso nos sonhos, por ter sido paralisada pelo sono,  de longe a mais popular 
entre os autores mdicos e no mundo cientfico em geral. Tanto quanto se possa presumir que haja um interesse geral na explicao dos sonhos, esta pode ser descrita 
como a teoria dominante. Convm notar com que facilidade essa teoria evita o pior obstculo no caminho de qualquer explicao dos sonhos - a dificuldade de lidar 
com as contradies envolvidas neles. Ela encara os sonhos como o resultado de um despertar parcial - "um despertar gradativo, parcial e, ao mesmo tempo, altamente 
anormal", para citar um comentrio de Herbart sobre os sonhos (1892, 307). Assim, essa teoria pode valer-se de uma srie de condies de um crescente estado de viglia, 
culminando no estado completamente desperto, a fim de explicar a srie de variaes na eficincia do funcionamento mental nos sonhos, indo desde a ineficincia revelada 
por seu absurdo ocasional at o funcionamento intelectual plenamente concentrado. [Ver em [1].]
          Os que julgam no poder dispensar uma colocao em termos da fisiologia, ou para os quais uma afirmao nesses termos parece mais cientfica, encontraro 
o que procuram na explicao dada por Binz (1878, 43): "Esse estado" (de torpor) "chega ao fim nas primeiras horas da manh, mas apenas gradativamente. Os produtos 
da fadiga que se acumularam na albumina do crebro diminuem gradualmente; uma quantidade cada vez maior deles  decomposta ou eliminada pelo fluxo incessante da 
corrente sangunea. Aqui e ali, grupos isolados de clulas comeam a despontar no estado de viglia enquanto o estado de torpor ainda persiste em torno delas. O 
trabalho isolado desses grupos separados surge ento diante de nossa conscincia obscurecido de associao. Por esse motivo, as imagens produzidas, que correspondem, 
em sua maior parte, a impresses materiais do passado mais recente, so concatenadas de maneira tumultuada e irregular. O nmero das clulas cerebrais liberadas 
cresce continuamente, enquanto a insensatez dos sonhos vai tendo uma reduo proporcional."
          Essa viso do sonhar como um estado de viglia incompleto e parcial se encontra, sem dvida, nos textos de todos os fisiologistas e filsofos modernos. 
Sua exposio mais elaborada  dada por Maury (1878, 6 e seg.). Muitas vezes,  como se esse autor imaginasse que o estado de viglia ou de sono poderia mudar-se 
de uma regio anatmica para outra, estando cada regio anatmica especfica ligada a uma funo psquica particular. Neste ponto, teo apenas o comentrio de que, 
mesmo que se confirmasse a teoria da viglia parcial, seus detalhes ainda permaneceriam extremamente discutveis.
          Essa viso, naturalmente, no deixa margem para se atribuir qualquer funo ao sonhar. A concluso lgica que dela se infere quanto  posio e ao significado 
dos sonhos  corretamente enunciada por Binz (1878, 35): "Todos os fatos observados foram-nos a concluir que os sonhos devem ser caracterizados como processos somticos 
que, na totalidade dos casos, so inteis, e em muitos deles decididamente patolgicos. (...)"
          A aplicao do termo "somtico" aos sonhos, grifado pelo prprio Binz, tem mais de um sentido. Alude, em primeiro lugar,  etiologia dos sonhos que pareceu 
particularmente plausvel a Binz quando ele estudou a produo experimental de sonhos mediante o emprego de substncias txicas. Isso porque as teorias dessa natureza 
envolvem uma tendncia a limitar a instigao dos sonhos, tanto quanto possvel, s causas somticas. Colocada em sua forma mais extrema, a viso  a seguinte: Uma 
vez que adormecemos pela excluso de todos os estmulos, no h necessidade nem ocasio para sonhar seno com a chegada da manh, quando o processo de ser gradualmente 
acordado pelo impacto dos novos estmulos poderia refletir-se no fenmeno do sonhar.  impraticvel, contudo, manter nosso sono livre dos estmulos; eles incidem 
na pessoa adormecida vindos de todos os lados - como os germes de vida de que se queixava Mefistfeles -, vindo de fora e de dentro,e at de partes do corpo que 
passam inteiramente despercebidas na vida de viglia. Assim, o sono  perturbado; primeiro uma parte da mente  abalada e despertada, e depois, outra; a mente funciona 
por um breve momento com sua parte desperta e, ento, alegra-se em adormecer de novo. Os sonhos so uma reao  perturbao do sono provocada por estmulo - uma 
reao, alis, bastante suprflua.
          Mas a descrio do sonhar - que, afinal de contas, continua a ser uma funo da mente - como um processo somtico implica tambm outro sentido. Destina-se 
a demonstrar que os sonhos no merecem ser classificados como processos psquicos. O sonhar tem sido muitas vezes comparado com "os dez dedos de um homem que nada 
sabe de msica, deslocando-se ao acaso sobre as teclas de um piano" [Strmpell, 1877, 84; ver em [1], adiante]; e esse smile mostra, melhor do que qualquer outra 
coisa, o tipo de opinio que geralmente fazem do sonhar os representantes das cincias exatas. Sob esse prisma, o sonho  algo total e completamente impossvel de 
interpretar, pois como poderiam os dez dedos de algum que no soubesse msica produzir uma pea musical?
          Mesmo no passado distante no faltaram crticos  teoria do estado de viglia parcial. Assim, Burdach (1838, 508 e seg.) escreveu: "Quando se diz que os 
sonhos so um despertar parcial, em primeiro lugar isso no lana nenhuma luz sobre a viglia ou o sono, e, em segundo, nada faz alm de afirmar que, nos sonhos, 
algumas foras mentais ficam ativas enquanto outras se acham em repouso. Mas esse tipo de variabilidade ocorre ao longo de toda a vida."
          Essa teoria dominante, que considera os sonhos como um processo somtico, est subjacente a uma interessantssima hiptese, formulada pela primeira vez 
por Robert, em 1886. Ela  particularmente atraente, pois consegue sugerir uma funo, uma finalidade utilitria, para o sonhar. Robert toma como base para sua teoria 
dois fatos observveis que j consideramos no decurso de nosso exame do material dos sonhos (ver em [1]), a saber, que  muito freqente sonharmos com as impresses 
diurnas mais triviais e que  muito raro transpormos para nossos sonhos os interesses cotidianos importantes. Robert (1866, 10) assevera ser universalmente verdadeiro 
que as coisas que foram minuciosamente elaboradas pelo pensamento nunca se tornam instigadoras de sonhos, mas apenas as que esto em nossa mente numa forma incompleta, 
ou que foram simplesmente tocadas de passagem por nossos pensamentos: "A razo por que costuma ser impossvel explicar os sonhos , precisamente, eles serem causados 
por impresses sensoriais do dia anterior que deixaram de atrair ateno suficiente do sonhador." [Ibid., 19-20.] Portanto, a condio que determina se uma impresso 
penetrar num sonho  ter havido uma interrupo no processo de elaborar essa impresso, ou ter ela sido excessivamente sem importncia para ter o direito de ser 
elaborada.
          Robert descreve os sonhos como "um processo somtico de excreo do qual nos tornamos cnscios em nossa reao mental a ele". [Ibid., 9.] Os sonhos so 
excrees de pensamentos que foram sufocados na origem. "Um homem privado da capacidade de sonhar ficaria, com o correr do tempo, mentalmente transtornado, pois 
uma grande massa de pensamentos incompletos e no elaborados e de impresses superficiais se acumularia em seu crebro e, por seu grande volume, estaria fadada a 
sufocar os pensamentos que deveriam ser assimilados em sua memria como conjuntos completos." [Ibid., 10.] Os sonhos servem de vlvula de escape para o crebro sobrecarregado. 
Possuem o poder de curar e aliviar. (Ibid., 32.)
          Faramos uma interpretao errnea de Robert se lhe perguntssemos como pode a mente ser aliviada pela representao nos sonhos. O que Robert faz, evidentemente, 
 inferir dessas duas caractersticas do material onrico que, de um modo ou de outro, uma expulso de impresses sem valor se realiza durante o sono como um processo 
somtico, e que o sonhar no constitui uma modalidade especial de processo psquico, mas apenas a informao que recebemos sobre essa expulso. Alm disso, a excreo 
no  o nico evento que ocorre na mente  noite. O prprio Robert acrescenta que, alm dela, as sugestes surgidas na vspera so trabalhadas e que "todas as partes 
dos pensamentos indigeridos que no so expelidas so reunidas num todo integrado por fios de pensamento tomados de emprstimo  imaginao, e assim inseridas na 
memria como um inofensivo quadro imaginatrio." (Ibid., 23.)
          Mas a teoria de Robert  diametralmente oposta  teoria dominante em sua avaliao da natureza das fontes dos sonhos. Segundo esta ltima, no haveria 
sonho algum se a mente no fosse despertada de maneira constante por estmulos sensoriais externos e internos. Na viso de Robert, porm, o impulso para o sonhar 
surge na prpria mente - no fato de ela ficar sobrecarregada e precisar de alvio; e ele conclui com perfeita lgica que as causas derivadas das condies somticas 
desempenham um papel secundrio como determinantes dos sonhos, e que tais causas seriam inteiramente incapazes de provocar sonhos numa mente em que no houvesse 
material para a construo de sonhos oriundo da conscincia de viglia. A nica ressalva que ele faz  admitir que as imagens fantasiosas que surgem nos sonhos, 
vindas das profundezas da mente, podem ser afetadas por estmulos nervosos. (Ibid., 48.) Afinal, portanto, Robert no encara os sonhos como sendo to inteiramente 
dependentes dos eventos somticos. No obstante, em sua opinio, os sonhos no so processos psquicos, no tm lugar entre os processos psquicos da vida de viglia; 
so processos somticos que ocorrem todas as noites no aparelho relacionado com a atividade mental, e tm como funo a tarefa de proteger esse aparelho da tenso 
excessiva - ou, modificando a metfora, de agir como "garis" da mente.
          Outro autor, Yves Delage, baseia sua teoria nas mesmas caractersticas dos sonhos, tais como reveladas na escolha de seu material; e  instrutivo notar 
como uma ligeira variao em seu ponto de vista acerca das mesmas coisas o leva a concluses de sentido muito diferente.
          Diz-nos Delage (1891, 41) ter experimentado em sua prpria pessoa, por ocasio da morte de algum que lhe era querido, o fato de no sonharmos com o que 
ocupou todos os nossos pensamentos durante o dia, ou no at que isso tenha comeado a dar lugar a outros interesses cotidianos. Suas pesquisas em meio a outras 
pessoas confirmaram-lhe a verdade geral desse fato. Ele faz o que seria uma observao interessante dessa natureza, se provasse ter validade geral, a respeito dos 
sonhos dos jovens casais: "S'ils ont t fortement pris, presque jamais ils n'ont rv l'un de l'autre avant le mariage ou pendant la lune de miel; et s'ils ont 
rv d'amour c'est pour tre infidles avec quelque personne indiffrente ou odieuse." [Ibid., 41.] Como que , ento, que sonhamos? Delage identifica o material 
de nossos sonhos como consistindo em fragmentos e resduos dos dia precedentes e de pocas anteriores. Tudo o que aparece em nossos sonhos, ainda que a princpio 
nos inclinemos a consider-lo como uma criao de nossa vida onrica, revela-se, quando o examinamos mais de perto, como a reproduo no reconhecida [de material 
j vivenciado] - "souvenir inconscient". Mas esse material derepresentaes possui uma caracterstica comum: provm de impresses que provavelmente afetaram nossos 
sentidos com mais intensidade do que nossa inteligncia, ou das quais nossa ateno foi desviada logo depois que surgiram. Quanto menos consciente e, ao mesmo tempo, 
mais poderosa tenha sido uma impresso, mais possibilidade tem ela de desempenhar um papel no sonho seguinte.
          Temos aqui o que so, essencialmente, as duas mesmas categorias de impresses enfatizadas por Robert: as triviais e as que no foram trabalhadas. Delage, 
contudo, d  situao uma interpretao diferente, pois sustenta que  por no terem sido trabalhadas que essas impresses so passveis de produzir sonhos, e no 
por serem triviais.  verdade, num certo sentido, que tambm as impresses triviais no foram completamente trabalhadas; sendo da ordem das impresses novas, elas 
so "autant de ressorts tendus" que se soltam durante o sono. Uma impresso poderosa que tenha esbarrado casualmente em algum obstculo no processo de ser trabalhada, 
ou que tenha sido deliberadamente refreada, tem mais justificativa para desempenhar algum papel nos sonhos do que a impresso que seja fraca e quase despercebida. 
A energia psquica armazenada durante o dia mediante inibio e supresso torna-se a fora motriz dos sonhos durante a noite. O material psquico que foi suprimido 
vem  luz nos sonhos. [Ibid., 1891, 43.]
          Nessa altura, infelizmente, Delage interrompe sua seqncia de idias. Nos sonhos, s consegue atribuir a mais nfima parcela a qualquer atividade psquica 
independente; e assim alinha sua teoria com a teoria dominante do despertar parcial do crebro: "En somme le rve est le produit de la pense errante, sans but et 
sans direction, se fixant successivement sur les souvenirs, qui ont gard assez d'intensit pour se placer sur sa route et l'arrter au passage, tablissant entre 
eux un lien tantt faible et indcis, tantt plus fort et plus serr, selon que l'activit actuelle du cerveau est plus ou moins abolie par le sommeil." [Ibid., 
46.]
          (3) Podemos situar num terceiro grupo as teorias que atribuem  mente no sonho uma capacidade de inclinao para desenvolver atividades psquicas especiais 
de que, na vida de viglia, ela  total ou basicamente incapaz. A ativao dessas faculdades costuma conferir aos sonhos uma funo utilitria. A maioria das opinies 
do sonhar dadas pelos autores antigos no campo da psicologia enquadra-se nessa classe. Basta-me, porm, citar uma frase de Burdach (1838, 512). O sonhar, escreve 
ele, " uma atividade natural da mente que no  limitada pelo poder da individualidade, no  interrompida pela conscincia de si mesma e no  dirigida pela autodeterminao, 
mas que  a vitalidade dos centros sensoriais atuando livremente."
          Esse deleite da psique no livre emprego de suas prprias foras  evidentemente encarado por Burdach e pelos demais como uma condio em que a mente se 
revigora e rene novas foras para o trabalho diurno ,- na qual, de fato, ela desfruta de uma espcie de feriado. Assim, Burdach [ibid., 514] cita com aprovao 
as encantadoras palavras com que o poeta Novalis louva o reino dos sonhos: "Os sonhos so um escudo contra a enfadonha monotonia da vida: libertam a imaginao de 
seus grilhes, para que ela possa confundir todos os quadros da existncia cotidiana e irromper na permanente gravidade dos adultos com o brinquedo alegre da criana. 
Sem sonhos, por certo envelheceramos mais cedo; assim, podemos contempl-los, no, talvez, como uma ddiva do cu, mas como uma recreao preciosa, como companheiros 
amveis em nossa peregrinao para o tmulo." [Heinrich von Ofterdingen (1802), Parte I, Cap. 1.]
          A funo curativa e revigorante dos sonhos  descrita com insistncia ainda maior por Purkinje (1846, 456): "Essas funes so executadas especialmente 
pelos sonhos produtivos. Eles so o livre curso da imaginao e no tm ligao alguma com os assuntos do dia. A mente no tem nenhum desejo de prolongar as tenses 
da vida de viglia; procura relax-las e recuperar-se delas. Produz, acima de tudo, condies contrrias s da viglia. Cura o pesar com a alegria, as preocupaes 
com esperanas e imagens de amena descontrao, o dio com o amor e a amizade, o medo com a coragem e a previdncia; mitiga a dvida com a convico e confiana 
slida, e a vesperana com a realizao. Muitas das feridas do esprito, que so constantemente reabertas durante o dia, so curadas pelo sono, que as cobre e resguarda 
de novos danos. A ao curativa do tempo baseia-se parcialmente nisso." Todos temos a sensao de que o sono exerce um efeito benfico sobre as atividades mentais, 
e o obscuro funcionamento da mentalidade popular se recusa a abrir mo de sua crena de que sonhar  uma das maneiras pelas quais o sono proporciona seus benefcios.
          A tentativa mais original e ampla de explicar os sonhos como uma atividade especial da mente, capaz de livre expanso apenas durante o estado de sono, 
foi a que empreendeu Scherner em 1861. Seu livro  escrito num estilo bombstico e extravagante e se inspira num entusiasmo quase extasiado por seu assunto, fadado 
a repelir quem quer que no consiga partilhar de seu fervor. Cria tantas dificuldades  anlise de seu contedo que passamos com alvio  exposio mais clara e 
mais sucinta das doutrinas de Scherner fornecida pelo filsofo Volkelt. "Lampejos sugestivos de sentido emanam como relmpagos dessas aglomeraes msticas, dessas 
nuvens de glria e de esplendor - mas no iluminam a trilha de um filsofo."  nesses termos que os escritos de Scherner so julgados at mesmo por seu discpulo. 
[Volkelt, 1875, 29.]
          Scherner no  dos que acreditam que as capacidades da mente continuem irreduzidas na vida onrica. Ele prprio [nas palavras de Volkelt (ibid., 30)] mostra 
como o ncleo central do ego - sua energia espontnea - fica privado de sua fora nervosa nos sonhos; como, em decorrncia dessa descentralizao, os processos de 
cognio, sensao, vontade e representao se vem modificados e, como os remanescentes dessas funes psquicas deixam de possuir um carter verdadeiramente mental, 
tornando-se nada alm de mecanismos. Contudo,  guisa de contraste, a atividade mental que se pode descrever como "imaginao", liberta do domnio da razo e de 
qualquer controle moderador, salta para uma posio de soberania ilimitada. Embora a imaginao onrica lance mo das lembranas recentes da viglia como o material 
de que  construda, ela as erige como estruturas que no guardam a mais remota semelhana com as da vida de viglia; revela-se nos sonhos como possuindo no s 
poderes reprodutivos, mas tambm poderes produtivos. [Ibid., 31.] Suas caractersticas so o que empresta aos sonhos seus traos peculiares. Ela mostra preferncia 
pelo que  imoderado, exagerado e monstruoso. Mas, ao mesmo tempo, liberta dos entraves das categorias de pensamento, ela adquire maleabilidade, agilidade e versatilidade. 
 suscetvel, da maneira mais sutil, s nuanas dos sentimentos de ternura e s emoes apaixonadas, e logo incorpora nossa vida interior em imagensplsticas externas. 
Nos sonhos, a imaginao se v destituda do poder da linguagem conceitual.  obrigada a retratar o que tem a dizer de forma pictrica e, como no h conceitos que 
exeram uma influncia atenuante, faz pleno e poderoso uso da forma pictrica. Assim, por mais clara que seja sua linguagem, ela  difusa, desajeitada e canhestra. 
A clareza de sua linguagem sofre, particularmente, pelo fato de ela se mostrar avessa a representar um objeto por sua imagem prpria, preferindo alguma imagem estranha 
que expresse apenas a imagem especfica dos atributos do objeto que ela busca representar. Temos aqui a "atividade simbolizadora" da imaginao (...) [Ibid., 32.] 
Outro ponto importantssimo  que a imaginao onrica jamais retrata as coisas por completo, mas apenas esquematicamente e, mesmo assim, da forma mais rstica. 
Por essa razo, suas pinturas parecem esboos inspirados. No se detm, contudo, ante a mera representao de um objeto, mas atende a uma exigncia interna de envolver 
o ego onrico, em maior ou menor grau, com o objeto, assim produzindo um evento. Por exemplo, um sonho provocado por um estmulo visual pode representar moedas de 
ouro na rua; o sonhador as apanhar com prazer e as levar consigo. [Ibid., 33.|
          O material com que a imaginao onrica realiza seu trabalho artstico  principalmente, de acordo com Scherner, fornecido por aqueles estmulos somticos 
orgnicos que so to obscuros durante o dia. (Ver em [1]) Assim, a hiptese extremamente fantstica formulada por Scherner e as doutrinas talvez indevidamente sbrias 
de Wundt e outros fisiologistas, que so diametralmente opostas em outros aspectos, concordam inteiramente em suas teorias acerca das fontes e dos instigadores dos 
sonhos. Segundo a viso fisiolgica, porm, a reao mental aos estmulos somticos internos esgotasse na provocao de certas representaes apropriadas aos estmulos; 
essas representaes do lugar a outras por vias associativas e, nesse ponto, o curso dos eventos psquicos nos sonhos parece chegar ao fim. Segundo Scherner, por 
outro lado, os estmulos somticos no fazem mais do que fornecer  mente material que ela possa utilizar para suas finalidades imaginativas. A formao dos sonhos 
s comea, aos olhos de Scherner, no ponto que os outros autores encaram como seu fim.
          O que a imaginao onrica faz aos estmulos somticos no pode, naturalmente, ser considerado como servindo a alguma finalidade til. Ela os desloca de 
um lado para outro e retrata as fontes orgnicas de que surgiram os estmulos do sonho em causa numa espcie de simbolismo plstico. Scherner  de opinio - embora, 
nisso Volkelt [1875, 37] e outros se recusem a segui-lo - que a imaginao onrica tem uma forma prediletaespecfica de representar o organismo como um todo: a saber, 
como uma casa. Felizmente, porm, no parece restringir-se a esse mtodo nico de representao. Por outro lado, pode valer-se de toda uma fileira de casas para 
indicar um nico rgo; por exemplo, uma rua muito longa, repleta de casas, pode representar um estmulo proveniente dos intestinos. Alm disso, partes isoladas 
de uma casa podem representar partes separadas do corpo; assim, num sonho causado por uma dor de cabea, a cabea pode ser representada pelo teto de um quarto, coberto 
de aranhas repelentes e semelhantes a sapos. [Ibid., 33 e seg.]
          Deixando de lado esse simbolismo da casa, inmeros outros tipos de coisas podem ser empregados para representar as partes do corpo de que surgiu o estmulo 
para o sonho. "Assim, o pulmo que respira ser simbolicamente representado por uma fornalha flamejante, com chamas a crepitar com um som semelhante ao da passagem 
de ar; o corao ser representado por caixas ou cestas ocas, a bexiga por objetos redondos em forma de sacos ou, mais genericamente, por objetos ocos. Um sonho 
causado por estmulos provenientes dos rgos sexuais masculinos poder fazer com que o sonhador encontre na rua a parte superior de um clarinete ou a boquilha de 
um cachimbo, ou ainda um pedao de pele de animal. Aqui, o clarinete e o cachimbo representam a forma aproximada do rgo masculino, enquanto a pele representa os 
plos pubianos. No caso de um sonho sexual numa mulher, o espao estreito em que as coxas se unem poder ser representado por um ptio estreito cercado de casas, 
enquanto a vagina ser simbolizada por uma trilha lisa, escorregadia e muito estreita, que atravesse o ptio, por onde a sonhadora ter que passar, talvez, para 
levar uma carta a um cavalheiro." (Ibid., 34.)  de especial importncia que, ao final de sonhos como esses, com um estmulo somtico, a imaginao onrica muitas 
vezes ponha de lado seu vu, por assim dizer, revelando abertamente o rgo em causa a sua funo. Assim, um sonho "com um estmulo dental" costuma terminar com 
a imagem do sonhador arrancando um dente de sua boca. [Ibid., 35.]
          A imaginao onrica pode no apenas dirigir sua ateno para a forma do rgo estimulante, mas igualmente simbolizar a substncia contida nesse rgo. 
Dessa maneira, um sonho com um estmulo intestinal pode levar o sonhador a percorrer ruas lamacentas, enquanto um sonho com um estmulo urinrio talvez o conduza 
a um curso d'gua espumejante. Ou ento o estmulo com tal, a natureza da excitao que ele produz, ou o objeto que ele deseja podem ser simbolicamente representados. 
Ou talvez o ego onrico entre as relaes concretas com os smbolos de seu prprio estado; porexemplo, no caso de estmulos dolorosos, o sonhador poder empenhar-se 
numa luta desesperada com ces ferozes ou touros selvagens, ou uma mulher que tenha um sonho sexual poder ver-se perseguida por um homem nu. [Ibid., 35 e seg.] 
Independentemente da riqueza dos meios que emprega, a atividade simbolizadora da imaginao permanece como a fora central em todos os sonhos. [Ibid., 36.] A tarefa 
de penetrar mais a fundo na natureza dessa imaginao e de encontrar um lugar para ela num sistema de pensamento filosfico  tentada por Volkelt nas pginas de 
seu livro. Mas, embora este seja bem escrito e dotado de sensibilidade, continua a ser extremamente difcil de compreender por qualquer um cuja formao anterior 
no o tenha preparado para uma apreenso benevolente dos construtos conceituais da filosofia.
          Nenhuma funo utilitria se liga  imaginao simbolizadora de Scherner. A mente se entretm, no sono, com os estmulos que incidem sobre ela. Poder-se-ia 
quase suspeitar que lida com eles maliciosamente. Mas tambm me poderiam perguntar se meu exame pormenorizado da teoria de Scherner sobre os sonhos atende a alguma 
finalidade til, j que seu carter arbitrrio e sua desobedincia a todas as regras da pesquisa parecem bvios demais.  guisa de resposta, eu poderia registrar 
um protesto contra a arrogncia que descartaria a teoria de Scherner sem examin-la. Sua teoria se fundamenta na impresso causada pelos sonhos num homem que os 
considerou com extrema ateno e que parece ter tido um grande talento pessoal para pesquisar as coisas obscuras da mente. Alm disso, ela versa sobre um assunto 
que, por milhares de anos, tem sido considerado pela humanidade como enigmtico, sem dvida, mas tambm como importante em si mesmo e em suas implicaes - um assunto 
para cuja elucidao a cincia exata, segundo ela prpria admite, pouco tem contribudo, salvo por uma tentativa (em oposio direta ao sentimento popular) de negar-lhe 
qualquer sentido ou importncia. E por fim, pode-se afirmar honestamente que, na tentativa de explicar os sonhos, no  fcil evitar ser fantasioso. As clulas ganglionares 
tambm podem ser fantasiosas. O trecho que citei em [1], de um pesquisador sbrio e rigoroso como Binz, e que descreve o modo como o alvorecer do estado de viglia 
penetra furtivamente na massa de clulas adormecidas do crtex cerebral, no  menos fantasioso - nem menos improvvel - do que as tentativas de Scherner de chegar 
a uma interpretao. Espero poder demonstrar que h por trs destas ltimas um elemento de realidade, embora tenha sido apenas vagamente percebido e lhe falte o 
atributo de universalidade que deve caracterizar uma teoria dos sonhos. Entrementes,o contraste entre a teoria de Scherner e a teoria mdica nos mostrar os extremos 
entre os quais as explicaes da vida onrica oscilam dubiamente at os dias de hoje.
          
          (H) AS RELAES ENTRE OS SONHOS E AS DOENAS MENTAIS
          
          Ao falarmos na relao entre os sonhos e os distrbios mentais, podemos ter trs coisas em mente: (1) as conexes etiolgicas e clnicas, como quando um 
sonho representa um estado psictico, ou o introduz, ou  um remanescente dele; (2) as modificaes a que est sujeita a vida onrica nos casos de doena mental; 
e (3) as ligaes intrnsecas entre os sonhos e as psicoses, apontando as analogias para o fato de eles serem essencialmente afins. Essas numerosas relaes entre 
os dois grupos de fenmenos constituram um tema favorito entre os autores mdicos de pocas anteriores e voltaram a s-lo nos dias atuais, como demonstrado pelas 
bibliografias sobre o assunto coligidas por Spitta [1882, 196 e seg. e 319 e seg.], Radestock [1879, 217], Maury [1878, 124 e seg.] e Tissi [1898, 77 e seg.]. Bem 
recentemente, Sante de Sanctis voltou sua ateno para esse assunto.
           Ser suficiente, para fins de minha tese, que eu me limite apenas a tocar nesta importante questo.
          Com respeito s ligaes clnicas e etiolgicas entre os sonhos e as psicoses, as seguintes observaes podem ser representadas como amostras. Hohnbaum 
[1830, 124], citado por Krauss [1858, 619], relata que uma primeira irrupo de insanidade delirante muitas vezes se origina num sonho de angstia ou de terror, 
e que a idia dominante est ligada ao sonho. Sante de Sanctis apresenta observaes semelhantes em casos de parania e declara que, em algumas delas, o sonho foi 
a "vraie cause dterminante de la folie" A psicose, diz de Sanctis, pode surgir de um s golpe com o aparecimento do sonho operativo que traz  luz o material delirante; 
ou pode desenvolver-se lentamente numa srie de outros sonhos, que tm ainda de superar certa dose de dvida. Em um de seus casos, o sonho relevante foi seguido 
de ataques histricos brandos e, posteriormente, de um estado de melancolia de angstia. Fr [1886] (citado por Tissi, 1898, [78]) relata um sonho que resultou 
numa paralisia histrica. Nesses exemplos, os sonhos so representados como a etiologia do distrbio mental; mas faramos igual justia aos fatos se dissssemos 
que o distrbio mental apareceu pela primeira vez na vida onrica, tendo irrompido primeiro num sonho. Em alguns outros exemplos, os sintomas patolgicos esto contidos 
na vida onrica, ou a psicose se limita a esta. Assim, Thomayer (1897) chama a ateno para certos sonhos de angstia que ele julga deverem ser considerados como 
equivalentes a ataques epilpticos. Allison [1868] (citado por Radestock, 1879 [225]) descreveu uma "insanidade noturna" na qual o paciente parece inteiramente sadio 
durante o dia, mas,  noite, fica regularmente sujeito a alucinaes, crises de excitao etc. Observaes semelhantes so relatadas por de Sanctis [1899, 226] (um 
sonho de um paciente alcolatra que era equivalente a uma parania, e que representava vozes que acusavam sua mulher de infidelidade) e por Tissi. Este (1898, [147 
e segs.]) fornece copiosos exemplos recentes em que atos de natureza patolgica, tais como conduta baseada em premissas delirantes e impulsos obsessivos, derivam 
de sonhos. Guislain [1833] descreve um caso em que o sono foi substitudo por uma loucura intermitente.
          No h dvida de que, juntamente com a psicologia dos sonhos, os mdicos tero, algum dia, de voltar sua ateno para uma psicopatologia dos sonhos.
          Nos casos de recuperao de doenas mentais, observa-se muitas vezes com bastante clareza que, embora o funcionamento seja normal durante o dia, a vida 
onrica ainda se acha sob a influncia da psicose. Segundo Krauss (1859, 270), Gregory foi o primeiro a chamar a ateno para esse fato. Macario [1847], citado por 
Tissi [1898, 89], descreve como um paciente manaco, uma semana aps sua completa recuperao, ainda estava sujeito, em seus sonhos,  fuga de idias e s paixes 
violentas que eram caractersticas de sua doena.
          Fizeram-se at agora muito poucas pesquisas sobre as modificaes que ocorrem na vida onrica durante as psicoses crnicas. Por outro lado, h muito tempo 
se dirigiu a ateno para o parentesco subjacente entre os sonhos e os distrbios mentais, exibido na ampla medida de concordncia entre suas manifestaes. Maury 
(1854, 124) conta-nos que Cabanis (1802) foi o primeiro a coment-las e, depois dele, Llut [1852], J. Moreau (1855) e, em particular, o filsofo Maine de Biran 
[1834, 111 e segs.]. Sem dvida a comparao remonta a pocas ainda mais distantes. Radestock (1879, 217) introduz o captulo em que trata do assunto mediante vrias 
citaes que traam uma analogia entre os sonhos e a loucura. Kant escreve em algum ponto de sua obra [1764]: "O louco  um sonhador acordado." Krauss (1859, 270) 
declara que "a insanidade  um sonho sonhado enquanto os sentidos esto despertos". Schopenhauer [1862, 1, 246] chama os sonhos de loucura breve e a loucura de sonho 
longo. Hagen [1846, 812] descreve o delrio como uma vida onrica que  induzida no pelo sono, mas pela doena. Wundt [1878, 662] escreve: "Ns mesmos, de fato, 
podemos experimentar nos sonhos quase todos os fenmenos encontrados nos manicmios."
          Spitta (1882, 199), da mesma forma que Maury (1854), assim enumera os diferentes pontos de concordncia que constituem a base dessa comparao: "(1) A 
autoconscincia fica suspensa ou, pelo menos, retardada, o que resulta numa falta de compreenso da natureza do estado, com a conseqente incapacidade de sentir 
surpresa e com perda da conscincia moral. (2) A percepo por meio dos rgos dos sentidos se modifica, reduzindo-se nos sonhos, mas sendo, em geral, grandemente 
aumentada na loucura. (3) A interligao de representaes ocorre exclusivamente segundo as leis de associao e reproduo; assim, as representaes se enquadram 
automaticamente em seqncias e h uma conseqente desproporo na relao entre as representaes (exageros e iluses). Tudo isso leva a (4) uma alterao ou, em 
alguns casos, uma reverso de personalidade, e, ocasionalmente, dos traos de carter (conduta perversa)."
          Radestock (1879, 219) acrescenta mais algumas caractersticas - analogias entre o material nos dois casos: "A maioria das alucinaes e iluses ocorre 
na regio dos sentidos da viso e da audio, e da cenestesia. Como no caso dos sonhos, os sentidos do olfato e do paladar so os que fornecem menos elementos. - 
Tanto nos pacientes que sofrem de febre como nas pessoas que sonham, surgem lembranas do passado remoto; tanto as pessoas adormecidas quanto os doentes se lembram 
de coisas que os indivduos despertos e sadios parecem ter esquecido." A analogia entre os sonhos e as psicoses s  plenamente apreciada quando se constata que 
ela se estende aos detalhes da movimentao expressiva e s caractersticas da expresso facial.
          "O homem atormentado pelo sofrimento fsico e mental obtm dos sonhos o que a realidade lhe nega: sade e felicidade. Do mesmo modo, h na doena mental 
imagens brilhantes de felicidade, grandiosidade, eminncia e riqueza. A suposta posse de bens e a realizao imaginria de desejos - cujo refreamento ou destruio 
realmente fornece uma base psicolgica para a loucura - constituem muitas vezes o contedo principal do delrio. Uma mulher que tenha perdido um filho amado experimenta 
as alegrias da maternidade em seu delrio; um homem que tenha perdido seu dinheiro julga-se imensamente rico; uma moa que tenha sido enganada sente que  ternamente 
amada."
          (Esse trecho de Radestock , na verdade, um resumo de uma aguda observao feita por Griesinger (1861, 106), que mostra com bastante clareza que as representaes 
nos sonhos e nas psicoses tm em comum a caracterstica de serem realizaes de desejos. Minhas prprias pesquisas ensinaram-me que neste fato se encontra a chave 
de uma teoria psicolgica tanto dos sonhos quanto das psicoses.)
          "A principal caracterstica dos sonhos e da loucura reside em suas excntricas seqncias de pensamento e sua fraqueza de julgamento." Em ambos os estados 
[prossegue Radestock], encontramos uma supervalorizao das realizaes mentais do prprio sujeito que parece destituda de sentido ante uma viso sensata: a rpida 
seqncia de representaes nos sonhos encontra paralelo na fuga de idias nas psicoses. H em ambos uma completa falta de sentido do tempo. Nos sonhos, a personalidade 
pode ser cindida - quando, por exemplo, os conhecimentos do prprio sonhador se dividem entre duas pessoas e quando, no sonho, o ego externo corrige o ego real. 
Isso corresponde precisamente  ciso da personalidade que nos  familiar na parania alucinatria; tambm o sonhador ouve seus prprios pensamentos pronunciados 
por vozes externas. Mesmo as idias delirantes crnicas tm sua analogia nos sonhos patolgicos estereotipados recorrentes (le rve obsdant). - No raro, depois 
de se recuperarem de um delrio, os pacientes dizem que todo o perodo de sua doena lhes parece um sonho que no foi desagradvel: a rigor, s vezes nos dizem que, 
mesmo durante a doena, tiveram ocasionalmente a sensao de estarem apenas aprisionados num sonho - como acontece com muita freqncia nos sonhos que ocorrem durante 
o sono.
          Depois de tudo isso, no surpreende que Radestock resuma seus pontos de vista, e os de muitos outros autores, declarando que "a loucura, um fenmeno patolgico 
anormal, deve ser encarada como uma intensificao do estado normal periodicamente recorrente do sonhar". (Ibid., 228.)
          Krauss (1859, 270 e seg.) procurou estabelecer o que talvez seja uma ligao ainda mais ntima entre os sonhos e a loucura do que a que pode ser demonstrada 
por uma analogia entre essas manifestaes externas. Ele v essa ligao em sua etiologia, ou melhor, nas fontes de sua excitao. O elemento fundamental comum aos 
dois estados reside, segundo ele, como j vimos [em [1]], nas sensaes organicamente determinadas, nas sensaes derivadas de estmulos somticos e na cenestesia 
que se baseia nas contribuies provenientes de todos os rgos. (Cf. Peisse, 1857, 2, 21, citado por Maury, 1878, 52.)
          A indiscutvel analogia entre os sonhos e a loucura, que se estende at seus detalhes caractersticos,  um dos mais poderosos suportes da teoria mdica 
da vida onrica, que considera o sonhar como um processo intil e perturbador e como a expresso de uma atividade reduzida da mente. No obstante, no se deve esperar 
que encontremos a explicao final dos sonhos na linha dos distrbios mentais, pois o estado insatisfatrio de nossos conhecimentos acerca da origem destes ltimos 
 genericamente reconhecido.  bem provvel, pelo contrrio, que uma modificao de nossa atitude perante os sonhos, ao mesmo tempo, afete nossos pontos de vista 
sobre o mecanismo interno dos distrbios mentais e nos aproxime de uma explicao das psicoses enquanto nos esforamos por lanar alguma luz sobre o mistrio dos 
sonhos.
          
          PS-ESCRITO, 1909
          O fato de eu no haver estendido minha exposio sobre a literatura que trata dos problemas dos sonhos a ponto de abranger o perodo entre a primeira e 
a segunda edies deste livro exige uma justificativa. Talvez ela parea insatisfatria ao leitor, mas, assim mesmo, foi decisiva para mim. Os motivos que me levaram 
a apresentar qualquer relato da forma pela qual os autores mais antigos lidaram com os sonhos esgotaram-se com a concluso deste captulo introdutrio; prosseguir 
nessa tarefa ter-me-ia custado um esforo extraordinrio - e o resultado teria sido muito pouco til ou instrutivo, pois os nove anos intermedirios nada trouxeram 
de novo ou valioso, quer em material factual, quer em opinies que pudessem lanar luz sobre o assunto. Na maioria das publicaes surgidas durante esse intervalo, 
meu trabalho no foi objeto de meno nem de exame. Recebeu, naturalmente, um mnimo de ateno dos que se empenham no que  descrito como "pesquisa" dos sonhos, 
e que assim forneceram brilhante exemplo da repugnncia por aprender qualquer coisa nova que  caracterstica dos homens de cincia. Nas irnicas palavras de Anatole 
France, "les savants ne sont pas curieux". Se houvesse na cincia algo como o direito  retaliao, por certo eu estaria justificado, por minha parte, em desprezar 
a literatura editada desde a publicao deste livro. As poucas notas que apareceram sobre ele nos peridicos cientficos demonstram tal falta de compreenso e tais 
erros na compreenso, que minha nica resposta aos crticos seria sugerir que relessem o livro - ou talvez, a rigor, apenas sugerir que o lessem.
          Grande nmero de sonhos foi publicado e analisado segundo minha orientao em trabalhos da autoria de mdicos que resolveram adotar o mtodo teraputico 
psicanaltico, bem como de outros autores. Na medida em que esses textos foram alm de uma simples confirmao de meus pontos de vista, inclu seus resultados no 
corpo de minha exposio. Acrescentei uma segunda bibliografia no fim do volume, contendo uma relao das obras mais importantes surgidas desde a primeira edio 
deste livro. A extensa monografia sobre os sonhos, da autoria de Sante de Sanctis (1899), cuja traduo alem surgiu logo aps seu lanamento, foi publicada quase 
simultaneamente a minha Interpretao dos Sonhos, de modo que nem eu nem o autor italiano pudemos tecer comentrios sobre as obras um do outro. Infelizmente, no 
pude fugir  concluso de que seu trabalhoso volume  totalmente deficiente de idias - tanto, de fato, que nem sequer levaria algum a suspeitar da existncia dos 
problemas sobre os quais discorri.
          Exigem meno apenas duas publicaes que se aproximam de minha prpria abordagem dos problemas dos sonhos. Hermann Swoboda (1904), um jovem filsofo, 
empreendeu a tarefa de estender aos eventos psquicos a descoberta de uma periodicidade biolgica (em perodos de 23 e 28 dias) feita por Wilhelm Fliess [1906]. 
No decurso de seu trabalho altamente imaginativo, ele se esforou por utilizar essa chave para a soluo, entre outros problemas, do enigma dos sonhos. Seus resultados 
parecem subestimar a importncia dos sonhos; o tema de um sonho, segundo seu ponto de vista, deve ser explicado como uma montagem de todas as lembranas que, na 
noite em que ocorre o sonho, completem um dos perodos biolgicos, seja pela primeira ou pela ensima vez. Uma comunicao pessoal do autor levou-me a supor, a princpio, 
que ele prprio j no levava essa teoria a srio, mas essa parece ter sido uma concluso errnea de minha parte. Numa fase posterior [ver mais adiante, em [1] e 
segs.], relatarei algumas observaes que fiz em relao  sugesto de Swoboda, mas que no me conduziram a qualquer concluso convincente. Fiquei mais satisfeito 
quando, num setor inesperado, descobri casualmente uma viso dos sonhos que coincide na ntegra com o cerne de minha prpria teoria.  impossvel, por motivos cronolgicos, 
que a formulao em pauta possa ter sido influenciada por meu livro. Devo, portanto, saud-la como o nico exemplo, encontrvel na literatura sobre o assunto, de 
um pensador independente que concorda com a essncia da minha teoria dos sonhos. O livro que contm o trecho que tenho em mente sobre os sonhos surgiu em sua segunda 
edio, em 1900, sob o ttulo de Phantasien eines Realisten, de "Lynkeus". [Primeira edio, 1899.]
          
          PS-ESCRITO, 1914
          A nota justificatria precedente foi escrita em 1909. Sou forado a admitir que, desde ento, a situao se modificou; minha contribuio para a interpretao 
dos sonhos j no  desprezada pelos autores que escrevem sobre o assunto. O novo estado de coisas, entretanto, fez com que ficasse inteiramente fora de cogitao 
a idia de ampliar meu relato anterior sobre a literatura. A Interpretao dos Sonhos levantou toda uma srie de novas consideraes e problemas que tm sido discutidos 
de inmeras maneiras. No posso apresentar uma exposio dessas obras, no entanto, antes de expor os pontos de vista de minha prpria autoria em que elas se baseiam. 
Assim sendo, abordei tudo o que me pareceu valioso na literatura mais recente, no lugar apropriado, ao longo da discusso que se segue.
          
          
        Captulo II - O MTODO DE INTERPRETAO DOS SONHOS: ANLISE DE UM SONHO MODELO
          
          O ttulo que escolhi para minha obra deixa claro quais das abordagens tradicionais do problema dos sonhos estou inclinado a seguir. O objetivo que estabeleci 
perante mim mesmo  demonstrar que os sonhos so passveis de ser interpretados; e quaisquer contribuies que eu possa fazer para a soluo dos problemas tratados 
no ltimo captulo s surgiro como subprodutos no decorrer da execuo de minha tarefa propriamente dita. Meu pressuposto de que os sonhos podem ser interpretados 
coloca-me, de imediato, em oposio  teoria dominante sobre os sonhos e, de fato, a todas as teorias dos sonhos, com a nica exceo da de Scherner [em [1]]; pois 
"interpretar" um sonho implica atribuir a ele um "sentido" - isto , substitu-lo por algo que se ajuste  cadeia de nossos atos mentais como um elo dotado de validade 
e importncia iguais ao restante. Como vimos, as teorias cientficas dos sonhos no do margem a nenhum problema com a interpretao dos mesmos, visto que, segundo 
o seu ponto de vista dessas teorias, o sonho no  absolutamente um ato mental, mas um processo somtico que assinala sua ocorrncia por indicaes registradas no 
aparelho mental. A opinio leiga tem assumido uma atitude diferente ao longo dos tempos. Tem exercido seu direito inalienvel de se comportar de forma incoerente; 
e, embora admitindo que os sonhos so ininteligveis e absurdos, no consegue convencer-se a declarar que eles no tm importncia alguma. Levada por algum sentimento 
obscuro, parece assumir que, a despeito de tudo, todo sonho tem um significado, embora oculto, que os sonhos se destinam a ocupar o lugar de algum outro processo 
de pensamento, e que para chegar a esse sentido oculto temos apenas de desfazer corretamente a substituio.
          Assim, o mundo leigo se interessa, desde os tempos mais remotos, pela "interpretao" dos sonhos e, em suas tentativas de faz-la, tem-se servido de dois 
mtodos essencialmente diferentes.
          O primeiro desses mtodos considera o contedo do sonho como um todo e procura substitu-lo por outro contedo que seja inteligvel e, em certos aspectos, 
anlogo ao original. Essa  a interpretao "simblica" dos sonhos, e cai inevitavelmente por terra quando se defronta com sonhos que so no apenas inteligveis, 
mas tambm confusos. Um exemplo desse mtodo pode ser observado na explicao do sonho do Fara, proposta por Jos na Bblia. As sete vacas gordas seguidas pelas 
sete vacas magras que devoraram as gordas - tudo isso era o substituto simblico para uma profecia de sete anos de fome nas terras do Egito, que deveriam consumir 
tudo o que fosse produzido nos sete anos de abundncia. A maioria dos sonhos artificiais criados pelos escritores de fico destinam-se a esse tipo de interpretao 
simblica; reproduzem os pensamentos do escritor sob um disfarce que se considera como estando em harmonia com as caractersticas reconhecidas dos sonhos. A idia 
de os sonhos se relacionarem principalmente com o futuro e poderem prediz-lo - um vestgio da antiga importncia proftica dos sonhos - fornece uma razo para se 
transpor o sentido do sonho, quando se chega a tal sentido por meio da interpretao simblica, para o tempo futuro.  obviamente impossvel dar instrues sobre 
o mtodo de se chegar a uma interpretao simblica. O xito deve ser uma questo de se esbarrar numa idia inteligente, uma questo de intuio direta, e por esse 
motivo foi possvel  interpretao dos sonhos por meio do simbolismo ser exaltada numa atividade artstica que depende da posse de dons peculiares.
          O segundo dos dois mtodos populares de interpretao dos sonhos est longe de fazer tais afirmaes. Poderia ser descrito como o mtodo da "decifrao", 
pois trata os sonhos como uma espcie de criptografia em que cada signo pode ser traduzido por outro signo de significado conhecido, de acordo com o cdigo fixo. 
Suponhamos, por exemplo, que eu tenha sonhado com uma carta e tambm com um funeral. Se consultar um "livro dos sonhos", verificarei que "carta" deve traduzir-se 
por "transtorno", e "funeral", por "noivado". Resta-me ento vincular as palavras-chave que assim decifrei e, mais uma vez, transpor o resultado para o tempo futuro. 
Uma modificao interessante do processo de decifrao, que at certo ponto corrige o carter puramente mecnico de seu mtodo de transposio, encontra-se no livro 
escrito sobre a interpretao dos sonhos [Oneirocritica] de Artemidoro de Daldis. Esse mtodo leva em conta no apenas o contedo do sonho, mas tambm o carter 
e situao do sonhador, de modo que um mesmo elemento onrico ter, para um homem rico, um homem casado ou, digamos, um orador, um sentido diferente do que tem para 
um homem pobre, um homem solteiro ou um negociante.  A essncia do mtodo de decifrao reside, contudo, no fato de o trabalho de interpretao no ser aplicado 
ao sonho como um todo, mas a cada parcela independente do contedo do sonho, como se o sonho fosse um conglomerado geolgico em que cada fragmento de rocha exigisse 
uma anlise isolada. No h dvida de que a inveno do mtodo interpretativo de decifrao foi sugerida por sonhos desconexos e confusos.
          No se pode imaginar nem por um momento que qualquer dos dois mtodos populares de interpretao dos sonhos possa ser empregado numa abordagem cientfica 
do assunto. O mtodo simblico  restrito em sua aplicao e impossvel de formular em linhas gerais. No caso do mtodo de decifrao, tudo depende da confiabilidade 
do "cdigo" - o livro dos sonhos -, e quanto a isso no temos nenhuma garantia. Assim, poderamos sentir-nos tentados a concordar com os filsofos e psiquiatras 
e,  semelhana deles, descartar o problema da interpretao dos sonhos como uma tarefa puramente fantasiosa.
          Mas descobri que no  bem assim. Fui levado a compreender que temos aqui, mais uma vez, um daqueles casos nada incomuns em que uma antiga crena popular, 
ciosamente guardada, parece estar mais prxima da verdade que o julgamento da cincia vigente em nossos dias. Devo afirmar que os sonhos realmente tm um sentido 
e que  possvel ter-se um mtodo cientfico para interpret-los.
          Meu conhecimento desse mtodo foi obtido da seguinte maneira. Tenho-me empenhado h muitos anos (com um objetivo teraputico em vista) em deslindar certas 
estruturas psicopatolgicas - fobias histricas, idias obsessivas, e assim por diante. Com efeito, tenho-o feito desde que soube, por meio de uma importante comunicao 
de Josef Breuer, que, no tocante a essas estruturas (que so consideradas como sintomas patolgicos), sua decomposio coincide com sua soluo. (Cf. Breuer e Freud, 
1895.) Quando esse tipo de representao patolgica pode ser rastreado at os elementos da vida mental do paciente dos quais se originou, a representao ao mesmo 
tempo se desarticula, e o paciente fica livre dela. Considerando a impotncia de nossos outros esforos teraputicos e a natureza enigmtica desses distrbios, senti-me 
tentado a seguir a trilha apontada por Breuer, apesar de todas as dificuldades, at que se chegasse a uma explicao completa. Em outra ocasio, terei de discorrer 
longamente sobre a forma que esse procedimento acabou por assumir e sobre os resultados de meus esforos. Foi no decorrer desses estudos psicanalticos que me deparei 
com a interpretao dos sonhos. Meus pacientes assumiam o compromisso de me comunicar todas as idias ou pensamentos que lhes ocorressem em relao a um assunto 
especfico; entre outras coisas, narravam-me seus sonhos, e assim me ensinaram que o sonho pode ser inserido na cadeia psquica a ser retrospectivamente rastreada 
na memria a partir de uma idia patolgica. Faltava ento apenas um pequeno passo para se tratar o prprio sonho como um sintoma e aplicar aos sonhos o mtodo de 
interpretao que fora elaborado para os sintomas. Devemos ter em mira a promoo de duas mudanas nele: um aumento da ateno que ele dispensa a suas prprias percepes 
psquicas e a eliminao da crtica pela qual ele normalmente filtra os pensamentos que lhe ocorrem. Para que ele possa concentrar sua ateno na observao de si 
mesmo,  conveniente que ele se coloque numa atitude repousante e feche os olhos.  necessrio insistir explicitamente para que renuncie a qualquer crtica aos pensamentos 
que perceber. Dizemos-lhe, portanto, que o xito da psicanlise depende de ele notar e relatar o que quer que lhe venha  cabea, e de no cair no erro, por exemplo, 
de suprimir uma idia por parecer-lhe sem importncia ou irrelevante, ou por lhe parecer destituda de sentido. Ele deve adotar uma atitude inteiramente imparcial 
perante o que lhe ocorrer, pois  precisamente sua atitude crtica que  responsvel por ele no conseguir, no curso habitual das coisas, chegar ao desejado deslindamento 
de seu sonho, ou de sua idia obsessiva, ou seja l o que for.
          Tenho observado, em meu trabalho psicanaltico, que todo o estado de esprito de um homem que esteja refletindo  inteiramente diferente do de um homem 
que esteja observando seus prprios processos psquicos. Na reflexo, h em funcionamento uma atividade psquica a mais do que na mais atenta auto-observao, e 
isso  demonstrado, entre outras coisas, pelos olhares tensos e o cenho franzido da pessoa que esteja acompanhando suas reflexes, em contraste com a expresso repousada 
de um auto-observador. Em ambos os casos, a ateno deve ser concentrada, mas o homem que est refletindo exerce tambm sua faculdade crtica; isso o leva a rejeitar 
algumas das idias que lhe ocorrem aps perceb-las, a interromper outras abruptamente, sem seguir os fluxos de pensamento que elas lhe desvendariam, e a se comportar 
de tal forma em relao a mais outras que elas nunca chegam a se tornar conscientes e, por conseguinte, so suprimidas antes de serem percebidas. O auto-observador, 
por outro lado, s precisa dar-se o trabalho de suprimir sua faculdade crtica. Se tiver xito nisso, viro a sua conscincia inmeras idias que, de outro modo, 
ele jamais conseguiria captar. O material indito assim obtido para sua autopercepo possibilita interpretar tanto suas idias patolgicas como suas estruturas 
onricas. O que est em questo, evidentemente,  o estabelecimento de um estado psquico que, em sua distribuio da energia psquica (isto , da ateno mvel), 
tem alguma analogia com o estado que precede o adormecimento - e, sem dvida, tambm com a hipnose. Ao adormecermos, surgem "representaes involuntrias", graas 
ao relaxamento de certa atividade deliberada (e, sem dvida tambm crtica) a que permitimos influenciar o curso de nossas representaes enquanto estamos acordados. 
(Costumamos atribuir esse relaxamento  "fadiga".)  medida que emergem, as representaes involuntrias transformam-se em imagens visuais e acsticas. (Cf. as observaes 
de Schleiermacher e outros, citados em [1] [e [2]].) No estado utilizado para a anlise dos sonhos e das idias patolgicas, o paciente, de forma intencional e deliberada, 
abandona essa atividade e emprega a energia psquica assim poupada (ou parte dela) para acompanhar com ateno os pensamentos involuntrios que ento emergem, e 
que - e nisso a situao difere da situao do adormecimento - retm o carter de representaes. Dessa forma, as representaes "involuntrias" so transformadas 
em "voluntrias".
          A adoo da atitude de esprito necessria perante idias que parecem surgir "por livre e espontnea vontade", bem como o abandono da funo crtica que 
normalmente atua contra elas parecem ser difceis de conseguir para algumas pessoas. Os "pensamentos involuntrios" esto aptos a liberar uma resistncia muito violenta, 
que procura impedir seu surgimento. A confiar no grande poeta e filsofo Friedrich Schiller, contudo, a criao potica deve exigir uma atitude exatamente semelhante. 
Num trecho de sua correspondncia com Krner - temos que agradecer a Otto Rank por t-la descoberto - Schiller (escrevendo em 1 de dezembro de 1788) responde  
queixa que lhe faz o amigo a respeito da produtividade insuficiente: "O fundamento de sua queixa parece-me residir na restrio imposta por sua razo a sua imaginao. 
Tornarei minha idia mais concreta por meio de um smile. Parece ruim e prejudicial para o trabalho criativo da mente que a Razo proceda a um exame muito rigoroso 
das idias  medida que elas vo brotando - na prpria entrada, por assim dizer. Encarado isoladamente, um pensamento pode parecer muito trivial ou muito absurdo, 
mas pode tornar-se importante em funo de outro pensamento que suceda a ele, e, em conjunto com outros pensamentos que talvez paream igualmente absurdos, poder 
vir a formar um elo muito eficaz. A Razo no pode formar qualquer opinio sobre tudo isso, a menos que retenha o pensamento por tempo suficiente para examin-lo 
em conjunto com os outros. Por outro lado, onde existe uma mente criativa, a Razo - ao que me parece - relaxa sua vigilncia sobre os portais, e as idias entram 
precipitadamente, e s ento ela as inspeciona e examina como um grupo. - Vocs, crticos, ou como quer que se denominem, ficam envergonhados ou assustados com as 
mentes verdadeiramente criativas, e cuja durao maior ou menor distingue o artista pensante do sonhador. Vocs se queixam de sua improdutividade porque rejeitam 
cedo demais e discriminam com excessivo rigor."
          No obstante, o que Schiller descreve como o relaxamento da vigilncia nos portais da Razo, a adoo de uma atitude de auto-observao acrtica, de modo 
algum  difcil. A maioria de meus pacientes a consegue aps as primeiras instrues. Eu mesmo o fao de forma bem completa, ajudado pela anotao de minhas idias 
 medida que elas me ocorrem. O volume de energia psquica em que  possvel reduzir a atividade crtica e aumentar a intensidade de auto-observao varia de modo 
considervel, conforme o assunto em que se esteja tentando fixar a ateno.
          Nosso primeiro passo no emprego desse mtodo nos ensina que o que devemos tomar como objeto de nossa ateno no  o sonho como um todo, mas partes separadas 
de seu contedo. Quando digo ao paciente ainda novato: "Que  que lhe ocorre em relao a esse sonho?", seu horizonte mental costuma transformar-se num vazio. No 
entanto, se colocar diante dele o sonho fracionado, ele me dar uma srie de associaes para cada frao, que poderiam ser descritas como os "pensamentos de fundo" 
dessa parte especfica do sonho. Assim, o mtodo de interpretao dos sonhos que pratico j difere, nesse primeiro aspecto importante, do popular, histrico e legendrio 
mtodo de interpretao por meio do simbolismo, aproximando-se do segundo mtodo, ou mtodo de "decifrao". Como este, ele emprega a interpretao en dtail e no 
en masse; como este, considera os sonhos, desde o incio, como tendo um carter mltiplo, como sendo conglomerados de formaes psquicas. [Ver em [1] e [2].]
          No decorrer de minhas psicanlises de neurticos j devo ter analisado mais de mil sonhos; mas no me proponho utilizar esse material nesta introduo 
 tcnica e  teoria da interpretao do sonho. Alm do fato de que essa alternativa estaria sujeita  objeo de que esses so sonhos de neuropatas, dos quais no 
se poderia extrair nenhuma inferncia vlida quanto aos sonhos das pessoas normais, h um outro motivo bem diferente que me impe essa deciso. O assunto a que levam 
esses sonhos de meus pacientes e sempre, por certo, a histria clnica subjacente a suas neuroses. Cada sonho exigiria portanto, uma longa introduo e uma investigao 
da natureza e dos determinantes etiolgicos das psiconeuroses. Mas essas questes constituem novidades em si mesmas e so altamente desconcertantes, e desviaram 
a ateno do problema dos sonhos. Ao contrrio,  minha inteno utilizar minha atual elucidao dos sonhos como um passo preliminar no sentido de resolver os problemas 
mais difceis da psicologia das neuroses. Todavia, ao abir mo de meu material principal, os sonhos de meus pacientes neurticos, no devo ser muito exigente quanto 
ao que me resta. Tudo o que resta so tais sonhos que me foram relatados de tempos em tempos por pessoas normais de minhas relaes, e outros como os que foram citados 
como exemplos na literatura que trata da vida onrica. Infelizmente, porm, nenhum desses sonhos  acompanhado pela anlise, sem a qual no posso descobrir o sentido 
de um sonho. Meu mtodo no  to cmodo quanto o mtodo popular de decifrao, que traduz qualquer parte isolada do contedo do sonho por meio de um cdigo fixo. 
Pelo contrrio, estou pronto a constatar que o mesmo fragmento de um contedo pode ocultar um sentido diferente quando ocorre em vrias pessoas ou em vrios contextos. 
Assim, d-se que sou levado aos meus prprios sonhos, que oferecem um material abundante e conveniente, oriundo de uma pessoa mais ou menos normal e relacionado 
com mltiplas circunstncias da vida cotidiana.  certo que depararei com dvidas quanto  confiabilidade desse tipo de "auto-anlises", e ho de me dizer que elas 
deixam a porta aberta a concluses arbitrrias. Em meu julgamento, a situao  de fato mais favorvel no caso da auto-observao do que na observao de outras 
pessoas; seja como for, podemos fazer a experincia e verificar at que ponto a auto-anlise nos leva na interpretao dos sonhos. Mas tenho outras dificuldades 
a superar, que esto dentro de mim mesmo. H uma certa hesitao natural em revelar tantos fatos ntimos sobre nossa prpria vida mental, e no pode haver qualquer 
garantia contra a interpretao errnea por parte dos estranhos. Mas deve ser possvel vencertais hesitaes. "Tout psychologiste", escreve Delboeuf [1885], "est 
oblig de faire l'aveu mme de ses faiblesses s'il croit par l jeter du jour sur quelque problme obscur." E  correto presumir que tambm meus leitores logo vero 
seu interesse inicial nas indiscries que estou fadado a cometer transformado num interessante mergulho nos problemas psicolgicos sobre os quais elas lanam luz.
          Por conseguinte, passarei a escolher um de meus prprios sonhos e, com base nele, demonstrarei meu mtodo de interpretao. No caso de cada um desses sonhos, 
far-se-o necessrias algumas observaes  guisa de prembulo. - E agora devo pedir ao leitor que faa dos meus interesses os seus prprios por um perodo bastante 
longo, e que mergulhe comigo nos menores detalhes de minha vida, pois esse tipo de transferncia  obrigatoriamente exigido por nosso interesse no sentido oculto 
dos sonhos.
          
          PREMBULO
          No vero de 1895, eu vinha prestando tratamento psicanaltico a uma jovem senhora que mantinha laos muito cordiais de amizade comigo e com minha famlia. 
 fcil compreender que uma relao mista como essa pode constituir uma fonte de muitos sentimentos conturbados no mdico, em particular no psicoterapeuta. Embora 
o interesse pessoal do mdico seja maior, sua autoridade  menor; qualquer fracasso traz uma ameaa  amizade h muito estabelecida com a famlia do paciente. Esse 
tratamento terminara com xito parcial; a paciente ficara livre de sua angstia histrica, mas no perdera todos os sintomas somticos. Nessa ocasio, eu ainda no 
discernia com muita clareza quais eram os critrios indicativos de que um caso clnico de histeria estava afinal encerrado, e havia proposto  paciente uma soluo 
que ela no parecia disposta a aceitar. Enquanto estvamos nessa discordncia, interrompemos o tratamento durante as frias de vero. - Certo dia, recebi a visita 
de um colega mais novo na profisso, um de meus mais velhos amigos, que estivera com minha paciente, Irma, e sua famlia, em sua casa de campo. Perguntei-lhe como 
a achara e ele me respondeu: "Est melhor, mas no inteiramente boa." Tive conscincia de que as palavras de meu amigo Otto, ou o tom em que as proferiu, me aborreceram. 
Imaginei ter identificado nelas uma recriminao como no sentido de que eu teria prometido demais  paciente; e, com ou sem razo, atribui o suposto fato de Otto 
estar tomando partido contra mim  influncia dos parentes de minha paciente, que, como me parecia, nunca haviam olhado o tratamento com bons olhos. Entretanto, 
minha impresso desagradvel no me ficou clara e no externei nenhum sinal dela. Na mesma noite, redigi o caso clnico de Irma, com a idia de entreg-lo ao Dr. 
M. (um amigo comum que, na poca, era a principal figura de nosso crculo), a fim de me justificar. Naquela noite (ou na manh seguinte, como  mais provvel), tive 
o seguinte sonho, que anotei logo ao acordar.
          
          SONHO DE 23-24 DE JULHO DE 1895
          Um grande salo - numerosos convidados a quem estvamos recebendo. - Entre eles estava Irma. No mesmo instante, puxei-a de lado, como que para responder 
a sua carta e repreend-la por no ter ainda aceitado minha "soluo". Disse-lhe: "Se voc ainda sente dores,  realmente apenas por culpa sua." Respondeu ela: "Ah! 
se o senhor pudesse imaginar as dores que sinto agora na garganta, no estmago e no abdmen... - isto est me sufocando." - Fiquei alarmado e olhei para ela. Parecia 
plida e inchada. Pensei comigo mesmo que, afinal de contas, devia estar deixando de perceber algum distrbio orgnico. Levei-a at a janela e examinei-lhe a garganta, 
e ela deu mostras de resistncias, como fazem as mulheres com dentaduras postias. Pensei comigo mesmo que realmente no havia necessidade de ela fazer aquilo. - 
Em seguida, ela abriu a boca como devia e, no lado direito, descobri uma grande placa branca; em outro lugar, vi extensascrostas cinza-esbranquiadas sobre algumas 
notveis estruturas recurvadas, que tinham evidentemente por modelo os ossos turbinados do nariz. - Chamei imediatamente o Dr. M., e ele repetiu o exame e o confirmou... 
O Dr. M. tinha uma aparncia muito diferente da habitual; estava muito plido, claudicava e tinha o queixo escanhoado... Meu amigo Otto estava tambm agora de p 
ao lado dela, e meu amigo Leopold a auscultava atravs do corpete e dizia: "Ela tem uma rea surda bem embaixo,  esquerda." Indicou tambm que parte da pele do 
ombro esquerdo estava infiltrada. (Notei isso, tal como ele fizera, apenas do vestido.)... M. disse: "No h dvida de que  uma infeco, mas no tem importncia; 
sobrevir uma disenteria, e a toxina ser eliminada."... Tivemos tambm pronta conscincia da origem da infeco. No muito antes, quando ela no estava se sentindo 
bem, meu amigo Otto lhe aplicara uma injeo de um preparado de propil, propilos... cido propinico... trimetilamina (e eu via diante de mim a frmula desse preparado, 
impressa em grossos caracteres)... Injees como essas no deveriam ser aplicadas de forma to impensada... E, provavelmente, a seringa no estava limpa.
          Esse sonho tem uma vantagem sobre muitos outros. Ficou logo claro quais os fatos do dia anterior que haviam fornecido seu ponto de partida. Meu prembulo 
torna isso evidente. A notcia que Otto me dera sobre o estado de Irma e o caso clnico que eu me empenhara em redigir at altas horas da noite haviam continuado 
a ocupar minha atividade mental mesmo depois de eu adormecer. No obstante, ningum que tivesse apenas lido o prembulo e o prprio contedo do sonho poderia ter 
a menor idia do que este significava. Eu mesmo no fazia nenhuma idia. Fiquei atnito com os sintomas de que Irma se queixou comigo no sonho, j que no eram os 
mesmos pelos quais eu a havia tratado. Sorri ante a idia absurda de uma injeo de cido propinico e ante as reflexes consoladoras do Dr. M. Em sua parte final, 
o sonho me pareceu mais obscuro e condensado do que no incio. Para descobrir o sentido de tudo isso, foi necessrio proceder a uma anlise detalhada.
          
          ANLISE
          O salo - numerosos convidados a quem estvamos recebendo. Passvamos aquele vero em Bellevue, numa casa que se erguia sozinha numa das colinas contguas 
a Kahlenberg. A casa fora anteriormente projetada como um local de entretenimento e, por conseguinte, suas salas de recepo eram inusitadamente altas e semelhantes 
a grandes sales. Foi em Bellevue que tive o sonho, poucos dias antes do aniversrio de minha mulher. Na vspera, ela me dissera que esperava que alguns amigos, 
inclusive Irma, viessem visitar-nos no dia de seu aniversrio. Assim, meu sonho estava prevendo essa ocasio: era aniversrio de minha mulher, e diversos convidados, 
inclusive Irma, estavam sendo recebidos por ns no grande salo de Bellevue.
          Repreendi Irma por no haver aceito minha soluo; disse: "Se voc ainda sente dores, a culpa  sua." Poderia ter-lhe dito isso na vida de viglia, e talvez 
o tenha realmente feito. Era minha opinio, na poca (embora desde ento a tenha reconhecido como errada), que minha tarefa estava cumprida no momento em que eu 
informava ao paciente o sentido oculto de seus sintomas: no me considerava responsvel por ele aceitar ou no a soluo - embora fosse disso que dependia o sucesso. 
Devo a esse erro, que agora felizmente corrigi, o fato de minha vida ter-se tornado mais fcil numa ocasio em que, apesar de toda a minha inevitvel ignorncia, 
esperava-se que eu produzisse sucessos teraputicos. - Notei, contudo, que as palavras que dirigi a Irma no sonho indicavam que eu estava especialmente aflito por 
no ser responsvel pelas dores que ela ainda sentia. Se fossem culpa dela, no poderiam ser minha culpa. Seria possvel que a finalidade do sonho tivesse esse sentido.
          Queixa de Irma: dores na garganta, abdmen e estmago; isso a estava sufocando. As dores de estmago estavam entre os sintomas de minha paciente, mas no 
tinham muito destaque; ela se queixava mais de sensaes de nusea e repulsa. As dores na garganta e no abdmen, assim como a constrio da garganta, quase no participavam 
de sua doena. Fiquei sem saber porque teria optado pela escolha desses sintomas no sonho, mas no pude pensar numa explicao no momento.
          Ela parecia plida e inchada. Minha paciente sempre tivera uma aparncia corada. Comecei a desconfiar que ela estivesse substituindo outra pessoa.
          
          Fiquei alarmado com a idia de no haver percebido alguma doena orgnica. Isso, como bem se pode acreditar, constitui uma fonte perene de angstia para 
um especialista cuja clnica  quase que limitada a pacientes neurticos e que tem o hbito de atribuir  histeria um grande nmero de sintomas que outros mdicos 
tratam como orgnicos. Por outro lado, uma ligeira dvida infiltrou-se em minha mente - vinda no sei de onde - no sentido de que meu receio no era inteiramente 
autntico. Se as dores de Irma tivessem uma base orgnica, tambm nesse aspecto eu no poderia ser responsabilizado por sua cura; meu tratamento visava apenas a 
eliminar as dores histricas. Ocorreu-me, de fato, que eu estava realmente desejando que tivesse havido um diagnstico errado, pois, se assim fosse, a culpa por 
minha falta de xito tambm estaria eliminada.
          Levei-a at  janela para examinar-lhe a garganta. Ela mostrou alguma resistncia, como fazem as mulheres com dentaduras postias. Pensei comigo mesmo 
que realmente no havia necessidade de ela fazer aquilo. Eu nunca tivera nenhuma oportunidade de examinar a cavidade bucal de Irma. O que ocorreu no sonho fez-me 
lembrar um exame que eu efetuara algum tempo antes numa governanta:  primeira vista, ela parecera a imagem da beleza juvenil, mas, quando chegou o momento de abrir 
a boca, ela tomou providncias para ocultar suas chapas. Isso levou a lembranas de outros mdicos e de pequenos segredos revelados no decurso dos mesmos - sem que 
isso satisfizesse a nenhuma das partes. "No havia realmente necessidade de ela fazer aquilo" tencionava, sem dvida, em primeiro lugar, ser um cumprimento a Irma; 
mas desconfiei de que teria outro sentido alm desse. (Quando se procede atentamente a uma anlise, tem-se a sensao de haver ou no esgotado todos os pensamentos 
antecedentes esperveis.) A forma pela qual Irma postou-se  janela me fez de repente recordar outra experincia. Irma tinha uma amiga ntima de quem eu fazia uma 
opinio muito elevada. Quando visitei essa senhora certa noite, encontrei-a perto de uma janela na situao reproduzida no sonho, e seu mdico, o mesmo Dr. M., dissera 
que ela apresentava uma membrana diftrica. A figura do Dr. M. e a membrana reaparecem posteriormente no sonho. Ocorreu-me ento que, nos ltimos meses, eu tivera 
todos os motivos para supor que essa outra senhora tambm fosse histrica. Na verdade, a prpria Irma me revelara involuntariamente esse fato. Que sabia eu de seu 
estado? Uma coisa, precisamente: que, tal como a Irma de meu sonho, ela sofria de sufocao histrica. Assim, no sonho, eu substitura minha paciente por sua amiga. 
Recordei-me, ento, de que muitas vezes me entretivera com a idia de que tambm ela pudesse pedir-me que a aliviasse de seus sintomas. Eu prprio, contudo, julgara 
isso improvvel,visto que ela era de natureza muito reservada. Era resistente, como apareceu no sonho. Outra razo era que no havia necessidade de ela fazer aquilo: 
at ento, mostrara-se forte o bastante para manejar seu estado sem nenhuma ajuda externa. Restavam ainda algumas caractersticas que eu no podia atribuir nem a 
Irma, nem a sua amiga: plida; inchada; dentes postios. Os dentes postios levaram-me  governanta que j mencionei; sentia-me agora inclinado a me contentar com 
dentes estragados. Pensei ento numa outra pessoa  qual essas caractersticas poderiam estar aludindo. Mais uma vez, no se tratava de uma das minhas pacientes, 
nem eu gostaria de t-la como tal, pois havia observado que ela ficava acanhada em minha presena e no achava que pudesse vir a ser uma paciente acessvel. Era 
geralmente plida, e certa vez, quando estava gozando de tima sade, parecera inchada. Portanto, eu estivera comparando minha paciente Irma com duas outras pessoas 
que tambm teriam sido resistentes ao tratamento. Qual poderia ter sido a razo de eu a haver trocado, no sonho, por sua amiga? Talvez fosse porque eu teria gostado 
de troc-la: talvez sentisse mais simpatia por sua amiga, ou tivesse uma opinio mais elevada sobre a inteligncia dela, pois Irma me parecera tola por no haver 
aceito minha soluo. Sua amiga teria sido mais sensata, isto , teria cedido mais depressa. Assim, teria aberto a boca como devia e me dito mais coisas do que Irma.
          O que vi em sua garganta: uma placa branca e os ossos turbinados recobertos de crostas. A placa branca fez-me recordar a difterite e tudo mais da amiga 
de Irma, mas tambm uma doena grave de minha filha mais velha, quase dois anos antes, e o susto por que passei naqueles dias aflitivos. As crostas nos ossos turbinados 
fizeram-me recordar uma preocupao sobre meu prprio estado de sade. Nessa poca, eu vinha fazendo uso freqente da cocana para reduzir algumas incmodas inchaes 
nasais, e ficara sabendo alguns dias antes que uma de minhas pacientes, que seguira meu exemplo,desenvolvera uma extensa necrose da membrana mucosa nasal. Eu fora 
o primeiro a recomendar o emprego da cocana, em 1885, e essa recomendao trouxera srias recriminaes contra mim. O uso indevido dessa droga havia apressado a 
morte de um grande amigo meu. Isso ocorrera antes de 1895 [a data do sonho].
          Chamei imediatamente o Dr. M., e ele repetiu o exame. Isso correspondia simplesmente  posio ocupada por M. em nosso crculo. Mas o "imediatamente" foi 
curioso o bastante para exigir uma explicao especial. Fez-me lembrar um evento trgico em minha clnica. Certa feita, eu havia provocado um grave estado txico 
numa paciente, receitando repetidamente o que, na poca, era considerado um remdio inofensivo (sulfonal), e recorrera s pressas  assistncia e ao apoio de meu 
colega mais experiente. Havia um detalhe adicional que confirmou a idia de que eu tinha esse incidente em mente. Minha paciente - que sucumbiu ao veneno - tinha 
o mesmo nome que minha filha mais velha. Isso nunca me ocorrera antes, mas me pareceu agora quase que um ato de retaliao do destino. Era como se a substituio 
de uma pessoa por outra devesse prosseguir noutro sentido: esta Mathilde por aquela Mathilde, olho por olho e dente por dente. Era como se eu viesse coligindo todas 
as ocasies de que podia me acusar como prova de falta de conscienciosidade mdica.
          O Dr. M. estava plido, tinha o queixo bem escanhoado e claudicava ao andar. Isso era verdade apenas na medida em que sua aparncia doentia costumava deixar 
aflitos os seus amigos. As duas outras caractersticas s podiam aplicar-se a outra pessoa. Pensei em meu irmo mais velho, que mora no exterior, tem o rosto escanhoado 
e com quem, se bem me recordo, o M. do sonho se parecia muito. Tnhamos recebido notcias, alguns dias antes, de que ele estava puxando de uma perna em virtude de 
uma infeco artrtica no quadril. Devia ter havido alguma razo, refleti, para que eu fundisse essas duas figuras numa s no sonho. Lembrei-me ento de que tinha 
uma razo semelhante para estar mal-humorado com cada um deles: ambos haviam rejeitado certa sugesto que eu lhes fizera havia pouco tempo.
          
          Meu amigo Otto estava agora de p ao lado da paciente, e meu amigo Leopold a examinava e indicava que havia uma rea surda bem abaixo,  esquerda. Meu 
amigo Leopold era tambm mdico e parente de Otto. Como ambos se haviam especializado no mesmo ramo da medicina, era seu destino competirem um com o outro, e freqentemente 
se traavam comparaes entre eles. Ambos haviam trabalhado como meus assistentes durante anos, quando eu ainda chefiava o departamento de neurologia para pacientes 
externos de um hospital infantil. Cenas como a representada no sonho muitas vezes ocorreram ali. Enquanto eu discutia o diagnstico de um caso com Otto, Leopold 
examinava a criana mais uma vez e fazia alguma contribuio inesperada para nossa deciso. A diferena entre o carter de ambos era como a existente entre o meirinho 
Brsig e seu amigo Karl: um se destacava por sua rapidez, ao passo que o outro era lento, porm seguro. Se no sonho eu estabelecia um contraste entre Otto e o prudente 
Leopold, evidentemente o fazia em favor do segundo. A comparao era semelhante  que eu fazia entre minha desobediente paciente Irma e sua amiga, que eu considerava 
mais sensata do que ela. Percebia ento outra das linhas ao longo das quais se ramificava a cadeia de pensamentos no sonho: da criana doente para o hospital infantil. 
- A rea surda bem abaixo,  esquerda parecia-me coincidir em todos os detalhes com um caso especfico em que Leopold me impressionara por sua meticulosidade. Tive 
tambm uma idia vaga sobre algo da ordem de uma afeco metasttica, mas isso tambm pode ter sido uma referncia  paciente que eu gostaria de ter em lugar de 
Irma. At onde eu pudera julgar, ela havia produzido uma imitao de tuberculose.
          Uma parte da pele do ombro esquerdo estava infiltrada. Vi imediatamente que isso era o reumatismo em meu prprio ombro, que observo invariavelmente quando 
fico acordado at altas horas da noite. Alm disso, as palavras do sonho eram muito ambguas: "Notei isso, tal como ele..." Ou seja, notei-o em meu prprio corpo. 
Impressionou-me tambm o enunciado incomum: "uma parte da pele estava infiltrada". Estamos habituados a falar em "infiltrao pstero-superior esquerda", o que se 
referia ao pulmo e, portanto, mais uma vez,  tuberculose.
          Apesar de seu vestido. Isso, de qualquer modo, fora apenas uma interpolao. Naturalmente, costumvamos examinar as crianas no hospital despidas: e isso 
seria um contraste com a maneira como as pacientes adultas tm de ser examinadas. Lembrei que se dizia de um famoso clnico que ele jamais fizera um exame fsico 
de seus pacientes a no ser atravs das roupas. No consegui ver nada alm disso. E francamente, no senti nenhum desejo de penetrar mais a fundo nesse ponto.
          O Dr. M. disse: " um infeco, mas no tem importncia. Sobrevir uma disenteria e a toxina ser eliminada." A princpio, isso me pareceu ridculo. No 
obstante, como todo o resto, tinha de ser analisado com cuidado. Quando passei a investigar mais de perto, pareceu-me ter uma espcie de sentido, apesar de tudo. 
O que descobri na paciente foi uma difterite local. Lembrei-me de uma discusso, na poca da doena de minha filha, sobre difterite e difteria, sendo esta a infeco 
geral que decorre da difterite local. Leopold indicara a presena de uma infeco geral dessa natureza a partir da existncia de uma rea surda, que assim poderia 
ser considerada como um foco metasttico. Eu parecia pensar,  verdade, que essas metstases de fato no ocorrem com a difteria: aquilo me fazia pensar, ante, em 
piemia.
          No tem importncia. Isso foi dito como consolo. Parecia ajustar-se da seguinte forma no contexto: o contedo da parte procedente do sonho fora que as 
dores de minha paciente eram decorrentes de uma grava infeco orgnica. Tive a sensao de que, dessa maneira, eu estava apenas tentando desviar a culpa de mim 
mesmo. O tratamento psicolgico no podia ser responsabilizado pela persistncia de dores diftricas. No obstante, experimentei uma sensao de constrangimento 
por ter inventado uma molstia to grave para Irma, apenas para me inocentar. Parecia cruel demais. Assim, precisava de uma certeza de que no fim tudo ficaria bem, 
e me pareceu que colocar as palavras de consolo precisamente na boca do Dr. M. no fora m escolha. Assim sendo, porm, eu estava adotando uma atitude superior em 
relao ao sonho, e isso, por si s exigia explicao.
          E por que o consolo era to disparatado?
          Disenteria. Parecia haver alguma idia terica remota de que o material mrbido pode ser eliminado pelos intestinos. Seria possvel que eu estivesse tentando 
zombar do esprito frtil do Dr. M. na produo de explicaes artificiais e no estabelecimento de ligaes patolgicas inesperadas? Ocorreu-me ento outra coisa 
relacionada com a disenteria. Alguns meses antes, eu aceitara o caso de um rapaz com extremas dificuldades associadas  defecao, que fora tratado por outros mdicos 
como um caso de "anemia acompanhada de desnutrio". Eu havia identificado o caso como histeria,mas no me sentira disposto a tentar nele meu tratamento psicoterpico 
e o mandara fazer uma viagem martima. Alguns dias antes, recebera dele uma carta desesperadora, enviada do Egito, dizendo que ali tivera um novo ataque e que um 
mdico declarara tratar-se de disenteria. Suspeitei que o diagnstico fosse um erro, por parte de um clnico inexperiente que se deixara enganar pela histeria. Mas 
no pude deixar de me recriminar por haver colocado meu paciente numa situao em que poderia ter contrado algum mal orgnico alm de seu distrbio intestinal histrico. 
Alm disso, "disenteria" no soa muito diferente de "difteria" - palavra de mau agouro que no ocorreu no sonho.
          Sim, pensei comigo mesmo, devo ter zombado do Dr. M. por meio do prognstico consolador: "Sobreviver uma disenteria etc.", pois voltou a me ocorrer que, 
anos antes, ele prprio me contara uma histria divertida de natureza semelhante sobre outro mdico. O Dr. M. fora convocado por ele para dar um parecer sobre um 
paciente gravemente enfermo, e se sentira obrigado a salientar, em virtude da viso muito otimista assumida por seu colega, que encontrara albumina na urina do paciente. 
O outro, porm, no se dera absolutamente por achado: "No tem importncia", dissera, "a albumina logo ser eliminada!" - No pude mais sentir nenhuma dvida, portanto, 
de que essa parte do sonho expressava desprezo pelos mdicos que no conhecem a histeria. E, como que para confirmar isso, outra idia cruzou-me a mente: "Ser que 
o Dr. M. se apercebe de que os sintomas de sua paciente (a amiga de Irma) que do margem ao fervor da tuberculose tambm tm uma base histrica? Ter ele identificado 
essa histeria? Ou ser que se deixou levar por ela?"
          Mas qual poderia ser minha motivao para tratar to mal esse meu amigo? A questo era muito simples. O Dr. M. concordava to pouco com minha "soluo" 
quanto a prpria Irma. Assim, nesse sonho eu j me havia vingado de duas pessoas: de Irma, com as palavras "Se voc ainda sente dores, a culpa  toda sua", e do 
Dr. M., com o enunciado do consolo absurdo que pus em sua boca.
          Tivemos pronta conscincia da origem da infeco. Esse conhecimento instantneo no sonho foi notvel. S que, pouco antes, no tnhamos tido nenhum conhecimento 
disso, pois a infeco s foi revelada por Leopold.
          Quando ela no estava se sentindo bem, meu amigo Otto lhe aplicara uma injeo. Otto efetivamente me contara que, durante sua curta estada com a famlia 
de Irma, fora chamado a um hotel das imediaes para aplicar uma injeo em algum que de repente se sentira mal. Essas injees me fizeram recordar mais uma vez 
meu infeliz amigo que se envenenara com cocana [ver em [1]]. Eu o havia aconselhado a s usar a droga internamente [isto , por via oral], enquanto a morfina era 
retirada; mas ele de imediato se aplicara injees de cocana.
          Um preparado de propil... propilos... cido propinico. Como teria eu chegado a pensar nisso? Na noite anterior, antes de eu redigir o caso clnico e ter 
o sonho, minha mulher abrira uma garrafa de licor na qual aparecia a palavra "Ananas" e que fora um presente de nosso amigo Otto, pois ele tem o hbito de dar presentes 
em todas as ocasies possveis. Seria de esperar, pensei comigo mesmo, que ele algum dia encontrasse uma esposa para cur-lo desse hbito. O licor exalava um cheiro 
to acentuado de lcool amlico que me recusei a toc-lo. Minha mulher sugeriu que dssemos a garrafa aos criados, mas eu - com prudncia ainda maior - vetei a sugesto, 
acrescentando, com esprito filantrpico, que no havia necessidade de eles serem envenenados tampouco. O cheiro do lcool amlico (amil...) evidentemente avivou 
em minha mente a lembrana de toda a seqncia - propil, metil, e assim por diante - e isso explicava o preparado proplico no sonho.  verdade que efetuei uma substituio 
no processo: sonhei com propilo depois de ter cheirado amila. Mas as substituies dessa natureza talvez sejam vlidas na qumica orgnica.
          Trimetilamina. Vi a frmula qumica dessa substncia em meu sonho, o que testemunha um grande esforo por parte de minha memria. Alm disso, a frmula 
estava impressa em negrito, como se tivesse havido um desejo de dar nfase a alguma parte do contexto como algo de importncia muito especial. Para que era, ento, 
que minha ateno deveria ser assim dirigida pela trimetilamina? Para uma conversa com um outro amigo, que h muitos anos se familiarizara com todos os meus escritos, 
durante a fase em que eram gerados, tal como eu me familiarizara com os dele. Na poca, ele me havia confiado algumas idias sobre a questo da qumica dos processos 
sexuais e mencionara, entre outras coisas, acreditar que um dos produtos do metabolismo sexual era a trimetilamina. Assim, essa substncia me levava  sexualidade, 
fator ao qual eu atribua mxima importncia na origem dos distrbios nervosos cuja cura era o meu objetivo. Minha paciente, Irma, era uma jovem viva; se eu quisesse 
encontrar uma desculpa para o fracasso de meu tratamento em seu caso, aquilo a que melhor poderia recorrer era, sem dvida, o fato de sua viuvez, que os amigos dela 
ficariam to contentes em ver modificado. E de que modo quo estranho, pensei comigo, um sonho como esse se concatena! A outra mulher que eu tinha como paciente 
no sonho em lugar de Irma, era tambm uma jovem viva.
          Comecei a imaginar por que a frmula de trimetilamina teria sido to destacada no sonho. Numerosos assuntos importantes convergiam para aquela nica palavra. 
A trimetilamina era uma aluso no s ao fator imensamente poderoso da sexualidade, como tambm a uma pessoa cuja concordncia eu recordava com prazer sempre que 
me sentia isolado em minhas opinies. Com certeza esse amigo, que desempenhou papel to relevante em minha vida, deveria reaparecer em outros pontos desses fluxos 
de pensamentos. Sim, pois ele tinha um conhecimento especial das conseqncias das afeces do nariz e de suas cavidades acessrias, e chamara a ateno do mundo 
cientfico para algumas notveis relaes entre os ossos tribunais e os rgos sexuais femininos. (Cf. as trs estruturas recurvadas na garganta de Irma.) Eu tomara 
providncias para que Irma fosse examinada por ele, para ver se suas dores gstricas poderiam ser de origem nasal. Mas ele prprio sofria de rinite supurativa, o 
que me causava angstia; e houve sem dvida uma aluso a isso na piemia que me ocorreu vagamente em relao s metstases do sonho.
          Injees como essas no deveriam ser aplicadas de forma to impensada. Aqui, uma acusao de irreflexo era feita diretamente contra meu amigo Otto. Pareceu-me 
recordar ter pensado em qualquer coisa da mesma natureza naquela tarde, quando as palavras e a expresso dele pareceram demonstrar que estava tomando partido contra 
mim. Fora uma idia mais ou menos assim: "Com que facilidade os pensamentos dele so influenciados! Com que descaso ele tira concluses apressadas!" - Independentemente 
disso, essa frase no sonho lembrou-me mais uma vez meu amigo morto, que com tanta pressa recorrera a injees de cocana. Como j tive ocasio de dizer, eu nunca 
havia considerado a idia de que a droga fosse ministrada por injees. Notei tambm que, ao acusar Otto de irreflexo no manuseio de substncias qumicas, eu estava 
mais uma vez aludindo a histria da infeliz Mathilde, que dera margem  mesma acusao contra mim. Aqui, eu estava evidentemente reunindo exemplos de minha conscienciosidade, 
mas tambm do inverso.
          E, provavelmente, a seringa no estava limpa. Essa era mais uma acusao contra Otto, porm derivada de uma fonte diferente. Ocorre que, na vspera, eu 
encontrara por acaso o filho de uma velhinha de oitenta e dois anos em que eu tinha de aplicar uma injeo de morfina duas vezes ao dia. No momento, ela se encontrava 
no campo e, disse-me o filho, estava sofrendo de flebite. Eu logo pensara que deveria ser uma infiltrao provocada por uma seringa suja. Orgulhava-me do fato de, 
em dois anos, no haver causado uma nica infiltrao; empenhava-me constantemente em me certificar de que a seringa estava limpa. Em suma, eu era consciencioso. 
A flebite remeteu-me mais uma vez a minha mulher, que sofrera de trombose durante uma das vezes em que estava grvida, e ento me vieram  lembrana trs situaes 
semelhantes, envolvendo minha esposa, Irma e a falecida Mathilde. A identidade dessas situaes evidentemente me permitira, no sonho, substituir as trs figuras 
entre si.
          Acabo de concluir a interpretao do sonho. Enquanto a efetuava, tive certa dificuldade em manter  distncia todas as idias que estavam fadadas a ser 
provocadas pela comparao entre o contedo do sonho e os pensamentos ocultos por trs dele. Entrementes, compreendi o "sentido" do sonho. Tomei conscincia de uma 
inteno posta em prtica pelo sonho e que deveria ter sido meu motivo para sonh-lo. O sonho realizou certos desejos provocados em mim pelos fatos da noite anterior 
(a notcia que me foi dada por Otto e minha redao do caso clnico.) Em outras palavras, a concluso do sonho foi que eu no era responsvel pela persistncia das 
dores de Irma, mas sim Otto. De fato, Otto me aborrecera com suas observaes sobre a cura incompleta de Irma, e o sonho me proporcionou minha vingana, devolvendo 
a reprimenda a ele. O sonho me eximiu da responsabilidade pelo estado de Irma, mostrando que este se devia a outros fatores - e produziu toda uma srie de razes. 
O sonho representou um estado de coisas especfico, tal como eu desejaria que fosse. Assim, seu contedo foi a realizao de um desejo, e seu motivo foi um desejo.
          Tudo isso saltou aos olhos. Mas, muitos dos detalhes do sonho tambm se tornaram inteligveis para mim do ponto de vista da realizao de desejos. No 
s me vinguei de Otto por se apressar demais em seu tratamento mdico (ao aplicar a injeo), como tambm me vinguei dele por ter-me dado o licor que tinha cheiro 
de lcool amlico. E, no sonho, encontrei uma expresso que ligava as duas reprimendas: a injeo era um preparado de propil. Isso no me satisfez, e levei minha 
vingana mais longe, estabelecendo um contraste entre ele e seu concorrente mais digno de confiana. Eu parecia estar dizendo: "Gosto mais dele que de voc." Mas 
Otto no foi a nica pessoa a sofrer os efeitos da minha ira. Vinguei-me tambm de minha paciente desobediente, trocando-a por outra mais sensata e menos resistente. 
Tambm no permiti que o Dr. M. escapasse s conseqncias de sua contradio, mas lhe mostrei, por meio de uma aluso clara, que ele era um ignorante no assunto 
("Sobrevir uma disenteria, etc."). Com efeito, eu parecia estar lhe voltando as costas para recorrer a algum dotado de maiores conhecimentos (a meu amigo que me 
falara de trimetilamina), tal como me voltara de Irma para sua amiga e de Otto para Leopold. "Levem essa gente daqui! Em vez deles dem-me trs outros de minha escolha! 
Ento ficarei livre dessas recriminaes imerecidas!" A falta de fundamento das recriminaes me foi provada no sonho de maneira extremamente complexa. Eu no merecia 
a culpa pelas dores de Irma, j que ela prpria era culpada, por se recusar a aceitar minha soluo. Eu no tinha nada a ver com as dores de Irma, j que eram de 
natureza orgnica e totalmente incurveis pelo tratamento psicolgico. As dores de Irma podiam ser satisfatoriamente explicadas por sua viuvez (cf. a trimetilamina), 
que eu no tinha meios de alterar. As dores de Irma tinham sido provocadas pelo fato de Otto ter-lhe aplicado, sem a devida cautela, uma injeo de uma droga inadequada 
- coisa que eu nunca teria feito. As dores de Irma eram o resultado de uma injeo com agulha suja, tal como a flebite da velhinha de quem eu cuidava - ao passo 
que eu nunca provoquei nenhum dano com minhas injees. Notei,  verdade, que essas explicaes das dores de Irma (que contribuam para me isentar de culpa) no 
eram inteiramente compatveis entre si e, a rigor, eram mutuamente excludentes. Toda a apelao - pois o sonho no passara disso - lembrava com nitidez a defesa 
apresentada pelo homem acusado por um de seus vizinhos de lhe haver devolvido danificada uma chaleira tomada de emprstimo. O acusado asseverou, em primeiro lugar, 
ter devolvido a chaleira em perfeitas condies; em segundo, que a chaleira tinha um buraco quando a tomara emprestada; e, em terceiro, que jamais pedira emprestada 
a chaleira a seu vizinho. Tanto melhor: se apenas uma dessas trs linhas de defesa fosse aceita como vlida, o homem teria de ser absolvido.
          Alguns outros temas, que no estavam ligados de forma to evidente a minha absolvio pela doena de Irma, desempenharam seu papel no sonho: a doena de 
minha filha e a da minha paciente do mesmo nome, o efeito prejudicial da cocana, o distrbio de meu paciente que se encontrava em viagem pelo Egito, minha preocupao 
com a sade de minha mulher e de meu irmo e do Dr. M., meus prprios males fsicos, e minha aflio por meu amigo ausente que sofria de rinite supurativa. Mas, 
ao considerar todas essas coisas, vi que podiam ser todas enfeixadas num nico grupo de idias e rotuladas, por assim dizer, como "interesse por minha prpria sade 
e pela sade de outras pessoas - conscienciosidade profissional." Veio-me  mente a obscura impresso desagradvel que experimentara quando Otto me trouxe a notcia 
do estado de Irma. Esse grupo de idias que haviam desempenhado um papel no sonho permitiu-me, retrospectivamente, traduzir em palavras aquela impresso passageira. 
Era como se ele me houvesse dito: "Voc no leva seus deveres mdicos com a devida seriedade. Voc no  consciencioso; no cumpre o que se comprometeu a fazer." 
A partir da, foi como se esse grupo de idias se tivesse colocado a minha disposio, para que eu pudesse apresentar provas de como eu era extremamente consciencioso, 
da profundidade com que me interessava pela sade de meus parentes, amigos e pacientes. Foi um fato digno de nota que esse material tenha tambm includo algumas 
lembranas desagradveis, que mais davam apoio  acusao de meu amigo Otto do que a minha prpria defesa. O material era, como se poderia dizer, imparcial; mas, 
no obstante, havia uma ligao inconfundvel entre esse grupo mais amplo de pensamentos subjacentes ao sonho e o tema mais restrito do sonho, que me deu margem 
ao desejo de ser inocentado da doena de Irma.
          No tenho a pretenso de haver desvendado por completo o sentido desse sonho, nem de que sua interpretao esteja sem lacunas. Poderia dedicar muito mais 
tempo a ele, tirar dele outras informaes e examinar novos problemas por ele levantados. Eu prprio conheo os pontos a partir dos quais outras linhas de raciocnio 
poderiam ser seguidas. Mas as consideraes que surgem no caso de cada um de meus prprios sonhos me impedem de prosseguir em meu trabalho interpretativo. Se algum 
se vir tentado a expressar uma condenao apressada de minha reticncia, recomendo-lhe que faa a experincia de ser mais franco do que eu. No momento, estou satisfeito 
com a obteno dessa parcela de novos conhecimentos. Se adotarmos o mtodo de interpretao de sonhos que aqui indiquei, verificaremos que os sonhos tm mesmo um 
sentido e esto longe de constituir a expresso de uma atividade fragmentria do crebro, como tm alegado as autoridades. Quando o trabalho de interpretao se 
conclui, percebemos que o sonho  a realizao de um desejo.
          
          
        Captulo III - O SONHO  A REALIZAO DE UM DESEJO
          
          Quando, aps passarmos por um estreito desfiladeiro, de repente emergimos num trecho de terreno elevado, onde o caminho se divide e as mais belas vistas 
se desdobram por todos os lados, podemos parar por um momento e considerar em que direo deveremos comear a orientar nossos passos.  esse o nosso caso, agora 
que ultrapassamos a primeira interpretao de um sonho. Encontramo-nos em plena luz de uma sbita descoberta. No se devem assemelhar os sonhos aos sons desregulados 
que saem de um instrumento musical atingido pelo golpe de alguma fora externa, e no tocado pela mo de um instrumentista (ver em [1] [2]); eles no so destitudos 
de sentido, no so absurdos; no implicam que uma parcela de nossa reserva de representaes esteja adormecida enquanto outra comea a despertar. Pelo contrrio, 
so fenmenos psquicos de inteira validade - realizaes de desejos; podem ser inseridos na cadeia dos atos mentais inteligveis de viglia; so produzidos por 
uma atividade mental altamente complexa.
          Contudo, mal comeamos a nos alegrar com essa descoberta, e j somos assaltados por uma torrente de questes. Se, como nos diz a interpretao dos sonhos, 
um sonho representa um desejo realizado, qual a origem da notvel e enigmtica forma em que se expressa a realizao de um desejo? Por que alterao passaram os 
pensamentos onricos antes de se transformarem no sonho manifesto que recordamos ao despertar? Como se d essa alterao? Qual a fonte do material que se modificou, 
transformando-se em sonho? Qual a fonte das numerosas peculiaridades que se devem observar nos pensamentos onricos - tais como, por exemplo, o fato de poderem ser 
mutuamente contraditrios? (Cf. a analogia da chaleira emprestada, em [1]). Pode um sonho dizer-nos algo de novo sobre nossos processos psquicos internos? Pode 
seu contedo corrigir opinies que sustentamos durante o dia?
          Proponho que, por ora, deixemos de lado todas essas questes e sigamos mais adiante, ao longo de um trilha especfica. Aprendemos que um sonho pode representar 
um desejo como realizado. Nossa primeira preocupao deve ser indagar se esta  uma caracterstica universal dos sonhos, ou se, por acaso, ter sido meramente o 
contedo do sonho especfico (o sonho da injeo de Irma) que foi o primeiro a ser por ns analisado. Pois, mesmo que estejamos dispostos a constatar que todo sonho 
tem um sentido e um valor psquico, deve permanecer em aberto a possibilidade de que esse sentido no seja o mesmo em todos os sonhos. Nosso primeiro sonho foi a 
realizao de um desejo; um segundo poderia revelar-se como um temor realizado; o contedo de um terceiro talvez fosse uma reflexo, ao passo que um quarto poderia 
apenas reproduzir uma lembrana. Encontramos outros sonhos impregnados de desejo, alm desse? Ou ser, talvez, que no h outros sonhos seno os sonhos relativos 
a desejo?
           fcil provar que os sonhos muitas vezes se revelam, sem qualquer disfarce, como realizaes de desejos, de modo que talvez parea surpreendente que a 
linguagem dos sonhos no tenha sido compreendida h muito tempo. Por exemplo, h um sonho que posso produzir em mim mesmo quantas vezes quiser - experimentalmente, 
por assim dizer. Se  noite eu comer anchovas ou azeitonas, ou qualquer outro alimento muito salgado, ficarei com sede de madrugada, e a sede me acordar. Mas meu 
despertar ser precedido por um sonho, sempre com o mesmo contedo, ou seja, o de que estou bebendo. Sonho estar engolindo gua em grandes goles, e ela tem delicioso 
sabor que nada seno uma bebida fresca pode igualar quando se est queimando de sede. Ento acordo e tenho que tomar uma bebida de verdade. Esse sonho simples  
ocasionado pela sede da qual me conscientizo ao acordar. A sede d origem a um desejo de beber, e o sonho me mostra esse desejo realizado. Ao faz-lo, ele executa 
uma funo - que seria fcil adivinhar. Durmo bem e no costumo ser acordado por nenhuma necessidade fsica. Quando consigo aplacar minha sede sonhando que estou 
bebendo, no preciso despertar para saci-la. Esse , portanto, um sonho de convenincia. O sonhar toma o lugar da ao, como o faz muitas vezes em outras situaes 
da vida. Infelizmente, minha necessidade de gua para aplacar a sede no pode satisfazer-se num sonho da mesma forma que se satisfaz minha sede de vingana contra 
meu amigo Otto e o Dr. M.; mas a boa inteno est presente em ambos os casos. No faz muito tempo, esse mesmo sonho meu exibiu algumas modificaes. Eu j sentira 
sede antes mesmo de adormecer e esvaziara um copo d'gua que estava na mesa ao lado da cama. Algumas horas depois, durante a madrugada, tive um novo ataque de sede, 
e isso teve resultados inconvenientes. Para me servir de gua, eu teria de me levantar e apanhar o copo que estava na mesa ao lado da cama de minha esposa. Assim, 
tive um sonho apropriado, em que minha mulher me dava de beber de um vaso; esse vaso era uma urna cinerria etrusca que eu trouxera de uma viagem  Itlia e da qual 
mais tarde me desfizera. Mas sua gua tinha um sabor to salgado (evidentemente por causa das cinzas da urna) que acordei.  de se notar a forma conveniente como 
tudo se organizava nesse sonhos. Visto que sua nica finalidade era realizar um desejo, o sonho poderia ser completamente egosta. O amor ao comodismo e  convenincia 
no  realmente compatvel com a considerao pelas outras pessoas. A introduo da urna cinerria foi, provavelmente, outra realizao de desejo. Eu lamentava que 
o vaso j no estivesse em meu poder - tal como o copo d'gua na mesa de cabeceira de minha mulher estava fora de meu alcance. Tambm a urna, como suas cinzas, ajustava-se 
ao sabor salgado em minha boca, que j ento se tornara mais forte e que eu sabia estar fadado a me acordar.
          Esses sonhos de convenincia eram muito freqentes em minha juventude. Tendo adquirido, desde quando consigo recordar, o hbito de trabalhar at altas 
horas da noite, sempre tive dificuldade de acordar cedo. Costumava ento sonhar que me havia levantado e estava de p ao lado do lavatrio; passado algum tempo, 
j no conseguia disfarar de mim mesmo o fato de que realmente ainda estava na cama, s que, nesse meio tempo, dormira um pouco mais. Um desses sonhos indolentes, 
expresso numa forma particularmente divertida e refinada, foi-me relatado por um jovem colega mdico que parece partilhar de meu gosto pelo sono. A hospedeira de 
sua penso, nas proximidades do hospital, tinha instrues rigorosas de acord-lo na hora todas as manhs, mas no era nada fcil cumpri-las. Certa manh, o sonho 
parecia especialmente doce. A senhoria gritou atravs da porta: "Acorde, Herr Pepi! So horas de ir para o hospital!" Em resposta a isso, ele sonhou que estava deitado 
numa cama num quarto de hospital, e que havia um carto acima do leito onde estava escrito: "Pepi H., estudante de medicina, idade: 22 anos." Enquanto sonhava, ele 
dizia a si mesmo: "Como j estou no hospital, no h necessidade de ir at l" - e, virando-se para o outro lado, continuou a dormir. Desse modo, ele confessou abertamente 
o motivo de seu sonho.
           Eis aqui outro sonho em que, mais uma vez, o estmulo produziu seu efeito durante o sono efetivo. Uma das minhas pacientes, que fora obrigada a se submeter 
a uma operao no maxilar, operao essa que tomara um rumo desfavorvel, recebeu ordens dos mdicos para usar um aparelho de resfriamento no lado do rosto, dia 
e noite. Logo que adormecia, porm, costumava p-lo de lado. Um dia, depois de ela ter mais uma vez jogado o aparelho no cho, pediram-me que falasse srio com ela 
a esse respeito. "Dessa vez, realmente no pude evitar", respondeu. "Foi por causa de um sonho que tive  noite. Sonhei que estava num camarote na pera, e que estava 
apreciando muitssimo o espetculo. Mas Herr Karls Meyer estava na casa de sade e se queixava amargamente de dores no maxilar. Assim, eu disse a mim mesma que, 
como no estava sentindo nenhuma dor, no precisava do aparelho; e joguei-o fora." O sonho dessa pobre sofredora parece quase uma representao concreta de uma frase 
que s vezes se impe s pessoas nas situaes desagradveis: "Devo dizer que eu poderia pensar em algo mais agradvel do que isso." O sonho d uma imagem dessa 
coisa mais agradvel. O Herr Karl Meyer para quem a autora do sonho transplantou suas dores era, dentre seus conhecidos, o rapaz mais insignificante que ela pde 
lembrar.
          A realizao de desejos pode ser detectada com igual facilidade em alguns outros sonhos que colhi de pessoas normais. Um amigo meu, que conhece minha teoria 
dos sonhos e falou dela com sua mulher, disse-me certo dia: "Minha mulher pediu que eu lhe dissesse que ontem sonhou que estava menstruada. Voc pode imaginar o 
que isso significa." E eu realmente podia. O fato de essa jovem senhora ter sonhado que estava menstruada significava que suas regras no tinham vindo. Eu bem podia 
acreditar que ela ficaria satisfeita em continuar desfrutando um pouco mais de sua liberdade, antes de arcar com o fardo da maternidade. Foi uma maneira delicada 
de anunciar sua primeira gravidez. Outro amigo meu escreveu-me dizendo que, no muito tempo antes, sua mulher sonhara ter observados algumas manchas de leite na 
frente de seu vestido. Tambm esse foi um aviso de gravidez, mas no da primeira. A jovem me estava desejando que pudesse ter mais alimento para dar a seu segundo 
filho do que tivera para o primeiro.
          Uma jovem mulher ficara isolada da sociedade por semanas a fio enquanto cuidava do filho durante uma doena infecciosa. Aps a recuperao da criana, 
sonhou que estava numa festa onde, entre outros, conheceu Alphonse Daudet, Paul Bourget e Marcel Prvost; todos foram afabilssimos com ela e muito divertidos. Todos 
esses autores se pareciam com seus retratos, exceto Marcel Prvost, cuja fotografia ela jamais vira; e ele se parecia com... o funcionrio da desinfeco que fumigara 
o quarto do doente na vspera e que fora seu primeiro visitante aps tanto tempo. Assim, parece possvel fornecer uma traduo completa do sonho: "J  hora de fazer 
alguma coisa mais divertida do que essa perptua assistncia a doentes."
          Esses exemplos talvez bastem para mostrar que os sonhos que s podem ser compreendidos como realizaes de desejos e que trazem seu sentido estampado no 
rosto, sem nenhum disfarce, encontram-se sob as mais freqentes e variadas condies. Em sua maioria, so sonhos simples e curtos, que apresentam um agradvel contraste 
com as composies confusas e exuberantes que tm predominantemente atrado a ateno das autoridades. No obstante, ser compensador determo-nos por um momento 
nesse sonhos simples.  de esperar que encontremos as mais simples formas de sonhos nas crianas, j que no h dvida alguma que suas produes psquicas so menos 
complicadas que as dos adultos. A psicologia infantil, em minha opinio, est destinada a prestar  psicologia do adulto servios to teis quanto os que a investigao 
da estrutura ou do desenvolvimento dos animais inferiores para a pesquisa da estrutura das classes superiores de animais. Poucos esforos deliberados foram feitos 
at agora para se utilizar a psicologia infantil com essa finalidade.
          Os sonhos das crianas pequenas so freqentemente pura realizao de desejos e so, nesse caso, muito desinteressantes se comparados com os sonhos dos 
adultos. No levantam problemas para serem solucionados, mas, por outro lado, so de inestimvel importncia para provar que, em sua natureza essencial, os sonhos 
representam realizaes de desejos. Pude reunir alguns exemplos desses sonhos a partir de material fornecido por meus prprio filhos.
          Tenho que agradecer a uma excurso que fizemos de Ausee  encantadora aldeia de Hallstatt, no vero de 1896, por dois sonhos: um deles foi de minha filha, 
que contava ento oito anos e meio, e o outro, de seu irmo, de cinco anos e trs meses. Devo explicar,  guisa de prembulo, que estvamos passando o vero na encosta 
de uma colina perto de Ausee, de onde, quando fazia bom tempo, descortinvamos uma esplndida vista do Dachstein. A Cabana Simony era claramente visvel por telescpio. 
As crianas fizeram repetidas tentativas de v-la por meio desse instrumento - no sei dizer com que grau de sucesso. Antes de nossa excurso, eu dissera s crianas 
que Hallstatt ficava no sop do Dachstein. Elas aguardaram o dia com grande expectativa. De Hallstatt caminhamos at o Echerntal, que deliciou as crianas com sua 
sucesso de paisagens cambiantes. Uma das crianas porm, o menino de cinco anos, foi aos poucos ficando inquieto. Toda vez que divisvamos uma nova montanha, ele 
perguntava se era o Dachstein, e eu tinha de dizer "No,  apenas um dos contrafortes." Depois de ter formulado a pergunta vrias vezes, ele caiu em completo silncio, 
recusando-se categoricamente a subir conosco a encosta ngreme que leva  cascata. Achei que estava cansado. Mas, na manh seguinte, ele veio a mim com uma expresso 
radiante e disse: "Ontem  noite sonhei que estvamos na Cabana Simony." Ento eu o compreendi. Quando eu falara sobre o Dachstein, ele tinha esperado subir a montanha 
durante nossa excurso a Hallstatt e encontrar-se perto da cabana sobre a qual tanto se falara em relao ao telescpio. Mas, ao descobrir que estava sendo ludibriado 
com contrafortes e uma queda d'gua, sentiu-se decepcionado e abatido. O sonho foi uma compensao. Tentei descobrir seus detalhes, mas eles eram escassos: "Voc 
precisa galgar degraus durante seis horas" - o que correspondia ao que lhe haviam dito.
          A mesma excurso despertou desejos tambm na menina de oito anos e meio - desejos que tiveram de ser satisfeitos num sonho. Tnhamos levado conosco para 
Hallstatt o filho de doze anos de nosso vizinho. Ele j era um galanteador de mo cheia, e havia sinais de ter granjeado a afeio da jovenzinha. Na manh seguinte, 
ela me contou o seguinte sonho: "Imagine s! Sonhei que Emil fazia parte da famlia e chamava vocs de 'Papai' e 'Mame', e dormia conosco no quarto grande como 
os meninos. A, mame entrou e jogou um punhado de barras grandes de chocolate, embrulhadas em papel azul e verde, embaixo de nossas camas." Os irmos dela, que 
evidentemente no haviam herdado a faculdade de entender os sonhos, seguiram a orientao das autoridades e declararam que o sonho era absurdo. A prpria menina 
defendeu pelo menos uma parte do sonho; e saber qual parte lana luz sobre a teoria das neuroses. " claro que  absurdo Emil fazer parte da famlia; mas a parte 
sobre as barras de chocolate no ." Era precisamente quanto a esse ponto que eu estava em dvida, mas a me da menina deu-me ento a explicao. No caminho da estao 
para casa, as crianas haviam parado em frente a uma mquina automtica, da qual estavam habituadas a obter justamente aquele tipo de barras de chocolate, embrulhadas 
em brilhante papel metlico. Quiseram algumas, mas a me, com razo, decidira que o dia j havia realizado um nmero suficiente de desejos e deixara a realizao 
desse a cargo do sonho. Eu no havia observado esse incidente. Mas a parte do sonho que fora censurada por minha filha imediatamente se tornou mais clara para mim. 
Eu mesmo ouvira meu bem-comportado hspede dizer s crianas, no passeio, que esperassem at que Papai e Mame os alcanassem. O sonho da menina transformara esse 
parentesco temporrio numa adoo permanente. Sua afeio ainda no podia visualizar quaisquer outras modalidades de companheirismo seno as que foram representadas 
no sonho, e que se baseavam em sua relao com os irmos. Naturalmente, era impossvel descobrir, sem lhe perguntar, por que as barras de chocolate foram atiradas 
embaixo da cama.
          Um de meus amigos relatou-me um sonho muito semelhante ao do meu filho. Quem o teve foi uma menina de oito anos. O pai dessa menina sara para uma caminhada 
com vrias crianas at Dornbach, com a idia de visitar a Cabana Rohrer. Como estivesse ficando tarde, porm, tinha voltado, prometendo s crianas compensar-lhes 
a decepo noutra oportunidade. A caminho de casa, passaram pelo marco que assinala a trilha que sobe at o Hameau. As crianas pediram ento que as levassem at 
o Hameau; porm, mais uma vez, pela mesma razo, tiveram de ser consoladas com a promessa de outro dia. Na manh seguinte, a menina de oito anos dirigiu-se ao pai 
e disse, com expresso satisfeita: "Papai, ontem  noite sonhei que o senhor foi com a gente  Cabana Rohrer e ao Hameau." Em sua impacincia, ela previra a realizao 
das promessas do pai.
          Eis aqui um sonho igualmente direto, provocado pela beleza dos panoramas de Ausee em outra de minhas filhas, que contava ento trs anos e trs meses. 
Ela atravessara o lago pela primeira vez e, para ela, a travessia fora curta demais: quando alcanamos o ponto de desembarque, no quis sair do barco e chorou amargamente. 
Na manh seguinte, disse: "Ontem de noite fui para o lago." Esperemos que sua travessia no sonho tenha sido de uma durao mais satisfatria.
          Meu filho mais velho, ento com oito anos, j tinha sonhos de ver suas fantasias realizadas: sonhou que estava andando de carruagem com Aquiles e que Diomedes 
era o condutor. Como se pode imaginar, ele ficara excitado, na vspera, com um livro sobre as lendas da Grcia, dado a sua irm mais velha.
          Caso me seja facultado incluir na categoria dos sonhos as palavras ditas pelas crianas durante o sono, posso citar, a esta altura, um dos sonhos mais 
infantis de toda a minha coleo. Minha filha mais nova, ento com dezenove meses de idade, tivera um ataque de vmitos certa manh e, como conseqncia, ficara 
sem alimento o dia inteiro. Na madrugada seguinte a esse dia de fome, ns a ouvimos exclamar excitadamente enquanto dormia: "Anna Freud, molangos, molangos silvestes, 
omelete pudim!" Naquela poca, Anna tinha o hbito de usar seu prprio nome para expressar a idia de se apossar de algo. O menu inclua perfeitamente tudo o que 
lhe devia parecer constituir uma refeio desejvel. O fato de os morangos aparecerem nele em duas variedades era uma manifestao contra os regulamentos domsticos 
de sade. Baseava-se no fato, que ela sem dvida havia observado, de sua ama ter atribudo sua indisposio a uma indigesto de morangos. Assim, ela retaliou no 
sonho contra esse veredicto indesejvel.
          Embora tenhamos em alta conta a felicidade da infncia, por ser ela ainda inocente de desejos sexuais, no nos devemos esquecer da fonte frtil de decepo 
e renncia, e conseqentemente de estmulo ao sonho, que pode ser proporcionada pelas duas outras grandes pulses vitais. Eis aqui outro exemplo disso. Meu sobrinho, 
com um ano e dez meses, fora encarregado de me cumprimentar por meu aniversrio e de me presentear com uma cesta de cerejas, que ainda estavam fora de estao nessa 
poca do ano. Ele parece ter achado a tarefa difcil, pois ficava repetindo "Celejas nela", mas era impossvel induzi-lo a entregar o presente. Contudo, ele encontrou 
um meio de compensao. Estava habituado, todas as manhs, a contar  me que tinha tido um sonho com o "soldado branco" - um oficial da guarda envergando sua tnica 
branca, que ele um dia ficara na rua a contemplar com admirao. No dia seguinte ao sacrifcio do aniversrio, ele acordou com uma notcia animadora, que s poderia 
ter-se originado num sonho: "Hermann comeu todas as celejas!"
          
          Eu mesmo no sei com que sonham os animais. Mas um provrbio, para o qual minha ateno foi despertada por um de meus alunos, alega realmente saber. "Com 
que", pergunta o provrbio, "sonham os gansos?" E responde: "Com milho". Toda a teoria de que os sonhos so realizaes de desejos se acha contida nessas duas frases.
          
          Como se v, poderamos ter chegado mais depressa a nossa teoria do sentido oculto dos sonhos simplesmente observando o uso lingstico.  verdade que a 
linguagem comum s vezes se refere aos sonhos com desprezo. (A frase "Trume sind Schume" [Os sonhos so espuma] parece destinada a apoiar a apreciao cientfica 
dos sonhos.) Grosso modo, porm, o uso comum trata os sonhos, acima de tudo, como abenoados realizadores de desejos. Sempre que vemos nossas expectativas ultrapassadas 
por um acontecimento, exclamamos em nossa alegria: "Eu nunca teria imaginado tal coisa, nem mesmo em meus sonhos mais fantsticos!"
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
        Captulo IV - A DISTORO NOS SONHOS
          
          Se eu passar a afirmar que o sentido de todos os sonhos  a realizao de um desejo, isto , que no pode haver nenhum sonho seno os sonhos desejantes, 
desde j estou certo de que depararei com a mais categrica refutao a tal afirmativa.
          "No h nada de novo", diro, "na idia de que alguns sonhos devam ser encarados como realizaes de desejos; as autoridades assinalaram esse fato h muito 
tempo. Cf. Radestock (1879, 137 e seg.), Volkelt (1875, 110 e seg.), Purkinje (1846, 456), Tissi (1898, 70), Simon (1888, 42, a propsito dos sonhos de fome do 
Baro Trenck quando prisioneiro), e um trecho em Griesinger (1845, 89). Mas afirmar que no h outros sonhos seno os de realizao de desejos constitui apenas mais 
uma generalizao injustificvel, embora felizmente fcil de refutar. Afinal de contas, ocorrem numerosos sonhos que contm os mais penosos temas, mas nenhum sinal 
de qualquer realizao de desejo. Eduard von Hartmann, o filsofo do pessimismo,  provavelmente quem mais se afasta da teoria da realizao de desejos. Em sua Philosophie 
des Unbewussten (1890, 2, 344), escreve: 'Quando se trata de sonhos, vemos todas as contrariedades da vida de viglia transportadas para o estado de sono; a nica 
coisa que no encontramos  aquilo que pode, at certo ponto, reconciliar um homem culto com a vida - o prazer cientfico e artstico...' Mas at mesmo observadores 
menos descontentes tm insistido em que a dor e o desprazer so mais comuns nos sonhos do que o prazer: por exemplo, Scholz (1893, 57), Volkelt (1875, 80) e outros. 
Com efeito, duas senhoras, Florence Hallam e Sarah Weed (1896, 499), chegaram realmente a dar expresso estatstica, baseada num estudo de seus prprios sonhos, 
 preponderncia do desprazer no sonho. Verificaram que 57,2% dos sonhos so 'desagradveis' e apenas 28,6% decididamente 'agradveis'. E, afora esses sonhos, que 
levam para o sono as vrias emoes penosas da vida, existem sonhos de angstia, em que o mais terrvel de todos os sentimentos desprazerosos nos retm em suas garras 
at despertarmos. E as vtimas mais comuns desses sonhos de angstia so precisamente as crianas, cujos sonhos o senhor descreveu como indisfarveis realizaes 
de desejos."
          De fato, parece que os sonhos de angstia tornam possvel asseverar como proposio geral (baseada nos exemplos citados em meu ltimo captulo) que os 
sonhos so realizaes de desejos; na verdade, eles parecem caracterizar tal proposio como um absurdo.
          No obstante, no h grande dificuldade em enfrentar essas objees aparentemente irrefutveis.  necessrio apenas observar o fato de que minha teoria 
no se baseia numa considerao do contedo manifesto dos sonhos, mas se refere aos pensamentos que o trabalho de interpretao mostra estarem por trs dos sonhos. 
Devemos estabelecer um contraste entre os contedos manifesto e latente dos sonhos. No h dvida de que existem sonhos cujo contedo manifesto  de natureza extremamente 
aflitiva. Mas ter algum tentado interpretar esses sonhos? Revelar os pensamentos latentes que se encontram por trs deles? Se no for assim, as duas objees levantadas 
contra minha teoria so inconsistentes:  ainda possvel que os sonhos aflitivos e os sonhos de angstia, uma vez interpretados, revelem-se como realizaes de desejos.
          Quando, no decorrer de um trabalho cientfico, deparamos com um problema de difcil soluo, muitas vezes constitui uma boa medida tomar um segundo problema 
juntamente com o original - da mesma forma que  mais fcil quebrar duas nozes juntas do que cada uma em separado. Assim, no s nos defrontamos com a pergunta "Como 
podem os sonhos aflitivos e os sonhos de angstia ser realizaes de desejos?", como tambm nossas reflexes permitem-nos acrescentar uma segunda pergunta: "Por 
que  que os sonhos de contedo irrelevante, que mostram ser realizaes de desejos, no expressam seu sentido sem disfarces?" Tomemos, por exemplo, o sonho da injeo 
de Irma, que abordei exaustivamente. No foi, de modo algum, de natureza aflitiva, e a interpretao mostrou-o como exemplo marcante da realizao de um desejo. 
Mas por que deveria ele precisar de qualquer interpretao? Por que no expressou diretamente o que queria dizer?  primeira vista, o sonho da injeo de Irma no 
dava nenhuma impresso de representar como realizado um desejo do sonhador. Meus leitores no tero tido tal impresso; mas nem eu a tive antes de haver efetuado 
a anlise. Descrevamos esse comportamento dos sonhos, que tanto carece de explicao, como "o fenmeno da distoro dos sonhos". Assim, nosso segundo problema : 
qual a origem da distoro onrica?
           possvel que nos ocorram de imediato diversas solues possveis para o problema, como por exemplo, que existe alguma incapacidade, durante o sono, para 
darmos expresso direta a nossos pensamentos onricos. Mas a anlise de certos sonhos nos fora a adotar outra explicao para a distoro neles existente. Exemplificarei 
esse ponto por meio de outro sonho que tive. Mais uma vez, esse procedimento me envolver numa multiplicidade de indiscries, mas a elucidao minuciosa do problema 
compensar meu sacrifcio pessoal.
          PREMBULO. - Na primavera de 1897, soube que dois professores de nossa universidade me haviam recomendado para nomeao como professor extraordinarius. 
A notcia me surpreendeu e muito me alegrou, pois implicava o reconhecimento por dois homens eminentes, que no poderia ser atribudo a quaisquer consideraes de 
ordem pessoal. Mas logo me preveni para no ligar ao fato nenhuma expectativa. Nos ltimos anos, o Ministrio desconsiderara esse tipo de recomendaes, e vrios 
de meus colegas, que eram mais velhos do que e pelo menos se igualavam a mim em termos de mrito, em vo vinham esperando por uma nomeao. Eu no tinha motivos 
para crer que viesse a ter melhor sorte. Determinei-me, portanto, a encarar o futuro como resignao. At onde eu me conhecia, no era um homem ambicioso; vinha 
seguindo minha profisso com xito gratificante, mesmo sem as vantagens proporcionadas por um ttulo. Alm disso, no havia meios de eu dizer que as uvas estavam 
verdes ou maduras: elas pendiam alto demais sobre minha cabea.
          Certa noite, recebi a visita de um amigo - um dos homens cujo exemplo eu tomara como advertncia para mim. Por um tempo considervel, ele fora candidato 
 promoo ao cargo de professor, categoria que, em nossa sociedade, transforma o mdico num semideus para seus pacientes. Menos resignado que eu, porm, ele tinha 
o hbito de ir de vez em quando cumprimentar o pessoal das reparties do Ministrio, com vistas a promover seus interesses. Estivera fazendo uma dessas visitas 
pouco antes de vir ver-me. Contou-me que, nessa ocasio, pressionara o exaltado funcionrio e lhe perguntara  queima-roupa se a demora de sua nomeao no se prendia, 
de fato, a consideraes sectrias. A resposta fora que, em vista do atual estado de coisas, sem dvida era verdade que, no momento, Sua Excelncia no estava em 
condies, etc. etc. "Pelo menos sei onde estou agora", conclura meu amigo. Isso no foi novidade para mim, embora estivesse fadado a fortalecer seu sentimento 
de resignao, pois as mesmas consideraes sectrias se aplicavam ao meu prprio caso.
          Na manh seguinte a essa visita, tive o seguinte sonho, que foi notvel, entre outras coisas, por sua forma. Consistiu em dois pensamentos e duas imagens 
- sendo cada pensamento seguido por uma imagem. Entretanto, exporei aqui apenas a primeira metade do sonho, visto que a outra metade no tem nenhuma relao com 
a finalidade para a qual descrevo o sonho.
          I... Meu amigo R. era meu tio. - Eu tinha por ele um grande sentimento de afeio.
          II. Vi seu rosto diante de mim, um tanto modificado. Era como se tivesse sido repuxado no sentido do comprimento. Uma barba amarela que o circundava destacava-se 
de maneira especialmente ntida.
          Seguiam-se as duas outras partes que omitirei - mais uma vez, uma idia seguida de uma imagem.
          A interpretao do sonho ocorreu da seguinte forma.
          Quando, no decorrer da manh, o sonho me veio  cabea, ri alto e disse: "O sonho  absurdo!" Mas ele se recusava a ir embora e me seguiu o dia inteiro, 
at que finalmente,  noite, comecei a me repreender: "Se um de seus pacientes que estivesse interpretando um sonho no encontrasse nada melhor para dizer do que 
afirmar que ela era um absurdo, voc o questionaria sobre isso e suspeitaria de que o sonho tinha por trs alguma histria desagradvel, da qual o paciente queria 
evitar conscientizar-se. Pois trate-se da mesma maneira. Sua opinio de que o sonho  absurdo significa apenas que voc tem uma resistncia interna contra a interpretao 
dele. No se deixe despistar dessa maneira." Assim, dei incio  interpretao.
          "R. era meu tio." Que poderia significar isso? Nunca tive mais do que um tio - o Tio Josef. Havia um histria triste ligada a ele. Certa vez - h mais 
de trinta anos -, em sua ansiedade de ganhar dinheiro, ele se deixou envolver num tipo de transao que  severamente punido pela lei, e foi efetivamente castigado 
por isso. Meu pai, cujo cabelos se embranqueceram de tristeza em poucos dias, costumava sempre dizer que tio Josef no era um mau homem, mas apenas um tolo; essas 
eram suas palavras. De modo que, se meu amigo R. era meu Tio Josef, o que eu estava querendo dizer era que R. era um tolo. Difcil de acreditar e extremamente desagradvel! 
- Mas havia o rosto que eu via no sonho, com suas feies alongadas e a barba amarela. Meu tio, de fato, tinha um rosto como aquele, alongado e emoldurado por uma 
bela barba loura. Meu amigo R. fora, a princpio, extremamente moreno; mas quando as pessoas de cabelos pretos comeam a ficar grisalhas, elas pagam um tributo pelo 
esplendor de sua juventude. Fio por fio, sua barba negra comea a passar por uma desagradvel mudana de cor: primeiro, para um castanho avermelhado, depois, para 
um castanho amarelado, e s ento para um grisalho definitivo. A barba de meu amigo R. estava, naquela ocasio, passando por essa fase - e tambm, por coincidncia, 
a minha prpria, como eu havia observado com insatisfao. O rosto que vi no sonho era, ao mesmo tempo, o de meu amigo R. e o de meu tio. Era como uma das fotografias 
compostas por Galton. (Para ressaltar as semelhanas familiares, Galton costumava fotografar vrios rostos na mesma chapa [1907, 6 e segs. e 221 e segs.]). Assim, 
no havia dvida de que eu realmente queria dizer que meu amigo R. era um tolo - como meu Tio Josef.
          Eu ainda no tinha nenhuma idia sobre qual poderia ser a finalidade dessa comparao, contra a qual continuava a lutar. Ela no ia muito longe, afinal, 
j que meu tio era um criminoso, ao passo que meu amigo R. tinha um carter sem mcula... salvo por uma multa que lhe fora imposta por ter derrubado um menino com 
sua bicicleta. Poderia eu ter tido esse crime em mente? Isso teria sido ridicularizar a comparao. Nesse ponto, lembrei-me de outra conversa que tivera alguns dias 
antes com outro colega, N., e agora que pensava nela, lembrei que fora o mesmo assunto. Eu havia encontrado N. na rua. Ele tambm fora recomendado para o cargo de 
professor. Ouvira falar da homenagem que me fora prestada e me deu seus parabns por isso, mas eu, sem hesitar, recusei-me a aceit-los. "Voc  a ltima pessoa", 
disse-lhe, "a fazer essa espcie de brincadeira; voc sabe o quanto vale essa recomendao por sua prpria experincia." "Quem  que pode dizer?" respondeu ele - 
gracejando, ao que me pareceu; "havia uma coisa clara contra mim. Voc no sabe que certa vez uma mulher abriu um processo judicial contra mim? Nem  preciso dizer 
que o caso foi arquivado. Foi uma tentativa ignominiosa de chantagem, e tive a maior dificuldade em evitar que a acusadora deixasse de ser punida. Mas talvez eles 
estejam usando isso no Ministrio como desculpa para no me nomearem. Mas voc tem um carter impecvel." Isso me disse quem era o criminoso e, ao mesmo tempo, mostrou-me 
como o sonho devia ser interpretado e qual era sua finalidade. Meu Tio Josef representava meus dois colegas que no tinham sido nomeados para o cargo de professor 
- um como tolo, e o outro, como criminoso. Agora, eu tambm compreendia por que tinham sido representados sob esse aspecto. Se a nomeao de meus amigos R. e N. 
tinha sido adiada por motivos "sectrios", minha prpria nomeao tambm era duvidosa; no entanto, se eu pudesse atribuir a rejeio de meus dois amigos a outras 
razes, que no se aplicavam a mim, minhas esperanas permaneceriam intocadas. Fora esse o mtodo adotado por meu sonho: ele transformara um deles, R., num tolo, 
e o outro, N., num criminoso, ao passo que eu no era uma coisa nem outra; assim, j no tnhamos mais nada em comum; eu podia me regozijar com minha nomeao para 
o cargo de professor e podia evitar a penosa concluso de que o relato de R. sobre o que lhe dissera o alto funcionrio devia aplicar-se igualmente a mim.
          Mas senti-me obrigado a levar ainda mais longe minha interpretao do sonho; senti que ainda no havia terminado de lidar satisfatoriamente com ele. Ainda 
estava inquieto com a despreocupao com que degradara dois respeitados colegas para manter aberto meu prprio acesso ao cargo de professor. No entanto, a insatisfao 
com minha conduta havia diminudo desde que eu me apercebera do valor que se deve atribuir s expresses nos sonhos. Eu estava pronto a negar com toda veemncia 
que realmente considerasse R. um tolo e que de fato desacreditasse da histria de N. sobre a chantagem. Tampouco acreditava que Irma tivesse de fato ficado gravemente 
enferma por haver recebido uma injeo do preparado de propil de Otto. Em ambos os casos, o que meus sonhos haviam expressado era apenas meu desejo de que fosse 
assim. A afirmao na qual meu desejo se materializara soava menos absurda no segundo sonho do que no primeiro; este usou mais habilmente os fatos reais em sua construo, 
tal como uma calnia bem engendrada do tipo que faz com que as pessoas sintam que "h qualquer coisa nisso". Afinal, um dos professores da prpria faculdade de meu 
amigo R. votara contra ele, e meu amigo N. me fornecera inocentemente, ele prprio, o material para minhas difamaes. No obstante, devo repetir, o sonho me parecia 
requerer maior elucidao.
          Recordei ento que havia outra parte do sonho intocada pela interpretao. Depois de me ocorrer a idia de que R. era meu tio, eu havia experimentado um 
caloroso sentimento de afeio por ele no sonho. De onde vinha esse sentimento? Naturalmente, eu nunca sentira nenhuma afeio por Tio Josef. Apreciava meu amigo 
R. e o estimara durante muitos anos, mas, se me dirigisse a ele e expressasse meus sentimentos em termos que se aproximassem do grau de afeto que sentira no sonho, 
no h nenhuma dvida de que ele teria ficado perplexo. Minha afeio por ele pareceu-me artificial e exagerada - tal como o julgamento de suas qualidades intelectuais, 
que eu expressara ao fundir sua personalidade com a de meu tio, embora, nesse caso, o exagero tivesse corrido no sentido oposto. Mas uma nova percepo comeou a 
despontar em mim. A afeio, no sonho, no dizia respeito ao contedo latente, aos pensamentos que estavam por trs do sonho; estava em contradio com eles e tinha 
o propsito de ocultar a verdadeira interpretao do sonho. E  provvel que essa fosse precisamente sua raison d'tre. Lembrei-me de minha resistncia em proceder 
 interpretao, de quanto a havia odiado, e de como declarara que o sonho era puro absurdo. Meus tratamentos psicanalticos ensinaram-me como se deve interpretar 
um repdio dessa natureza: ele no tinha nenhum valor como julgamento, mas era simplesmente uma expresso de emoo. Quando minha filhinha no queria uma ma que 
lhe era oferecida, afirmava que a ma estava azeda sem hav-la provado. E, quando meus pacientes se comportavam como a menina, eu sabia que estavam preocupados 
com uma representao que desejavam recalcar. O mesmo se aplicava a meu sonho. Eu no queria interpret-lo porque a interpretao encerrava algo que eu estava combatendo. 
Quando conclu a interpretao, entendi contra que estivera lutando - isto , a afirmao de que R. era um tolo. A afeio que eu sentia por R. no podia provir 
dos pensamentos onricos latentes, mas se originara, sem dvida, dessa luta que eu travava. Se meu sonho estava distorcido nesse aspecto em relao a seu contedo 
latente - e distorcido pareceu oposto -, ento a afeio manifesta no sonho atendera ao propsito dessa distoro. Em outras palavras, a distoro, nesse caso, mostrou 
ser deliberada e constituiu um meio de dissimulao. Meus pensamentos onricos tinham includo uma calnia contra R. e, para que eu no pudesse not-la, o que apareceu 
no sonho foi o oposto: um sentimento de afeio por ele.
          Pareceu-me que essa seria uma descoberta de validade geral.  verdade que, como ficou demonstrado nos exemplos citados no Captulo III, h alguns sonhos 
que so realizaes indisfaradas de desejos. Mas, nos casos em que a realizao de desejo  irreconhecvel, em que  disfarada, deve ter havido alguma inclinao 
para se erguer uma defesa contra o desejo; e, graas a essa defesa, o desejo  incapaz de se expressar, a no ser de forma distorcida. Tentarei encontrar uma distoro 
semelhante de um ato psquico na vida social. Onde podemos encontrar uma distoro semelhante de um ato fsico na vida social? Somente quando h duas pessoas envolvidas, 
e uma das quais possui certo grau de poder que a segunda  obrigada a levar em considerao. Nesse caso, a segunda pessoa distorce seus atos psquicos, ou, como 
se poderia dizer, dissimula. A polidez que pratico todos os dias , numa grande medida, uma dissimulao desse tipo; e quando interpreto meus sonhos para meus leitores, 
sou obrigado a adotar distores semelhantes. O poeta se queixa da necessidade dessas distores, com as palavras:
          Das Beste, was du wissen kannst,Darfst du den Buben doch nicht sagen.
          Dificuldade semelhante enfrenta o autor poltico que tem verdades desagradveis a dizer aos que esto no poder. Se as apresentar sem disfarces, as autoridades 
reprimiro suas palavras - depois de proferidas, no caso de um pronunciamento oral, mas de antemo, caso ele pretenda faz-lo num texto impresso. O escritor tem 
de estar precavido contra a censura e, por causa dela, precisa atenuar e distorcer a expresso de sua opinio. Conforme o rigor e a sensibilidade da censura, ele 
se v compelido a simplesmente abster-se de certas formas de ataque ou a falar por meio de aluses em vez de referncias diretas, ou tem que ocultar seu pronunciamento 
objetvel sob algum disfarce aparentemente inocente: por exemplo, pode descrever uma contenda entre dois mandarins do Imprio do Meio [na China], quando as pessoas 
que de fato tem em mente so autoridades de seu prprio pas. Quanto mais rigorosa a censura, mais amplo ser o disfarce e mais engenhoso tambm ser o meio empregado 
para pr o leitor no rastro do verdadeiro sentido.
          
          O fato de os fenmenos da censura e da distoro onrica corresponderem uns aos outros nos mnimos detalhes justifica nossa pressuposio de que sejam 
similarmente determinados. Podemos, portanto, supor que os sonhos recebem sua forma em cada ser humano mediante a ao de duas foras psquicas (ou podemos descrev-las 
como correntes ou sistemas) e que uma dessas foras constri o desejo que  expresso pelo sonho, enquanto a outra exerce uma censura sobre esse desejo onrico e, 
pelo emprego dessa censura, acarreta forosamente uma distoro na expresso do desejo. Resta indagar sobre a natureza do poder desfrutado por sua segunda instncia, 
que lhe permite exercer sua censura. Quando temos em mente que os pensamentos onricos latentes no so conscientes antes de se proceder a uma anlise, ao passo 
que o contedo manifesto do sonho  conscientemente lembrado, parece plausvel supor que o privilgio frudo pela segunda instncia seja o de permitir que os pensamentos 
penetrem na conscincia. Nada, ao que parece, pode atingir a conscincia a partir do primeiro sistema sem passar pela segunda instncia; e a segunda instncia no 
permite que passe coisa alguma sem exercer seus direitos e fazer as modificaes que julgue adequadas no pensamento que busca acesso  conscincia. A propsito, 
isso nos permite formar um quadro bem definido da "natureza essencial" da conscincia: vemos o processo de conscientizao de algo como um ato psquico especfico, 
distinto e independente do processo de formao de uma representao ou idia; e encaramos a conscincia como um rgo sensorial que percebe dados surgidos em outros 
lugares.  possvel demonstrar que esses pressupostos bsicos so absolutamente indispensveis  psicopatologia. Devemos, porm, adiar nossas maiores consideraes 
sobre eles para um estgio posterior. [Ver Captulo VII, particularmente a Seo F, em [1]]
          Aceitando-se esse quadro das duas instncias psquicas e de sua relao com a conscincia, h uma completa analogia, na vida poltica, com a extraordinria 
afeio que senti em meu sonho por meu amigo R., que foi tratado com tanto desprezo durante a interpretao do sonho. Imaginemos uma sociedade em que esteja havendo 
uma luta entre um governante cioso de seu poder e uma opinio pblica alerta. O povo est revoltado contra uma autoridade impopular e exige sua demisso. Mas o autocrata, 
para mostrar que no precisa levar em conta o desejo popular, escolhe esse momento para conferir uma alta honraria  citada autoridade, embora no haja nenhuma outra 
razo para faz-lo. De maneira idntica, minha segunda instncia, que domina o acesso  conscincia, distinguiu meu amigo R. com uma exibio de afeio excessiva, 
simplesmente porque os impulsos de desejo pertencentes ao primeiro sistema, por suas prprias razes particulares, para as quais estavam voltados naquele momento, 
resolveram conden-lo como um tolo.
          Essas consideraes talvez nos levem a achar que a interpretao dos sonhos poder permitir-nos tirar, em relao  estrutura de nosso aparelho psquico, 
as concluses que em vo temos esperado da filosofia. No pretendo, contudo, seguir essa linha de pensamento [adotada no Captulo VII]; mas, tendo esclarecido a 
questo da distoro dos sonhos, voltarei ao problema de onde partimos. A questo levantada foi de que modo os sonhos com um contedo aflitivo podem decompor-se 
em realizaes de desejos. Vemos agora que isso  possvel, se a distoro do sonho tiver ocorrido e se o contedo penoso servir apenas para disfarar algo que se 
deseja.Tendo em mente nosso pressuposto da existncia de duas instncias psquicas, podemos ainda dizer que os sonhos aflitivos de fato encerram alguma coisa que 
 penosa para a segunda instncia, mas que, ao mesmo tempo, realiza um desejo por parte da primeira instncia. So sonhos de desejos, na medida em que todo sonho 
decorre da primeira instncia: a relao da segunda instncia com os sonhos  de natureza defensiva, e no criativa. Se nos limitssemos a considerar em que a segunda 
instncia contribui para os sonhos, jamais conseguiramos chegar a um entendimento deles: todas as charadas que as autoridades tm observado nos sonhos permaneceriam 
insolveis.
          O fato de os sonhos realmente terem um significado secreto que representa a realizao de um desejo tem de ser provado novamente pela anlise em cada caso 
especfico. Escolherei, portanto, alguns sonhos com um contedo aflitivo e tentarei analis-los. Alguns deles so sonhos de pacientes histricos, que exigem extensos 
prembulos e uma incurso ocasional nos processos psquicos caractersticos da histeria. Mas no posso escapar a esse agravamento das dificuldades de apresentar 
minha tese. [Ver em [1].]
          Como j expliquei [em [1]], quando empreendo o tratamento analtico de um paciente psiconeurtico, seus sonhos so invariavelmente discutidos entre ns. 
No decurso dessas discusses, sou obrigado a dar-lhe todas as explicaes psicolgicas que permitiram a mim mesmo chegar a uma compreenso de seus sintomas. A partir 
da, fico sujeito a uma crtica implacvel, por certo no menos severa do que a que tenho de esperar dos membros de minha prpria profisso. E meus pacientes invariavelmente 
contradizem minha assero de que todos os sonhos so realizaes de desejos. Eis aqui, portanto, alguns exemplos do material de sonhos apresentados contra mim como 
provas em contrrio.
          "O senhor sempre me diz", comeou uma inteligente paciente minha, "que o sonho  um desejo realizado." Pois bem, vou lhe contar um sonho cujo tema foi 
exatamente o oposto - um sonho em que um de meus desejos no foi realizado. Como o senhor enquadra isso em sua teoria? Foi este o sonho:
          "Eu queria oferecer uma ceia, mas no tinha nada em casa alm de um pequeno salmo defumado. Pensei em sair e comprar alguma coisa, mas ento me lembrei 
que era domingo  tarde e que todas as lojas estariam fechadas. Em seguida, tentei telefonar para alguns fornecedores, mas o telefone estava com defeito. Assim, 
tive de abandonar meu desejo de oferecer uma ceia."
          Respondi, naturalmente, que a anlise era a nica forma de decidir quanto ao sentido do sonho, embora admitisse que,  primeira vista, ele se afigurava 
sensato e coerente e parecia ser o inverso da realizao de um desejo. "Mas de que material decorreu o sonho? Como sabe, a instigao de um sonho  sempre encontrada 
nos acontecimentos da vspera."
          
          ANLISE. - O marido de minha paciente, um aougueiro atacadista, honesto e competente, comentara com ela, na vspera, que estava ficando muito gordo e 
que, por isso, pretendia comear um regime de emagrecimento. Propunha-se levantar cedo, fazer exerccios fsicos, ater-se a uma dieta rigorosa e, acima de tudo, 
no aceitar mais convites para cear. - Ela acrescentou, rindo, que o marido, no lugar onde almoava regularmente, tratava conhecimento com um pintor que o pressionara 
a lhe permitir que pintasse seu retrato, pois nunca vira feies to expressivas. O marido, contudo, replicara,  sua maneira rude, que ficava muito agradecido, 
mas tinha a certeza de que o pintor preferiria parte do traseiro de uma bonita garota a todo o seu rosto. Ela estava muito apaixonada pelo marido e caoava muito 
dele. Ela tambm implorara a ele que no lhe desse nenhum caviar.
          Perguntei-lhe o que significava isso, e ela explicou que h muito tempo desejava comer um sanduche de caviar todas as manhs, mas relutava em fazer essa 
despesa. Naturalmente, o marido a deixara obt-lo imediatamente, se ela lhe tivesse pedido. Mas, ao contrrio, ela lhe pedira que no lhe desse caviar, para poder 
continuar a mexer com ele por causa disso.
          Essa explicao me pareceu pouco convincente. Em geral, essas razes insuficientes ocultam motivos inconfessveis. Fazem-nos lembrar os pacientes hipnotizados 
de Bernheim. Quando um deles executa uma sugesto ps-hipntica e lhe perguntam por que est agindo daquela maneira, em vez de dizer que no tem a menor idia, ele 
se sente compelido a inventar alguma razo obviamente insatisfatria. O mesmo, sem dvida, se aplicava a minha paciente e ao caviar. Vi que ela fora obrigada a criar 
para si mesma um desejo no realizado na vida real, e o sonho representava essa renncia posta em prtica. Mas por que precisaria ela de um desejo no realizado?
          As associaes que ela apresentara at ento no tinham sido suficientes para interpretar o sonho. Pressionei-a para que apresentasse outras. Aps uma 
pausa curta, como a que corresponderia  superao de uma resistncia, ela prosseguiu dizendo que, na vspera, visitara uma amiga de quem confessava ter cimes porque 
seu marido (de minha paciente) estava constantemente a elogi-la. Felizmente, essa sua amiga  muito ossuda e magra, e o marido de minha paciente admira figuras 
mais cheinhas. Perguntei-lhe o que havia conversado com sua amiga magra. Naturalmente, respondeu, sobre o desejo dela de engordar um pouco. A amiga tambm lhe perguntara: 
"Quando  que voc vai nos convidar para outro jantar? Os que voc oferece so sempre timos."
          Agora o sentido do sonho estava claro, e pude dizer a minha paciente: " como se, quando ela fez essa sugesto, a senhora tivesse dito a si mesma: 'Pois 
sim! Vou convid-la para comer em minha casa s para que voc possa engordar e atrair meu marido ainda mais! Prefiro nunca mais oferecer um jantar.' O que o sonho 
lhe disse foi que a senhora no podia oferecer nenhuma ceia, e assim estava realizando seu desejo de no ajudar sua amiga a ficar mais cheinha. O fato de que o que 
as pessoas comem nas festas as engorda lhe fora lembrado pela deciso de seu marido de no mais aceitar convites para jantar, em benefcio de seu plano de emagrecer." 
S faltava agora alguma coincidncia que confirmasse a soluo. O salmo defumado do sonho ainda no fora explicado. "Como foi", perguntei, "que a senhora chegou 
ao salmo que apareceu em seu sonho?" "Oh", exclamou ela, "salmo defumado  o prato predileto de minha amiga!" Acontece que eu mesmo conheo a senhora em questo 
e posso afirmar o fato de que ela se ressente tanto de no comer salmo quanto minha paciente de no comer caviar.
          O mesmo sonho admite uma outra interpretao, mais sutil, que de fato se torna inevitvel se levarmos em conta um detalhe adicional. (As duas interpretaes 
no so mutuamente contraditrias, mas ambas cobrem o mesmo terreno; constituem um bom exemplo do fato de que os sonhos, como todas as outras estruturas psicopatolgicas, 
tm regularmente mais de um sentido.) Minha paciente, como se pode lembrar, ao mesmo tempo que estava ocupada com seu sonho de renncia a um desejo, tambm tentava 
efetivar um desejo renunciado (pelo sanduche de caviar) na vida real. Sua amiga tambm dera expresso a um desejo - de engordar -, e no seria de surpreender que 
minha paciente tivesse sonhado que o desejo de sua amiga no fora realizado, pois o prprio desejo de minha paciente era que o de sua amiga (engordar) no se realizasse. 
Mas, em vez disso, ela sonhou que um de seus prprios desejos no era realizado. Portanto, o sonho adquirir nova interpretao se supusermos que a pessoa nele indicada 
no era ela mesma, e sim a amiga: que ela se colocara no lugar da amiga, ou, como poderamos dizer, que se "identificara" com a amiga. Creio que ela de fato fizera 
isso, e a circunstncia de ter efetivado um desejo renunciado na vida real foi prova dessa identificao.
          Qual  o sentido da identificao histrica? Isso exige uma explicao um tanto extensa. A identificao  um fator altamente importante no mecanismo dos 
sintomas histricos. Ela permite aos pacientes expressarem em seus sintomas no apenas suas prprias experincias, como tambm as de um grande nmero de outras pessoas: 
permite-lhes, por assim dizer, sofrer em nome de toda uma multido de pessoas e desempenhar sozinhas todos os papis de uma pea. Diro que isso no passa da conhecida 
imitao histrica, da capacidade dos histricos de imitarem quaisquer sintomas de outras pessoas que possam ter despertado sua ateno - solidariedade, por assim 
dizer, intensificada at o ponto da reproduo. Isso, porm, no faz mais do que indicar-nos a trilha percorrida pelo processo psquico na imitao histrica. Essa 
trilha  diferente do ato mental que se processa ao longo dela. Este  um pouco mais complicado do que o quadro comum da imitao histrica; consiste na feitura 
inconsciente de uma inferncia, como um exemplo deixar claro. Suponhamos que um mdico esteja tratando de uma paciente sujeita a um tipo especfico de espasmo numa 
enfermaria hospitalar, em meio a muitos outros pacientes. Ele no mostrar nenhuma surpresa se constatar, numa manh, que essa forma especfica de ataque histrico 
encontrou imitadores. Dir apenas: "Os outros pacientes viram isso e o copiaram;  um caso de contgio psquico." Isso  verdade; mas o contgio psquico ocorreu 
mais ou menos nos seguintes moldes: em geral, os pacientes sabem mais a respeito uns dos outros do que o mdico sobre qualquer um deles; e uma vez terminada a visita 
do mdico, eles voltam sua ateno para os companheiros. Imaginemos que essa paciente tenha tido seu ataque num determinado dia; ora, os outros descobriro rapidamente 
que ele foi causado por uma carta recebida de casa, pelo reflorescimento de um romance infeliz, ou coisa semelhante. Sua solidariedade  despertada e eles fazem 
a seguinte inferncia, embora ela no consiga penetrar na conscincia: "Se uma causa como esta pode produzir um ataque assim, posso ter o mesmo tipo de ataque, j 
que tenho as mesmas razes para isso." Se essa inferncia fosse capaz de penetrar na conscincia,  possvel que desse margem a um medo de ter a mesma espcie de 
ataque. Mas, de fato, a inferncia se processa numa regio psquica diferente e conseqentemente resulta na concretizao real do temido sintoma. Assim, a identificao 
no constitui uma simples imitao, mas uma assimilao baseada numa alegao etiolgica semelhante; ela expressa uma semelhana e decorre de um elemento comum que 
permanece no inconsciente.
          A identificao  empregada com mais freqncia na histeria para expressar um elemento sexual comum. Uma mulher histrica se identifica mais rapidamente 
- embora no exclusivamente - em seus sintomas com as pessoas com quem tenha tido relaes sexuais, ou com as pessoas que tenham tido relaes sexuais com as mesmas 
pessoas que ela. O uso da lngua leva isso em conta, pois fala-se em duas pessoas apaixonadas como sendo "uma s". Nas fantasias histricas, tal como nos sonhos, 
 suficiente, para fins de identificao, que o sujeito tenha pensamentos sobre relaes sexuais, sem que estas tenham necessariamente ocorrido na realidade. Assim, 
a paciente cujo sonho venho discutindo estava simplesmente seguindo as normas dos processos histricos de pensamento ao expressar cime da amiga (que, alis, ela 
prpria sabia ser injustificado), ocupar seu lugar no sonho e identificar-se como ela por meio da criao de um sintoma - o desejo renunciado. O processo poderia 
expressar-se verbalmente da seguinte maneira: minha paciente colocou-se no lugar da amiga, no sonho, porque esta estava ocupando o lugar de minha paciente junto 
ao marido e porque ela (minha paciente) queria tomar o lugar da amiga no alto conceito em que o marido a tinha.
          Uma contradio a minha teoria dos sonhos, produzida por outra de minhas pacientes (a mais sagaz de todas as que relatam seus sonhos), resolveu-se de maneira 
mais simples, porm com base no mesmo padro, a saber, que a no-realizao de um desejo significava a realizao de outro. Certo dia, eu lhe estivera explicando 
que os sonhos so realizaes de desejos. No dia seguinte, ela me trouxe um sonho em que estava viajando com a sogra at o lugar no campo onde iriam passar juntas 
as frias. Ora, eu sabia que ela se rebelara violentamente contra a idia de passar o vero perto da sogra e que, poucos dias antes, conseguira evitar a temida proximidade 
reservando aposentos numa estao de veraneio muito distante. E agora, seu sonho desfizera a soluo que ela havia desejado: no seria isso a mais contundente contradio 
possvel de minha teoria de que, nos sonhos, os desejos so realizados? Sem dvida; e bastou seguir a conseqncia lgica do sonho para chegar a sua interpretao. 
O sonho mostrou que eu estava errado. Logo, era seu desejo que eu estivesse errado, e seu sonho mostrou esse desejo realizado. Mas seu desejo de que eu estivesse 
errado, que se realizou em relao a suas frias de vero, dizia respeito, de fato, a um outro assunto mais srio. Pois, mais ou menos nessa poca, eu havia inferido 
do material produzido em sua anlise que, num perodo especfico de sua vida, deveria ter ocorrido algo que foi relevante na determinao de sua doena. Ela contestara 
isso, visto no ter nenhuma lembrana de tal coisa, mas, logo depois, ficou provado que eu estava certo. Assim, seu desejo de que eu estivesse errado, que se transformou 
em seu sonho de passar as frias com a sogra, correspondia a um desejo bastante justificado de que os fatos de que ela no vinha conscientizando pela primeira vez 
nunca tivessem ocorrido.
          Aventurei-me a interpretar - sem nenhuma anlise, mas apenas por meio de um palpite - um pequeno episdio ocorrido com um amigo meu que freqentara a mesma 
classe que eu durante todo o nosso curso secundrio. Um dia, ele ouviu uma palestra que proferi perante um pequeno auditrio sobre a idia indita de que os sonhos 
eram realizaes de desejos. Foi para casa e sonhou que perdera todos os seus casos (ele era advogado), e depois me contestou nesse assunto. Fugi  questo, dizendo-lhe 
que, afinal de contas, no se podem ganhar todos os casos. Mas pensei comigo mesmo: "Considerando que, por oito anos a fio, sentei-me no banco da frente como primeiro 
da classe, enquanto ele ficava ali pelo meio, ele dificilmente pode deixar de alimentar um desejo, remanescente de seus tempos de escola, de que mais dia menos dia, 
eu venha a me tornar um completo fracasso."
          Um sonho de natureza mais sombria foi tambm apresentado contra mim por uma paciente como objeo  teoria dos sonhos de desejo.
          A paciente, um moa de pouca idade, assim comeou: "Como o senhor deve estar lembrado, minha irm s tem agora um menino - Karl; ela perdeu o filho mais 
velho, Otto, quando eu ainda morava com ela. Otto era meu favorito; de certa forma, eu o criei. Tambm gosto do menorzinho, mas,  claro, nem de longe tanto quanto 
gostava do que morreu. Ento, ontem  noite, sonhei que via Karl morto diante de mim. Estava deitado em seu caixozinho, com as mos postas e velas a seu redor - 
de fato, exatamente como o pequeno Otto, cuja morte foi um golpe to forte para mim. Agora me diga: que pode significar isso? O senhor me conhece. Ser que sou uma 
pessoa to m a ponto de desejar que minha irm perca o nico filho que ainda tem? Ou ser que o sonho significa que eu preferiria que Karl estivesse morto, em vez 
de Otto, de quem eu gostava muito mais?"
          Assegurei-lhe que esta ltima interpretao estava fora de cogitao. E, depois de refletir um pouco, pude dar-lhe a interpretao correta do sonho, posteriormente 
confirmada por ela. Pude faz-lo porque estava familiarizado com toda a histria prvia da autora do sonho.
          Essa moa ficara rf em tenra idade e fora criada na casa de uma irm muito mais velha. Entre os amigos que freqentavam a casa, havia um homem que deixou 
uma impresso duradoura em seu corao. Por algum tempo, pareceu que suas relaes mal admitidas com ele levariam ao casamento, mas esse desenlace feliz foi reduzido 
a cinzas pela irm, cujos motivos jamais foram plenamente explicados. Depois do rompimento, esse homem deixou de freqentar a casa e, pouco depois da morte do pequeno 
Otto, para quem ela voltara sua afeio neste nterim, minha paciente fixou residncia prpria sozinha. No conseguiu, contudo, libertar-se de seu apego pelo amigo 
da irm. Seu orgulho ordenava que o evitasse, mas ela no conseguiu transferir seu amor para nenhum dos outros admiradores que se apresentaram posteriormente. Sempre 
que se anunciava que o objeto de suas afeies, que era por profisso um homem de letras, ia proferir uma palestra em algum lugar, ela estava invariavelmente na 
platia; e aproveitava todas as oportunidades possveis de contempl-lo  distncia em campo neutro. Lembrei-me de que ela me dissera, na vspera, que o Professor 
iria a um certo concerto, e que ela pretendia ir tambm para ter o prazer de dar uma olhadela nele mais uma vez. Isso ocorrera na vspera do sonho, e o concerto 
iria realizar-se no dia em que ela o relatou a mim. Foi-me portanto fcil construir a interpretao correta, e perguntei-lhe se podia pensar em alguma coisa que 
tivesse acontecido aps a morte do pequeno Otto. Ela respondeu de pronto: "Naturalmente; o Professor veio visitar-nos de novo depois de uma longa ausncia e eu o 
vi mais uma vez ao lado do caixo do pequeno Otto." Isso era exatamente o que eu esperava, e interpretei o sonho desta forma: "Se o outro menino morresse agora, 
aconteceria a mesma coisa. Voc passaria o dia com sua irm, e o Professor certamente viria apresentar seus psames, de modo que voc o veria mais uma vez nas mesmas 
condies que na outra ocasio. O sonho significa apenas seu desejo de v-lo mais uma vez, um desejo contra o qual voc vem lutando internamente. Sei que voc tem 
na bolsa uma entrada para o concerto de hoje. Seu sonho foi um sonho de impacincia: antecipou em algumas horas a viso que voc vai ter dele hoje."
          A fim de ocultar seu desejo, ela evidentemente escolhera uma situao em que tais desejos costumam ser suprimidos, na situao em que se est to repleto 
de tristeza que no se tem nenhum pensamento amoroso. Contudo,  bem possvel que, mesmo na situao real da qual o sonho foi uma rplica exata, junto ao caixo 
do menino mais velho a quem ela amara ainda mais, talvez ela no tenha podido suprimir seus ternos sentimentos pelo visitante que estivera ausente por tanto tempo.
          Um sonho semelhante de outra paciente recebeu uma explicao diferente. Quando jovem ela se destacara por sua inteligncia viva e sua disposio alegre; 
e essas caractersticas ainda podiam ser observadas, pelo menos nas idias que lhe ocorriam durante o tratamento. No decorrer de um sonho um tanto longo, essa senhora 
imaginou ver sua nica filha, de quinze anos de idade, morta "numa caixa". Estava parcialmente inclinada a utilizar essa cena como uma objeo  teoria da realizao 
dos desejos, embora ela prpria suspeitasse de que o detalhe da "caixa" devia estar apontando para outra viso do sonho. No decorrer da anlise, ela lembrou que, 
numa reunio na noite anterior, falara-se um pouco sobre a palavra inglesa "box" e as vrias formas pelas quais se poderia traduzi-la em alemo - tais como "Schachtel" 
["caixa"] "Loge" ["camarote de teatro"], Kasten [arca], "Ohrfeige" ["murro no ouvido"], e assim por diante. Outras partes do mesmo sonho nos permitiram descobrir 
ainda que ela havia pensado que "box", em ingls, se relacionava mesmo com o "Bchse" ["receptculo"] em alemo, e que depois fora atormentada pela lembrana de 
que "Bchse"  empregado como termo vulgar para designar os rgos genitais femininos. Fazendo uma certa concesso aos limites de seus conhecimentos de anatomia 
topogrfica, poder-se-ia presumir, portanto, que a criana que jazia na caixa significava um embrio no tero. Aps ter sido esclarecida quanto a esse ponto, ela 
no mais negou que a imagem onrica correspondesse a um desejo seu. Como tantas jovens casadas, ela no ficara nada satisfeita ao engravidar, e, mais de uma vez, 
tinha-se permitido desejar que a criana que trazia no ventre morresse. De fato, num acesso de clera aps uma cena violenta com o marido, ela batera com os punhos 
cerrados no prprio corpo para atingir a criana l dentro. Dessa forma, a criana morta era de fato a realizao de um desejo, mas de um desejo que fora posto de 
lado quinze anos antes. Dificilmente se pode ficar admirado com o fato de um desejo realizado aps uma demora to prolongada no ser reconhecido. Muitas coisas haviam 
mudado nesse intervalo. [1]
          Terei de voltar ao grupo de sonhos a que pertencem os dois ltimos exemplos (sonhos que tratam da morte de parentes a quem o sonhador  afeioado) quando 
vier a considerar os sonhos "tpicos" [em [1]]. Poderei ento mostrar, mediante outros exemplos, que, apesar de seu contedo no desejado, todos esses sonhos devem 
ser interpretados como realizaes de desejos.
          Devo o sonho seguinte no a um paciente, mas a um inteligente jurista de minhas relaes. Ele o narrou a mim, mais uma vez, para me impedir de fazer uma 
generalizao apressada da teoria dos sonhos de desejos. "Sonhei", disse meu informante, "que chegava a minha casa de brao dado com uma senhora. Havia uma carruagem 
fechada em frente  casa e um homem dirigiu-se a mim, mostrou-me suas credenciais de policial e me solicitou que o acompanhasse. Pedi-lhe que me concedesse algum 
tempo para pr meus negcios em ordem. Ser que o senhor acha que eu tenho um desejo de ser preso?" - Naturalmente que no, no pude deixar de concordar. O senhor 
sabe por acaso sob que acusao foi preso? - "Sim, por infanticdio, creio eu." - Infanticdio? Mas por certo o senhor sabe que esse  um crime que s pode ser praticado 
por uma me contra um recm-nascido, no sabe? - " verdade."2 - E em que circunstncias o senhor teve o sonho? Que aconteceu na noite anterior? - "Preferiria no 
lhe dizer.  um assunto delicado." - Mesmo assim, terei de ouvi-lo; caso contrrio, teremos de desistir da idia de interpretar o sonho. - "Muito bem; ento, escute. 
Ontem no passei a noite em casa, e sim com uma dama que significa muito para mim. Ao acordarmos pela manh, houve outro contato entre ns, depois do qual dormi 
novamente e tive o sonho que lhe descrevi." - Ela  casada? - "." - E o senhor no quer ter um filho com ela, no  verdade? "Ah, no; isso poderia nos denunciar." 
- Ento o senhor no pratica o coito normal? - "Tomo a precauo de retirar antes da ejaculao." - Acho que posso presumir que o senhor usou esse expediente vrias 
vezes durante a noite, e que depois de repeti-lo pela manh sentiu-se um pouco inseguro sobre t-lo executado com xito. - " possvel, sem dvida." - Nesse caso, 
seu sonho foi a realizao de um desejo. Tranqilizou-o com a idia de que o senhor no havia gerado uma criana, ou, o que d no mesmo, que matara uma criana. 
Os elos intermedirios so fceis de apontar. O senhor deve estar lembrado de que, alguns dias atrs, falvamos das dificuldades do casamento, e de como  incoerente 
que no haja nenhuma objeo a que se pratique o coito de modo a no permitir que ocorra a fertilizao, ao passo que qualquer interferncia depois que o vulo e 
o smen se unem e um feto  formado  punida como crime. Depois disso, lembramos a controvrsia medieval sobre o momento exato em que a alma penetra no feto, j 
que  apenas depois disso que o conceito de assassinato se torna aplicvel. Sem dvida, o senhor tambm conhece o ttrico poema de Lenau ["Das tote Glck"] em que 
o assassinato de crianas e a preveno da natalidade so igualados. - "O curioso  que pensei em Lenau esta manh, por mero acaso, ao que me pareceu." - Um eco 
posterior de seu sonho. E agora posso mostrar-lhe outra realizao incidental de desejo contida em seu sonho. O senhor chegou em casa de braos dados com a dama. 
Logo, estava levando-a para casa, em vez de passar a noite na casa dela, como fez na realidade.  possvel que haja mais de uma razo para que a realizao do desejo 
que constitui o cerne do sonho tenha-se disfarado de forma to desagradvel. Talvez o senhor tenha ficado sabendo, por meu artigo sobre a etiologia da neurose de 
angstia [Freud, 1895b], que considero o coitus interruptus como um dos fatores etiolgicos no desenvolvimento da angstia neurtica, no ? Seria condizente com 
isso que, depois de praticar o ato sexual vrias vezes dessa maneira, o senhor ficasse com um mal-estar que depois se transformaria num elemento da construo de 
seu sonho. Alm disso, o senhor utilizou esse mal-estar para ajudar a disfarar a realizao do desejo. [Ver em [1].] A propsito, sua referncia ao infanticdio 
no foi explicada. Como  que o senhor foi dar com esse crime especificamente feminino? - "Tenho de admitir que, alguns anos atrs, vi-me envolvido numa ocorrncia 
desse tipo. Fui responsvel pela tentativa de uma moa de evitar a conseqncia de uma ligao amorosa comigo por meio de um aborto. Nada tive a ver com o fato de 
ela pr em prtica sua inteno, mas, por muito tempo, senti-me naturalmente muito nervoso com a idia de que a histria viesse a pblico." - Compreendo perfeitamente. 
Essa lembrana fornece uma segunda razo pela qual o senhor deve ter-se preocupado com a suspeita de que seu expediente pudesse no ter funcionado. [1]
          Um jovem mdico que me ouviu descrever esse sonho durante um ciclo de palestras deve ter ficado muito impressionado com ele, pois imediatamente o reproduziu, 
aplicando o mesmo padro de pensamento a outro tema. Um dia antes, ele entregara sua declarao de imposto de renda, que havia preenchido com perfeita honestidade, 
pois tinha muito pouco a declarar. Ento, sonhou que um conhecido seu foi procur-lo aps sair de uma reunio de membros da comisso de impostos e informou-o de 
que, embora no se tivesse levantado qualquer objeo a nenhuma das outras declaraes, a dele provocara suspeitas generalizadas e uma pesada multa lhe fora imposta. 
O sonho foi uma realizao precariamente disfarada de seu desejo de ser conhecido como um mdico possuidor de grande renda. Isso faz lembrar a clebre histria 
da moa que foi aconselhada a no aceitar um certo pretendente, porque ele tinha um gnio violento e por certo iria espanc-la se se casassem. "Ah, se ele j tivesse 
comeado a me espancar!", respondeu ela. Seu desejo de se casar era to intenso que estava disposta a aceitar, de quebra, essa ameaa de aborrecimento, chegando 
mesmo a transform-la num desejo.
          Os sonhos muito freqentes, que parecem contradizer minha teoria, por terem como tema a frustrao de um desejo ou a ocorrncia de algo claramente indesejado, 
podem ser reunidos sob o ttulo de "sonhos com o oposto do desejo". Se esses sonhos forem considerados como um todo, parece-me possvel buscar sua origem em dois 
princpios; ainda no mencionei um deles, embora desempenhe um papel relevante no apenas nos sonhos das pessoas, como tambm em suas vidas. Uma das duas foras 
propulsoras que levam a esses sonhos  o desejo de que eu esteja errado. Tais sonhos aparecem regularmente no curso de meus tratamentos, quando um paciente se encontra 
num estado de resistncia a mim; e posso contar como quase certo provocar um deles depois de explicar a um paciente, pela primeira vez, minha teoria de que os sonhos 
so realizaes de desejos. A rigor,  de se esperar que a mesma coisa acontea com alguns dos leitores frustrados num sonho, caso seu desejo de que eu esteja errado 
possa se realizar.
          Esse mesmo ponto  ilustrado por um ltimo sonho dessa natureza que citarei aqui, obtido de uma paciente em tratamento. Foi o sonho de uma moa que tivera 
xito em sua luta para continuar seu tratamento comigo, contrariando a vontade dos parentes e dos especialistas cujas opinies tinham sido consultadas. Sonhou que 
seus familiares a haviam proibido de continuar a me consultar. Lembrou-me ento a promessa que eu lhe fizera de, se necessrio, continuar o tratamento sem honorrios. 
A isso, respondi: "No posso fazer nenhuma concesso em questes de dinheiro."  preciso admitir que no foi fcil identificar a realizao de desejo nesse exemplo. 
Mas, em todos esses casos, descobre-se um segundo enigma cuja soluo ajuda a desvendar o primeiro. Qual a origem das palavras que ela ps em minha boca? Naturalmente, 
eu no lhe dissera nada semelhante, mas um de seus irmos - o que maior influncia exercia sobre ela - tivera a gentileza de me atribuir esse sentimento. O sonho, 
portanto, pretendia provar que o irmo dela estava certo. E no era apenas em seus sonhos que ela insistia em que ele tinha razo; a mesma idia dominava toda a 
sua vida e era o motivo de sua doena.
          Um sonho que parece  primeira vista trazer dificuldades especiais para a teoria da realizao de desejos foi sonhado e interpretado por um mdico, e relatado 
por August Strcke (1911): "Vi em meu dedo indicador esquerdo o primeiro indcio [Primraffekt] de sfilis na falange terminal." A considerao de que, independentemente 
do contedo indesejado do sonho, ele parece claro e coerente, poderia dissuadir-nos de analis-lo. No entanto, se estivermos dispostos a enfrentar o trabalho envolvido, 
descobriremos que "Primraffekt" era equivalente a uma "prima affectio" (um primeiro amor), e que a lcera repelente veio a representar, para citar as palavras de 
Strcke, "realizaes de desejos com uma alta carga emocional".
          O segundo motivo para os sonhos com o oposto do desejo  to bvio que  fcil deix-lo passar despercebido, como eu mesmo fiz por tempo considervel. 
H um componente masoquista na constituio sexual de muitas pessoas, que decorre da inverso de um componente agressivo e sdico em seu oposto. Aqueles que encontram 
prazer no na inflio de dor fsica a eles, mas na humilhao e na tortura mental, podem ser descritos como "masoquistas mentais". Percebe-se de imediato que essas 
pessoas podem ter sonhos com o oposto do desejo e sonhos desprazerosos que so, ainda assim, realizaes de desejos, pois satisfazem suas inclinaes masoquistas. 
Citarei um desses sonhos, produzido por um rapaz que, em sua meninice, havia atormentado imensamente seu irmo mais velho, por quem tinha um apego homossexual. Tendo 
seu carter passado por uma modificao fundamental, ele teve o seguinte sonho, dividido em trs partes: I. Seu irmo mais velho estava mexendo com ele. II. Dois 
homens se acariciavam com um objetivo homossexual. III. Seu irmo vendera o negcio cujo diretor ele prprio aspirava tornar-se. Ele despertou deste ltimo sonho 
com sentimentos extremamente aflitivos. No obstante, tratava-se de um sonho masoquista de desejo e poderia ser traduzido assim: "Seria bem feito para mim se meu 
irmo me confrontasse com essa venda, como punio por todos os tormentos que ele teve de aturar de mim."
          Espero que os exemplos anteriores sejam suficientes (at que se levante a prxima objeo) para fazer com que parea plausvel que mesmo os sonhos de contedo 
aflitivo devem ser interpretados como realizaes de desejos. Ningum, tampouco, h de considerar mera coincidncia que a interpretao desses sonhos nos tenha feito 
deparar, todas as vezes, com tpicos sobre os quais as pessoas relutam em falar ou pensar. Os sentimento aflitivo provocado por esses sonhos  idntico  repugnncia 
que tende (em geral com xito) a nos impedir de discutir ou mencionar tais tpicos, e que cada um de ns tem de superar quando, apesar disso, sente-se compelido 
a penetrar neles. Mas o sentimento de desprazer que assim se repete nos sonhos no nega a existncia de um desejo. Todos tm desejos que prefeririam no revelar 
a outras pessoas, e desejos que no admitem nem sequer perante si mesmos. Por outro lado,  justificvel ligarmos o carter desprazeroso de todos esses sonhos com 
o fato da distoro onrica. E  justificvel concluirmos que esses sonhos so distorcidos, e que a realizao de desejo neles contida  disfarada a ponto de se 
tornar irreconhecvel, precisamente em vista da repugnncia que se sente pelo tema do sonho ou pelo desejo dele derivado, bem como da inteno de recalc-los. Demonstra-se, 
assim, que a distoro do sonho  de fato um ato da censura. Estaremos levando em conta tudo o que foi trazido  luz por nossa anlise dos sonhos desprazerosos se 
fizermos a seguinte modificao na frmula com que procuramos expressar a natureza dos sonhos: o sonho  uma realizao (disfarada) de um desejo (suprimido ou recalcado.)
          Resta examinar os sonhos de angstia como uma subespcie particular dos sonhos de contedo aflitivo. A idia de consider-los como sonhos impregna dos 
de desejo encontrar muito pouca receptividade por parte dos no esclarecidos. No obstante, posso abordar os sonhos de angstia muito sucintamente neste ponto. 
Eles no nos apresentam um novo aspecto do problema dos sonhos; aquilo com que nos confrontam  toda a questo da angstia neurtica. A angstia que sentimos num 
sonho  apenas aparentemente explicada pelo contedo do sonho. Se submetermos o contedo do sonho  anlise, verificaremos que a angstia do sonho no se justifica 
melhor pelo contedo do sonho do que, digamos, a angstia de uma fobia se justifica pela representao com que se relaciona a fobia. Sem dvida  verdade, por exemplo, 
que  possvel cair de uma janela, e portanto h razo para se exercer certo grau de cautela nas proximidades de uma janela; mas no vemos por que a angstia sentida 
a esse respeito numa fobia deva ser to grande e persiga o paciente muito alm da oportunidade de sua ocorrncia. Assim, constatamos que a mesma coisa pode ser validamente 
afirmada em relao  fobia e aos sonhos de angstia: em ambos os casos, a angstia est apenas superficialmente ligada  representao que a acompanha; ela se origina 
em outra fonte.
          J que existe estreita ligao entre a angstia nos sonhos e nas neuroses, ao examinar a primeira precisarei referir-me  ltima. Num trabalho sucinto 
sobre a neurose de angstia (Freud, 1895b), argumentei h algum tempo que a angstia neurtica se origina da vida sexual e corresponde  libido que se desviou de 
sua finalidade e no encontrou aplicao. Desde ento, essa frmula tem resistido  prova do tempo, permitindo-nos agora inferir dela que os sonhos de angstia so 
sonhos de contedo sexual cuja respectiva libido se transformou em angstia. Haver oportunidade, mais adiante, de fundamentar essa assertiva na anlise dos sonhos 
de alguns pacientes neurticos. Tambm no decurso de mais uma tentativa de chegar a uma teoria dos sonhos, terei oportunidades de examinar mais uma vez os determinantes 
dos sonhos de angstia e sua compatibilidade com a teoria de realizao de desejos.
          
        Captulo V - O MATERIAL E AS FONTES DOS SONHOS
          
          Quando a anlise do sonho da injeo de Irma nos mostrou que um sonho poderia ser a realizao de um desejo, nosso interesse foi a princpio inteiramente 
absorvido pela questo de saber se teramos chegado a uma caracterstica universal dos sonhos e sufocamos temporariamente nossa curiosidade sobre quaisquer outros 
problemas cientficos que pudessem surgir durante o trabalho de interpretao. Tendo seguido um caminho at o fim, podemos agora voltar sobre nossos passos e escolher 
outro ponto de partida para nossas incurses atravs dos problemas da vida onrica: por ora, podemos deixar de lado o tpico da realizao de desejos, embora ainda 
estejamos longe de t-lo esgotado.
          Agora que a aplicao de nosso mtodo para a interpretao dos sonhos nos permite descobrir neles um contedo latente, que  muito mais significativo do 
que seu contedo manifesto, surge de imediato a tarefa premente de reexaminar um por um os vrios problemas levantados pelos sonhos, para ver se no estaremos agora 
em condies que pareciam inabordveis enquanto s tnhamos conhecimento do contedo manifesto.
          No primeiro captulo, apresentei um relato pormenorizado dos pontos de vista das autoridades sobre a relao dos sonhos com a vida de viglia [Seo A] 
sobre a origem do material dos sonhos [Seo C]. Sem dvida, meus leitores se recordaro tambm das trs caractersticas da memria nos sonhos [Seo B], to freqentemente 
comentadas, porm nunca explicadas:
          (1) Os sonhos mostram uma clara preferncia pelas impresses dos dias imediatamente anteriores [em [1] e seg.]. Cf. Robert [1886, 46], Strmpell [1877, 
39], Hildebrandt [1875, 11] e Hallam e Weed [1896, 410 e seg.].
          (2) Fazem sua escolha com base em diferentes princpios de nossa memria de viglia, j que no relembram o que  essencial e importante, mas o que  acessrio 
e despercebido. [Ver em [1]]
          (3) Tm  sua disposio as impresses mais primitivas da nossa infncia e at fazem surgir detalhes desse perodo de nossa vida que, mais uma vez, parecem-nos 
triviais e que, em nosso estado de viglia, acreditamos terem cado no esquecimento h muito tempo. [Ver em [1]]
          
          (A) MATERIAL RECENTE E IRRELEVANTE NOS SONHOS
          
          Se examinar minha prpria experincia com a questo da origem dos elementos includos no contedo dos sonhos, deverei comear pela afirmao de que, em 
todo sonho,  possvel encontrar um ponto de contato com as experincias do dia anterior. Essa viso  confirmada por cada um dos sonhos que investigo, sejam eles 
meus ou de qualquer outra pessoa. Tendo em mente esse fato, posso, ocasionalmente, comear a interpretao de um sonho procurando o acontecimento da vspera que 
o acionou; em muitos casos, de fato, isso constitui o mtodo mais fcil.
           Nos dois sonhos que analisei pormenorizadamente em meus ltimos captulos (o sonho da injeo de Irma e o de meu tio de barba amarela, a relao com o 
dia anterior  to evidente que no exige nenhum outro comentrio. Mas, para mostrar a regularidade com que se pode identificar essa ligao, percorrerei os registros 
de meus prprios sonhos e darei alguns exemplos. Citarei apenas o suficiente do sonho para indicar a fonte que estamos procurando:
          (1) Eu estava visitando uma casa  qual tinha dificuldade em ter acesso...; nesse nterim, deixava uma senhora ESPERANDO.
          Fonte: Eu tivera uma conversa com uma parenta na noite anterior, na qual lhe dissera que ela teria que esperar por uma compra que desejava fazer at... 
etc.
          (2) Eu tinha escrito uma MONOGRAFIA sobre uma certa espcie (indistinta) de planta.
          Fonte: Naquela manh eu vira uma monografia sobre o gnero Ciclmen na vitrina de uma livraria. [Ver em [1]]
          (3) Eu via duas mulheres na rua, ME E FILHA, sendo a segunda uma paciente minha.
          Fonte: Uma de minhas pacientes me explicara, na noite anterior, as dificuldades que sua me vinha antepondo  continuao de seu tratamento.
          
          (4) Fiz na livraria de S. e R. a assinatura de um peridico que custava VINTE FLORINS por ano.
          Fonte: Minha mulher me lembrara na vspera que eu ainda lhe devia vinte florins para as despesas semanais da casa.
          (5) Recebi UMA COMUNICAO do COMIT Social Democrata, tratando-me como se eu fosse um MEMBRO.
          Fonte: Eu havia recebido comunicaes, simultaneamente, do Comit de Eleies Liberais e do Conselho da Liga Humanitria, sendo que deste ltimo rgo 
eu era de fato um membro.
          (6) Um homem de p em UM PENHASCO NO MEIO DO MAR,  MANEIRA DE BCKLIN.
          Fonte: Dreyfus na le du Diable; eu recebera notcias, ao mesmo tempo, de meus parentes na Inglaterra, etc.
          Pode-se levantar a questo de determinar se o ponto de contato com o sonho so invariavelmente os acontecimentos do dia imediatamente anterior, ou se ele 
pode remontar a impresses oriundas de um perodo bem mais extenso do passado mais recente.  improvvel que essa questo envolva qualquer assunto de importncia 
terica; no obstante, estou inclinado a decidir em prol da exclusividade das solicitaes do dia imediatamente anterior ao sonho - ao qual me referirei como o "dia 
do sonho". Sempre que se afigura, a princpio, que a fonte de um sonho foi uma impresso de dois ou trs dias antes, a pesquisa mais detida tem-me convencido de 
que a impresso foi lembrada na vspera, e assim tem sido possvel demonstrar que uma reproduo da impresso, ocorrida no dia precedente, poderia ser inserida entre 
o dia do acontecimento original e o momento do sonho; alm disso, tem sido possvel indicar a eventualidade do dia anterior que teria levado  lembrana da impresso 
mais antiga.
          Por outro lado, no me sinto convencido de que haja qualquer intervalo regular de importncia biolgica entre a impresso diurna instigadora e seu ressurgimento 
no sonho (Swoboda, 1904, mencionou um intervalo inicial de dezoito horas a esse respeito.)
          
          Havelock Ellis [1911, 224], que tambm dispensou certa ateno a esse ponto, declara ter sido incapaz de encontrar qualquer periodicidade dessa ordem em 
seus sonhos, apesar de t-la procurado. Ele registra um sonho em que estava na Espanha e desejava ir a um lugar chamado Daraus, Varaus ou Zaraus. Ao acordar, no 
pde lembrar-se de nenhum topnimo semelhante e ps o sonho de lado. Alguns meses depois, descobriu que Zaraus era, na verdade, o nome de uma estao na linha entre 
San Sebastian e Bilbao, pela qual seu trem havia passado 250 dias antes de ele ter o sonho.
          Creio, portanto, que o agente instigador de todo sonho encontra-se entre as experincias sobre as quais ainda no se "consultou o travesseiro". Assim, 
as relaes entre o contedo de um sonho e as impresses do passado mais recente (com a nica exceo do dia imediatamente anterior  noite do sonho) no diferem 
sob nenhum aspecto de suas relaes com as impresses que datam de qualquer perodo mais remoto. Os sonhos podem selecionar seu material de qualquer parte da vida 
do sonhador, contanto que haja uma linha de pensamento ligando a experincia do dia do sonho (as impresses "recentes") com as mais antigas.
          Mas por que essa preferncia pelas impresses recentes? Teremos alguma idia sobre esse ponto, se submetermos um dos sonhos da srie que acabo de citar 
[em [1]] a uma anlise mais completa. Para essa finalidade, escolherei o
          
          SONHO DA MONOGRAFIA DE BOTNICA
          Eu escrevera uma monografia sobre certa planta. O livro estava diante de mim e, no momento, eu virava uma pgina dobrada que continha uma prancha colorida. 
Encadernado com cada exemplar havia um espcime seco de planta, como se tivesse sido retirado de um herbrio.
          
          ANLISE
          Naquela manh, eu vira um novo livro na vitrina de uma livraria, trazendo o ttulo O Gnero Ciclmen - evidentemente uma monografia sobre essa planta.
          Os ciclmens, refleti, eram as flores prediletas de minha mulher e me repreendi por lembrar-me to raramente de levar flores para ela, que era o que lhe 
agradava. - A questo de "levar flores" lembrou-me um episdio que eu repetira recentemente para um crculo de amigos e que havia usado como prova em favor de minha 
teoria de que o esquecimento , com muita freqncia, determinado por um objetivo inconsciente, e que sempre permite que se deduzam as intenes secretas da pessoa 
que esquece. Uma jovem estava habituada a receber um buqu de flores do marido em seu aniversrio. Certo ano, esse smbolo da afeio dele deixou de se manifestar 
e ela irrompeu em pranto. O marido chegou em casa e no teve nenhuma idia da razo por que ela estava chorando, at que ela lhe disse que era o dia de seu aniversrio. 
Ele levou a mo  cabea e exclamou: "Sinto muito, mas eu havia esquecido por completo! Vou sair agora mesmo para buscar suas flores". Mas no houve meio de consol-la, 
pois ela reconheceu que o esquecimento do marido era uma prova de que ela j no ocupava o mesmo lugar de antes em seus pensamentos. - Essa senhora, Sra. L., encontrara 
minha mulher dois dias antes de eu ter o sonho, dissera-lhe que estava se sentindo muito bem e perguntara por mim. Alguns anos antes, ela me procurara para tratamento.
          Comecei ento outra vez. Certa feita, recordei-me, eu realmente havia escrito algo da natureza de uma monografia sobre uma planta, a saber, uma dissertao 
sobre a planta da coca [Freud, 1884e], que atrara ateno de Karl Koller para as propriedades anestsicas da cocana. Eu mesmo havia indicado essa aplicao do 
alcalide em meu artigo publicado, mas no fora suficientemente rigoroso para levar o assunto adiante. Isso me fez lembrar que, na manh do dia aps o sonho - no 
tivera tempo de interpret-lo seno  noite - eu havia pensado na cocana, numa espcie de devaneio. Se algum dia tivessa glaucoma, pensei, iria at Berlim e me 
faria operar, incgnito, na casa de meu amigo [Fliess], por um cirurgio recomendado por ele. O cirurgio que me operasse, que no teria nenhuma idia de minha identidade, 
vangloriar-se-ia mais uma vez das facilidades com que essas operaes podiam ser realizadas desde a introduo da cocana, e eu no daria a menor indicao de que 
eu prprio tivera participao na descoberta. Essa fantasia me levara a reflexes de como  difcil para um mdico, no final das contas, procurar tratamento para 
si prprio com seus colegas de profisso. O cirurgio oftalmologista de Berlim no me conheceria, e eu poderia pagar seus honorrios como qualquer outra pessoa. 
S depois de me haver lembrado desse devaneio foi que compreendi que a lembrana de um evento especfico jaz por trs do mesmo. Logo aps a descoberta de Koller, 
meu pai fora na verdade atacado de glaucoma; um amigo meu, o Dr. Konigstein, cirurgio oftalmologista, o havia operado, enquanto o Dr. Koller se encarregara da anestesia 
de cocana e comentara o fato de que esse caso reunira todos os trs homens que haviam participado da introduo da cocana.
          Meus pensamentos prosseguiram ento at o momento em que eu me lembrara pela ltima vez dessa questo da cocana. Fora alguns dias antes,quando eu examinava 
um exemplar de um Festchrift em que alunos reconhecidos tinham celebrado o jubileu de seu professor e diretor do laboratrio. Entre as pretenses de dinstino do 
laboratrio enumeradas nesse livro vira uma meno do fato de que Koller ali fizera sua descoberta das propriedades anestsicas da cocana. Percebi ento, subitamente, 
que meu sonho estava ligado a um acontecimento da noite anterior. Eu voltara para casa a p justamente com o Dr. Konigstein e conversara com ele sobre um assunto 
que nunca deixa de provocar minhas emoes sempre que  levantado. Enquanto conversava com ele no saguo de entrada, o Professor Gartner [Jardineiro] e a esposa 
vieram juntar-se a ns, e no pude deixar de felicitar ambos por sua aparncia florescente. Mas o Professor Gartner era um dos autores do Festschrift que acabo de 
mencionar, e  bem possvel que me tenha feito lembrar dele. Alm disso, a Sra. L., cujo desapontamento no aniversrio descrevi anteriormente, foi mencionada - embora, 
 verdade, apenas em relao a outro assunto - em minha conversa com o Dr. Konigstein.
          Faria uma tentativa de interpretar tambm os outros determinantes do contedo do sonho. Havia um espcime seco da planta includo na monografia, como se 
ela fosse um herbrio. Isso me levou a uma recordao de minha escola secundria. Nosso diretor, certa vez, reuniu os meninos das classes mais adiantadas e confiou-lhes 
o herbrio da escola para ser examinado e limpo. Alguns vermezinhos - traas de livros - tinham penetrado nele. Parece que o diretor no confiava muito em minha 
ajuda, pois entregou-me apenas algumas folhas. Estas, como ainda me lembro, compreendiam algumas Crucferas. Eu nunca tivera o contato especialmente ntimo com a 
botnica. Em meu exame preliminar de botnica, tambm recebi uma Crucfera para identificar - e no consegui faz-lo. Minhas perspectivas no teriam sido muito brilhantes, 
se eu no tivesse podido contar com meus conhecimentos tericos. Passei das Crucferas para as Compostas. Ocorreu-me que as alcachofras eram Compostas e que, na 
verdade, eu poderia com justia cham-las de minhas flores favoritas. Sendo mais generosa do que eu, minha mulher muitas vezes me trazia do mercado essas minhas 
flores favoritas.
          Vi diante de mim a monografia que eu esperava. Tambm isso me remeteu a alguma coisa. Eu recebera na vspera uma carta de meu amigo [Fliess] de Berlim 
em que ele demonstrara sua capacidade de visualizao: "Estou extremamente ocupado com seu livro dos sonhos. Vejo-o concludo diante de mim e vejo a mim mesmo virando-lhe 
as pginas". Como invejei nele esse dom de vidente! Se ao menos eu pudesse v-lo concludo diante de mim!
          A prancha colorida dobrada. Quando estudante de medicina, eu era vtima constante de um impulso de s aprender as coisas em monografias. Apesar de meus 
recursos limitados, consegui adquirir muitos volumes das atas de sociedades mdicas e ficava fascinado com suas pranchas coloridas. Orgulhava-me de minha nsia de 
perfeio. Ao comear eu mesmo a publicar trabalhos, vira-me obrigado a fazer meus prprios desenhos para ilustr-los, e lembrei-me que um deles tinha sado to 
ruim que um colega, brincalho, zombara de mim por causa disso. Seguiu-se ento - e no pude compreender bem como - uma lembrana da minha meninice. Certa vez, meu 
pai se divertira ao entregar um livro com pranchas coloridas (um relato de uma viagem pela Prsia) a mim e a minha irm mais velha para que o destrussemos. Nada 
fcil de justificar do ponto de vista educativo! Nessa poca, eu tinha cinco anos de idade e minha irm ainda no fizera trs, e a imagem de ns dois, jubilosamente 
reduzindo o livro a frangalhos (folha por folha, como uma alcachofra, percebi-me dizendo), foi quase a nica lembrana plstica que guardei desse perodo de minha 
vida. Depois, quando me tornei estudante, desenvolvi a paixo de colecionar e possuir livros, que era anloga a minha predileo por estudar em monografias: um passatempo 
favorito. (A idia de "favorito" j surgira em relao aos ciclmens e s alcachofras.) Eu me tornara uma traa de livros (cf. herbrio). Desde que me entendo por 
gente, sempre liguei essa minha primeira paixo  lembrana infantil que mencionei aqui. Ou melhor, eu tinha reconhecido que a cena infantil era uma "lembrana encobridora" 
para minhas posteriores propenses biblifilas. E cedo descobri,  claro, que as paixes muitas vezes levam  dor. Quando tinha dezessete anos, contra uma dvida 
um tanto vultosa com meu livreiro e no tinha nada com que fazer face a ela; e meu pai teve dificuldade em aceitar como desculpa que minhas inclinaes poderiam 
ter tomado um rumo pior. A recordao dessa experincia dos anos posteriores de minha juventude me fez lembrar imediatamente a conversa com meu amigo, o Dr. Knigstein, 
pois no decurso dela havamos discutido a mesma questo de eu ser criticado por ficar absorto demais em meus passatempos favoritos.
          Por motivos que no nos interessam, no prosseguirei na interpretao desse sonho, indicando simplesmente a direo por ela tomada. No decorrer do trabalho 
de anlise, lembrei-me de minha conversa com o Dr. Knigstein e fui conduzido a ela a partir de mais de uma direo. Quando levo em conta os assuntos abordados nessa 
conversa, o sentido do sonho se me torna inteligvel. Todos os fluxos de pensamento que partem do sonho - as idias sobre as flores favoritas de minha esposa e minhas, 
sobre a cocana, sobre a dificuldade do tratamento mdico entre colegas, sobre minha preferncia por estudar monografias e sobre minha negligncia para com certos 
ramos da cincia, como a botnica -, todos esses fluxos de pensamento, quando levados adiante, acabavam por conduzir a uma ou outra das numerosas ramificaes de 
minha conversa com o Dr. Knigstein. Mais uma vez, o sonho, como o que analisamos primeiro - o sonho da injeo de Irma -, revela ser da natureza de uma autojustificao, 
uma defesa em favor de meus prprios direitos. Na verdade, ele levou o assunto levantando no primeiro sonho um estgio adiante e o examinou com referncia ao material 
novo que surgira no intervalo entre os dois sonhos. Mesmo a forma aparentemente irrelevante de que se revestiu o sonho mostra ter tido importncia. O que ela quis 
dizer foi: "Afinal de contas, sou o homem que escreveu o valioso e memorvel trabalho (sobre a cocana)", tal como eu dissera a meu favor no primeiro sonho: "Sou 
um estudioso esforado e consciencioso." Em ambos os casos, aquilo em que eu insistia era: "Posso permitir-me fazer isto." No h necessidade, porm, de eu levar 
a interpretao do sonho mais adiante, j que meu nico objetivo ao relat-lo foi ilustrar, por meio de um exemplo, a relao entre o contedo de um sonho e a experincia 
da vspera que o provocou. Enquanto eu me apercebia apenas do contedo manifesto do sonho, ele pareceu estar relacionado somente com o nico evento do dia do sonho. 
Mas, uma vez efetuada a anlise, surgiu uma segunda fonte do sonho em outra experincia do mesmo dia. A primeira dessas duas impresses com que o sonho se ligou 
era irrelevante, um fato secundrio: eu vira um livro numa vitrina cujo ttulo atrara por um momento minha ateno, mas cujo assunto dificilmente me interessaria. 
A segunda experincia tivera um alto grau de importncia psquica: eu mantivera uma boa hora de conversa animada com meu amigo oftalmologista, no decorrer da qual 
lhe dera algumas informaes que estavam fadadas a afetar de perto a ns dois, e tinham-se avivado em mim algumas lembranas que me haviam despertado a ateno para 
uma grande variedade de tenses internas em minha prpria mente. Alm disso, a conversa fora interrompida antes de sua concluso por causa dos conhecidos que se 
juntaram a ns.
          Devemos agora perguntar qual foi a relao das duas impresses do dia do sonho entre si e com o sonho da noite subseqente. No contedo manifesto do sonho, 
s se fez aluso  impresso irrelevante, o que parece confirmar a idia de que os sonhos tm uma preferncia por captar detalhes sem importncia da vida de viglia. 
Todas as correntes da interpretao, por outro lado, levaram  impresso importante, quela que justificadamente agitara meus sentimentos. Se o sentido do sonho 
for julgado, como certamente s pode ser, por seu contedo latente, tal como relevado pela anlise, um fato novo e significativo  inesperadamente trazido  luz. 
O enigma de por que os sonhos se interessam apenas por fragmentos sem valor da vida de viglia parece haver perdido todo o seu significado; tampouco  possvel continuar 
a sustentar que a vida de viglia no  levada adiante dos sonhos e que estes so, portanto, uma atividade psquica desperdiada num material descabido. O inverso 
 verdadeiro: nossos pensamentos onricos so dominados pelo mesmo material que nos ocupou durante o dia e s nos damos o trabalho de sonhar com as coisas que nos 
deram motivo para reflexo durante o dia.
          Por que  ento que, embora a causa de meu sonho tenha sido uma impresso diurna pela qual eu fora justificadamente agitado, sonhei, na realidade, com 
uma coisa irrelevante? A explicao mais bvia, sem dvida,  que, mais uma vez, estamos diante de um dos fenmenos da distoro onrica, que em meu ltimo captulo 
liguei a uma fora psquica atuando como censura. Minha lembrana da monografia sobre o gnero Clicmen serviria, assim,  finalidade de constituir uma aluso  
conversa com meu amigo, tal como o "salmo defumado" do sonho com a ceia abandonada [em [1]] servira de aluso  idia da sonhadora sobre sua amiga. A nica questo 
prende-se aos elos intermedirios que permitiram  impresso da monografia servir de aluso  conversa com o oftalmologista, considerando que,  primeira vista, 
no h nenhuma ligao bvia entre elas. No exemplo da ceia que no se concretizou, a ligao foi dada imediatamente: sendo o prato predileto da amiga, o "salmo 
defumado" constituiu um integrante imediato do grupo de representaes que tinham probabilidade de ser despertadas na mente da sonhadora pela personalidade de sua 
amiga. Neste ltimo exemplo, houve duas impresses soltas que,  primeira vista, s tinham em comum o fato de terem ocorrido no mesmo dia: eu vira a monografia pela 
manh e tivera a conversa na mesma noite. A anlise permitiu-nos solucionar o problema da seguinte maneira: tais ligaes,quando no esto presentes em primeiro 
lugar, so retrospectivamente urdidas entre o contedo de representaes de uma impresso e o de outra. J chamei ateno para os elos intermedirios no presente 
caso atravs das palavras que grifei em meu relatrio da anlise. Se no tivesse havido quaisquer influncias de outro setor, a representao da monografia sobre 
a Ciclmen teria apenas conduzido, imagino eu,  idia de ele ser a flor favorita de minha mulher e, possivelmente, tambm ao buqu ausente da Sra. L. -me difcil 
imaginar que esses pensamentos de fundo teriam sido suficientes para evocar um sonho. Como nos diz o texto de Hamlet:
          "Senhor, para dizer-nos isso era suprfluo Que algum fantasma deixasse a sepultura."
          Mas, vejam bem, foi-me lembrado na anlise que o homem que interrompeu nossa conversa se chamava Grtner [Jardineiro] e que eu havia pensado que sua mulher 
tinha uma aparncia florescente. E mesmo ao escrever estas palavras, recordo-me que uma de minhas pacientes, que tinha o encantador nome de Flora, foi por algum 
tempo o piv de nossa discusso. Esses devem ter sido os elos intermedirios, decorrentes do grupo de experincias daquele dia, a irrelevante e a estimulante. Estabeleceu-se 
a seguir um outro conjunto de ligaes - as que cercam a idia da cocana, que tinha todo o direito de servir como elo entre a figura do Dr. Knigstein e uma monografia 
sobre botnica que eu havia escrito; e essas ligaes fortaleceram a fuso entre os dois grupos de representaes, de modo que se tornou possvel a parte de uma 
experincia servir de aluso  outra.
          Estou preparado para ver essa explicao ser alvo de ataques, sob a alegao de ser arbitrria ou artificial. O que, podero perguntar, teria acontecido 
se o Professor Grtner e sua esposa de aparncia florescente no tivessem vindo ao nosso encontro, ou se a paciente sobre a qual falvamos se chamasse Anna em vez 
de Flora? A resposta  simples. Se essas cadeias de pensamento tivessem estado ausentes, outras, sem dvida, teriam sido escolhidas.  bastante fcil construir tais 
cadeias, como demonstram os trocadilhos e as charadas que as pessoas fazem todos os dias para seu divertimento. O reino dos chistes no conhece fronteiras. Ou, indo 
um passo alm, se no tivesse havido nenhuma possibilidade de forjar elos intermedirios suficientes entre as duas impresses, o sonho simplesmente teria sido diferente. 
Outra impresso irrelevante do mesmo dia - pois torrentes dessas impresses penetram em nossa mente e so depois esquecidas - teria tomado o lugar da "monografia" 
no sonho, estabelecido um elo com o assunto da conversa e servido para represent-lo no contedo do sonho. Visto que a monografia, e no qualquer outra idia, foi 
na verdade escolhida para servir a essa funo, devemos supor que ela era a mais adequada  ligao. No  necessrio seguirmos o exemplo de Hnschen Schlau, de 
Lessing, e nos surpreendermos ante o fato de que "somente os ricos so os que tm mais dinheiro."
          Um processo biolgico pelo qual, segundo nossa exposio, as experincias irrelevantes tomam o lugar das psiquicamente significativas, no pode deixar 
de despertar suspeita e espanto. Ser nossa tarefa, num captulo posterior [Captulo VI, Seo B, em [1] e segs.] tornar mais inteligveis as peculiaridades dessa 
operao aparentemente irracional. Nesse momento, estamos apenas interessados nos efeitos de um processo cuja realidade vi-me compelido a presumir mediante observaes 
inumerveis e regularmente recorrentes feitas na anlise dos sonhos. O que ocorre seria algo da natureza de um "deslocamento" - de nfase psquica, talvez? - por 
meio de elos intermedirios; desse modo, representaes que originalmente s tinham uma carga fraca de intensidade recebem a carga de representaes que eram originalmente 
mais intensamente "catexizadas", e acabam por adquirir fora suficiente para lhes permitir forar entrada na conscincia. Tais deslocamentos no constituem nenhuma 
surpresa para ns quando se trata de lidar com quantidades de afeto ou com as atividades motoras em geral. Quando uma solteirona solitria transfere sua afeio 
para os animais, ou um solteiro se torna um entusistico colecionador, quando um soldado defende um pedao se torna um entusistico colecionador, quando um soldado 
defende um pedao de pano colorido - uma bandeira - com o sangue de suas veias, quando alguns segundos de presso extra num aperto de mo significam a bem-aventurana 
para o enamorado, ou quando, em Otelo, um leno perdido desencadeia uma exploso de clera - todos esses so exemplos de deslocamento psquicos aos quais no fazemos 
nenhuma objeo. Mas, quando ouvimos dizer que uma deciso quanto ao que alcanar nossa conscincia e ao que ser mantido fora dela - o que pensaremos, em suma 
- foi tomada da mesma forma e com base nos mesmo princpios, ficamos com a impresso de um evento patolgico; e quando essas coisas acontecem na vida de viglia, 
ns as classificamos de erros de pensamento. Anteciparei as concluses a que seremos posteriormente conduzidos para sugerir que o processo psquico que vimos em 
ao no deslocamento onrico, muito embora no possa ser classificado de perturbao patolgica, difere do normal e deve ser considerado um processo de natureza 
mais primria. [Ver mais adiante, Captulo VII, Seo E, em [1]]
          Assim, o fato de o contedo dos sonhos incluir restos de experincias triviais deve ser explicado como uma manifestao da distoro onrica (por deslocamento); 
e cabe lembrar que chegamos  concluso de que a distoro onrica seria o produto de uma censura que opera na passagem entre duas atividades fsicas.  de se esperar 
que a anlise de um sonho revele regularmente sua fonte de verdadeira e psiquicamente significativa na vida de viglia, embora a nfase se tenha deslocado da lembrana 
dessa fonte para a de uma fonte irrelevante. Essa explicao nos coloca em completo conflito com a teoria de Robert [em [1]], que deixa de ter qualquer serventia 
para ns. Pois o fato que Robert se prope explicar  um fato inexistente. Sua aceitao dele repousa num mal-entendido, em sua no-substituio do contedo aparente 
dos sonhos por seu significado real. E existe ainda outra objeo que se pode levantar contra a teoria de Robert. Se fosse realmente da alada dos sonhos aliviar 
nossa memria das "sobras" das lembranas diurnas atravs de uma atividade psquica especial, nosso sono seria mais atormentado e mais trabalhoso do que nossa vida 
mental quando estamos acordados. E isso porque o nmero de impresses irrelevantes contra as quais nossa memria precisaria ser protegida , sem sombra de dvida, 
imensamente grande: a noite no seria longa o bastante para lidar com tal massa.  muito mais provvel que o processo de esquecimento das impresses irrelevantes 
prossiga sem a interveno ativa de nossas foras psquicas.
          No obstante, no nos devemos apressar em deixar de lado as idias de Robert sem maior considerao. [Ver em [1]] Ainda no explicamos o fato de uma das 
impresses irrelevantes da vida de viglia, uma impresso que data, alm disso, do dia precedente ao sonho, contribuir invariavelmente para o contedo do sonho. 
As ligaes entre essa impresso e a verdadeira fonte do sonho no inconsciente nem sempre esto prontas para uso; como vimos, elas s podem ser estabelecidas retrospectivamente, 
no decurso do trabalho do sonho, com vistas, por assim dizer, a tornar vivel o deslocamento pretendido. Portanto, deve haver alguma fora imperativa no sentido 
de se estabelecerem ligaes precisamente com uma impresso recente,embora irrelevante, e esta deve possuir algum atributo que a torne especialmente adequada para 
esse fim. Se assim no fosse, seria igualmente fcil para os pensamentos onricos deslocar sua nfase para algum componente sem importncia em seu prprio crculo 
de representaes.
          As seguintes observaes podero ajudar-nos a elucidar esse ponto. Se no decorrer de um nico dia tivermos duas ou mais experincias adequadas  provocao 
de um sonho, este far uma referncia conjunta a elas como um todo nico; ele  forado a combin-las numa unidade. Eis aqui um exemplo. Numa tarde de vero, entrei 
num compartimento de um vago de trem onde encontrei dois conhecidos que eram estranhos um ao outro. Um deles era um eminente colega mdico, e outro era membro de 
uma famlia ilustre com a qual eu mantinha relaes profissionais. Apresentei os dois cavalheiros um ao outro, mas, durante toda a longa viagem, eles conduziram 
sua conversa tomando-me como intermedirio, do modo que logo me vi discutindo vrios assuntos alternadamente, primeiro com um e depois com o outro. Pedi a meu amigo 
mdico que usasse sua influncia em prol de um nosso conhecido comum que estava iniciando sua clnica. O mdico respondeu que estava convencido da capacidade do 
rapaz, mas que sua aparncia provinciana lhe dificultaria o acesso s famlias da classe alta, ao qual retruquei que essa era exatamente a razo pela qual ele necessitava 
de uma ajuda influente. Voltando-me para meu outro companheiro de viagem, perguntei pela sade de sua tia - me de um de meus pacientes -, que na ocasio estava 
gravemente enferma. Na noite seguinte, sonhei que o jovem em cujo benefcio eu intercedera estava sentado numa elegante sala de estar, em meio a um grupo seleto, 
composto de todas as pessoas ilustres e ricas que eu conhecia, e que, com a desenvoltura de um homem de sociedade, proferia uma orao fnebre pela velha senhora 
(que, no meu sonho, j havia falecido), tia de meu segundo companheiro de viagem. (Devo confessar que no me dava muito bem com essa senhora.) Assim, meu sonho, 
mais uma vez, elaborava ligaes entre os dois conjuntos de impresses do dia anterior e os combinara numa nica situao.
          Muitas experincias como essas levam-me a afirmar que o trabalho do sonho est sujeito a uma espcie de exigncia de combinar todas as fontes que agiram 
como estmulos ao sonho numa nica unidade no prprio sonho.
          
          Passarei agora  questo de investigar se a fonte investigadora de um sonho, revelada pela anlise, tem de ser, invariavelmente, um fato recente (e significativo), 
ou se uma experincia interna, isto , a lembrana de um fato psiquicamente importante - um fluxo de pensamentos -, pode assumir o papel de instigadora do sonho. 
A resposta, baseada num grande nmero de anlises,  decididamente favorvel  segunda alternativa. O sonho pode ser instigado por um processo interno que se tornou, 
por assim dizer, um fato recente, graas  atividade do pensamento durante o dia anterior.
          Este parece ser o momento apropriado para enumerar as diferentes condies s quais constatamos que as fontes dos sonhos esto sujeitas. A fonte de um 
sonho pode ser:
          (a) uma experincia recente e psiquicamente significativa, que  diretamente representada no sonho, ou
          (b) vrias experincias recentes e significativas, combinadas numa nica unidade pelo sonho, ou
          (c) uma ou mais experincias recentes e significativas, representadas no contedo do sonho pela meno a uma experincia contempornea, mas irrelevante, 
ou
          (d) uma experincia significativa interna (por exemplo, um lembrana ou um fluxo de idias), que , nesse caso, invariavelmente representada no sonho por 
uma meno a uma impresso recente, irrelevante.
          Veremos que, na interpretao dos sonhos, uma condio  sempre atendida: um componente do contedo do sonho  a repetio de uma impresso recente do 
dia anterior. Essa impresso a ser representada no sonho pode pertencer, ela prpria, ao crculo de representaes que cercam o verdadeiro instigador do sonho - 
quer como parte essencial ou insignificante dele - ou pode provir do campo de uma impresso irrelevante vinculada s idias que cercam o instigador do sonho por 
elos mais ou menos numerosos. A aparente multiplicidade das condies dominantes , na verdade, apenas dependente das alternativas entre um deslocamento ter ou no 
ocorrido; e vale a pena ressaltar que nos  facultado, por essas alternativas, explicar a gama contrastes entre os diferentes sonhos, com a mesma facilidade com 
que a teoria mdica encontra uma possibilidade de faz-lo atravs de sua hiptese de clulas cerebrais que vo do estado parcial ao estado total de viglia (Ver 
em [1])
          Convm ainda observar, se considerarmos esses quatro casos possveis, que um elemento psquico que seja significativo, mas no recente (por exemplo, uma 
seqncia de idias ou uma lembrana), pode ser substitudo, para fins de formao de um sonho, por um elemento que seja recente mas irrelevante, bastando para isso 
que duas condies sejam satisfeitas: (1) o contedo do sonho deve estar ligado a uma experincia recente, e (2) o instigador do sonho deve permanecer como um processo 
psiquicamente significativo. Apenas num nico caso - o caso (a) - essas duas condies so satisfeitas por uma mesma e nica impresso. Deve-se notar, alm disso, 
que as impresses irrelevantes que so passveis de ser utilizadas para a construo de um sonho, enquanto recentes, perdem essa capacidade to logo ficam um dia 
(ou, no mximo, alguns dias) mais velhas. Disso devemos concluir que o carter recente de uma impresso lhe confere uma espcie de valor psquico para fins de construo 
do sonho, que equivale, de certo modo, ao valor das lembranas ou seqncias de idias emocionalmente carregadas. A base do valor assim conferido s impresses recentes 
no tocante  construo dos sonhos s se tornar clara no decurso de nossas discusses psicolgicas subseqentes.
          Quanto a isso, alis, notaremos que podem ocorrer modificaes em nosso material mnmico de representaes durante a noite, sem que sejam observadas por 
nossa conscincia. Somos freqentemente aconselhados, antes de tomarmos uma deciso final sobre algum assunto, a "consultar o travesseiro", e esse conselho  obviamente 
justificado. Mas aqui, passamos da psicologia dos sonhos para a do sono, e esta no  a ltima ocasio em que seremos tentados a faz-lo.
          
          Entretanto,  possvel levantar uma objeo que ameaa perturbar estas ltimas concluses. Se as impresses irrelevantes s podem penetrar num sonho desde 
que sejam recentes, como  o que o contedo dos sonhos abrange tambm elementos de um perodo mais antigo da vida, os quais, na poca em que eram recentes, no possuam, 
para empregar as palavras de Strmpell [1877, 40 e seg.], nenhum valor psquico, e portanto deveriam ter sido esquecidos h muito tempo - em outras palavras, elementos 
que no so nem novos nem psiquicamente significativos?
          Pode-se tratar plenamente dessa objeo mediante uma referncia s descobertas da psicanlise dos neurticos. A explicao  que o deslocamento que substitui 
o material psiquicamente importante por material irrelevante (tanto nos sonhos como no pensamento) j ocorreu, nesses casos, no perodo primitivo de vida em questo, 
e desde ento se fixou na memria. Esses elementos especficos, que eram originalmente irrelevantes, j no o so agora, a partir do momento em que assumiram (por 
meio do deslocamento) o valor do material psiquicamente significativo. Nada que tenha realmente continuado a ser irrelevante pode ser reproduzido num sonho.
          O leitor concluir acertadamente, com base nos argumentos anteriores, que estou afirmando no existirem instigadores onricos irrelevantes - e, por conseguinte, 
que no h sonhos "inocentes". So essas, no sentido mais estrito e mais absoluto, minhas opinies - se deixar de lado os sonhos das crianas e, talvez, breves reaes, 
nos sonhos, a sensaes experimentadas durante a noite. Afora isso, o que sonhamos  manifestamente reconhecvel como psiquicamente significativo, ou  distorcido 
e no pode ser julgado at que o sonho tenha sido interpretado, depois do que se verificar mais uma vez ser ele significativo. Os sonhos nunca dizem respeito a 
trivialidades: no permitimos que nosso sono seja perturbado por tolices. Os sonhos aparentemente inocentes revelam ser justamente o inverso quando nos damos ao 
trabalho de analis-los. So, se  que posso diz-lo, lobos na pele do cordeiro. Dado que esse  outro ponto em que posso esperar que me contradigam, e j que me 
apraz contar com uma oportunidade de mostrar a distoro onrica em ao, selecionarei alguns sonhos "inocentes" de meu registros e os submeterei  anlise.
          
          I
          
          Uma jovem inteligente e culta, reservada e retrada em seu comportamento, relatou o seguinte: Sonhei que chegava tarde demais ao mercado e no conseguia 
nada nem do aougueiro, nem da mulher que vende legumes. Um sonho inocente, sem dvida; mas os sonhos no so to simples assim, de modo que pedi que ela o narrasse 
com maiores detalhes. Imediatamente, fez-me o seguinte relato: Sonhou que estava indo ao mercado com a cozinheira, que carregava a cesta. Depois de ter pedido algo, 
o aougueiro lhe disse: "Isso tambm  bom". Ela rejeitou a oferta e se dirigiu  vendedora de legumes, que tentou faz-la comprar um legume estranho que estava 
atado em molhos; mas era de cor negra. Disse ela: "No reconheo isso; no vou lev-lo."
          A ligao do sonho com o dia anterior era bem direta. Ela realmente fora ao mercado tarde demais e nada conseguira. A situao pareceu amoldar-se  frase 
"Die Fleischbank war schon geschlossen" ["o aougue estava fechado".] Fiquei alerta: no era essa, ou antes, seu oposto, uma descrio vulgar de certa espcie de 
descuido nos trajes de um homem? Mas a prpria sonhadora no empregou a frase; talvez tivesse evitado empreg-la. Esforcemo-nos, ento, por chegar a uma interpretao 
dos detalhes do sonho.
          Quando alguma coisa num sonho tem o carter de discurso direto, isto , quando  dita ou ouvida e no simplesmente pensada (e  fcil, em geral, estabelecer 
a distino com segurana), ento isso provm de algo realmente falado na vida de viglia - embora, por certo, esse algo seja meramente alterado e, mais especialmente, 
desligado de seu contexto. Ao fazer uma interpretao, um dos mtodos consiste em partir desse tipo de expresses orais. Qual seria, ento, a origem da observao 
do aougueiro "Isso no se consegue mais"? A resposta  que ela proviera de mim mesmo. Alguns dias antes, eu havia explicado  paciente que as primeiras lembranas 
da infncia "no se conseguiam mais como tais", mas eram substitudas, na anlise, por "transferncias" e sonhos. Portanto, eu era o aougueiro, e ela estava rejeitando 
essas transferncias de velhos hbitos de pensar e sentir para o presente. - Novamente, qual seria a origem de sua prpria observao no sonho: "No reconheo isso; 
no vou lev-lo"? Para fins da anlise, isso teve de ser fracionado. "No reconheo isso" era algo que ela dissera na vspera  cozinheira, com quem tivera uma alterao; 
mas naquele momento, ela prosseguira: "Comporte-se direito!" Nesse ponto ocorrera claramente um deslocamento. Dentre as duas frases que empregara com a cozinheira, 
ela havia escolhido a que era insignificante para incluso no sonho. Mas somente a frase suprimida, "Comporte-se direito!",  que se enquadrava no restante do contedo 
do sonho: essas teriam sido as palavras adequadas para se usar se algum se aventurasse a fazer sugestes imprprias e se esquecesse de "fechar seu aougue". As 
aluses subjacentes ao incidente com a vendedora de legumes foram mais uma confirmao de que nossa interpretao estava na pista certa. Um legume vendido em molho 
(atado no sentido do comprimento, como a paciente acrescentou depois), e tambm negro, s poderia ser uma combinao onrica de aspargo e rabanetes (espanhis) negros. 
Nenhuma pessoa sagaz de qualquer dos sexos pedir uma interpretao sobre os aspargos. Mas o outro legume - "Schwarzer Rettig" ["rabanete negro"] - pode ser entendido 
como uma exclamao - "Schwarzer, rett' dich!" ["Negrinho! D o fora!"] -; por conseguinte, tambm ela parece sugerir o mesmo tema sexual de que suspeitramos desde 
o incio, quando nos sentimos inclinados a introduzir a expresso sobre o aougue estar fechado no relato original do sonho. No precisamos investigar agora o sentido 
integral do sonho. Isso, pelo menos, est bem claro: ele tinha um sentido, e este estava longe de ser inocente.
          
          II
          
          Eis aqui outro sonho inocente, tido pela mesma paciente, e que em certo sentido se correlaciona com o anterior. O marido perguntou-lhe: "Voc no acha 
que devemos mandar afinar o piano?" E ela respondeu: "No vale a pena; de qualquer maneira, os martelos precisam de restaurao."
          Mais uma vez, isso foi a repetio de um fato real do dia anterior. O marido lhe fizera essa pergunta e ela dera uma resposta dessa ordem. Mas qual seria 
a explicao para ela ter sonhado com isso? Ela me disse que o piano era um caixa velha e repulsiva, que fazia um barulho horroroso, que pertencia ao marido desde 
antes do casamento e assim por diante. Mas a chave da soluo s foi dada por estas palavras suas: "No vale a pena." Estas derivavam de uma visita que ela fizera 
na vspera a uma amiga. Haviam-lhe sugerido que tirasse o casaco, mas ela recusara com as seguintes palavras: "Muito obrigada, mas no vale a pena;, s posso ficar 
por alguns minutos." Enquanto ela me dizia isso, lembrei-me de que, durante a anlise do dia anterior, ela de repente segurara o casaco, do qual um dos botes se 
desabotoara. Era como estivesse dizendo: "Por favor, no olhe; no vale a pena." Da mesma forma, a "caixa" ["Kasten"] era um substituto de "peito", "caixa torcica" 
["Brustkasten"]; e a interpretao do sonho nos levou de volta, imediatamente,  poca de seu desenvolvimento fsico na puberdade, quando ela comeara a ficar insatisfeita 
com seu corpo. Dificilmente podemos duvidar de que tenha reconduzido a tempos ainda mais remotos, se levarmos em conta o termo "repulsivo" e o "barulho horroroso", 
e se nos lembrarmos de quantas vezes - tanto nos doubles entendres como nos sonhos - os hemisfrios menores do corpo da mulher so usados, quer como contrastes, 
quer como substitutos, em lugar dos maiores.
          
          III
          
          Interromperei esta srie por um momento para inserir um breve sonho inocente produzido por um rapaz. Ele sonhou que estava novamente vestindo seu sobretudo 
de inverno, o que era uma coisa terrvel. A razo aparente desse sonho fora um sbito retorno do tempo frio. Se examinarmos mais de perto, porm, observaremos que 
as duas pequenas partes que compem o sonho no esto em completa harmonia, pois o que poderia haver de "terrvel" em vestir um sobretudo pesado ou grosso no frio? 
Alm disso, a inocncia do sonho foi decisivamente abalada pela primeira associao que ocorreu ao sonhado na anlise. Lembrou-se de que uma dama lhe confiara, na 
vspera, que seu filho mais novo devia sua existncia a um preservativo rasgado. Com base nisso, ele pde reconstruir seus pensamentos. Um preservativo fino era 
perigoso, mas um preservativo grosso era ruim. O preservativo foi adequadamente representado como um sobretudo, visto que nos enfiamos em ambos. Mas uma eventualidade 
como a que a dama lhe descrevera certamente seria "terrvel" para um homem solteiro.
          E agora voltemos a nossa inocente sonhadora.
          
          IV
          
          Ela estava colocando uma vela num castial, mas a vela se quebrou de modo que no ficava de p adequadamente. As colegas de sua escola disseram que ela 
era desajeitada, mas a diretora disse que no era culpa dela.
          Mais uma vez, a causa do sonho fora um fato real. No dia anterior, ela realmente pusera uma vela num castial, embora esta no se quebrasse. Certo simbolismo 
transparente estava sendo utilizado nesse sonho. Uma vela  um objeto que pode excitar os rgos genitais femininos e, quando est quebrada, de modo que no possa 
ficar de p adequadamente, significa que o homem  impotente. ("No era culpa dela.") Mas poderia uma jovem cuidadosamenteeducada, que fora poupada do impacto de 
tudo o que fosse feio, ter sabido que uma vela podia ser usada para esse fim? Casualmente, ela pde indicar como foi que obteve essa informao. Certa feita, quando 
estavam num barco a remo no Reno, outra embarcao com alguns estudantes passaram por eles. Estavam muito animados e cantavam, ou antes, gritavam, uma cano:
          Wenn die Knigin von Schweden,Bei geschlossenen FensterldenMit Apollokerzen...
          Ou ela no conseguiu ouvir ou no intendeu a ltima palavra, e teve de pedir ao marido que lhe desse a explicao necessria. O verso foi substitudo no 
contedo do sonho por uma recordao inocente de alguma tarefa que ela executara desajeitadamente quando estava na escola, e a substituio foi possibilitada graas 
ao elemento comum postigos fechados. A ligao entre os temas masturbao e impotncia  bastante bvia. O "Apolo" do contedo latente desse sonho ligava-o a um 
sonho anterior em que aparecia a virgem Palas. Nada inocente, portanto.
          
          V
          
          Para que no fiquemos tentados, com demasiada facilidade, a tirar dos sonhos concluses sobre a vida real do sonhador, acrescentarei mais um sonho da mesma 
paciente, que de novo tem uma aparncia inocente. "Sonhei," disse ela, "com o que realmente fiz ontem: enchi tanto uma maleta de livros que tive dificuldade em fech-la, 
e sonhei exatamente com o que aconteceu mesmo." Nesse exemplo, a prpria narradora colocou a nfase principal na consonncia entre o sonho e a realidade. [Ver em 
[1] e [2]-[3].] Todas essas opinies e comentrios sobre um sonho, embora consigam um lugar no pensamento de viglia, so invariavelmente, na verdade, parte do contedo 
latente do sonho, como veremos confirmado por outros exemplos mais adiante [em [1]] O que nos foi dito, portanto,  que aquilo que o sonho descrevia tinha realmente 
acontecido na vspera. Ocuparia muito espao explicar como foi que me ocorreu a idia de utilizar a lngua inglesa na interpretao. Bata dizer que, mais uma vez, 
o que estava em questo era uma "caixinha" (cf. o sonho da criana morta na "caixa", [em [1]]), que estava to cheia que no se podia pr mais nada nela. De qualquer 
modo, nada mau desta vez.
          Em todos esses sonhos "inocentes", o motivo da censura , obviamente, o fator sexual. Esse, porm,  um assunto de importncia primordial que tenho de 
deixar de lado.
          
          (B) O MATERIAL INFANTIL COMO FONTE DOS SONHOS
          
          Como todos os outros autores nesse assunto, com exceo de Robert, assinalei como terceira peculiaridade do contedo dos sonhos poder ele incluir impresses 
que remontam  primeira infncia e que no parecem ser acessveis  memria de viglia. Naturalmente,  difcil determinar com que raridade ou freqncia isso ocorre, 
visto que a origem dos elementos onricos em questo no  reconhecida aps o despertar. A prova de que aquilo com que estamos lidando so impresses da infncia 
deve, portanto, ser estabelecida por meio de indcios externos, e  raro haver oportunidade de faz-lo. Um exemplo particularmente convincente  o apresentado por 
Maury [1878, 143 e seg., citado em [1]], sobre o homem que um dia tomou a deciso de revisitar sua terra natal aps uma ausncia de mais de vinte anos. Durante a 
noite que antecedeu a partida, sonhou que estava num lugar inteiramente desconhecido e que ali encontrava na rua um homem desconhecido e conversara com ele. Ao chegar 
a casa, verificou que o lugar desconhecido era real e ficava bem nas imediaes de sua cidade natal, e que o homem desconhecido do sonho vinha a ser um amigo de 
seu pai, j falecido, que ainda morava l. Essa foi uma prova conclusiva de que, em sua infncia, ele vira tanto o homem como o lugar. Esse sonho tambm deve ser 
interpretado como um sonho de impacincia, tal como da moa que tinha uma entrada de teatro na bolsa (em [1]), o da criana cujo pai lhe prometera lev-la a uma 
excurso at o Hameau (em [1]) e sonhos semelhantes. Os motivos que levaram os autores dos sonhos a reproduzirem uma impresso especfica de sua infncia, e no 
qualquer outra, no podem,  claro, ser descobertos sem uma anlise.
          Algum que freqentou um de meus ciclos de palestras e que se gabava de que seus sonhos muito raramente sofriam distoro relatou-me que, no fazia muito 
tempo, sonhara ver seu antigo tutor na cama com a bab que estivera com sua famlia at os seus onze anos de idade. No sonho, ele identificara o local onde ocorreu 
a cena. Seu interesse tinha sido despertado e ele contara o sonho a seu irmo mais velho, que rindo, confirmou a veracidade do que ele havia sonhado. O irmo se 
lembrava muito bem daquilo, pois tinha seis anos na poca. Os amantes tinham o hbito de embriagar o menino mais velho com cerveja, sempre que as circunstncias 
eram favorveis s relaes sexuais durante a noite. O menino mais novo -o sonhador -, que contava ento trs anos de idade e dormia no quarto com a ama, no era 
considerado um empecilho. [Ver tambm em [1].]
          H outra maneira de se estabelecer com certeza, sem a assistncia da interpretao, que um sonho contm elementos da infncia.  quando o sonho  do tipo 
que se chama "recorrente", isto , quando se teve o sonho pela primeira vez na infncia e depois ele reaparece constantemente, de tempos em tempos, durante o sono 
adulto. Posso acrescentar aos exemplos conhecidos desses sonhos alguns de meus prprios registros, embora eu mesmo nunca tenha experimentado um deles. Um mdico 
de trinta e poucos anos relatou-me que, desde os primrdios de sua infncia at a poca atual, um leo amarelo aparecia freqentemente em seus sonhos; e pde fornecer 
uma descrio minuciosa dele. Esse leo de seus sonhos surgiu um dia em forma concreta, como um enfeite de porcelana h muito desaparecido. O rapaz soube, ento, 
por intermdio da me, que esse objeto fora seu brinquedo predileto durante a primeira infncia, embora ele prprio houvesse esquecido desse fato.
          Se passarmos agora do contedo manifesto dos sonhos para os pensamentos onricos que s a anlise revela, constataremos, para nosso espanto, que as experincias 
da infncia tambm desempenham seu papel em sonhos cujo contedo jamais levaria algum a sup-lo. Devo um exemplo particularmente agradvel e instrutivo de um sonho 
dessa natureza ao meu respeitado colega do leo amarelo. Aps ler a narrativa de Nansen sobre sua expedio polar, ele sonhou que estava num campo de gelo e aplicava 
ao bravo explorador tratamento galvnico contra um ataque de citica do qual ele estava sofrendo. No processo de anlise do sonho, ele pensou numa histria que datava 
de sua infncia, a qual, alis, foi a nica coisa a tornar o sonho inteligvel. Um belo dia, quando tinha trs ou quatro anos, ele ouvira os mais velhos conversarem 
sobre viagens de descobrimento e perguntara ao pai se aquilo era uma doena grave. Evidentemente, confundira "Reisen" ["viagens"] com "Reissen" ["clicas"], e seus 
irmos e irms providenciaram para que ele jamais esquecesse esse erro embaraoso.
          Houve um exemplo semelhante disso quando, no transcurso de minha anlise do sonho da monografia sobre o gnero Ciclmen [ver em [1]], tropecei na lembrana 
infantil de meu pai, quando eu era um garoto de cinco anos, dando-me um livro ilustrado com pranchas coloridas para que eu o destrusse. Talvez se possa pr em dvida 
se essa lembrana realmente desempenhou algum papel na determinao da forma assumida pelo contedo do sonho, ou se, antes, no ter sido o processo de anlise que 
estruturou subseqentemente a ligao. Mas os elos associativos abundantes e entrelaados justificam nossa aceitao da primeira alternativa: ciclmen - flor favorita 
- prato predileto - alcachofras; desmantelar como a uma alcachofra, folha por folha (expresso que ecoa constantemente em nossos ouvidos em relao ao desmembramento 
paulatino do Imprio Chins) - herbrio - traas de livros, cujo alimento favorito so os livros. Alm disso, posso assegurar a meus leitores que o sentido ltimo 
do sonho, que no revelei, est intimamente relacionado com o assunto da cena infantil.
          No caso de outro grupo de sonhos, demonstra-nos a anlise que o desejo real que instigou o sonho e cuja realizao  representada pelo sonho provm da 
infncia; de modo que, para nossa surpresa, verificamos que a criana e seus impulsos continuam vivos no sonho.
          Neste ponto, retomarei mais uma vez a interpretao de um sonho que j verificamos ser instrutivo - o sonho em que meu amigo R. era meu tio. [Ver em [1]] 
Acompanhamos sua interpretao at o ponto de reconhecer nitidamente, como uma de suas motivaes, meu desejo de ser nomeado para o cargo de professor, e explicamos 
a afeio que senti no sonho por meu amigo R. como um produto de oposio e revolta contra as calnias a meus dois colegas contidas nos pensamentos onricos. O sonho 
foi meu mesmo; portanto, posso prosseguir sua anlise dizendo que meus sentimentos ainda no estavam satisfeitos com a soluo at ento alcanada. Eu sabia que 
minha opinio de viglia sobre os colegas que foram to maltratados nos pensamentos onricos teria sido bem diferente; e a fora de meu desejo de no partilhar do 
destino deles na questo da indicao evidenciava-se-me como insuficiente para explicar a contradio entre minhas avaliaes deles no estado de viglia e no sonho. 
Se fosse realmente verdade que minha nsia de que se dirigissem a mim por um ttulo diferente era to forte assim, isso mostrava uma ambio patolgica que eu no 
reconhecia em mim mesmo e que acreditava ser-me estranha. Eu no saberia dizer como as outras pessoas que acreditavam conhecer-me iriam julgar-me a esse respeito. 
Talvez eu fosse realmente ambicioso; mas, sendo assim, minha ambio h muito se transferira para objetos bem diferentes do ttulo e do posto de professor extraordinarius.
          Qual, ento, poderia ter sido a origem da ambio que produziu o sonho em mim? Nesse ponto, recordei-me de uma histria que ouvira muitas vezes em minha 
infncia. Na poca de meu nascimento, uma velha camponesa profetizara  minha orgulhosa me que, com seu primeiro filho, ela havia trazido ao mundo um grande homem. 
Essas profecias devem ser muito comuns: existem inmeras mes cheias de expectativas felizes e inmeras velhas camponesas e outras do gnero que compensam a perda 
de seu poder de controle sobre as coisas do mundo atual concentrando-o no futuro. Nem teria a profetisa nada a perder com o que disse. Teria sido esta origem de 
minha sede de grandeza? Mas isso me fez recordar outra experincia, que datava dos ltimos anos de minha infncia, e que oferecia uma explicao ainda melhor. Meus 
pais tinham o hbito, quando eu era um menino de onze ou doze anos, de levar-me ao Prater. Uma noite, quando l estvamos sentados num restaurante, nossa ateno 
fora atrada por um homem que ia de mesa em mesa e, mediante uma pequena esmola, improvisava uma composio potica sobre qualquer tpico que lhe fosse apresentado. 
Mandaram-me trazer o poeta  nossa mesa e ele mostrou sua gratido ao mensageiro. Antes de perguntar qual seria o tema escolhido, dedicou-me algumas linhas, tendo 
sua inspirao declarado que, quando eu crescesse, provavelmente seria um Ministro do Gabinete. Eu ainda me lembrava muito bem da impresso que essa segunda profecia 
me havia causado. Aqueles eram os tempos do Ministrio "Brger". Pouco antes, meu pai levara para casa retratos desses profissionais da classe mdia - Herbst, Giskra, 
Unger, Berger e os demais - e ns havamos iluminado a casa em homenagem a eles. Havia at mesmo alguns judeus entre eles. Assim, dali por diante, todo estudante 
judeu aplicado levava a pasta de Ministro do Gabinete em sua sacola. Os eventos daquele perodo sem dvida tiveram alguma relao com o fato de que, at pouco antes 
de meu ingresso na Universidade, fora minha inteno estudar Direito, e s no ltimo momento  que eu mudara de opinio. A carreira ministerial est definitivamente 
barrada aos mdicos. Mas agora, voltemos a meu sonho. Comecei a compreender que meu sonho me conduzira do melanclico presente s animadoras esperanas dos dias 
do Ministrio "Brger", que o desejo que ele fizera o mximo por realizar remontava queles tempos. Ao maltratar meus dois eminentes e eruditos colegas por serem 
judeus, e ao tratar um deles como simplrio e o outro como criminoso, estava comportando-me como se eu fosse o Ministro, colocara-me no lugar do Ministro. Virando 
a mesa sobre Sua Excelncia com vingana! Ele se recusara a me nomear professor extraordinarius, e eu me desforrara no sonho, tomando-lhe o lugar.
          Em outro exemplo tornou-se evidente que, embora o desejo que instigou o sonho fosse um desejo atual, ele recebera um poderoso reforo de lembranas que 
se estendia a pocas muito distantes da infncia. O que tenho em mente  uma srie de sonhos que se baseiam num anseio de visitar Roma. Ainda por muito tempo, sem 
dvida, terei de continuar a satisfazer esse anseio em meus sonhos, pois, na estao do ano em que me  possvel viajar, a permanncia em Roma deve ser evitada por 
motivos de sade. Por exemplo, sonhei certa vez que contemplava, da janela de um vago de trem, o Tibre e a Ponte Sant'Angelo. O trem comeou a se afastar e ocorreu-me 
que eu mal havia posto os ps na cidade. O panorama que vi em meu sonho fora tirado de uma famosa gravura que eu vislumbrara por um momento na vspera, na sala de 
estar de um de meus pacientes. Noutra ocasio, algum me levava ao alto de uma colina e me mostrava Roma meio envolta em brumas; estava to distante que fiquei surpreso 
por ter dela uma viso to clara. Havia mais coisas no contedo desse sonho do que me sinto disposto a descrever com pormenores, mas o tema da "terra prometida vista 
de longe" era bvio nele. A cidade que assim vi pela primeira vez, imersa em brumas, era... Lbeck; e o prottipo da colina ficava em... Gleichenberg. Num terceiro 
sonho, eu finalmente chegara a Roma, como o prprio sonho me informou, mas fiquei desapontado ao constatar que o cenrio estava longe de ter um carter urbano. Havia 
um estreito regato de guas negras; numa de suas margens havia penhascos negros e, na outra, pradarias com grandes flores brancas. Notei um certo Herr Zucker (que 
eu conhecia ligeiramente) e decidi perguntar-lhe o caminho para a cidade. Eu estava claramente fazendo uma v tentativa de ver, em meu sonho, uma cidade que jamais 
vira na vida de viglia. Decompondo a paisagem do sonho em seus elementos, verifiquei que as flores brancas me levavam a Ravenna, que eu tinha visitado e que, pelo 
menos por algum tempo, suplantara Roma como capital da Itlia. Nos pntanos ao redor de Ravenna encontramos belssimos lrios que cresciam em guas negras. Como 
tnhamos tido grande dificuldades de retir-los da gua, o sonho os fez crescer em pradarias, como os narcisos em nossa prpria Aussee. O penhasco negro, to prximo 
da gua, lembrou-me nitidamente o vale Tepl, perto de Karlsbad. "Karlsbad" permitiu-me explicar o curioso detalhe de eu haver perguntado o caminho a Herr Zucker. 
O material de que se tecia o sonho inclua, nesse ponto, duas daquelas jocosas anedotas judaicas que contm to profunda e por vezes amarga sabedoria mundana, e 
que tanto apreciamos citar em nossas conversas e cartas. Eis a primeira: a histria da "constituio". Um judeu sem dinheiro metera-se furtivamente, sem passagem, 
no expresso para Karlsbad. Foi apanhado, e toda vez que os bilhetes eram conferidos, ele era retirado do trem e tratado cada vez mais com maior severidade. Numa 
das estaes de sua via dolorosa, encontrou-se com um conhecido que lhe perguntou para onde estava viajando. "Para Karlsbad", foi sua resposta, "se minha constituio 
puder agentar." Minha lembrana passou ento para outra histria: a de um judeu que no sabia falar francs e a quem havia recomendado que, quando chegasse a Paris, 
perguntasse o caminho para a rue Richelieu. A prpria Paris fora, durante muitos anos, outra meta dos meus anseios; e a sensao de bem-aventurana com que pela 
primeira vez pisei em suas caladas me pareceu uma garantia de outros de meus desejos seriam tambm realizados. "Perguntar o caminho", alm disso, era uma aluso 
direta a Roma, j que  bem sabido que todos os caminhos levam at l. Da mesma forma, o nome Zucker [acar] constitua novamente uma aluso a Karlsbad, pois temos 
o hbito de recomendar o tratamento l para qualquer pessoa que sofra do mal constitucional do diabetes. A instigao desse sonho fora uma proposta feita por meu 
amigo de Berlim de que nos encontrssemos em Praga na Pscoa. O que ali iramos debater teria includo algo com uma outra relao com "acar" e "diabetes".
          Um quarto sonho, que ocorreu logo depois do ltimo, levou-me a Roma mais uma vez. Eu via a esquina de uma rua diante de mim e ficava surpreso por encontrar 
tantos cartazes em alemo ali afixados. Eu escrevera a meu amigo na vspera, com uma viso proftica, dizendo achar que Praga talvez no fosse um lugar agradvel 
para as perambulaes de um alemo. Assim, o sonho expressou, ao mesmo tempo, o desejo de encontr-lo em Roma, em vez de uma cidade bomia, e um desejo, que provavelmente 
remontava aos meus dias de estudante, de que a lngua alem fosse mais tolerada em Praga. Alis, devo ter compreendido o tcheco nos primeiros anos de minha infncia, 
pois nasci numa pequena cidade da Morvia com uma populao eslava. Uma cano de ninar tcheca, que ouvi quando tinha dezessete anos, fixou-se em minha memria com 
tal facilidade que at hoje posso repeti-la, embora no tenha nenhuma idia do que significa. Assim, tambm no faltavam ligaes com meus primeiros anos de infncia 
nesses sonhos.
          Foi em minha ltima viagem  Itlia, que, entre outros lugares, me fez passar pelo Lago Trasimene, que finalmente - depois de ter visto o Tibre e de ter 
retornado com tristeza quando me encontrava apenas cinqenta milhas de Roma - descobri de que maneira meu anseio pela cidade eterna fora reforado por impresses 
de minha mocidade. Eu estava no processo de elaborar um plano para contornar Roma no ano seguinte e ir at Npoles, quando me ocorreu uma frase que devo ter lido 
em um de nossos autores clssicos : "Qual dos dois, pode-se argumentar, andou de um lado para outro em seu gabinete com maior impacincia, depois de ter elaborado 
seu plano de ir a Roma - Winckelmann, o Vice-Comandantee, ou Anbal, o Comandante-em Chefe?" Na realidade, eu vinha seguindo as pegadas de Anbal. Como ele, estava 
destinado a no ver Roma; e tambm ele se deslocara para a Campagna quando todos os esperavam em Roma. Mas Anbal, com quem eu viera a me assemelhar nesses aspectos, 
fora o heri predileto de meus ltimos tempos de ginsio. Como tantos meninos daquela idade, eu simpatizara, nas Guerras Pnicas, no com os romanos, mas com os 
cartagineses. E quando nas sries mais avanadas comecei a compreender pela primeira vez o que significava pertencer a uma raa estrangeira, e os sentimentos anti-semitas 
entre os outros rapazes me advertiram de que eu precisava assumir uma posio definida, a figura do general semita elevou-se ainda mais em meu conceito. Para minha 
mente juvenil, Anbal e Roma simbolizavam o conflito entre a tenacidade dos judeus e a organizao da Igreja Catlica. E a importncia crescente dos efeitos do movimento 
anti-semita em nossa vida emocional ajudou a fixar as idias e sentimentos daqueles primeiros anos. Assim, o desejo de ir a Roma se transformara, em minha vida onrica, 
num disfarce e num smbolo para muitos outros desejos apaixonados. Sua realizao seria perseguida com toda a perseverana e unidade de propsitos do cartagins, 
embora se afigurasse, no momento, to pouco favorecida pelo destino quanto fora o desejo de Anbal, durante toda a sua vida, de entrar em Roma.
          Nesse ponto, fui novamente confrontado com o evento de minha juventude, cuja fora ainda era demonstrada em todas essas emoes e em todos esses sonhos. 
Eu devia ter dez ou doze anos quando meu pai comeou a me levar com ele em suas caminhadas e a me revelar, em suas conversas, seus pontos de vista sobre as coisas 
do mundo em que vivemos. Foi assim que, numa dessas ocasies, ele me contou uma histria para me mostrar quo melhores eram as coisas ento do que tinham sido nos 
seus dias. "Quando eu era jovem", disse ele, "fui dar um passeio num sbado pelas ruas da cidade onde voc nasceu; estava bem vestido e usava um novo gorro de pele. 
Um cristo dirigiu-se a mim e, de um s golpe, atirou meu gorro na lama e gritou: 'Judeu! saia da calada!' - "E o que fez o senhor?", perguntei-lhe. "Desci da calada 
e apanhei meu gorro", foi sua resposta mansa. Isso me pareceu uma conduta pouco herica por parte do homem grande e forte que segurava o garotinho pela mo. Contrastei 
essa situao com outra que se ajustava melhor aos meus sentimentos: a cena em que o pai de Anbal, Amlcar Barca, fez seu filho jurar perante o altar da casa que 
se vingaria dos romanos. Desde essa poca Anbal ocupava um lugar em minhas fantasias.
          Creio poder remontar s origens de meu entusiasmo pelo general cartagins recuando mais um passo em minha infncia; portanto, mais uma vez, seria apenas 
questo da transferncia de uma relao emocional j formada para um novo objeto. Um dos primeiros livros em que pus as mos depois que aprendi a ler foi a histria 
do Consulado e do Imprio, de Thiers. Ainda me lembro de quando colocava etiquetas com os nomes dos marechais de Napoleo nas costas achatadas de meus soldadinhos 
de madeira. E, naquela poca, meu favorito manifesto j era Massena (ou, para dar ao nome sua forma judaica, Manasseh). (Sem dvida, essa preferncia era tambm 
parcialmente explicvel pelo fato de o meu aniversrio cair no mesmo dia que o dele, exatamente cem anos depois.) O prprio Napoleo se assemelha a Anbal, por terem 
ambos atravessado os Alpes.  possvel at que o desenvolvimento desse ideal marcial possa ser remetido a uma poca ainda mais remota de minha infncia: a poca 
em que, com a idade de trs anos, eu tinha uma estreita relao, s vezes amistosa, mas s vezes hostil, com um menino um ano mais velho que eu, e aos desejos que 
essa relao deve ter suscitado no mais fraco de ns dois.
          Quanto mais algum se aprofunda na anlise de um sonho, com mais freqncia chega ao rastro das experincias infantis que desempenharam seu papel entre 
as fontes do contedo latente desse sonho.
          J vimos (em [1]) que  muito raro um sonho reproduzir as recordaes de tal maneira que elas constituam, sem abreviao ou modificao, a totalidade de 
seu contedo manifesto. No obstante, h alguns exemplos indubitveis da ocorrncia disso e posso acrescentar mais alguns, novamente, relacionados com cenas de infncia. 
Apresentou-se a um de meus pacientes num sonho uma reproduo quase no distorcida de um episdio sexual, que foi prontamente reconhecida como uma lembrana verdadeira. 
Sua recordao do evento, de fato, nunca se perdera por completo na vida de viglia, embora tivesse sido muito obscurecida, e sua revivescncia foi conseqncia 
do trabalho previamente executado na anlise. Aos doze anos, o sonhador fora visitar um colega de escola que estava acamado, e este, provavelmente num movimento 
acidental, descobriu o corpo.  vista dos rgos do amigo, meu paciente foi tomado por uma espcie de compulso e tambm se descobriu, segurando o pnis do outro. 
O amigo olhou-o com indignao e assombro, ao que ele, tomado de grande embarao, largou-o. Essa cena se repetiu num sonho vinte e trs anos depois, incluindo todos 
os pormenores de seus sentimentos na poca. Modificou-se, porm, no sentido de que o sonhador assumiu o papel passivo em vez do ativo, enquanto a figura de seu colega 
de escola foi substituda por algum pertencente a sua vida contempornea. [Ver em [1].]
           verdade que, de modo geral, a cena da infncia s  representada no contedo manifesto do sonho por uma aluso, e ela se tem de chegar por uma interpretao 
do sonho. Tais exemplos, quando registrados no trazem grande convico, visto que, via de regra, no existe nenhuma outra prova da ocorrncia dessas experincias 
da infncia: quando remontam a uma idade muito prematura, elas j no so reconhecidas como lembranas. A justificao geral para que se infira a ocorrncia dessas 
experincias infantis a partir dos sonhos  proporcionada por toda uma srie de fatores do trabalho suficientemente fidedignos. Se eu registrar algumas dessas experincias 
infantis arrancadas de seu contexto para fins de interpretao dos sonhos, talvez, elas causem uma fraca impresso, especialmente por eu no poder citar todo o material 
em que se basearam as interpretaes. No obstante, no permitirei que isso me impea de relat-las.
          
          I
          
          Todos os sonhos de uma de minhas pacientes se caracterizavam por ela estar sempre "apressada": estava sempre com uma pressa enorme de chegar a algum lugar 
a tempo de no perder um trem, e assim por diante. Num dos sonhos, ela ia visitar uma amiga; a me lhe disse que tomasse um txi e que no fosse a p, mas, em vez 
disso, ela saiu correndo e ficou levando tombos. - O material que surgiu na anlise levou a lembranas de correr de um lado para outro e de fazer travessuras na 
infncia (o leitor sabe o que os vienenses chamam de "eine Hetz" ["uma investida", "uma corrida furiosa"]). Um sonho especfico relembrou o jogo infantil predileto 
de dizer uma frase, "Die Kuh rannte, bis sie fiel" ["A vaca correu at cair"] to depressa que ela soa como se fosse uma nica palavra [disparatada] - outra corridinha, 
na verdade. Todas essas correrias inocentes com as amiguinhas foram lembradas porque tomavam o lugar de outras menos inocentes.
          
          II
          
          Eis aqui o sonho de outra paciente: Ela estava numa grande sala em que havia toda sorte de mquinas, tal como imaginava que seria um instituto ortopdico. 
Disseram-lhe que eu no dispunha de tempo e que ela teria que receber o tratamento junto com outros cinco. Ela se recusou, porm, e no queria deitar-se na cama 
- ou l o que fosse - que se destinava a ela. Ficou no canto e esperou que eu lhe dissesse que no era verdade. Entrementes, os outros riam dela e diziam que essa 
era a sua maneira de "ir levando". - Simultaneamente, era como se ela estivesse fazendo uma poro de quadradinhos.
          A primeira parte do contedo desse sonho relacionava-se com o tratamento e era uma transferncia para mim. A segunda parte encerrava uma aluso a uma cena 
da infncia. As duas partes estavam ligadas pela meno  cama.
          O instituto ortopdico remontava a uma observao feita por mim, na qual eu comparara o tratamento, tanto em sua extenso quanto em sua natureza, a um 
tratamento ortopdico. Quando comecei seu tratamento, vira-me compelido a dizer-lhe que, no momento, no dispunha de muito tempo para ela, embora depois pudesse 
dedicar-lhe uma hora inteira diariamente. Isso mexera com sua antiga sensibilidade, que constitui um trao predominante do carter das crianas inclinadas  histeria: 
elas so insaciveis em matria de amor. Minha paciente fora a caula de uma famlia de seis filhos (donde junto com outras cinco) e tinha sido, portanto, a favorita 
do pai; mesmo assim, parece ter sentido que seu adorado pai lhe dedicava muito pouco de seu tempo e sua ateno. - Sua espera de que eu lhe dissesse que no era 
verdade teve a seguinte origem: um jovem aprendiz de alfaiate levara-lhe um vestido e ela lhe dera o dinheiro em pagamento. Depois, perguntara ao marido se, caso 
o menino perdesse o dinheiro, ela teria que pag-lo novamente. O marido, para implicar com ela, dissera-lhe que sim. (A implicncia no sonho.) Ela continuou a perguntar-lhe 
repetidas vezes e esperou que ele dissesse, afinal, que no era verdade. Foi ento possvel inferir que, no contedo latente do sonho, ocorrera-lhe a idia de saber 
se ela teria que me pagar o dobro caso eu lhe dispensasse o dobro do tempo - idia que ela considerou avara ou suja. (A falta de asseio na infncia  muitas vezes 
substituda nos sonhos pela avareza por dinheiro; o elo entre as duas  a palavra "sujo".) Se todo o trecho sobre esperar que eu dissesse etc., pretendia ser, no 
sonho, um circunlquio relativo ao termo "sujo", ento o fato de ela "ficar de p no canto" e "no se deitar na cama" combinava com o termo, na qualidade de componentes 
de uma cena de infncia: uma cena em que ela sujara a cama e fora punida tendo de ficar de p num canto, com a ameaa de que o pai no a amaria mais e de que os 
irmos e irms se ririam dela, e assim por diante. - Os quadradinhos relacionavam-se com sua sobrinha, que lhe mostrara o truque aritmtico de dispor algarismos 
em nove quadrados (creio que isso est certo), de tal modo que eles somam quinze em todas as direes.
          
          III
          
          Um homem sonhou o seguinte: Viu dois meninos brigando - filhos de tanoeiros, a julgar pelas ferramentas que se achavam por perto. Um dos meninos jogou 
o outro por terra; o que foi derrubado usava brincos de pedras azuis. Ele correu em direo ao atacante com sua bengala erguida, para castig-lo. Este correu em 
busca de proteo at uma mulher que estava de p junto a uma cerca de madeira, como se fosse a me dele. Era uma mulher da classe operria e estava de costas para 
o sonhador. Finalmente, ela se voltou e dirigiu-lhe um olhar terrvel, de modo que ele fugiu apavorado. Via-se a carne vermelha de suas plpebras inferiores  mostra.
          O sonho utilizara copiosamente eventos triviais do dia anterior. Ele de fato vira dois meninos na rua, um dos quais derrubou o outro no cho. Quando ele 
se precipitou para impedir a briga, ambos saram correndo. - Filhos de tanoeiros. Isso s foi explicado por um sonho subseqente, no qual ele empregou a expresso 
"arrancando o fundo de um barril". - A partir de sua experincia, ele achava que brincos de pedras azuis eram basicamente usados por prostitutas. Ocorreu-lhe ento 
um verso de um conhecido poema burlesco sobre dois meninos: "O outro menino chamava-se Marie" (isto , era uma menina). - A mulher de p. Aps a cena com os dois 
meninos, ele fora fazer uma caminhada pelas margens do Danbio e aproveitara a solido do lugar para urinar numa cerca de madeira. Mais adiante, uma senhora idosa 
respeitavelmentemente trajada sorrira para ele de maneira muito amigvel e quisera dar-lhe seu carto de visita. Visto que a mulher do sonho estava de p na mesmo 
posio que ele ao urinar, devia tratar-se de uma mulher urinando. Isso coincide com sua aparncia terrvel e com a carne vermelha  mostra, que s poderia relacionar-se 
com a abertura dos rgos genitais causada pela posio abaixada. Isso, visto em sua infncia, reapareceu numa lembrana posterior como "carne viva" - como uma ferida.
          O sonho combinou duas oportunidades que ela tivera, quando menino, de ver os rgos genitais de garotinhas: quando foram derrubadas no cho e quando estava 
urinando. E, da outra parte do contexto, emergiu uma lembrana de ele ser castigado ou ameaado por seu pai pela curiosidade sexual que demonstrara nessas ocasies.
          
          IV
          
          Por trs do seguinte sonho (produzido por uma senhora idosa) havia toda uma gama de lembranas da infncia, combinadas da melhor forma possvel numa nica 
fantasia.
          Ela saiu numa grande pressa para tratar de alguns assuntos. No Graben, caiu de joelhos, como estivesse inteiramente alquebrada. Grande nmero de pessoas 
reuniu-se em torno dela, especialmente condutores de txis, mas ningum a ajudou a levantar-se. Ela fez vrias tentativas vs, e deste ter finalmente alcanado xito, 
pois foi posta num txi que iria lev-la para casa. Algum atirou uma cesta grande e muito carregada (como uma cesta de compras) pela janela depois que ela entrou.
          Essa era a mesma senhora que sempre se sentia "apressada" em seus sonhos, tal como havia corrido e feito traquinagens quando criana. [Ver em [1].] A primeira 
cena do sonho derivava, evidentemente, da viso de um cavalo cado; da mesma forma, o termo "alquebrada" referia-se a corrida de cavalos. Em sua juventude, ela cavalgara, 
e, sem dvida, quando era ainda mais nova, tinha realmente sido um cavalo. O cair relacionava-se com uma lembrana da primeira infncia, ligada ao filho de dezessete 
anos do porteiro da casa, que cara na rua com um ataque epiltico e fora levado para casa numa carruagem. Ela, naturalmente, apenas ouvira falar sobre isso, mas 
a idia dos ataques epilticos (da "doena das quedas") dominara sua imaginao e, mais tarde,influenciara a forma assumida por seus prprios ataques histricos. 
- Quando uma mulher sonha que est caindo, isso tem quase invariavelmente uma conotao sexual: ela se imagina como uma "mulher decada". Este sonho, em particular, 
praticamente no deixou qualquer margem para dvidas, j que o local onde minha paciente caiu foi o Graben, uma parte de Viena que  notria como rea de prostituio. 
A cesta de compras [Korb] levou a mais de uma interpretao. F-la lembrar-se de numerosas recusas [Krbe] que fizera a seus pretendentes, bem como das que ela prpria 
se queixava de ter recebido posteriormente. Isso tambm estava ligado ao fato de que ningum a ajudou a levantar-se, o que ela mesma explicou como uma recusa. A 
cesta de compras lembrou-lhe ainda fantasias que j haviam surgido em sua anlise, nas quais ela era casada com algum de condio social muito inferior  sua e 
tinha de fazer as compras de mercado ela prpria. E, finalmente, a cesta podia servir como marca de uma criada. Nesse ponto, surgiram outras lembranas da infncia. 
Em primeiro lugar, de uma cozinheira que fora despedida por furto, e que cara de joelhos e suplicara para ser perdoada. Ela prpria tinha doze anos naquela poca. 
Depois, de uma empregada que fora despedida por causa de um caso amoroso com o cocheiro da famlia (que, alis, casou-se com ela depois). Assim, essa lembrana era 
tambm uma das fontes dos cocheiros (condutores) do sonho (que, ao contrrio do cocheiro real, no soergueram a mulher decada). Restava explicar o fato de a cesta 
ser atirada depois que ela entrou pela janela. Isso a fez lembrar-se de despachar bagagens a serem enviadas por trem, do costume rural de os namorados subirem e 
entrarem pela janela de suas namoradas, e de outros pequenos episdios de sua vida no campo: de como um cavalheiro lanara algumas ameixas azuis e uma senhora pela 
janela de seu quarto, e de como sua prpria irm mais nova se assustara com o idiota da aldeia olhando por sua janela. Uma lembrana obscura de seus dez anos de 
idade comeou ento a emergir, de uma bab do interior que se entregara a cenas amorosas (das quais a menina poderia ter visto algo) com um dos criados da casa, 
e que, juntamente com seu amante, tinha sido mandada embora, posta para fora (o oposto da imagem onrica "atirada para dentro") - uma histria de que j nos havamos 
aproximado partindo de vrias outras direes. A bagagem ou mala de um criado  desdenhosamente designada, em Viena, como "sete ameixas": "arrume suas sete ameixas 
e d o fora!"
          
          Meus registros naturalmente abrangem uma grande coletnea de sonhos de pacientes cuja anlise levou a impresses infantis obscuras ou inteiramente esquecidas, 
muitas vezes remontando aos trs primeiros anos de vida. Mas seria inseguro aplicar quaisquer concluses extradas delas aos sonhos em geral. As pessoas em questo 
eram, na totalidade dos casos, neurticas, e em particular, histricas; e  possvel que o papel desempenhado pelas cenas infantis em seus sonhos fosse determinado 
pela natureza de sua neurose, e no pela natureza dos sonhos. No obstante, ao analisar meus prprios sonhos - e, afinal, no o estou fazendo por causa de nenhum 
sintoma patolgico gritante -, ocorre com freqncia no inferior que, no contedo latente de um sonho, deparo inesperadamente com uma cena de infncia, e imediatamente 
toda uma srie de meus sonhos se vincula com associaes que se ramificam de alguma experincia de minha infncia. J dei alguns exemplos disso [Ver em [1]-[2]], 
e terei outros a dar em conexo com uma variedade de aspectos. Talvez eu no possa encerrar melhor esta seo do que relatando um ou dois sonhos meus em que ocasies 
recentes e experincias h muito esquecidas da infncia se uniram como fontes do sonho.
          
          I
          
          Fatigado e faminto aps uma viagem, fui dormir, e as principais necessidades vitais comearam a anunciar sua presena em meu sono. Tive o seguinte sonho:
          Entrei numa cozinha  procura de pudim. L havia trs mulheres de p; uma delas era a estalajadeira e revolvia algo na mo, como se estivesse fazendo Kndel 
[bolinhos de massa]. Ela respondeu que eu devia esperar at que ela estivesse pronta. (Essas no foram palavras claras verbalmente enunciadas.) Fiquei impaciente 
e sa com um sentimento de ofensa. Vesti um sobretudo. Mas o primeiro que experimentei era longo demais para mim. Tirei-o, bastante surpreso ao verificar que era 
forrado de pele. O segundo que vesti tinha uma longa tira com um desenho turco gravado. Um estranho de rosto alongado e barbicha pontuda apareceu e tentou impedir-me 
de vesti-lo, dizendo que era dele. Mostrei-lhe ento que era todo bordado com um desenho turco. Ele perguntou: "Que tm os (desenhos, gales... ) turcos a ver com 
o sonho?" Mas, em seguida, ficamos muito amveis um com o outro.
          Quando comecei a analisar esse sonho, pensei inesperadamente no primeiro romance que li (quando contava treze anos, talvez); alis, comecei no fim do primeiro 
volume. Nunca soube o nome do romance ou de seu autor; mas guardo uma viva lembrana de seu final. O heri enlouqueceu e ficava a chamar pelos nomes das trs mulheres 
que haviam trazido maior felicidade e dor para sua vida. Um desses nomes era Plagie. Eu ainda no tinha nenhuma idia de onde levaria essa lembrana na anlise. 
Em relao s trs mulheres, pensei nas trs Parcas que fiam o destino do homem, e soube que uma das trs mulheres - a estalajadeira do sonho - era a me que d 
a vida, e alm disso (como no meu prprio caso), d  criatura viva seu primeiro alimento. O amor e a fome, refleti, renem-se no seio de uma mulher. Um rapaz que 
era grande admirador da beleza feminina falava, certa vez - assim diz a histria -, da bonita ama-de-leite que o amamentara quando ele era beb: "Lamento", observou 
ele, "no ter aproveitado melhor aquela oportunidade." Eu tinha o hbito de citar essa anedota para explicar o fator da "ao retardada" no mecanismo das psiconeuroses. 
Uma das Parcas, portanto, esfregava as palmas das mos como se estivesse fazendo bolinhos de massa: estranha ocupao para uma Parca, e que exigia uma explicao. 
Esta foi fornecida por outra lembrana anterior de minha infncia. Quando tinha seis anos de idade e recebi de minha me as primeiras lies, esperava-se que eu 
acreditasse que ramos todos feitos de barro, e portanto, ao barro deveramos retornar. Isso no me convinha e expressei dvidas sobre a doutrina. Ao que ento minha 
me esfregou as palmas das mos - exatamente como fazia ao preparar bolinhos de massa, s que no havia massa entre elas - e me mostrou as escamas enegrecidas de 
epidermis produzidas pela frico como prova de que ramos feitos de barro. Meu assombro ante essa demonstrao visual no teve limites, e aceitarei a crena que 
posteriormente iria ouvir expressa nas palavras: "Du bist der natur einen Tod schuldig." Assim, foram realmente as Parcas que encontrei na cozinha ao entrar nela 
- como tantas vezes fizera na infncia quando sentia fome, enquanto minha me, de p junto ao fogo, me advertia de que eu devia esperar at que o jantar ficasse 
pronto. - E agora, quanto aos bolinhos de massa - os Kndel! Pelo menos um dos meus professores na Universidade - e precisamente aquele a quem devo meus conhecimentos 
histolgicos (por exemplo, da epidermis) - se lembraria infalivelmente, de uma pessoa de nome Kndl, contra quem fora obrigado a mover um processo por plagiar seus 
escritos. A idia de plgio - de apropriar-se do que quer que se possa, muito na qual eu era tratado como se fosse o ladro que h algum tempo praticava suas atividades 
de furtar sobretudos nas salas de conferncias. Eu havia anotado a palavra "plagiar" sem pensar nela, por ter-me ocorrido; mas ento observei que ela podia estabelecer 
uma ponte [Brcke] entre diferentes partes do contedo manifesto do sonho. Uma cadeia de associaes (Plagie - plagiar - plagistomos ou tubares [Haifische] - 
a bexiga natatria de um peixe [Fischblase]) ligou o antigo romance com o caso de Kndl e com os sobretudos, que se referiam claramente a dispositivos empregados 
na tcnica sexual [ver em [1]]. (Cf. os sonhos aliterativos de Maury [em [1]].) Sem dvida, era uma cadeia de idias muito artificial e sem sentido, mas eu nunca 
poderia t-la construdo na vida de viglia, a menos que j tivesse sido construda pelo trabalho do sonho. E, como se a necessidade de estabelecer ligaes foradas 
no considerasse nada sagrado, o nome honrado de Brcke(cf. a ponte verbal acima) lembrou-me o Instituto em que passei as horas mais felizes de minha vida estudantil, 
livre de todos os outros desejos -
          So wird's Euch an der Weisheit Brsten
          Mit jedem Tage mehr gelsten
          - em completo contraste com os desejos que agora me atormentavam em meu sonhos. Finalmente, veio-me  lembrana outro professor muito respeitado - seu 
nome, Fleischl ["Fleisch" = "carne"], tal como Kndl, soava como algo para comer - e uma cena lastimvel em que as escamas de epiderme desempenhavam certo papel 
(minha me e a estalajadeira), bem como a loucura (o romance) e uma droga do dispensrio que elimina a fome: a cocana.
          Poderia continuar a seguir as intricadas seqncias de idias dentro dessa linha e explicar completamente a parte do sonho que ainda no analisei; mas 
devo desistir neste ponto, porque o sacrifcio pessoal exigido seria grande demais. Apanharei apenas um dos fios da meada, que est apto a nos levar diretamente 
a um dos pensamentos do sonho subjacentes a essa confuso. O estranho de rosto alongado e barba pontuda que tentou impedir que eu vestisse o sobretudo tinhas as 
feies de um lojista de Spalato, de quem minha mulher comprara diversos artigos turcos. Chamava-se Popovi, nome equvoco sobre o qual um escritor humorstico, Stettenheim, 
j fez um comentrio sugestivo: "Ele me disse o nome e, enrubescendo, pressionou minha mo." Mais uma vez, apanhei-me fazendo mau uso de um nome, como j fizera 
com Plagie, Kndl, Brcke e Fleischl. Seria difcil negar que brincar com nomes dessa maneira era uma espcie de travessura infantil. Mas, se eu me entregava a 
isso, era como um ato de retaliao, pois meu prprio nome fora alvo de gracejos leves como esses em incontveis ocasies. Goethe, lembrei-me, comentara em algum 
lugar a sensibilidade das pessoas em relao a seus nomes: como parecemos transformarmo-nos neles como se fossem nossa prpria pele. Ele dissera isso  propos de 
um verso escrito sobre seu nome por Herder:
          "Der du von Gttern abstammst, von Gothen oder vom Kote." -
          
          "So seid ihr Gtterbilder auch zu Staub".
          Notei que minha digresso sobre o tema do uso incorreto dos nomes estava apenas levando a essa queixa. Mas devo fazer uma interrupo aqui. - A compra 
que minha mulher fez em Spalato lembrou-me uma outra compra, feita em Cattaro, em relao  qual eu fora cauteloso demais, de modo que perdi uma oportunidade de 
fazer timas aquisies. (Cf. a oportunidade no aproveitada com a ama-de-leite.) Pois uma das idias que minha fome introduziu no sonho foi esta: "Nunca se deve 
desprezar uma oportunidade, mas sempre tomar o que se pode, mesmo quando isso implica praticar um pequeno delito. Nunca se deve desprezar uma oportunidade, j que 
a vida  curta, e a morte, inevitvel." Uma vez que essa lio de "carpe diem" tinha, entre outros sentidos, uma conotao sexual, e uma vez que o desejo que ela 
expressava no se detinha a idia de agir mal, ele tinha motivos para temer a censura e foi obrigado a se ocultar atrs de um sonho. Toda sorte de pensamentos de 
sentido contrrio encontraram ento expresso: lembranas de uma poca em que o sonhador se contentava com um alimento espiritual, idias restritivas de todo tipo, 
e at ameaas dos mais revoltantes castigos sexuais.
          
          II
          
          O sonho seguinte exige um prembulo bastante longo:
          Eu me dirigia  Estao Oeste [em Viena] a fim de tomar o trem para passar minhas frias de vero em Aussee, mas havia chegado  plataforma enquanto um 
trem anterior, que ia para Ischl, ainda se encontrava na estao. L, vira o Conde Thum, que mais uma vez ia a Ischl para ter uma audincia com o Imperador. Embora 
estivesse chovendo, ele chegara numa carruagem aberta. Passara direto pela entrada que dava acesso aos Trens Locais. O fiscal de bilhetes no porto no o havia reconhecido 
e tentara pedir-lhe o bilhete, mas o conde o afastara com um breve e abrupto movimento da mo, sem lhe dar qualquer explicao. Depois que o trem para Ischl partiu, 
eu deveria de direito deixar novamente a plataforma e retornar  sala de espera, e tive certa dificuldade de arranjar as coisas de modo que me permitissem permanecer 
na plataforma. Passara o tempo vigiando atentamente, para ver se aparecia algum que tentasse conseguir um compartimento reservado utilizando alguma espcie de "pistolo". 
Pretendia, nesse caso, protestar energicamente, isto , reivindicar direitos iguais. Entrementes, estivera cantarolando uma melodia que reconheci como sendo a ria 
de Fgaro em La Nozze di Figaro:
          
          Se vuol ballare, signor contino,
          Se vuol ballare, signor contino,
          Il chitarino le suoner
          
          ( um pouco duvidoso que alguma outra pessoa pudesse reconhecer a melodia.)
          A noite inteira eu me sentira animado e com esprito combativo. Mexera com meu garom e com o cocheiro do txi - sem, espero, t-los melindrado. E agora, 
toda sorte de idias insolentes e revolucionrias me passavam pela cabea, combinando com as palavras de Fgaro e com minhas lembranas da comdia de Beaumarchais 
que eu vira encenada pela Comdie franaise. Pensei na frase sobre os grandes cavalheiros que se tinham dado ao trabalho de nascer, e no droit du Seigneur que o 
Conde Almaviva tentou exercer sobre Susanna. Pensei tambm em como nossos maliciosos jornalistas da oposio faziam piadas com o nome do Conde Thum, chamando-o, 
em vez disso, de "Conde Nichtsthun". No que eu o invejasse. Ele estava a caminho de uma audincia espinhosa com o Imperador, enquanto eu era o verdadeiro Conde 
Faz-Nada - de partida para minhas frias. Seguiu-se toda sorte de projetos agradveis para as frias. Nesse momento, chegou  plataforma um cavalheiro que reconheci 
como sendo um inspetor de exames mdicos do governo, o qual, por suas atividades nessa funo, ganhara o lisonjeiro apelido de "parceiro de soneca do Governo" Pediu 
que lhe arranjassem um meio-compartimento de primeira classe em virtude de seu cargo oficial, e ouvi um ferrovirio dizer a outro: "Onde devemos pr o cavalheiro 
com o meio-bilhete de primeira classe?" Esse, pensei com meus botes, era um belo exemplo de privilgio; afinal, eu tinha pago o preo integral de uma passagem de 
primeira classe. E de fato obtive um compartimento, mas no um vago com corredor, de modo que no haveria um toalete disponvel durante a noite. Queixei-me com 
um funcionrio sem conseguir nenhum xito, mas espicacei-o sugerindo que, de qualquer modo, ele devia mandar fazer um buraco no cho do compartimento para atender 
s possveis necessidades dos passageiros. E, de fato, acordei s quinze para as trs da madrugada com grande vontade de urinar, depois de ter tido seguinte sonhos:
          Uma multido de pessoas, uma reunio de estudantes. - Um conde (Thum or Taaffe
          ) estava falando. Foi desafiado a dizer algo sobre os alems, e declarou, com um gesto desdenhoso, que a flor predileta deles era a unha-de-cavalo, e ps 
uma espcie de folha deteriorada - ou melhor, o esqueleto amassado de uma folha - em sua lapela. Enfureci-me - ento me enfureci, embora ficasse surpreso por tomar 
essa atitude.
          (A seguir, de maneira menos distinta:) Era como se eu estivesse na Aula, as entradas estavam fechadas por cordes de isolamento e tnhamos que fugir. Abri 
caminho por um srie de salas lindamente mobiliadas, evidentemente dependncias ministeriais ou pblicas, com mveis estofados numa cor entre o marrom e o violeta; 
por fim, cheguei a um corredor onde estava sentada uma zeladora, uma mulher corpulenta e idosa. Evitei dirigir-lhe a palavra, mas, evidentemente, ela achou que eu 
tinha o direito de passar, pois perguntou se devia acompanhar-me com o candeeiro. Indiquei-lhe, com uma palavra ou um gesto, que ela devia parar na escadaria, e 
achei que estava sendo muito astuto por evitar assim a fiscalizao na sada. Cheguei ao trreo e encontrei um caminho ascendente estreito e ngreme, pelo qual segui.
          (Tornando-se indistinto novamente)... Era como se o segundo problema fosse sair da cidade, tal como o primeiro fora sair de casa. Eu estava num tlburi 
e ordenei ao cocheiro que me levasse a uma estao. "No posso ir com o senhor ao longo de prpria linha frrea", disse eu, depois de ele ter levantado alguma objeo, 
como se eu o tivesse fatigado demais. Era como se eu j tivesse viajado com ele parte da distncia que normalmente se percorre de trem. As estaes estavam fechadas 
por cordes de isolamento. Fiquei sem saber se deveria ir para Krems ou Znaim, mas refleti que a Corte estaria residindo l, de modo que me resolvi em favor de Graz 
ou algum lugar assim. Estava agora sentado no compartimento, que era como um vago da Stadtbahn [a ferrovia suburbana]; e em minha lapela eu trazia um objeto singular 
pregueado e alongado, e ao lado dele algumas violetas de cor castanho-violeta feitas de um material rgido. Isso impressionava muito as pessoas. (Nesse ponto, a 
cena se interrompeu.)
          Eu estava de novo em frente  estao, mas dessa vez em companhia de um cavalheiro idoso. Pensei num plano para permanecer incgnito, e ento vi que esse 
plano j fora posto em prtica. Era como se pensar e experimentar fossem uma coisa s. Ele parecia ser cego, pelo menos de um olho, e eu lhe entreguei um urinol 
de vidro para homens (que tivemos de comprar ou tnhamos comprado na cidade). Logo, eu era enfermeiro e tinha de dar-lhe o urinol porque ele era cego. Se o condutor 
nos visse assim, por certo nos deixaria sair sem reparar em ns. Aqui, a atitude do homem e de seu pnis urinando apareceram em forma plstica. (Foi nesse ponto 
que acordei, sentido necessidade de urinar.)
          O sonho como um todo d a impresso de ser da ordem de uma fantasia em que o sonhador foi reconduzido ao ano da Revoluo de 1848. Algumas lembranas desse 
ano me tinham sido recordadas pelo Jubileu [do Imperador Francisco Jos] em 1898, bem como uma curta viagem que eu fizera ao Wachau, no decorrer da qual visitara 
Emmersdorf, o local de retiro do lder estudantil Fischhof, a quem certos elementos do contedo manifesto do sonho talvez aludissem. Minhas associaes levaram-me 
ento  Inglaterra e  casa de meu irmo ali. Ele costumava mexer freqentemente com sua mulher com as palavras "Cinqenta Anos Atrs" (extradas do ttulo de um 
dos poemas de Lorde Tennyson), que seus filhos costumavam corrigir por "quinze anos atrs". Essa fantasia revolucionria, contudo, que derivara de idias despertadas 
em mim ao ver o Conde Thum, era como a fachada de uma igreja italiana, no sentido de no ter nenhuma relao orgnica com a estrutura por trs dela. Mas diferia 
dessas fachadas por ser desordenada e cheia de lacunas, e pelo fato de partes da construo interna terem irrompido nela em muitos pontos.
          A primeira situao do sonho era um amlgama de vrias cenas que posso isolar. A atitude insolente adotada pelo Conde no sonho foi copiada de uma cena 
em meu curso secundrio quando eu tinha quinze anos. Havamos tramado uma conspirao contra um professor impopular e ignorante, cuja mola mestre fora um de meus 
colegas de escola, que desde aquela poca parecia ter adotado Henrique VII da Inglaterra como seu modelo. A liderana do ataque principal foi outorgada a mim, e 
o sinal para a revolta aberta seria um debate sobre a importncia do Danbio para a ustria (cf. o Wachau). Um de nossos colegas de conspirao era o nico aristocrata 
da turma, que, em vista do notvel comprimento de seus membros, era chamado "a Girafa".Ele estava de p, como o conde em meu sonho, depois de ser repreendido pelo 
tirano da escola, o professor de lngua alem. A flor predileta e o colocar em sua lapela algo da natureza de uma flor (que por ltimo me fez pensar numas orqudeas 
que eu levara no mesmo dia para uma amiga, e tambm numa rosa-de-Jeric) eram um esplndido lembrete da cena de uma das peas histricas de Shakespeare [3 Henrique 
VI, I, 1] que representava o incio das Guerras das Rosas Vermelhas e Brancas. (A meno a Henrique VIII abriu caminho para essa lembrana.) - A partir desse ponto, 
foi apenas um passo para os cravos vermelhos e brancos. (Dois pequenos dsticos, um em alemo e o outro em espanhol, insinuaram-se na anlise nesse ponto:
          
          Rosen, Tulpen, Nelken,
          alle Blumen welken.
          
          Isabelita, no llores,
          .que se marchitan la flores.
          
          O aparecimento de um dstico espanhol reconduziu ao Fgaro.) Aqui em Viena, os cravos brancos tinham-se tornado um emblema do anti-semitismo, e os vermelhos, 
dos Social-Democratas. Por trs disso havia a lembrana de uma provocao anti-semita durante uma viagem de trem pelos belos campos da Saxnia (cf. Anglo-Saxo). 
- A terceira cena que contribuiu para a formao da primeira situao do sonho datava de meus primeiros tempos de estudante. Houve um debate num clube alemo de 
estudantes sobre a relao entre a filosofia e as cincias naturais. Eu era um jovem imaturo, cheio de teorias materialistas, e me lancei  frente para dar expresso 
a um ponto de vista extremamente unilateral. A isto, algum que era mais velho que eu e meu superior, algum que desde ento tem demonstrado sua habilidade para 
liderar homens e organizar grandes grupos (e que tambm, alis, tem um nome derivado do Reino Animal), levantou-se e nos passou uma boa descomputura: tambm ele, 
disse-nos, havia alimentado porcos em sua juventude e voltara arrependido  casa de seu pai. Enfureci-me (como no sonho) e repliquei rudemente ["saugrob", literalmente 
"grosso como um suno"], dizendo que, como agora sabia que ele tinha alimentado porcos na juventude, j no ficava surpreso com o tom de seus discursos. (No sonho, 
eu ficava surpreso com minha atitude nacionalista germnica [em [1]].) Houve uma comoo geral e fui conclamado por muitos dos presentes a retirar minhas observaes, 
mas recusei-me a faz-lo. O homem que eu insultara era sensato demais para considerar o incidente um desafio, e deixou que o assunto morresse.
          Os demais elementos dessa primeira situao do sonho derivavam de camadas mais profundas. Qual o significado do pronunciamento do Conde sobre a unha-de-cavalo? 
Para encontrar a resposta, segui uma srie de associaes: unha-de-cavalo ["Huflattich", literalmente "alface do casco"] - alface - salada - co-de-manjedoura ["Salathund", 
literalmente, "co-da-salada"]. Aqui estava uma coleo de xingamentos: "Gir-affe" ["Affe" corresponde, em alemo, a "macaco"], "suno", "cachorro" - e eu poderia 
ter chegado a "burro", se tivesse feito um desvio por outro nome e insultado mais outro professor acadmico. Alm disso, traduzi "unha-de-cavalo" - no sei se acertada 
ou erroneamente - pelo francs "pisse-en-lit". Essa informao derivava do Germinal, de Zola, no qual se mandava uma criana colher essa planta para fazer salada. 
O termo francs para "co" - "chien" - me fez lembrar a funo principal ("chier", em francs, comparado com "piser" para a funo secundria). Breve, pensei, eu 
teria coligido exemplos de imprioridades nos trs estados da matria - slido, lquido e gasoso -, pois esse mesmo livro, Germinal, que muito tinha a ver com a revoluo 
iminente, continha um relato de uma espcie muito peculiar de competio - para a produo de uma excreo gasosa conhecida pelo nome de flatus. Vi ento que o caminho 
que levava a flatus fora preparado com grande antecedncia: de flores, passando pelo dstico espanhol, Isabelita, Isabel e Ferno, Henrique VIII, histria inglesa, 
at a Armada que navegou contra a Inglaterra e aps cuja derrota cunhou-se uma medalha com a inscrio "Flavit et dissipati sunt", pois a tempestade dispersara a 
esquadra espanhola. Eu havia pensado, meio seriamente, em usar essas palavras como epgrafe do captulo sobre "Terapia", se algum dia chegasse a ponto de produzir 
um relato pormenorizado de minha teoria e tratamento da histeria.
          Passando agora ao segundo episdio do sonho, estou impossibilitado de lidar com ele com tantos detalhes - em considerao  censura. Ocorre que eu estava 
me colocando no lugar de um exaltado personagem daqueles tempos revolucionrios, que tambm tivera uma aventura com uma guia [Adler] e que se diz ter sofrido de 
incontinncia intestinal, e assim por diante. Pensei comigo mesmo que no havia justificativa para eu passar pela censura nesse ponto, muito embora a maior parte 
da histria me tivesse sido narrada por um Hofrat (um consiliarius aulicus [conselheiro da corte] - cf. Aula). A sucesso de aposentos pblicos do sonho provinha 
do carro-salo de Sua Excelncia, que eu conseguira vislumbrar. Mas as "salas" [Zimmer] tambm significavam "mulheres" [Frauenzimmer], como ocorre com freqncia 
nos sonhos- nesse caso, "mulheres pblicas". Na figura zeladora eu estava mostrando minha falta de gratido para com uma espirituosa senhora de idade e retribuindo 
mal sua hospitalidade e as muitas boas histrias que ouvira quando me hospedei em sua casa. - A aluso ao candeeiro remontava a Grillparzer, que introduziu um encantador 
episdio de natureza semelhante, pelo qual ele passara na realidade, em sua tragdia sobre Hero e Leandro, Des Meeres und der Liebe Wellen ["As Ondas do Mar e do 
Amor"] - a Armada e a tempestade.[1]
          
          Devo tambm abster-me de qualquer anlise pormenorizada dos dois episdios restantes do sonho. Simplesmente selecionarei os elementos que conduzem s duas 
cenas de infncia exclusivamente em funo das quais embarquei no exame desse sonho. Pode-se suspeitar, com justa razo, que o que me obriga a fazer essa supresso 
 o material sexual; mas no h necessidade de nos contentarmos com essa explicao. Afinal, h muitas coisas de que se tem que fazer segredo para outras pessoas, 
mas das quais no se guarda nenhum segredo para si prprio; e a questo aqui no  a razo por que sou obrigado a ocultar a soluo, mas diz respeito aos motivos 
da censura interna que esconderam de mim o verdadeiro contedo do sonho. Por isso, devo explicar que a anlise desses trs [ltimos] episdios do sonho mostrou que 
eles eram gabolices impertinentes, produtos de uma megalomania absurda que h muito havia sido suprimida de minha vida de viglia, e algumas de suas ramificaes 
haviam at mesmo acedido ao contedo manifesto do sonho (por exemplo, "achei que estava sendo muito astuto"), e a qual, alis, explicava meu exuberante bom humor 
na noite que antecedeu o sonho. A presuno se estendia a todas as esferas; por exemplo, a meno a Graz remontava  expresso de gria "qual  o preo de Graz?", 
que externa a auto-satisfao de uma pessoa que se sente extremamente bem de vida. O primeiro episdio do sonho pode tambm ser includo entre as fanfarronices por 
quem quer que tenha em mente o incomparvel relato do grande Rabelais sobre a vida e os atos de Gargntua e seu filho Pantagruel.
          Eis o material relativo  duas cenas de infncia que prometi a meus leitores. Eu havia comprado uma mala nova para a viagem, de cor castanho-violeta. Esta 
cor aparece mais de uma vez no sonho: as violetas de tom castanho-violeta feitas de material rgido e, ao lado delas, uma coisa conhecida por "Mdchenfnger" ["pega-moas"] 
- e os mveis dos aposentos ministeriais. As crianas geralmente acreditam que as pessoas ficam impressionadas com qualquer coisa nova. A seguinte cena de minha 
infncia que me foi descrita, e minha lembrana da descrio tomou o lugar da recordao da prpria cena: parece que, quando tinha dois anos, eu ainda molhava a 
cama ocasionalmente, e quando era repreendido por isso, consolava meu pai prometendo comprar-lhe uma bela cama nova e vermelha em N., a mais prxima cidade com alguma 
importncia. Essa fora a origem da orao entre parnteses do sonho, no sentido de que tnhamos comprado ou tivemos de comprar o urinol na cidade: um sujeito deve 
cumprir suas promessas.(Note-se, tambm, a justaposio simblica do urinol masculino e da mala ou caixa feminina. [Ver em [1]-[2]]) Essa minha promessa exibia toda 
a megalomania da infncia. J nos deparamos com o importante papel desempenhado nos sonhos pelas dificuldades das crianas em relao  mico (cf. o sonho relatado 
em [1]). Tambm j tomamos conhecimento, pela psicanlise de sujeitos neurticos, da ntima relao entre o urinar na cama e o trao de carter da ambio.
          Quando eu contava sete ou oito anos, houve outra cena domstica da qual me lembro com muita clareza. Uma noite, antes de ir dormir, desprezei as normas 
formuladas pelo decoro e obedeci aos apelos da natureza no quarto de meus pais, na presena deles. No decorrer de sua reprimenda, meu pai deixou escapar as seguintes 
palavras: "Esse menino no vai dar para nada." Isso deve ter sido um golpe terrvel para minha ambio, pois ainda h referncias a essa cena recorrendo constantemente 
em meus sonhos, e esto sempre ligadas a uma enumerao de minhas realizaes e sucessos, como se eu quisesse dizer: "Esto vendo, eu dei para alguma coisa." Essa 
cena, portanto, forneceu o material para o episdio final do sonho, no qual - por vingana,  claro - os papis foram invertidos. O homem mais velho (claramente 
meu pai, pois a cegueira num olho se referia a seu glaucoma unilateral) agora urinava diante de mim, tal como eu urinara na presena dele em minha infncia. Na referncia 
a seu glaucoma eu o fazia lembrar-se da cocana, que o havia ajudado na operao [Ver em [1]] como se, dessa maneira, eu tivesse mantido minha promessa. Alm disso, 
estava me divertindo  sua custa; tinha de entregar-lhe o urinol porque ele era cego e me deleitava com as aluses a minhas descobertas ligadas  teoria da histeria, 
das quais me sentia muito orgulhoso.[1]
          As duas cenas de mico de minha infncia estavam de qualquer modo, estreitamente ligadas ao tema da megalomania; mas sua emergncia enquanto eu viajava 
para Aussee foi ainda auxiliada pela circunstncia fortuita de que no havia um toalete contguo a meu compartimento e de que eu tinha motivos para prever a dificuldade 
que de fato surgiu ao amanhecer. Despertei com as sensaes de uma necessidade fsica. Poder-se-ia, penso eu, ficar inclinado a supor que essas sensaes tinham 
sido o verdadeiro agente provocador do sonho, mas prefiro adotar outro ponto de vista, a saber, o de que o desejo de urinar s foi despertado pelos pensamentos do 
sonho.  muito raro eu ser perturbado em meu sono por necessidades fsicas de qualquer natureza, sobretudo no horrio em que acordei nessa ocasio, s quinze para 
as trs da madrugada. E talvez possa refutar uma outra objeo observando que em outras viagens, realizadas em condies mais confortveis, raramente senti necessidade 
de urinar quando acordava cedo. Mas, seja como for, no haver nenhum mal em deixar esse ponto no solucionado. [1]
          Minhas experincias ao analisar sonhos chamaram ainda ateno para o fato de que as seqncias de idias que remontam  mais remota infncia partem at 
mesmo de sonhos que parecem,  primeira vista, ter sido inteiramente interpretados, visto que suas fontes e seu desejo instigador so descobertos sem dificuldade. 
Vi-me, portanto, obrigado a perguntar a mim mesmo se essa caracterstica no seria precondio essencial do sonhar. Enunciado em termos gerais, isso implicaria que 
todo sonho estaria ligado, em seu contedo manifesto, a experincias recentes, e, em seu contedo latente, s experincias mais antigas. E de fato pude mostrar, 
em minha anlise da histeria, que essas experincias antigas permanecem recentes no sentido prprio do termo, at o presente imediato. Ainda  extremamente difcil 
demonstrar a verdade dessa suspeita, e terei de voltar, com respeito a outra questo (Captulo VII [em [1]]), a um exame do provvel papel desempenhado pelas experincias 
primitivas da infncia na formao dos sonhos.
          Das trs caractersticas da memria nos sonhos, enumeradas no incio deste captulo, uma - preferncia pelo material no-essencial no contedo dos sonhos 
- foi satisfatoriamente esclarecida ao se remontar sua origem  distoro dos sonhos. Pudemos confirmar a existncia das outras duas - a nfase no material recente 
e no material infantil - mas no pudemos explic-las com base nos motivos que levam a sonhar. Essas duas caractersticas, cuja explicao e apreciao ainda no 
foram descobertas, devem ser conservadas em mente. Seu lugar apropriado deve ser buscado alhures - quer na psicologia do estado de sono, quer no exame da estrutura 
do aparelho mental, em que nos envolveremos posteriormente, depois que tivermoscompreendido que a interpretao dos sonhos  como uma janela pela qual podemos vislumbrar 
o interior desse aparelho. [Ver Captulo VII.]
          Existe, contudo, outra inferncia decorrente destas ltimas anlises de sonhos, para a qual chamarei a ateno imediatamente. Os sonhos muitas vezes parecem 
ter mais de um sentido. No s, como mostraram nossos exemplos, podem abranger vrias realizaes de desejos, uma ao lado da outra, como tambm pode haver uma sucesso 
de sentidos ou realizaes de desejos superpostos uns aos outros, achando-se na base a realizao de um desejo que data da primeira infncia. E aqui surge mais uma 
vez a questo de verificar se no seria mais correto asseverar que isso ocorre "invariavelmente", e no "freqentemente".
          
          (C) AS FONTES SOMTICAS DOS SONHOS
          
          Se tentarmos interessar um leigo culto nos problemas dos sonhos e, com esse propsito em vista, lhe perguntarmos quais so, em sua opinio, as fontes das 
quais eles surgem, veremos, de modo geral, que ele se sente seguro de possuir a resposta para essa parte da pergunta. Ele pensa imediatamente nos efeitos produzidos 
na construo dos sonhos pelos distrbios ou dificuldades digestivas - "os sonhos decorrem da indigesto" [ver em [1]] -, pelas posturas acidentalmente assumidas 
pelo corpo e por outros pequenos incidentes durante o sono. Nunca lhe parece ocorrer que, uma vez levados em conta todos esses fatores, ainda reste algo que precise 
de explicao.
          J examinei longamente, no captulo de abertura (Seo C), o papel atribudo pelos autores cientficos s fontes somticas de estimulao na formao dos 
sonhos; basta-me, portanto, recordar aqui apenas os resultados dessa investigao. Verificamos que se distinguiam trs espcies diferentes de fontes somticas de 
estimulao: os estmulos sensoriais objetivos provenientes de objetos externos, os estados internos de excitao dos rgos sensoriais com base apenas subjetiva, 
e os estmulos somticos provenientes do interior do corpo. Percebemos, alm disso, que as autoridades se inclinavam a colocar em segundo plano, ou a excluir inteiramente, 
quaisquer possveis fontes psquicas dos sonhos, comparadas a esses estmulos somticos (ver em [1]). Em nosso exame das afirmaes feitas em prol das fontes somticas 
de estimulao, chegamos s seguintes concluses. A importncia das excitaes objetivas dos rgos sensoriais (consistindo, em parte, de estmulos fortuitos durante 
o sono e, em parte, de excitaes que no podem deixar de influenciar nem mesmo uma mente adormecida)  estabelecida a partir de numerosas observaes e foi confirmada 
experimentalmente (ver em [1]). O papel desempenhado pelas excitaes sensoriais subjetivas parece ser demonstrado pela recorrncia de imagens sensoriais hipnaggicas 
nos sonhos (ver em [1] e segs.). E por fim, parece que, embora seja impossvel provar que as imagens e representaes que ocorrem em nossos sonhos so atribuveis 
aos estmulos somticos internos no grau em que se afirmou que isso se d, essa origem, ainda assim, encontra apoio na influncia universalmente reconhecida que 
exercem em nossos sonhos os estados de excitao de nossos rgos digestivos, urinrios e sexuais [ver em [1]]
          Assim, ao que parece, a "estimulao nervosa" e a "estimulao somtica" seriam as fontes somticas dos sonhos - isto , segundo muitos autores, sua nica 
fonte.
          Por outro lado, j encontramos diversas manifestaes de dvida que pareciam implicar uma crtica no  correo,  verdade, mas  suficincia da teoria 
da estimulao somtica.
          Por mais seguros de sua base concreta que se sentissem os defensores dessa teoria - especialmente no que concerne aos estmulos acidentais e externos, 
j que estes podem ser detectados no contedo dos sonhos sem qualquer dificuldade - nenhum deles pde deixar de perceber que  impossvel atribuir a profuso de 
material de representaes dos sonhos apenas aos estmulos nervosos externos. A Srta. Mary Whiton Calkins (1893, 312) examinou seus prprios sonhos e os de uma outra 
pessoa durante seis semanas com essa questo em mente. Verificou que em apenas 13,2% e 6,7 % deles, respectivamente, foi possvel traar o elemento de percepo 
sensorial externa; ao passo que, dos casos do conjunto de sonhos, apenas dois eram decorrentes de sensaes orgnicas. Temos aqui a confirmao estatstica daquilo 
que fui levado a suspeitar a partir de um exame apressado de minhas prprias experincias.
          J se props muitas vezes separar os "sonhos devido  estimulao nervosa" de outras formas de sonhos,como uma subespcie que foi completamente investigada. 
Assim, Spitta [1882, 233] divide os sonhos em "sonhos devidos  estimulao nervosa" e "sonhos devido  associao". Essa soluo, todavia, estava fadada a permanecer 
insatisfatria enquanto fosse impossvel demonstrar o elo entre as fontes somticas de um sonho e seu contedo de representaes. Assim, alm da primeira objeo 
- a freqncia insuficiente das fontes externas de estimulao -, havia uma segunda - a explicao insuficiente dos sonhos proporcionada por essas fontes. Temos 
o direito de esperar que os defensores dessa teoria nos dem explicaes sobre dois pontos: primeiro, por que  que o estmulo externo de um sonho no  percebido 
em sua verdadeira natureza, sendo invariavelmente mal interpretado (cf. os sonhos provocados pelo despertador em [1]); e segundo, por que  que a reao da mente 
perceptiva a esses estmulos mal interpretados leva a resultados de uma variedade to imprevisvel.
          A ttulo de resposta a essas questes, Strmpell (1877, 108 e seg.) nos diz que, como a mente se retrai do mundo externo durante o sono, ela  incapaz 
de dar uma interpretao correta aos estmulos sensoriais objetivos e  obrigada a construir iluses com base no que , em muitos aspectos, uma impresso indeterminada. 
Para citar suas prprias palavras: "To logo uma sensao ou um complexo de sensaes, ou um sentimento, ou um processo psquico de qualquer espcie surge na mente 
durante o sono, como resultado de um estmulo nervoso externo ou interno, e isso  percebido pela mente, esse processo convoca imagens sensoriais do crculo de experincias 
deixadas na mente pelo estado de viglia - ou seja, percepes anteriores - que so puras ou se fazem acompanhar de seus valores psquicos apropriados. O processo 
se cerca, por assim dizer, de um nmero maior ou menor de imagens desse tipo e, atravs delas, a impresso derivada do estmulo adquire seu valor psquico. Falamos 
aqui (como costumamos fazer no caso do comportamento de viglia) sobre a mente adormecida 'interpretar' as impresses causadas pelo estmulo nervoso. O resultado 
dessa interpretao  o que chamamos de um 'sonho devido  estimulao nervosa', isto , um sonho cujos componentes so determinados por um estmulo nervoso que 
produz seus efeitos psquicos na mente segundo as leis da reproduo." [Ver em [1], [2] e [3].]
          Wundt [1874, 656 e seg.] est dizendo algo essencialmente idntico a essa teoria ao afirmar que as representaes que ocorrem nos sonhos derivam, pelo 
menos em sua maior parte, de estmulos sensoriais, incluindo especialmente as sensaes cenestsicas, e so, por esse motivo, principalmente iluses imaginativas 
e, provavelmente apenas em pequeno grau, representaes mnmicas puras intensificadas at assumirem a forma de alucinaes. [Ver em [1]] Strmpell (1877, 84) descobriu 
um smile adequado para a relao que subsiste nessa teoria entre os contedos de um sonho e seus estmulos, ao escrever que " como se os dez dedos de um homem 
que nada sabe de msica vagassem sobre o teclado de um piano" [Ver em [1] e [2]]. Assim, um sonho no , segundo essa viso, um fenmeno mental baseado em motivos 
psquicos, e sim o resultado de um estmulo psicolgico que se expressa em sintomas fsicos, pois o aparato sobre o qual o estmulo incide no  capaz de outra forma 
de expresso. Uma pressuposio similar tambm est subjacente, por exemplo,  famosa analogia por meio da qual Meynert tentou explicar as idias obsessivas: a analogia 
de um mostrador de relgio no qual certos algarismos sobressaem por estarem estampados de maneira mais proeminentemente do que os demais.
          Por mais popular que se tenha tornado a teoria da estimulao somtica dos sonhos, e por mais atraente que ela possa parecer, seu ponto fraco  facilmente 
demonstrado. Todo estmulo somtico onrico que exija que o aparelho mental adormecido o interprete por meio da construo de uma iluso pode dar origem a um nmero 
ilimitado de tais tentativas de interpretao - isto , pode ser representado no contedo do sonho por uma imensa variedade de representaes. Mas a teoria proposta 
por Strmpell e Wundt  incapaz de produzir qualquer motivo que reja a relao entre um estmulo externo e a representao onrica escolhida para sua interpretao 
- isto ,  incapaz de explicar o que Lipps (1883, 170) chama de a "notvel escolha freqentemente feita" por esses estmulos "no curso de sua atividade produtiva". 
Outras objees foram ainda levantadas contra a pressuposio em que se baseia toda a teoria da iluso - a pressuposio de que a mente adormecida  incapaz de reconhecer 
a verdadeira natureza dos estmulos sensoriais objetivos. Burdach, o fisiologista, mostrou-nos h muito tempo que, mesmo no sono, a mente  perfeitamente capaz de 
interpretar de maneira correta as impresses sensoriais que a alcanaram e de reagir segundo essa interpretao correta; lembrou ele o fato de que determinadas impresses 
sensoriais que parecem importantes para aquele que dorme podem ser execetadas da negligncia geral a que tais impresses ficam sujeitas durante o sono (como no caso 
da me que est amamentando ou da ama-de-leite em relao  criana sob sua responsabilidade), e que  mais certo uma pessoa adormecida ser acordada pelo som de 
seu prprio nome do que por alguma impresso auditiva indiferente - tudo isso implicando que a mente diferencia as sensaes durante o sono (Ver em [1]). Burdach 
ento inferiu dessas observaes que o que devemos presumir durante o estado de sono no  uma falta de interesse neles. Os mesmos argumentos usados por Burdach 
em 1830 foram novamente apresentados por Lipps, sem qualquer modificao, em 1883, em sua crtica  teoria da estimulao somtica. Assim, a mente parece comportar-se 
como o adormecido da anedota. Quando algum lhe perguntou se estava dormindo, ele respondeu "No". Mas quando o interlocutor prosseguiu dizendo "Ento empreste-me 
dez florins", ele se refugiou num subterfgio e respondeu: "Estou dormindo".
          A insuficincia da teoria da estimulao somtica dos sonhos pode ser demonstrada de outras maneiras. A observao mostra que os estmulos externos no 
me compelem necessariamente a sonhar, muito embora tais estmulos apaream no contedo de meu sonho se e quando chego de fato a sonhar. Vamos supor, digamos, que 
eu seja submetido a um estmulo tctil enquanto estiver dormindo. Uma multiplicidade de reaes diferentes estar ento aberta diante de mim. Posso desprezar o estmulo 
e, ao acordar, constatar, por exemplo, que minha perna est descoberta ou que h alguma presso em meu brao; a patologia fornece exemplos bastante numerosos em 
que vrios estmulos sensoriais e motores poderosamente excitantes permanecem sem efeito durante o sono. Ou ento, posso ficar ciente da sensao em meu sono - posso 
ficar ciente dela, como se diz, "atravs" de meu sono (que  o que acontece, via de regra, no caso dos estmulos dolorosos), mas sem que se transforme a dor num 
sonho. E, em terceiro lugar, posso reagir ao estmulo acordando para livrar-me dele.  somente como a quarta possibilidade que o estmulo nervoso pode levar-me a 
sonhar. Contudo, as outras possibilidades se concretizam pelo menos com a mesma freqncia desta ltima, - a de construir um sonho. E isso no poderia acontecer, 
a menos que o motivo para sonhar estive em outra parte que no fontes somticas de estimulao.
          Alguns outros autores - Scherner [1861] e o filsofo Volkelt [1875], que adorou os pontos de vista de Scherner - fizeram uma estimativa justa das lacunas 
que aqui indiquei na explicao dos sonhos como devidas  estimulao somtica. Esses autores tentaram definir com mais preciso as atividades mentais que levam 
 produo de imagens onricas to diversificadas a partir dos estmulos somticos; em outras palavras, eles buscaram considerar uma atividade psquica. [Ver em 
[1]] Scherner no apenas retratou as caractersticas psquicas reveladas na produo dos sonhos em termos carregados de sentimento potico e resplandecentes de vida; 
ele acreditava, tambm, ter descoberto o princpio segundo o qual a mente lida com os estmulos a ela apresentados. Em sua opinio, o trabalho do sonho, quando a 
imaginao  libertada dos grilhes diurnos, procura dar uma representao simblica da natureza do rgo do qual provm o estmulo e da natureza do prprio estmulo. 
Assim, ele fornece uma espcie de "livro do sonho" para servir como guia para a interpretao dos sonhos, que possibilita deduzir das imagens onricas inferncias 
sobre as sensaes somticas, o estado dos rgos e o carter dos estmulos em questo. "Assim, a imagem de um gato expressa um estado irritadio, mau humor e a 
imagem de um po macio e de colorao clara representa a nudez fsica." [Volkelt, 1875, 32.] O corpo humano como um todo  retratado pela imaginao onrica como 
uma casa, e os diferentes rgos do corpo, como partes de uma casa. Nos "sonhos com um estmulo dental", um saguo de entrada com teto alto e abobadado corresponde 
 cavidade oral, e uma escadaria,  descida da garganta at o esfago. "Nos sonhos devido s dores de cabea, o alto da cabea  representado pelo teto de um quarto 
coberto de aranhas repulsivas, semelhantes a sapos." [Ibid., em [1]] Uma multiplicidade desses smbolos  empregada pelos sonhos para representar o mesmo rgo. 
"Assim, o pulmo, no ato de respirar, ser simbolicamente representado por uma fornalha chamejante, com as labaredas crepitando com um som semelhante ao da passagem 
de ar; o corao ser representado por caixas ou cestas vazias, e a bexiga, por objetos redondos em forma de sacos, ou, mais geralmente, por objetos ocos." [Ibid., 
34] " de suma importncia o fato de que, ao final de um sonho, o rgo em causa ou sua funo, com freqncia,  abertamente revelado, e via de regra, em relao 
ao prprio corpo sonhador. Assim, um sonho com um estmulo dental normalmente termina com o sonhador visualizando a si mesmo ao arrancar um dente da boca." [Ibid., 
35.]
          No se pode dizer que essa teoria da interpretao dos sonhos tenha sido recebida de maneira muito favorvel por outros autores do ramo. Sua caracterstica 
principal parece ser sua extravagncia; e tem havido hesitao at mesmo em reconhecer a justificao que, na minha opinio, ela pode reivindicar. Como se ter percebido, 
ela envolve uma revivescncia da interpretao dos sonhos por meio do simbolismo - o mesmo mtodo que era empregado na Antiguidade, com a exceo de que o campo 
de onde se extraem as interpretaes fica restrito aos limites do corpo humano. Sua falta de qualquer tcnica de interpretao que possa ser cientificamente apreendida 
talvez reduza em muito a aplicao da teoria de Scherner. Ela parece dar margem a interpretaes arbitrrias, sobretudo porque, tambm em seu caso, o mesmo estmulo 
pode ser representado no contedo onrico de inmeras maneiras diferentes. Assim, at mesmo o discpulo de Scherner, Volkelt, viu-se impossibilitado de confirmar 
a idia de que o corpo era representado por uma casa. Objees tambm esto fadadas a provir do fato de que, mais uma vez, a mente fica sobrecarregada com o trabalho 
do sonho como uma funo intil e sem objetivo; pois, segundo a teoria que estamos examinando, a mente se contenta em fazer fantasias sobre o estmulo de que se 
ocupa, sem o mais remoto indcio de qualquer coisa da ordem de uma eliminao do estmulo.
          H uma crtica em particular, no entanto, que  gravemente prejudicial  teoria de Scherner sobre a simbolizao dos estmulos somticos. Esses estmulos 
esto sempre presentes, e geralmente se afirma que a mente  mais acessvel a eles durante o sono do que quando desperta.  difcil entender, ento, por que  que 
a mente no sonha continuamente a noite inteira e, na verdade, por que no sonha todas as noites com todos os rgos. Pode-se fazer uma tentativa de evitar essa 
crtica, acrescentando-se a condio adicional de que, para suscitar a atividade onrica,  necessrio que excitaes especiais provenham dos olhos, ouvidos, dentes, 
intestinos etc. Mas surge ento a dificuldade de provar a natureza objetiva de tais aumentos de estmulo - o que s  possvel num pequeno nmero de casos. Se os 
sonhos de voar so uma simbolizao da subida e descida dos lobos dos pulmes [ver em [1]], ento, como Strmpell [1877, 119] j assinalou, esses sonhos teriam de 
ser muito mais freqentes do que so, ou seria necessrio provar um aumento da atividade respiratria no decorrer deles. H uma terceira possibilidade, que  a mais 
provvel de todas, qual seja, a de que talvez haja motivos especiais temporariamente atuantes dirigindo a ateno para sensaes viscerais que esto presentes de 
maneira uniforme em todos os momentos. Essa possibilidade, entretanto, leva-nos alm do alcance da teoria de Scherner.
          O valor dos pontos de vista expostos por Scherner e Volkelt est no fato de eles chamarem ateno para diversas caractersticas do contedo dos sonhos 
que exigem explicao e parecem prometer novas descobertas.  perfeitamente verdadeiro que os sonhos contm simbolizaes de rgos e funes do corpo, e que a presena 
de gua num sonho com freqncia assinala um estmulo urinrio, e que os rgos genitais masculinos podem ser representados por um basto erguido ou uma coluna, 
e assim por diante. No caso dos sonhos em que o campo visual fica repleto de movimento e cores vivas, em contraste com a insipidez de outros sonhos, dificilmente 
se poder deixar de interpret-los como "sonhos com um estmulo visual"; tampouco se pode contestar o papel desempenhado pelas iluses no caso dos sonhos que se 
caracterizam por rudos e confuso de vozes. Scherner [2861, 167] relata um sonho com duas fileiras de meninos bonitos e louros, postados um de frente ao outro ao 
longo de uma ponte, que se atacam entre si e ento retornam  posio original, at que finalmente o sonhador se viu sentado numa ponte, arrancando um dente enorme 
de sua boca. De maneira semelhante, Volkelt [1875, 52] relata um sonho em que pareciam duas fileiras de gavetas num armrio e que, mais uma vez, terminou com o sonhador 
arrancando um dente. Formaes onricas como essas, que so registradas em grande nmero pelos dois autores, impedem que descartemos a teoria de Scherner como uma 
inveno intil sem procurarmos seu cerne de verdade. [Ver em [1].] A tarefa que nos confronta, portanto,  encontrar outro tipo de explicao para a suposta simbolizao 
do que se alega um estmulo dental. [1]
          Durante toda esta discusso da teoria das fontes somticas dos sonhos, abstive-me de usar o argumento baseado em minha anlise dos sonhos. Se ele puder 
ser confirmado, atravs de um procedimento no empregado por outros autores em seu material onrico, que os sonhos possuem um valor prprio como atos psquicos, 
o de que os desejos so o motivo de sua concentrao e que as experincias do dia anterior fornecem o material imediato para seu contedo, qualquer outra teoria 
dos sonhos que despreze um procedimento de pesquisa to importante e que, por conseguinte, represente os sonhos como uma reao psquica intil e enigmtica a estmulos 
somticos estar condenada, sem necessidade maior de crticas especficas. De outra forma - e isso parece bastante improvvel - teria de haver duas espcies bem 
diferentes de sonhos, um das quais s eu pude observar, e outra que s pde ser percebida pelos autores mais antigos. Resta apenas, portanto, encontrar em minha 
teoria dos sonhos um lugar para os fatos em que se baseia a atual teoria da estimulao somtica dos sonhos.
          J demos o primeiro passo nessa direo ao propor a tese (ver em [1]) de que o trabalho do sonho est sujeito  exigncia de combinar em uma unidade os 
estmulos ao sonhar que estiverem simultaneamente em ao. Verificamos que, quando duas ou mais experincias capazes de criar uma impresso so deixadas pelo dia 
anterior, os desejos delas derivados se combinam num nico sonho, e, de modo similar, que a impresso psiquicamente significativa e as experincias irrelevantes 
da vspera so reunidas no material onrico, sempre desde que seja possvel estabelecer entre elas representaes comunicantes. Assim, o sonho parece ser uma reao 
a tudo o que est simultaneamente presente na mente adormecida como material correntemente ativo. At onde analisamos o material dos sonhos, vimo-lo como uma coletnea 
de resduos psquicos e traos mnmicos,  qual (em virtude da preferncia mostrada por material recente e infantil) fomos levados a atribuir uma qualidade at aqui 
indefinvel de ser "correntemente ativo". Podemos por isso antever, sem grandes dificuldades, o que acontecer se um material nosso, sob a forma de sensaes, for 
acrescentado durante o sono a essas lembranas correntemente ativas.  tambm graas ao fato de serem correntemente ativas que essas excitaes sensoriais so importantes 
para o sonho; elas se unem ao outro material psquico correntemente ativo para fornecer aquilo que  usado para a construo do sonho. Em outras palavras, os estmulos 
que surgem durante o sono so os conhecidos "restos diurnos" psquicos. Essa combinao no precisa ocorrer; como j assinalei, h mais de uma maneira de reagir 
a um estmulo somtico durante o sono. Quando ela efetivamente ocorre, isso significa que foi possvel encontrar, para servir de contedo do sonho, um material de 
representaes de tal ordem que  capaz de representar ambos os tipos de fontes do sonho: a somtica e a psquica.
          A natureza essencial do sonho no  alterada pelo fato de se acrescentar material somtico a suas fontes psquicas: o sonho continua a ser a realizao 
de um desejo, no importa de que maneira a expresso dessa realizao de desejo seja determinada pelo material correntemente ativo.
          Estou disposto a abrir espao, neste ponto, para a atuao de diversos fatores especiais que podem emprestar uma importncia varivel aos estmulos externos 
em relao aos sonhos. A meu ver,  uma combinao de fatores individuais fisiolgicos e fortuitos, produzidos pelas circunstncias do momento, que determina como 
uma pessoa se comportar nos casos especficos de uma estimulao objetiva relativamente intensa durante o sono. A profundidade habitual ou acidental de seu sono, 
tomada em conjunto com a intensidade do estmulo, possibilitar, num caso, que ela suprima o estmulo, para que seu sono no seja interrompido e, noutro caso, obrig-la- 
a acordar ou estimular uma tentativa de superar o estmulo incorporando-o num sonho. De acordo com essas vrias combinaes possveis, os estmulos objetivos externos 
encontraro expresso nos sonhos com maior ou menor freqncia em uma pessoa do que em outra. No meu prprio caso, como tenho um sono excelente e me recuso obstinadamente 
a permitir que qualquer coisa o perturbe,  muito raro as causas externas de excitao conseguirem penetrar em meus sonhos; ao passo que as motivaes psquicas 
obviamente me fazem sonhar com muita facilidade. De fato, s anotei um nico sonho em que uma fonte objetiva e dolorosa de estmulo  reconhecvel, e ser muito 
instrutivo examinar o efeito externo produzido neste sonho em particular.
          Eu montava um cavalo cinzento, a princpio tmida e desajeitadamente, como se apenas me reclinasse sobre ele. Encontrei um de meus colegas, P., que montava 
ereto um cavalo, envergando um terno de tweed, e que chamou minha ateno para alguma coisa (provavelmente minha maneira incorreta de sentar). Comecei ento a me 
sentir sentado com firmeza e conforto cada vez maiores em meu cavalo muito inteligente, e percebi que me sentia inteiramente  vontade ali. Minha sela era uma espcie 
de almofado, que preenchia completamente o espao entre o pescoo e a garupa do animal. Assim, passei a cavalgar bem no meio de dois carros de transportes. Depois 
de cavalgar um pouco rua acima, voltei-me e tentei desmontar, primeiro diante de uma capelinha aberta que ficava de frente para a rua. Depois, desmontei realmente 
diante de outra capela que ficava perto da primeira. Meu hotel ficava na mesma rua; eu poderia ter deixado o cavalo ir at l sozinho, mas preferi gui-lo at aquele 
ponto. Era como se eu fosse ficar envergonhado por chegar l a cavalo. Um engraxate estava em p diante do hotel; mostrou-me um bilhete que fora encontrado e riu 
de mim por causa dele. No bilhete estava escrito, duplamente sublinhado: "Sem comida", e depois outra observao (indistinta) como "Sem trabalho", juntamente com 
uma idia vaga de que eu estava numa cidade estranha e no estava trabalhando.
          Ningum suporia,  primeira vista, que esse sonho se tivesse originado sob a influncia, ou antes, sob a compulso de um estmulo doloroso. Mas, desde 
alguns dias antes, eu vinha sofrendo de furnculos que transformavam cada momento numa tortura; e por fim, surgira um furnculo do tamanho de uma ma na base do 
meu escroto, o que me acusava a mais intolervel dor a cada passo que eu dava. Lassido febril, perda de apetite e o trabalho rduo que, no obstante, eu continuava 
a fazer - tudo isso se combinara com a dor para me deixar deprimido. Eu estava impossibilitado de cumprir adequadamente minhas funes de mdico. Havia, porm, uma 
atividade para a qual, dada a natureza e a situao de meu problema, eu estaria certamente menos apto do que para qualquer outra, e esta era - montar a cavalo. E 
foi precisamente essa a atividade em que o sonho me colocou: ele foi a mais enrgica negao de minha doena que se poderia imaginar. Na verdade no sei montar, 
nem tive, com exceo deste, sonhos com cavalgadas. S me sentei num cavalo uma vez na vida, e mesmo assim, sem sela, e no gostei. Nesse sonho, porm, eu cavalgava 
como se no tivesse um furnculo em meu perneo - ou melhor, porque eu no queria ter um. Minha sela, a julgar por sua descrio, era o cataplasma que me tornara 
possvel adormecer. Sob sua influncia mitigante, eu provavelmente no estivera consciente de minha dor nas primeiras horas de sono. As sensaes dolorosas ento 
se apresentaram e intentaram despertar-me; nesse ponto o sonho chegou e disse suavemente: "No! Continue a dormir! No h necessidade de acordar. Voc no tem furnculos, 
pois est andando a cavalo, e com certeza no poderia cavalgar se tivesse um furnculo bem nesse lugar." E o sonho foi bem-sucedido. A dor foi silenciada e continuei 
a dormir.
          
          Mas o sonho no se contentou em "eliminar por sugesto" meu furnculo pela insistncia obstinada numa representao que era incompatvel com ele, e em 
proceder com o delrio alucinatrio da me que perdera o filho ou do comerciante cujos prejuzos tinham acabado com sua fortuna. Os detalhes da sensao que estava 
sendo repudiada e da imagem empregada para reprimir essa sensao tambm serviram ao sonho como meio de ligar  situao onrica outro material que estava correntemente 
ativo em minha mente e dar representao a esse material. Eu montava um cavalo cinzento, cor esta que correspondia precisamente  cor de pimenta-e-sal [mesclada 
de preto e branco] da roupa que meu colega P. estava usando na ltima vez em que o encontrei no interior. A causa de meus furnculos fora atribuda  ingesto de 
alimentos muito condimentados - uma etiologia que era ao menos prefervel ao acar [diabetes] que tambm poderia ocorrer no contexto dos furnculos. Meu amigo P. 
gostava de ficar a cavaleiro em relao a mim desde que me tirara uma de minhas pacientes com quem eu havia conseguido alguns efeitos notveis. (No sonho, eu comeava 
cavalgando tangencialmente - como o feito de um cavaleiro habilidoso.) Mas, na realidade, tal como o cavalo na anedota do cavaleiro de domingo, essa paciente me 
levara para onde se sentia inclinada. Assim, o cavalo adquiriu o significado simblico de uma paciente. (No sonho, ele era muito inteligente.) "Eu me sentia inteiramente 
 vontade l" referia-se  posio que eu ocupara na casa dessa paciente antes de ser substitudo por P. No muito antes, um de meus poucos protetores entre os principais 
mdicos desta cidade me observara, com relao a essa mesma casa: "Voc me d a impresso de estar firme na sela l." Era um feito notvel, tambm, poder prosseguir 
em meu trabalho psicoterpico durante oito ou dez horas por dia enquanto estava sentindo tanta dor. Mas eu sabia que no poderia prosseguir por muito tempo em meu 
trabalho peculiarmente difcil, a menos que estivesse com perfeita sade fsica; e meu sonho estava repleto de aluses sombrias  situao em que me encontraria 
nesse eventualidade. (O bilhete que os neurastnicos trazem com eles para mostrar ao mdico: sem dinheiro, sem trabalho.) Mais adiante na interpretao, vi que o 
trabalho do sonho conseguira descobrir um caminho da situao desejante de cavalgar para algumas cenas de rixas de minha tenra infncia que devem ter ocorrido entre 
mim e um sobrinho meu, um ano mais velho, que agora vivia na Inglaterra. [Ver em [1].] Alm disso, o sonho tirara alguns de seus elementos de minhas viagens pela 
Itlia: a rua do sonho era composta de impresses de Verona e Siena. Uma interpretao ainda mais profunda levou a pensamentos onricos sexuais, e lembrei-me do 
sentido que as referncias  Itlia pareciam ter nos sonhos de uma paciente que nunca visitara aquele adorvel pas: "gen Italien" [para a Itlia] - "Genitalien" 
[genitais]; e isso tambm estava ligado  casa em que eu precedera meu amigo P. como mdico, assim como  situao de meu furnculo.
          Num outro sonho consegui xito semelhante em rechaar uma ameaa de interrupo de meu sono, vinda desta feita de um estmulo sensorial. Nesse caso, todavia, 
foi apenas por acaso que pude descobrir o elo entre o sonho e seu estmulo acidental, e assim compreender o sonho. Numa manh em pleno vero, enquanto estava hospedado 
numa cidade montanhosa de veraneio no Tirol, acordei sabendo ter sonhado que o Papa havia morrido. No consegui interpretar esse sonho - um sonho no-visual - e 
s me lembrei, como parte de sua base, de ter lido um jornal, pouco tempo antes, que Sua Santidade estava sofrendo de uma ligeira indisposio. Durante a manh, 
contudo, minha mulher me perguntou se eu ouvira o barulho terrvel feito pelo repicar dos sinos naquela manh. Eu nem sequer o percebera, mas ento compreendi meu 
sonho. Ele fora uma reao, por parte de minha necessidade de dormir, ao barulho com que os pios tiroleses haviam tentado acordar-me. Eu me vingara deles extraindo 
a inferncia que formou o contedo do sonho, e ento continuara a dormir sem dar maior ateno ao barulho.
          Os sonhos citados nos captulos anteriores incluram diversos que poderiam servir de exemplos da elaborao desses chamados estmulos nervosos. Meu sonho 
de beber gua em grandes goles [em [1]]  um exemplo. O estmulo somtico foi, aparentemente, sua nica fonte, e o desejo derivado da sensao (isto , a sede) pareceu 
ser sua nica motivao. D-se um caso semelhante com outros sonhos simples em que um estmulo somtico parece, por si s, capaz de construir um desejo. O sonho 
da paciente que afastou do rosto o aparelho resfriador durante a noite [em [1]] apresenta um mtodo incomum de reagir a um estmulo doloroso com uma realizao de 
desejo:foi como se a paciente conseguisse ficar temporariamente em analgesia, ao tempo em que atribua suas dores a outrem.
          Meu sonho com as trs Parcas [em [1]] foi claramente um sonho de fome. Mas conseguiu desviar o desejo de nutrio para o anseio infantil pelo seio materno 
e se valeu de um desejo inocente como anteparo para um desejo mais srio, que no podia ser to abertamente exibido. Meu sonho sobre o Conde Thun [em [1]] mostrou 
como uma necessidade fsica acidental pode ser vinculada aos mais intensos impulsos mentais (mas, ao mesmo tempo, os mais intensamente suprimidos.) E um caso como 
o relatado por Garnier (1872, 1, 476), de como o Primeiro Cnsul incorporou o barulho da exploso de uma bomba num sonho de batalha antes de despertar dele [em [1]] 
revela com clareza bastante especial a natureza do nico motivo que leva a atividade mental a se ocupar de sensaes durante o sono. Um jovem advogado, recm-sado 
de seu primeiro processo importante de falncia, adormecendo certa tarde, comportou-se exatamente da mesma forma que o grande Napoleo. Teve um sonho com um certo 
G. Reich, de Husyatin [uma cidade de Galcia], que conhecera durante um caso de falncia; o nome "Husyatin" continuou a se impor a sua ateno at que ele acordou 
e viu que sua mulher (que sofria de um catarro brnquico) estava tendo um violento acesso de tosse [em alemo, "husten"].
          Comparemos esse sonho de Napoleo I (que, alis, era dono de um sono extremamente profundo) com o do estudante sonolento que foi acordado por sua senhoria 
e informado de que era hora de ir para o hospital, e que passou a sonhar que estava numa cama do hospital e continuou a dormir, sob o pretexto de que, j que estava 
no hospital, no havia necessidade de se levantar e ir at l [em [1]]. Este ltimo sonho foi claramente um sonho de convenincia. O sonhador admitiu uma motivao 
para sonhar sem nenhum disfarce; mas, ao mesmo tempo, deixou escapar um dos segredos dos sonhos em geral. Todos os sonhos so, num certo sentido, sonhos de convenincia; 
servem  finalidade de prolongar o sono, em vez de acordar. Os sonhos so GUARDIES do sono, e no perturbadores dele. Teremos oportunidade, mais adiante, de justificar 
essa viso deles em relao aos fatores despertadores de ordem psquica [ver em [1]], mas j estamos em condies de mostrar que ela  aplicvel ao papel desempenhado 
pelos estmulos externos objetivos. Ou a mente no presta a mnima ateno s oportunidades de sensaes durante o sono - caso possa faz-lo a despeito da intensidade 
dos estmulos e da importncia que sabe possurem; ou se vale de um sonho para negar os estmulos; ou, em terceiro lugar, se for obrigada a reconhec-los, busca 
uma interpretao deles que transforme a sensao correntemente ativa em parte integrante de uma situao que seja desejada e compatvel com o dormir. A sensao 
correntemente ativa  incorporada no sonho para ser despojada de realidade. Napoleo pde continuar a dormir - com a convico de que o que estava tentando perturb-lo 
era apenas uma lembrana onrica do ribombar dos canhes de Arcole.
          Assim, o desejo de dormir (no qual o ego consciente se concentra e que, justamente com a censura do sonho e a "elaborao secundria" que mencionarei adiante 
[em [1]], representa a contribuio do ego consciente para o sonhar), deve, na totalidade dos casos, ser reconhecido como um dos motivos da formao dos sonhos, 
e todo sonho bem-sucedido  uma realizao desse desejo. Examinaremos num outro ponto [em [1]] as relaes existentes entre esse desejo universal, invariavelmente 
presente e imutvel de dormir e os demais desejos, dos quais ora um ora outro  realizado pelo contedo do sonho. Mas encontramos no desejo de dormir o fator capaz 
de preencher a lacuna na teoria de Strmpell e Wundt [em [1]] e de explicar a maneira perversa e caprichosa como so interpretados os estmulos externos. A interpretao 
correta, que a mente adormecida  perfeitamente capaz de fazer, envolveria um interesse ativo e exigiria que o sono fosse interrompido; por essa razo, dentre todas 
as interpretaes possveis, s so admitidas aquelas que so compatveis com a censura absoluta exercida pelo desejo de dormir. "Ele  rouxinol e no a cotovia", 
pois, se fosse a cotovia, isso significaria o trmino da noite dos amantes. Entre as interpretaes do estmulo que so assim admissveis, seleciona-se ento aquela 
que pode proporcionar o melhor vnculo com os impulsos desejantes que se ocultam na mente. Assim, tudo  inequivocamente determinado e nada fica por conta da deciso 
arbitrria. A interpretao errnea no  uma iluso, e sim, como se poderia dizer, uma evaso. Aqui, porm, mais uma vez, tal como quando, em obedincia  censura 
do sonho,uma substituio  efetuada por deslocamento, temos de admitir que estamos diante de um ato que se desvia dos processos psquicos normais.
          Quando os estmulos nervosos externos e os estmulos somticos internos so suficientemente intensos para forar a ateno psquica para eles, ento - 
desde que seu resultado seja sonhar e no acordar - eles servem como um ponto fixo para a formao de um sonho, um ncleo em seu material; busca-se ento uma realizao 
de desejo que corresponda a esse ncleo, tal como (ver anteriormente [em [1]]) se buscam representaes intermedirias entre dois estmulos psquicos do sonho. Nesta 
medida,  verdade que, em diversos sonhos, o contedo onrico  ditado pelo elemento somtico. Nesse exemplo extremo,  possvel at que um desejo que no esteja 
de fato correntemente ativo seja invocado para fins de construo de um sonho. O sonho, porm, no tem outra alternativa seno representar um desejo na situao 
de ter sido realizado; ele enfrenta, por assim dizer, o problema de procurar um desejo que possa representar-se como realizado pela sensao correntemente ativa. 
Quando esse material imediato  de natureza dolorosa ou aflitiva, isso no significa necessariamente que no possa ser utilizado para a construo de um sonho. A 
mente tem a seu dispor desejos cuja realizao produz desprazer. Isso parece autocontraditrio, mas torna-se inteligvel quando levamos em conta a presena de duas 
instncias psquicas e uma censura entre elas.
          Como vimos, h na mente desejos "recalcados" que pertencem ao primeiro sistema e a cuja realizao se ope o segundo sistema. Ao afirmar que tais desejos 
existem, no estou fazendo uma declarao histrica no sentido de que eles tenham existido um dia e tenham sido abolidos mais tarde. A teoria do recalcamento, que 
 essencial ao estudo das psiconeuroses, afirma que esses desejos recalcados ainda existem - embora haja uma inibio simultnea que os contm. O uso lingstico 
atinge o alvo ao falar da "supresso" [isto , "sub-presso"] desses impulsos. Os arranjos psquicos que facultam a esses impulsos imporem sua realizao continuam 
a existir e a funcionar perfeitamente. Na eventualidade, contudo, de um desejo recalcado desse tipo ser levado a efeito, e de sua inibio pelo segundo sistema (o 
sistema que  admissvel  conscincia) ser derrotada, essa derrota encontra expresso como desprazerosa. Concluindo: so sensaes de natureza desprazerosa provenientes 
de fontes somticas, o trabalho do sonho utiliza essa ocorrncia para representar - sujeita  continuidade da censura em maior ou menor grau - a realizao de algum 
desejo que  normalmente suprimido.
           esse estado de coisas que possibilita um grupo de sonhos de angstia - estruturas onricas desfavorveis do ponto de vista da teoria da realizao de 
desejo. Um segundo grupo revela um mecanismo diferente, pois a angstia nos sonhos pode ser de natureza psiconeurtica: pode originar-se de excitaes psicossexuais 
- caso em que a angstia corresponde  libido recalcada. Quando isso ocorre, a angstia, como a totalidade do sonho de angstia, tem a significao de um sintoma 
neurtico, e nos aproximamos do limite em que a finalidade de realizao de desejo dos sonhos cai por terra. [Ver em [1] e [2]] Mas h alguns sonhos de angstias 
[- os do primeiro grupo -] em que o sentimento de angstia  somaticamente determinado - quando, por exemplo, d-se uma dificuldade de respirao devida a doenas 
pulmonares ou cardacas; - e, em tais casos, a angstia  explorada a fim de contribuir para a realizao, sob a forma de sonhos, de desejos energicamente suprimidos, 
que se fossem sonhados por motivos psquicos, levariam a uma libertao semelhante de angstia. Mas no h dificuldade em conciliar esses dois grupos aparentemente 
diferentes. Em ambos os grupos de sonhos, h dois fatores psquicos envolvidos: uma inclinao para um afeto e um contedo de representaes; e estes se relacionam 
intimamente entre si. Quando um deles est correntemente ativo, evoca o outro, mesmo num sonho; num dos casos, a angstia somaticamente determinada evoca o contedo 
de representaes suprimindo, e no outro o contedo de representaes, com sua concomitante excitao sexual, livre de represso, evoca uma liberao de angstia. 
Podemos dizer que, no primeiro caso, um afeto somaticamente determinado recebe uma interpretao psquica; ao passo que, no outro caso, embora o todo seja psiquicamente 
determinado, o contedo que fora suprimido  facilmente substitudo por uma interpretao somtica apropriada  angstia. As dificuldades que tudo isso oferece  
nossa compreenso pouco tm a ver com os sonhos: surgem do fato de estarmos aqui tocando no problema da produo da angstia e no problema do recalcamento.
          No h dvida de que a cenestesia fsica [ou sensibilidade geral difusa, ver em [1]] est entre os estmulos somticos internos capazes de ditar o contedo 
dos sonhos. Ela pode fazer isso, no no sentido de poder proporcionar o contedo do sonho, mas no sentido de ser capaz de impor aos pensamentos onricos uma escolha 
do material a ser representado no contedo, ao destacar parte do material como sendo adequado  sua prpria natureza e reter uma outra parte. Afora isso, aos resduos 
psquicos que tm influncia to importante nos sonhos. Essa disposio geral pode persistir inalterada no sonho ou pode ser dominada, e assim, caso seja desprazerosa, 
pode ser transformada em seu oposto.
          Portanto, em minha opinio, as fontes somticas de estimulao durante o sono (isto , as sensaes durante o sono), a menos que sejam de intensidade incomum, 
desempenham na formao dos sonhos papel semelhante ao desempenhado pelas impresses recentes, mas irrelevantes, deixadas pelo dia anterior. Ou seja, creio que elas 
so introduzidas para ajudar na formao de um sonho caso se ajustem apropriadamente ao contedo de representaes derivado das fontes psquicas do sonho, mas no 
de outra forma. So tratadas como um material barato e sempre  mo, que  empregado sempre que necessrio, em contraste com um material precioso que determina, 
ele prprio, o modo como dever ser empregado. Quando, para adotar um smile, um patrono das artes leva a um artista uma pedra rara, como um pedao de nix, e lhe 
pede que crie uma obra de arte com ela, o tamanho da pedra, sua cor e suas marcas ajudam a decidir que cabea ou que cena ser nela representada. Ao passo que, no 
caso de um material uniforme e abundante, tal como o mrmore ou o arenito, o artista simplesmente segue uma idia que se apresente em sua prpria mente.  s dessa 
maneira, ao que me parece, que podemos explicar o fato de o contedo onrico proporcionado por estmulos somticos de intensidade no incomum deixar de aparecer 
em todos os sonhos ou todas as noites. [Ver em [1].]
          Talvez eu possa ilustrar melhor o que quero dizer com um exemplo, que alm disso reconduzir  interpretao do sonho.
          Um dia, eu vinha tentando descobrir qual poderia ser o significado das sensaes de estar inibido, de estar grudado no lugar, de no poder fazer alguma 
coisa, e assim por diante, que ocorrem com tanta freqncia nos sonhos e se relacionam to de perto com os sentimentos de angstia. Naquela noite, tive o seguinte 
sonho:
          Eu estava vestido de forma muito incompleta e subia as escadas de um apartamento trreo para um andar mais alto. Subia trs degraus de cada vez e estava 
encantado com minha agilidade. De repente, vi uma criada descendo as escadas - isto , vindo em minha direo. Fiquei envergonhado e tentei apressar-me, e neste 
ponto instalou-se a sensao de estar inibido: eu estava colado aos degraus e incapaz de sair do lugar.
          ANLISE. - A situao do sonho  extrada da realidade cotidiana. Ocupo dois pavimentos de uma casa em Viena, que se ligam apenas pela escada pblica. 
Meu consultrio e meu gabinete ficam no primeiro andar, e minhas acomodaes domsticas, um pavimento acima. Quando, tarde da noite, termino meu trabalho, no andar 
inferior, subo as escadas para meu quarto. Na noite anterior  do sonho, eu realmente fizera um pequeno trajeto com a roupa meio desalinhada - isto , tinha retirado 
o colarinho, a gravata e os punhos. No sonho, isso tinha sido transformado num grau maior de desalinho, mas, como sempre, indeterminado. [Ver em [1]] Geralmente, 
subo as escadas de dois em dois ou de trs em trs degraus; e isto foi reconhecido no prprio sonho como uma realizao de desejo: a facilidade com que eu conseguia 
isso me tranqilizava quanto ao funcionamento do meu corao. Ademais, esse mtodo de subir escadas fora um contraste efetivo com a inibio da segunda metade do 
sonho. Mostrou-me - o que no precisava de comprovao - que os sonhos no encontram nenhuma dificuldade em representar atos motores realizados com perfeio. (Basta 
recordarmos os sonhos de estar voando.)
          As escadas que eu subia, no entanto, no eram as de minha casa. De incio, deixei de perceb-lo, e somente a identidade da pessoa que encontrei esclareceu-me 
qual era o local pretendido. Essa pessoa era a criada da senhora que eu visitava duas vezes ao dia a fim de lhe aplicar injees [ver em [1]]; e as escadas eram 
tambm exatamente como as de sua casa, que eu tinha de subir duas vezes por dia.
          Ora, como entraram em meu sonho essas escadas e essa figura feminina? O sentimento de vergonha por no estar completamente vestido , sem dvida, de natureza 
sexual; mas a criada com quem sonhei era mais velha do que eu, era grosseira e estava longe de ser atraente. A nica resposta que me ocorreu para o problema foi 
esta: quando fazia minhas visitas matutinas a essa casa, eu costumava, em geral, ser tomado por um desejo de tossir ao subir a escadaria, e o produto de minha expectorao 
caa na escada, pois em nenhum dos pavimentos havia uma escarradeira; e a idia que eu tinha era que a limpeza das escadas no deveria ser mantida  minha custa, 
e sim possibilitada pela instalao de uma escarradeira. A zeladora, uma mulher igualmente idosa e grosseira (mas com instintos de limpeza, como eu estava pronto 
a admitir), encarava a questo de modo diferente. Ela ficava  minha espera para ver se mais uma vez eu me serviria livremente da escada e, quando constatava que 
eu o fizera, eu costumava ouvi-la resmungar em tom audvel; e por vrios dias depois disso, ela omitia o cumprimento habitual quando nos encontrvamos. Na vspera 
do sonho, o grupo de zeladoria recebera reforo sob a forma da criada. Como sempre, eu havia concludo minha rpida visita  paciente, quando a criada me interceptou 
no saguo e observou: "O senhor podia ter limpado os sapatos, doutor, antes de entrar na sala hoje. O senhor tornou a sujar todo o tapete vermelho com os ps." Esta 
era a nica razo para o aparecimento da escadaria e da criada em meu sonho.
          Havia uma conexo interna entre subir as escadas correndo e cuspir nos degraus. Tanto a faringite como os problemas cardacos so considerados castigos 
pelo vcio do fumo. E, em virtude desse hbito, minha reputao de zelo no era das melhores em minha prpria casa, quanto mais na outra; por isso as duas se fundiram 
no sonho.
          Devo aplicar a continuao de minha interpretao deste sonho at que possa explicar a origem do sonho tpico de estar incompletamente vestido. Assinalei 
apenas, como concluso provisria a ser tirada do presente sonho, que uma sensao de movimento inibido nos sonhos  produzida sempre que o contexto especfico a 
requer. A causa dessa parte do contedo do sonho no pode ter sido a ocorrncia de alguma modificao especial em meus poderes de movimentao durante o sono, j 
que apenas um momento antes eu me vira (quase como que para confirmar esse fato) subindo agilmente os degraus.
          
          (D) SONHOS TPICOS
          
          Em geral, no estamos em condies de interpretar um sonho de outra pessoa, a menos que ela se disponha a nos comunicar os pensamentos inconscientes que 
esto por trs do contedo do sonho. A aplicabilidade prtica de nosso mtodo de interpretar sonhos fica, por conseguinte, severamente restrita. Vimos que, como 
regra geral, cada pessoa tem liberdade de construir seu mundo onrico segundo suas peculiaridades individuais e assim torn-lo ininteligvel para outras pessoas. 
Parece agora, contudo, que, em completo contraste com isto, h um certo nmero de sonhos que quase todo o mundo tem da mesma forma e que estamos acostumados a presumir 
que tenham o mesmo sentido para todos. Alm disso, h um interesse especial ligado a esses sonhos tpicos porque, presumivelmente, eles decorrem das mesmas fontes 
em todos os casos e, assim, parecem particularmente aptos a esclarecer as fontes dos sonhos.
          , portanto, com expectativas muito particulares que tentaremos aplicar nossa tcnica de interpretao de sonhos tpicos; e  com grande relutncia que 
temos de confessar que nossa arte desaponta nossas expectativas precisamente em relao a esse material. Ao tentarmos interpretar um sonho tpico, o sonhador, em 
geral, deixa de produzir as associaes que em outros casos nos levariam a compreend-lo, ou ento suas associaes tornam-se obscuras e insuficientes, de modo que 
no conseguimos resolver nosso problema com sua ajuda. Veremos, numa parte posterior deste trabalho [Seo E do Captulo VI, em [1]], por que isso se d e como podemos 
compensar esse defeito em nossa tcnica. Meus leitores tambm descobriro o motivo por que, neste ponto, s posso abordar alguns membros do grupo de sonhos tpicos 
e preciso adiar meu exame dos demais at esse ponto ulterior de minha anlise. [Ver em [1]][2]]
          
          (D1) SONHOS EMBARAOSOS DE ESTAR DESPIDO
          
          Os sonhos de estar nu ou insuficientemente vestido na presena de estranhos ocorre, por vezes, com a caracterstica adicional de haver completa ausncia 
de um sentimento como o de vergonha por parte do sonhador. Interessam-nos aqui, entretanto, apenas os sonhos de estar nu em que de fato se sente vergonha e embarao 
e se faz uma tentativa de fugir ou esconder-se, sendo-se ento dominado por uma estranha inibio que impede os movimentos e faz o sujeito sentir-se incapaz de alterar 
sua constrangedora situao.Somente com este acompanhamento  que o sonho  tpico; sem ele, a essncia de seu tema pode ser includa em todas as variedades de contexto 
ou pode ser adornada com acompanhamentos individuais. Sua essncia [em sua forma tpica] est num sentimento aflitivo da ordem da vergonha e no fato de que se deseja 
ocultar a nudez, em geral pela locomoo, mas se constata estar impossibilitado de faz-lo. Creio que a grande maioria de meus leitores j ter estado nessa situao 
em sonho.
          A natureza do desalinho envolvido, usualmente, est longe de ser clara. O sonhador pode dizer "eu estava de camisola", mas esta raramente  uma imagem 
ntida. O tipo de desalinho costuma ser to vago que a descrio se expressa como uma alternativa: "Eu estava de camisola ou de angua." Em geral, a falha na toalete 
do sonhador no  to grave que parea justificar a vergonha a que d origem. No caso de um homem que tenha usado o uniforme do Imperador, a nudez  freqentemente 
substituda por alguma quebra do regulamento sobre os uniformes: "eu caminhava pela rua sem meu sabre e vi alguns oficiais vindo em minha direo", ou "Eu estava 
sem a gravata", ou ainda, "Eu estava usando calas civis" e assim por diante.
          As pessoas em cuja presena o sonhador sente vergonha so quase sempre estranhos, com traos indeterminados. No sonho tpico, nunca se d o caso de a roupa 
que causa tanto embarao suscitar objees ou sequer serpercebida pelos espectadores. Ao contrrio, elas adotam expresses faciais indiferentes ou (como observei 
num sonho particularmente claro) solenes e tensas. Este  um ponto sugestivo.
          O embarao do sonhador e a indiferena dos espectadores oferecem-nos, quando vistos em conjunto, uma daquelas contradies to comuns nos sonhos. Afinal 
de contas, estaria mais de acordo com os sentimentos do sonhador que os estranhos o olhassem com assombro e escrnio ou com indignao. Mas essa caracterstica objetvel 
da situao foi, a meu ver, descartada pela realizao do desejo, enquanto alguma fora conduziu  reteno das demais caractersticas; e duas partes do sonho ficam, 
conseqentemente, em desarmonia uma com a outra. Possumos uma prova interessante de que o sonho, na forma em que aparece - parcialmente distorcido pela realizao 
do desejo -. no foi corretamente entendido. Pois ele se tornou a base de um conto de fadas com que todos estamos familiarizados na verso de Hans Andersen - A Roupa 
Nova do Imperador -, e que foi recentemente posto em versos por Ludwig Fulda em seu ["conto de fadas dramtico"] O Talism. O conto de Hans Andersen relata-nos como 
dois impostores tecem para o Imperador um traje dispendioso que, segundo eles, s seria visvel para as pessoas de virtude e lealdade. O Imperador sai com essa vestimenta 
invisvel e todos os espectadores, intimados pelo poder do tecido de atuar como uma pedra de toque, fingem no notar a nudez do Imperador.
           esta exatamente a situao de nosso sonho. No chega a ser precipitado presumir que a ininteligibilidade do contedo do sonho, tal como ele existe na 
lembrana, o tenha levado a ser remodelado sob uma forma destinada a dar sentido  situao. Essa situao, todavia,  privada no processo de seu significado original 
e empregada em usos diferentes. Mas, como veremos adiante,  comum ao pensamento consciente de um segundo sistema psquico compreender mal o contedo de um sonho 
dessa maneira, e esse mal-entendido deve ser considerado um dos fatores na determinao da forma final assumida pelos sonhos. Ademais, veremos que mal-entendidos 
semelhantes (que ocorrem, mais uma vez, dentro de uma mesma personalidade psquica) desempenham papel preponderante na construo das obsesses e fobias.
          
          No caso de nosso sonho, estamos em condies de indicar o material em que se baseia a m interpretao. O impostor  o sonho e o Imperador  o prprio 
sonhador; o propsito moralizador do sonho revela um conhecimento obscuro do fato de que o contedo onrico latente diz respeito a desejos proibidos que foram vtimas 
do recalcamento. Pois o contexto em que esse tipo de sonhos aparece durante minhas anlises de neurticos no deixa dvida de que eles se baseiam em lembranas da 
mais tenra infncia. Somente na nossa infncia  que somos vistos em trajes inadequados, tanto por membros de nossa famlia como por estranhos - babs, criadas e 
visitas; e  s ento que no sentimos vergonha de nossa nudez. Podemos observar como o despir-se tem um efeito quase excitante em muitas crianas, mesmo em seus 
anos posteriores, em vez de faz-las sentir-se envergonhadas. Elas riem, pulam e se do palmadas, enquanto a me ou quem quer que esteja presente as reprova e diz: 
"Uh, que escndalo! Vocs nunca devem fazer isso!" As crianas freqentemente manifestam um desejo de se exibirem.  difcil passarmos por um vilarejo do interior 
em nossa parte do mundo sem encontrarmos um criana de dois ou trs anos levantando a camisinha diante de ns - em nossa homenagem, talvez. Um de meus pacientes 
guarda uma lembrana consciente de uma cena de seus oito anos quando, na hora de dormir, quis ir danar no quarto ao lado - onde dormia sua irmzinha -, vestindo 
seu camiso, mas foi impedido por sua bab. Na histria da mais tenra infncia dos neurticos, um importante papel  desempenhado pela exposio a crianas do sexo 
oposto; na parania, os delrios de estar sendo observado ao vestir-se e despir-se encontram sua origem nesse tipo de experincias, ao passo que, entre as pessoas 
que permanecerem no estgio da perverso, h uma categoria na qual esse impulso infantil alcana o nvel de um sintoma - a categoria dos "exibicionistas".
          Quando voltamos os olhos para esse perodo isento de vergonha na infncia, ele nos parece um paraso; e o prprio Paraso nada mais  do que uma fantasia 
grupal da infncia do indivduo. Por isso  que a humanidade vivia nua no Paraso, sem que um sentisse vergonha na presena do outro; at que chegou um momento em 
que a vergonha e a angstia despertaram, seguiu-se a expulso e tiveram incio a vida sexual e as tarefas da atividadecultural. Mas podemos reconquistar esse Paraso 
todas as noites em nossos sonhos. J expressei [em [1]] a suspeita de que as impresses da primeira infncia (isto , desde a poca pr-histrica at aproximadamente 
o final do terceiro ano de vida) lutam por alcanar sua reproduo, por sua prpria natureza independente, talvez, de seu contedo real, e que sua repetio constitui 
a realizao de um desejo. Portanto, os sonhos de estar despido so sonhos de exibio.
          O ncleo de um sonho de exibio situa-se na figura do prprio sonhador (no como era em criana, mas tal como aparece no presente) e em seu traje inadequado 
(que emerge indistintamente, seja em virtude de camadas superpostas de inmeras lembranas posteriores de estar desalinhado, seja como decorrncia da censura). Acrescentaram-se 
a isso as figuras das pessoas em cuja presena o sonhador se sente envergonhado. No sei de nenhum caso em que os espectadores reais da cena infantil de exibio 
tenham aparecido no sonho; o sonho raramente  uma lembrana simples. Curiosamente, as pessoas a quem era dirigido nosso interesse sexual na infncia so omitidas 
de todas as reprodues que ocorrem nos sonhos, na histeria e na neurose obsessiva.  s na parania que esses espectadores reaparecem e, embora permaneam invisveis, 
sua presena  inferida com um convico fantica. O que toma o lugar deles nos sonhos - "uma poro de estranhos" que no prestam a menor ateno ao espetculo 
oferecido - no  nada mais, nada menos, do que o contrrio imaginrio do nico indivduo conhecido diante de quem o sonhador se expunha. Alis, "uma poro de estranhos" 
aparece com freqncia nos sonhos em muitos outros contextos, representando sempre o oposto imaginrio do "sigilo".  de se observar que, at na parania, quando 
se restaura o estado de coisas original, essa inverso no oposto  observada. O sujeito sente que j no est sozinho, no tem nenhuma dvida de estar sendo observado, 
mas os observadores so "uma poro de estranhos" cuja identidade permanece curiosamente vaga.
          
          Alm disso, o recalcamento desempenha um papel nos sonhos de exibio, pois a aflio experimentada nesses sonhos  uma reao, por parte do segundo sistema, 
ao fato de o contedo da cena de exibio ter encontrado expresso a despeito do veto imposto a ele. Para que se evitasse a aflio, a cena nunca deveria ser revivida.
          Voltaremos posteriormente [em [1]]  sensao de estar inibido. Ela serve admiravelmente, nos sonhos, para representar um conflito da vontade ou uma negativa. 
O objetivo inconsciente requer que a exibio continue; a censura exige que ela cesse.
          No h dvida de que os vnculos entre nossos sonhos tpicos, os contos de fadas e o material de outros tipos de literatura criativa no so pouco nem 
acidentais. Por vezes acontece que o olhar penetrante de um escritor criativo tenha uma compreenso analtica do processo de transformao do qual ele no costuma 
ser mais do que o instrumento. Quando isso se d, ele pode seguir o processo em sentido inverso e, desse modo, identificar a origem do texto imaginativo num sonho. 
Um de meus amigos chamou-me a ateno para a seguinte passagem de Der grne Heinrich, de Gottfried Keller [Parte III, Captulo 2]: "Espero, meu caro Lee, que voc 
jamais aprenda por experincia prpria a verdade peculiar e maliciosa dos apuros de Ulisses quando apareceu, nu e coberto de lama, diante dos sonhos de Nauscaa 
e suas servas! Devo eu dizer-lhe como isso pode acontecer? Vejamos o nosso exemplo. Se voc estiver vagando por terras estranhas, longe de sua ptria e de tudo que 
lhe  caro, se tiver visto e ouvido muitas coisas, conhecido a tristeza e a inquietao, e se sentir desolado e desesperanado, ento infalivelmente sonhar, uma 
noite, que est se aproximando de casa; voc a ver resplandecente e iluminada nas mais vivas cores, e as mais doces, mais caras e mais amadas formas se encaminharo 
oem sua direo. Ento, subitamente, voc perceber que est em trapos, nu e empoeirado. Ser tomado de indizvel vergonha e terror, tentar encontrar abrigo e se 
esconder, e acordar banhado em suor. Este, enquanto respirarem os homens ser o sonho do viajante infeliz; e Homero evocou a imagem de seus apuros da mais profunda 
e eterna natureza do homem."
          A mais profunda e eterna natureza do homem, em cuja evocao nos seus ouvintes o poeta est acostumado a confiar, reside nos impulsos da mente que tm 
suas razes numa infncia que desde ento se tornou pr-histrica. Os desejos suprimidos e proibidos da infncia irrompem no sonho por trs dos desejos irrepreensveis 
do exilado que so capazes de penetrar na conscincia; e  pior isso que o sonho que encontra expresso concreta na lenda de Nauscaa termina, de hbito, com um 
sonho de angstia.
          
          Meu prprio sonho (registrado em [1]) de correr escada acima e de logo depois sentir-me colado aos degraus foi igualmente um sonho de exibio, j que 
traz as marcas essenciais desses sonhos. Deve ser possvel, portanto, buscar sua origem em experincias ocorridas durante minha infncia, e se estas puderam ser 
descobertas, elas nos possibilitaro julgar at que ponto o comportamento da criada em relao a mim - sua acusao de eu ter sujado o tapete - contribuiu para dar-lhe 
seu lugar em meu sonho. Casualmente, posso fornecer os pormenores necessrios. Numa psicanlise, aprende-se a interpretar a proximidade temporal como representiva 
de um vnculo temtico. [Ver em [1].] Duas idias que ocorrem em seqncia imediata e sem qualquer conexo aparente so, de fato, parte de uma s unidade que tem 
de ser descoberta, exatamente do mesmo modo que, seu eu escrever seqencialmente um "a" e um "b", eles tero de ser pronunciados como uma nica slaba, "ab". O mesmo 
se aplica aos sonhos. O sonho da escadaria a que me referi foi um de uma srie. Como esse sonho em particular estava cercado pelos demais, deveria estar versando 
sobre o mesmo assunto. Ora, esses outros sonhos baseavam-se na lembrana de uma bab a cujos cuidados estive entregue desde alguma data em minha mais tenra infncia 
at os dois anos e meio. Chego at a guardar dela uma obscura lembrana consciente. Segundo o que me contou minha me h no muito tempo, ela era velha e feia, mas 
muito perspicaz e eficiente. Do que posso inferir de meus prprios sonhos, o tratamento que ela dispensava no era sempre excessivo em amabilidades, e suas palavras 
podiam ser rspidas se eu deixasse de atingir o padro de limpeza exigido. E assim, a criada, uma vez que tomara a si a tarefa de dar prosseguimento a esse trabalho 
educacional, adquiriu o direito de ser tratada, em meu sonho, como uma reencarnao da velha bab pr-histrica.  razovel supor que o menino amasse a velha que 
lhe ensinava essas lies, apesar do tratamento rspido que ela lhe dispensava. [1]
          
           (D2) SONHOS SOBRE A MORTE DE PESSOAS QUERIDAS
          
          Outro grupo de sonhos que podem ser qualificados de tpicos so os que contm a morte de um parente amado - por exemplo, de um dos pais, de um irmo ou 
irm ou de um filho. Duas classes desses sonhos devem ser distinguidas de imediato: aqueles em que o sonhador no  afetado pela tristeza e, ao acordar, fica atnito 
ante sua falta de sentimentos, e aqueles em que o sonhador fica profundamente abalado com essa morte e pode at chorar amargamente durante o sono.
          No precisamos examinar os sonhos da primeira dessas classes, pois no h justificativa para que eles sejam considerados "tpicos". Se os analisarmos, 
veremos que tm um sentido diverso do sentido aparente e que se destinam a ocultar algum outro desejo. Assim foi o sonho da tia que viu o nico filho da irm deitado 
em seu caixo. (Ver em [1].) Aquilo no significava que ela desejasse ver o sobrinhozinho morto; como vimos, ocultava meramente o desejo de ver uma determinada pessoa 
que ela um dia encontrara, depois de um intervalo similarmente longo, junto ao caixo de um outro sobrinho. Esse desejo, que foi o verdadeiro contedo do sonho, 
no dava margem  tristeza e, por conseguinte, nenhuma tristeza foi sentida no sonho. Convm notar que o afeto vivenciado no sonho pertence a seu contedo latente, 
e no ao contedo manifesto, e que o contedo afetivo do sonho permaneceu intocado pela distoro que se apoderou de seu contedo de representaes.
          Muito diferentes so os sonhos da outra classe - aqueles em que o sonhador imagina a morte de um ente querido e fica, ao mesmo tempo, dolorosamente afetado. 
O sentido desses sonhos, como indica seu contedo,  um desejo de que a pessoa em questo venha a morrer. E, como devo esperar que os sentimentos de todos os meus 
leitores e os de quaisquer outras pessoas que tenham tido sonhos similares se rebelem contra minha afirmativa, devo tentar fundamentar minhas provas disso na mais 
ampla base possvel.
          J examinei um sonho que nos ensinou que os desejos representados nos sonhos como realizados nem sempre so desejos atuais. Podem tambm ser desejos do 
passado, que foram abandonados, recobertos por outros e recalcados, e aos quais temos de atribuir uma espcie de existncia prolongada apenas em funo de sua reemergncia 
num sonho. Eles no esto mortos em nosso sentido da palavra, mas so apenas como as sombras da Odissia,que despertavam para alguma espcie de vida to logo provavam 
sangue. No sonho da criana morta na "caixa" (em [1]-[2]), o que estava em jogo era um desejo que fora imediato quinze anos antes, e que foi francamente admitido 
como existente naquela poca. Posso acrescentar - e talvez isso no deixe de ter uma relao com a teoria dos sonhos - que mesmo por trs desse desejo havia uma 
lembrana da mais remota infncia da sonhadora. Quando era pequenina - a data exata no pde ser fixada com certeza -, ela ouviu dizer que sua me cara em profunda 
depresso durante a gravidez da qual ela foi o fruto, e que havia desejado ardentemente que a criana que trazia no ventre pudesse morrer. Quando a prpria sonhadora 
cresceu e engravidou, simplesmente seguiu o exemplo da me.
          Quando algum sonha, com todos os sinais de dor, que seu pai, me, irmos ou irm morreu, eu jamais usaria esse sonho como prova de que ele deseja a morte 
dessa pessoa no presente. A teoria dos sonhos no exige tanto assim; ela se satisfaz com a inferncia de que essa morte foi desejada numa outra ocasio durante a 
infncia do sonhador. Temo, porm, que essa ressalva no apazige os opositores; eles negaro qualquer possibilidade de terem jamais nutrido essa idia, com a mesma 
energia com que insistem em que no abrigam nenhum desejo dessa natureza agora. Devo, por isso, reconstruir parte da vida mental desaparecida das crianas com base 
na evidncia do presente.
          Consideremos, primeiro, a relao das crianas com seus irmos e irms. No sei por que pressupomos que essa relao deva ser amorosa, pois os exemplos 
de hostilidade entre irmos e irms adultos impe-se  experincia de todos, e  freqente podermos estabelecer o ato de que essa desunio se originou na infncia 
ou sempre existiu. Mas  tambm verdade que inmeros adultos, que mantm relaes afetuosas com seus irmos e irms e esto prontos a apoi-los hoje, passaram sua 
infncia em relaes quase ininterruptas de inimizade com eles. O filho mais velho maltrata o mais novo, fala mal dele e rouba-lhe os brinquedos, ao passo que o 
mais novo se consome num dio impotente contra o mais velho, a quem inveja e teme, ou enfrenta seu opressor com os primeiros sinais do amor  liberdade e com um 
senso de justia. Seus pais queixam-se de que as crianas no se do bem, mas no conseguem descobrir por qu.  fcil perceber que o carter at mesmo de uma criana 
boa no  o que desejaramos encontrar num adulto. As crianasso completamente egostas; sentem suas necessidades intensamente e lutam de maneira impiedosa para 
satisfaz-las - especialmente contra os rivais, outras crianas, e, acima de qualquer outra coisa, contra seus irmos e irms. Mas nem por isso chamamos uma criana 
de "m": chamamo-la de "levada"; ela  mais responsvel por seus malfeitos em nosso julgamento do que ante os olhos da lei. E  certo que seja assim, pois podemos 
esperar que, antes do fim do perodo que consideramos como infncia, os impulsos altrustas e a moralidade despertem no pequenino egosta e (para usar os termos 
de Meynert [por exemplo, 1892, em [1]]) um ego secundrio se superponha ao primrio e o iniba.  verdade, sem dvida, que a moral no se instala simultaneamente 
ao longo de todo o processo e que a extenso da infncia amoral varia nos diferentes indivduos. Quando essa moral deixa de se desenvolver , gostamos de falar em 
"degenerao", embora estejamos de fato diante de uma inibio do desenvolvimento. Depois de j ter sido recoberto pelo desenvolvimento posterior, o carter primrio 
pode ainda ser exposto, pelo menos em parte, nos casos de doena histrica. H uma semelhana realmente impressionante entre o que se conhece como carter histrico 
e o carter de uma criana levada. A neurose obsessiva, ao contrrio, corresponde a uma supermoralidade imposta como um peso de reforo aos primeiros sinais do carter 
primrio.
          Muitas pessoas, portanto, que amam seus irmos e irms e se sentiriam desoladas se eles morressem, abrigam desejos malficos contra eles em seu inconsciente, 
datando de pocas anteriores; e estes so passveis de se realizarem nos sonhos.
           de particular interesse, contudo, observar o comportamento das criancinhas de at dois ou trs anos, ou um pouco mais velhas, para com seus irmos e 
irms menores. Havia, por exemplo, o caso de uma criana que at ento fora filha nica; e eis que lhe dizem que a cegonha trouxe um novo beb. Ela examina o recm-chegado 
de alto a baixo e declara decisivamente: "A cegonha pode levar ele embora de novo!" Sou seriamente de opinio que uma criana  capaz de fazer uma estimativa justa 
dos contratempos que terde esperar nas mos do pequeno estranho. Uma senhora conhecida minha, que hoje se d muito bem com uma irm quatro anos mais nova, contou-me 
que recebeu a notcia da chegada desta com a seguinte ressalva: "Mas mesmo assim no vou dar a ela minha boina vermelha." Mesmo que s mais tarde a criana venha 
a compreender a situao, sua hostilidade datar desse momento. Sei de um caso em que uma menininha de menos de trs anos tentou estrangular um beb em seu bero 
por achar que sua presena contnua no lhe fazia bem. As crianas nessa poca da vida so capazes de cimes com diversos graus de intensidade e evidncia. Do mesmo 
modo, na eventualidade de a irmzinha de fato desaparecer aps algum tempo, a criana mais velha ver toda a afeio da casa novamente concentrada nela. Se, depois 
disso, a cegonha trouxer mais um outro beb,  bastante lgico que o pequeno favorito alimente o desejo de que seu novo competidor tenha o mesmo destino do primeiro, 
para que ele prprio possa ser to feliz quanto era originalmente e durante o intervalo. Normalmente,  claro,  essa atitude de uma criana para com o indefeso 
recm-nascido.
          Os sentimentos hostis para com os irmos e irms devem ser muito mais freqentes na infncia do que  capaz de perceber o olhar distrado do observador 
adulto.
          No caso de meus prprios filhos, que surgiram uns aos outros em rpida sucesso, perdi a oportunidade de fazer esse tipo de observaes; mas estou agora 
compensando essa negligncia atravs da observao de um sobrinhozinho cuja dominao autocrtica foi abalada, aps uma durao de quinze meses, pelo aparecimento 
de um rival.  verdade que estou informado de que o rapazinho se comporta da maneira mais cavalheiresca para com sua irmzinha, de que beija sua mo e a afaga; mas 
pude convencer-me de que, antes mesmo do final de seu segundo ano, ele se valeu de seus poderes de fala para criticar algum a quem no podia deixar de considerar 
suprfluo. Sempre que a conversa se voltava para ela, ele costumava intervir e exclamar com petulncia: "Muito f'acota, muito f'acota!" Durante os ltimos meses, 
o crescimento da nenm fez progressos suficientes para coloc-la fora do alcance desse motivo especfico de desprezo, e o garotinho encontrou outra base para sua 
afirmao de que ela no merece tanta ateno assim: em todas as ocasies propcias, ele chama ateno para o fato de que ela no tem dentes. Todos nos lembramos 
de como a filha mais velha de outra irm minha, que era ento uma menina de seis anos, passou meia hora insistindo junto a cada uma de suas tias, sucessivamente, 
para que concordassem com ela: "Lucie ainda no entende isso, no ?", ficava a perguntar. Lucie era sua rival - dois anos e meio mais nova do que ela.
          Em nenhuma de minhas pacientes, para citar um exemplo, deixei de esbarrar nesse sonho com a morte de um irmo ou de uma irm, correspondendo a um aumento 
da hostilidade. S encontrei uma nica exceo, e foi fcil interpret-la como uma confirmao da regra. Numa ocasio, durante uma sesso analtica, explicava esse 
assunto a uma senhora, j que, em vista de seu sintoma, a discusso do tema me parecia relevante. Para meu assombro, ela respondeu nunca ter tido um desse sonhos. 
Entretanto, ocorreu-lhe outro sonho que, aparentemente, no tinha nenhuma relao com o assunto - um sonho que ela tivera primeira vez quando estava com quatro anos 
e era ainda a caula da famlia, e que havia sonhado repetidamente desde ento: "Uma multido de crianas - todas suas irms e irmos, e primos de ambos os sexos 
- brincava ruidosamente num campo. De repente, todas criaram asas, voaram para longe e desapareceram. Ela no tinha nenhuma idia do sentido desse sonho, mas no 
 difcil reconhecer que, em sua forma original, ele fora um sonho sobre a morte de todos os seus irmos e irms, e s fora ligeiramente influenciado pela censura. 
Posso ousar sugerir a seguinte anlise. Por ocasio da morte de um membro dessa multido de crianas (nesse exemplo, os filhos de dois irmos tinham sido criados 
juntos como uma s famlia), a sonhadora, que ainda no completara quatro anos na poca, deve ter perguntado a algum adulto sensato o que acontecia com as crianas 
quando elas morriam. A resposta deve ter sido: "Elas criam asas e viram anjinhos." No sonho que se seguiu a essa informao, todos os irmos e irms da sonhadora 
tinham asas como pequenos anjos e -  este o ponto principal - voavam para longe. Nossa pequena antiacida ficou s, por mais estranho que isso parecesse: a nica 
sobrevivente do grupo inteiro!  improvvel que estejamos errados em supor que o fato de as crianas brincarem ruidosamente num campo antes de voarem para longe 
aponta para as borboletas.  como se a menina tivesse sido levada, pela mesma cadeia de idias dos povos da Antiguidade, a imaginar a alma com asas de borboleta.
          Neste ponto, algum talvez interrompa: "Admitindo-se que as crianas tenham impulsos hostis em relao a seus irmos e irms, como pode a mente de uma 
criana chegar a tal extremo de depravao, a ponto de desejar a morte de seus rivais ou de coleguinhas mais fortes do que ela, como se a pena de morte fosse a nica 
punio para todos os crimes?" Quem quer que fale assim ter deixado de levar em conta que a idia infantil de estar "morto" pouco tem em comum com a nossa, a no 
ser por essa palavra. As crianas nada sabem dos horrores da decomposio que as pessoas adultas acham to difcil de tolerar, como  provado por todos os mitos 
de uma vida futura. O medo da morte no tem nenhum sentido para uma criana; da ela brincar com a palavra terrvel e us-la como ameaa contra algum coleguinha: 
"Se voc fizer isso de novo, voc vai morrer, como Franz!" Entrementes, a pobre me estremece e se lembra, talvez, de que a maior parte da raa humana no consegue 
sobreviver aos anos de infncia. Foi efetivamente possvel a um menino, que tinha mais de oito anos nessa poca, dizer a sua me, ao voltar de uma visita ao Museu 
de Histria Natural: "Gosto tanto de voc, Mame! Quando voc morrer, vou mandar empalh-la neste quarto, para poder ver voc o tempo todo". Como  pequena a semelhana 
entre a idia que uma criana faz da morte e a nossa!
          Para as crianas que, alm disso, so poupadas da viso de cenas de sofrimento que precedem a morte, estar "morto" significa aproximadamente o mesmo que 
ter "ido embora" - ter deixado de incomodar os sobreviventes. A criana no estabelece nenhuma distino quanto ao modo como essa ausncia  provocada: se  devido 
a uma viagem, a uma demisso, a uma eparao ou  morte. Quando, durante a fase pr-histrica de uma criana, sua bab  despedida, e quando logo depois que sua 
me morre, esses dois eventos se sobrepem numa srie nica em sua memria, como  revelado pela anlise. Quando as pessoas esto ausentes, as crianas no sentem 
falta delas com grande intensidade; muitas mes aprenderam isso, para sua tristeza, quando, aps ficarem longe de casa por algumas semanas nas frias de vero, so 
recebidas, na volta, com a notcia de que nem uma s vez os filhos perguntaram por Mame. Quando a me realmente viaja para "aquele pas inexplorado de cujas fronteiras 
nenhum viajante regressa", de incio, parecem esquec-la, e s depois  que comeam a lembrar-se da me morta.
          Assim, quando uma criana tem motivos para desejar a ausncia de outra, nada h que a impea de dar a seu desejo a forma da morte da outra criana. E a 
reao psquica aos sonhos que contm desejos de morte prova que, apesar do contedo diferente desses desejos no caso das crianas, eles so, no obstante, de uma 
maneira ou de outra, idnticos aos desejos expressos nos mesmos termos pelos adultos.
          Mas, se os desejos de morte de uma criana contra seus irmos e irms so explicados pelo egosmo infantil que a faz consider-los seus rivais, como iremos 
explicar seus desejos de morte contra seus pais, que a cercam de amor e suprem suas necessidades, e cuja preservao esse mesmo egosmo deveria lev-la a desejar?
          Uma soluo para essa dificuldade  fornecida pela observao de que os sonhos com a morte de pais se aplicam com freqncia preponderante ao genitor do 
mesmo sexo do sonhador, isto , que os homens sonham predominantemente com a morte do pai, e as mulheres, com a morte da me. No posso afirmar que isso ocorra universalmente, 
mas a preponderncia no sentido que indiquei  to evidente que precisa ser explicada por um fator de importncia geral. Dito sem rodeios,  como se uma preferncia 
sexual se fizesse sentir numa tenra idade: como se os meninos olhassem o pai, e as meninas a me como seus rivais no amor, rivais cuja eliminao no poderia deixar 
de trazer-lhes vantagens.
          Antes que essa idia seja rejeitada como monstruosa,  conveniente, tambm nesse caso, considerar as relaes reais vigentes - desta vez, entre pais e 
filhos. Devemos distinguir entre o que os padres culturais de devoo filial exigem dessa relao e o que a observao cotidiana mostra ser a realidade. Mais de 
uma causa de hostilidade se esconde na relao entre pais e filhos - uma relao que propicia as mais amplas oportunidades de surgimento de desejos que no podem 
passar pela censura.
          Consideremos, primeiramente, a relao entre pai e filho. A sacralidade que atribumos aos mandamentos explicitados no Declogo tem toldado, penso eu, 
nossa capacidade de perceber os atos reais. Mal parecemos ousar observar que a maior parte da humanidade desobedece o Quinto Mandamento. Tanto nas camadas mais baixas 
como nos retratos mais elevados da sociedade humana, a devoo filial tem o hbito de ceder a outros interesses. As obscuras informaes que nos so trazidas pela 
mitologia e pelas lendas das eras primitivas da sociedade humana fornecem-nos uma imagem desagradvel do poder desptico do pai e da crueldade com que ele o usava. 
Cronos devorou seus filhos, tal como o javali devora as crias da javalina, enquanto Zeus castrou o pai, fazendo-se rei em seu lugar. Quanto mais irrestrita era a 
autoridade paterna na famlia antiga, mais precisava o filho, como seu sucessor predestinado, descobrir-se na posio de um inimigo, e mais impaciente devia ficar 
para tornar-se chefe, ele prprio, atravs da morte do pai. Mesmo em nossas famlias de classe mdia, os pais se inclinam, via de regra, a recusar a seus filhos 
a independncia e os meios necessrios para obt-la, fomentando assim o crescimento do germe de hostilidade e que  inerente  sua relao. Um mdico estar freqentemente 
em condio de notar como a tristeza de um filho pela morte do pai no consegue suprimir sua satisfao por ter finalmente conquistado sua liberdade. Em nossa sociedade 
de hoje, os pais tendem a se agarrar desesperadamente ao que resta de uma potestas patris familias agora tristemente antiquada; e o autor que, como Ibsen, destaca 
em seu escritos a luta memorial entre pais e filhos pode ter certeza de produzir um efeito.
          As causas de conflito entre filha e me surgem quando a filha comea a crescer e ansiar por liberdade sexual, mas se descobre sob a tutela da me, enquanto 
esta, por outo lado,  advertida pelo crescimento da filha de que  chegado o momento em que ela prpria deve abandonar suas apropriaes  satisfao sexual.
          Tudo isso fica patente aos olhos de todos. Mas no nos ajuda em nosso esforo de explicar os sonhos com a morte dos pais em pessoas cuja devoo a eles 
foi irrepreensivelmente estabelecida h muito tempo. As discusses precedentes, alm disso, ter-nos-o preparado para saber que o desejo de morte contra os pais 
remonta  primeira infncia.
          Essa suposio confirmada, com uma certeza que no deixa margem a dvidas, no caso dos psiconeurticos, quando sujeitos  anlise. Com eles aprendemos 
que os desejos sexuais de uma criana - se  que, em seu estgio embrionrio, eles meream ser chamados assim - despertam muito cedo, e que o primeiro amor da menina 
 por seu pai, enquanto os primeiros desejos infantis do menino so pela me. Por conseguinte, o pai se transforma num rival pertubador para o menino, e a me, para 
a menina; e j demonstrei, no caso dos irmos e irms, com que facilidade esses sentimentos podem levar a um desejo de morte. Tambm os pais do mostras, em geral, 
da parcialidade sexual: uma predileo natural costuma fazer com que o homem tenda a mimar excessivamente suas filhinhas, enquanto sua mulher toma o partido dos 
filhos homens, muito embora os dois, quando seu julgamento no  perturbado pela magia do sexo, mantenham uma rigorosa fiscalizao sobre a educao dos filhos. 
A criana est perfeitamente ciente dessa parcialidade e se volta contra aquele de seus pais que se ope a demonstr-la. Ser amada por um adulto no traz para a 
criana apenas a satisfao de uma necessidade especial; significa igualmente que ele conseguir o que quiser tambm em todos os demais aspectos. Assim, ele estar 
seguindo sua prpria pulso sexual e, ao mesmo tempo, conferindo um novo vigor  inclinao demonstrada por seus pais, se sua escolha entre eles coincidir com a 
deles.
          Os sinais dessas preferncias infantis, em sua maior parte, passam despercebidos; no entanto, alguns deles podem ser observados mesmo depois dos primeiros 
anos da infncia. Uma menina de oito anos a quem conheo, quando sua me  chamada a se afastar da mesa, aproveita essa ocasio para proclamar-se sua sucessora: 
"Agora, eu vou ser a Mame. Voc quer mais verduras, Karl? Ento se sirva!" e assim por diante. Uma menina de quatro anos, particularmente dotada e esperta, em quem 
esse dado da psicologia infantil  especialmente visvel, declarou com toda franqueza: Mame agora pode ir embora. A Papai vai ter que casar comigo e eu vou ser 
mulher dele." O fato de tal desejo ocorrer numa criana no  absolutamente incompatvel com o estar ternamente ligada  me. Um menino a quem se permite que durma 
ao lado da me enquanto o pai est fora de casa, mas que tem de voltar para o quarto das crianas e para alguma pessoa de quem gosta muito menos to logo o pai retorna, 
pode facilmente comear a formar um desejo de que o pai esteja sempre ausente, de modo que ele prprio possa conservar seu lugar ao lado da querida e adorvel Mamezinha. 
Uma maneira bvia de concretizar esse desejo seria se o pai estivesse morto, pois a criana aprendeu uma coisa com a experincia - a saber, que as pessoas "mortas", 
como o Vov, esto sempre ausentes e nunca mais voltam.
          Embora essas observaes sobre crianas pequenas se ajustem perfeitamente  interpretao que propus, elas no transmitem uma convico to completa quanto 
a que  imposta ao mdico pelas psicanlises de neurticos adultos. No segundo caso, os sonhos do tipo que estamos considerando so introduzidos na anlise num contexto 
tal que  impossvel evitar interpret-los como sonhos de realizao de desejos.
          Certo dia, uma de minhas pacientes se achava num estado aflito e choroso. "Nunca mais quero rever meus parentes", disse ela; "eles devem achar que sou 
horrvel." Prosseguiu ento, quase sem transio alguma, dizendo que se lembrava de um sonho, embora, naturalmente, no tivesse nenhuma idia do que ele significava. 
Quando tinha quatro anos, ela sonhara que um lince ou uma raposa estava andando no telhado; ento alguma coisa cara, ou ela havia cado; e depois, sua me fora 
levada para fora de casa, morta - e ela chorou amargamente. Eu lhe disse que esse sonho devia significar que, quando criana, ela teria desejado ver a me morta, 
e devia ser por causa do sonho que ela achava que seus parentes deviam julg-la horrvel. Mal acabei de dizer isso, ela forneceu um material que lanou luz sobre 
o sonho. "Olho de lince" era um xingamento que lhe fora dirigido por um moleque de rua quando ela era muito pequena. Quando tinha trs anos de idade, uma telha cara 
na cabea de sua me, fazendo-a sangrar abundantemente.
          Tive certa vez a oportunidade de proceder a um estudo pormenorizado de uma jovem que passara por uma multiplicidade de condies psquicas. Sua doena 
comeou com um estado de excitao confusional durante o qual ela exibiu uma averso toda especial pela me, batendo nela e tratando-a com grosseria toda vez que 
ela se aproximava de sua cama, ao passo que, nesse mesmo perodo, mostrava-se dcil e afetuosa para com uma irm muitos anos mais velha que ela. Seguiu-se um estado 
em que ela ficou lcida, mas um tanto aptica e sofrendo de um sono muito agitado. Foi durante essa fase que comecei a trat-la e a analisar seus sonhos. Um imenso 
nmero desses sonhos dizia respeito, com maior ou menor grau de disfarce,  morte da me: numa ocasio, ela comparecia ao enterro de uma velha; noutra, ela e a irm 
estavam sentadas  mesa, trajadas de luto. No havia nenhuma dvida quanto ao sentido desses sonhos.  medida que seu estado foi melhorando ainda mais, surgiram 
fobias histricas. A mais torturante delas era o medo de que algo pudesse ter acontecido  sua me. A moa era obrigada a correr para casa, de onde quer que estivesse, 
para se convencer de que a me ainda estava viva. Este caso, considerado em conjunto com o que eu havia aprendido de outras fontes, foi muito instrutivo: exibia, 
traduzidos, por assim dizer, em diferentes lnguas, os vrios modos pelos quais o aparelho psquico reagiu a uma mesma representao excitante. No estado confusional, 
no qual, segundo creio, a segunda instncia psquica foi dominada pela primeira, que  normalmente suprimida, sua hostilidade inconsciente para com a me encontrou 
uma poderosa expresso motora. Quando se instalou o estado mais calmo, reprimida a rebelio e restebelecido o domnio da censura, a nica regio acessvel em que 
sua hostilidade poderia realizar o desejo da morte da me era a regio do sonho. Quando um estado normal se estabeleceu ainda mais firmemente, levou  confirmao 
de sua preocupao exagerada com a me, como uma contra-reao histrica e um fenmeno defensivo. Em vista disso, j no  difcil compreender por que as moas histricas 
so tantas vezes apegadas a suas mes com um afeto to exagerado.
          
          Numa outra ocasio, tive oportunidade de aceder a uma compreenso profunda da mente inconsciente de um rapaz cuja vida se tornara quase impossvel em virtude 
de uma neurose obsessiva. Ele estava impossibilitado de sair  rua porque era torturado pelo medo de matar toda pessoa que encontrasse. Passava seus dias preparando 
um libi para a eventualidade de ser acusado de um dos assassinatos cometidos na cidade. Desnecessrio acrescentar que era um homem de moral e educao igualmente 
elevadas. A anlise (que, alis, o levou a recuperar-se) mostrou que a base dessa torturante obsesso era um impulso de assassinar seu pai extremamente severo. Esse 
impulso, para surpresa dele, fora conscientemente expressado quando ele tinha sete anos, mas se originara,  claro, numa fase muito anterior de sua infncia. Aps 
a penosa doena e a morte do pai, surgiram no paciente as auto-recriminaes obsessivas - ele contava ento 31 anos -, tomando a forma de uma fobia transferida para 
estranhos. No se podia confiar, achava ele, em que uma pessoa capaz de querer empurrar o prprio pai para o precipcio, do alto de uma montanha, fosse respeitar 
as vidas daqueles com quem tivesse uma relao menos estreita; ele tinha toda a razo de se fechar em seu quarto. [1]
          Em minha experincia, que j  extensa, o papel principal na vida mental de todas as crianas que depois se tornam psiconeurticas  desempenhado por seus 
pais. Apaixonar-se por um dos pais e odiar o outro figuram entre os componentes essenciais do acervo de impulsos psquicos que se formam nessa poca e que  to 
importante na determinao dos sintomas da neurose posterior. No  minha crena, todavia, que os psiconeurticos difiram acentuadamente, nesse aspectos, dos outros 
seres humanos que permanecem normais - isto , que eles sejam capazes de criar algo absolutamente novo e peculiar a eles prprios.  muito mais provvel - e isto 
 confirmado por observaes ocasionais de crianas normais -, que eles se diferenciem apenas por exibirem, numa escala ampliada, sentimentos de amor e dio pelos 
pais, os quais ocorrem de maneira a menos bvia e intensa nas mentes da maioria das crianas.
          Essa descoberta  confirmada por uma lenda da Antiguidade clssica que chegou at ns: uma lenda cujo poder profundo e universal de comover s pode ser 
compreendido se a hiptese que propus com respeito  psicologia infantil tiver validade igualmente universal. O que tenho em mente  a lenda do Rei dipo e a tragdia 
de Sfocles que traz o seu nome.
          
          dipo, filho de Laio, Rei de Tebas, e de Jocasta, foi enjeitado quando criana porque um orculo advertira Laio de que a criana ainda por nascer seria 
o assassino de seu pai. A criana foi salva e cresceu como prncipe numa corte estrangeira, at que, em dvida quanto a sua origem, tambm ele interrogou o orculo 
e foi alertado para evitar sua cidade, j que estava predestinado a assassinar seu pai e receber sua me em casamento. Na estrada que o levava para longe do local 
que ele acreditara ser seu lar, encontrou-se com o Rei Laio e o matou numa sbita rixa. Em seguida dirigiu-se a Tebas e decifrou o enigma apresentado pela Esfinge 
que lhe barrava o caminho. Por gratido, os tebanos fizeram-no rei e lhe deram a mo de Jocasta em casamento. Ele reinou por muito tempo com paz e honra, e aquela 
que, sem que ele o soubesse, era sua me, deu-lhe dois filhos e duas filhas. Por fim, ento, irrompeu uma peste e os tebanos mais uma vez consultaram o orculo. 
 nesse ponto que se inicia a tragdia de Sfocles. Os mensageiros trazem de volta a resposta de que a peste cessar quando o assassino de Laio tiver sido expulso 
do pas.
          Mas ele, onde est ele? Onde se h de ler agoraO desbotado registro dessa culpa de outrora?
          A ao da pea no consiste em nada alm do processo de revelao, com engenhosos adiamentos e sensao sempre crescente - um processo que pode ser comparado 
ao trabalho de uma psicanlise - de que o prprio dipo  o assassino de Laio, mas tambm de que  o filho do homem assassinado e de Jocasta. Estarrecido ante o 
ato abominvel que inadvertidamente perpetrara, dipo cega a si prprio e abandona o lar. A predio do orculo fora cumprida.
          Oedipus Rex  o que se conhece como uma tragdia do destino. Diz-se que seu efeito trgico reside no contraste entre a suprema vontade dos deuses e as 
vs tentativas da humanidade de escapar ao mal que a ameaa. A lio que, segundo se afirma, o espectador profundamente comovido deve extrair da tragdia  a submisso 
 vontade divina e o reconhecimento de sua prpria impotncia. Os dramaturgos modernos, por conseguinte, tentaram alcanar um efeito trgico semelhante, tecendo 
o mesmo contraste num enredo inventado por eles mesmos. Mas os espectadores ficaram a contemplar, impassveis, enquanto uma praga ou um vaticnio oracular se realizava 
apesar de todos os esforos de algum homem inocente: as tragdias do destino posteriores falharam em seu efeito.
          
          Se Oedipus Rex comove tanto uma platia moderna quanto fazia com a platia grega da poca, a explicao s pode ser que seu efeito no est no contraste 
entre o destino e a vontade humana, mas deve ser procurado na natureza especfica do material com que esse contraste  exemplificado. Deve haver algo que faz uma 
voz dentro de ns ficar pronta a reconhecer a fora compulsiva do destino no Oedipus, ao passo que podemos descartar como meramente arbitrrios os desgnios do tipo 
formulado em die Ahnfrau [de Grillparzer] ou em outras modernas tragdias do destino. E h realmente um fator dessa natureza envolvido na histria do Rei dipo. 
Seu destino comove-nos apenas porque poderia ter sido o nosso - porque o orculo lanou sobre ns, antes de nascermos, a mesma maldio que caiu sobre ele.  destino 
de todos ns, talvez, dirigir nosso primeiro impulso sexual para nossa me, e nosso primeiro dio e primeiro desejo assassino, para nosso pai. Nossos sonhos nos 
convencem de que  isso o que se verifica. O Rei dipo, que assassinou Laio, seu pai, e se casou com Jocasta, sua me, simplesmente nos mostra a realizao de nossos 
prprios desejos infantis. Contudo, mais afortunados que ele, entrementes conseguimos, na medida em que no nos tenhamos tornado psiconeurticos, desprender nossos 
impulsos sexuais de nossas mes e esquecer nosso cime de nossos pais. Ali est algum em quem esses desejos primevos de nossa infncia foram realizados, e dele 
recuamos com toda a fora do recalcamento pelo qual esses desejos, desde aquela poca, foram contidos dentro de ns. Enquanto traz  luz,  medida que desvenda o 
passado, a culpa de dipo, o poeta nos compele, ao mesmo tempo, a reconhecer nossa prpria alma secreta, onde esses mesmos impulsos, embora suprimidos, ainda podem 
ser encontrados. O contraste com que nos confronta o coro final -
          
          Fitai de dipo o horror,
          Dele que o obscuro enigma desvendou, mais nobre e sapiente vencedor. Alto no cu sua 'estrela se acendeu, ansiada e irradiante de esplendor: Ei-lo que 
em mar de angstia submergiu, calcado sob a vaga em seu furor.
          
          -tem o impacto de uma advertncia a ns mesmos e a nosso orgulho, ns que, desde nossa infncia, tornamo-nos to sbios e to poderosos ante nossos prprios 
olhos. Como dipo, vivemos na ignorncia desses desejos repugnantes  moral, que nos foram impostos pela Natureza; e aps sua revelao,  bem possvel que todos 
busquemos fechar os olhos s cenas de nossa infncia.
          H uma indicao inconfundvel no texto da prpria tragdia de Sofocles, de que a lenda de dipo brotou de algum material onrico primitivo que tinha como 
contedo a aflitiva perturbao da relao de uma criana com seus pais, em virtude dos primeiros sobressaltos da sexualidade. Num ponto em que dipo, embora no 
tenha sido ainda esclarecido, comea a se sentir perturbado por sua recordao do orculo, Jocasta o consola fazendo referncia a um sonho que muitas pessoas tm, 
ainda que, na opinio dela, no tenha nenhuma sentido:
          
          Muito homem desde outrora em sonhos tem deitado
          Com aquela que o gerou. Menos se aborrece
          Quem com tais pressgios sua alma no perturba.
          
          Hoje, tal como outrora, muitos homens sonham ter relaes sexuais com suas mes, e mencionarm esse fato com indignao e assombro. Essa  claramente a 
chave da tragdia e o complemento do sonho de o pai do sonhador estar morto. A histria de dipo  a reao da imaginao a esses dois sonhos tpicos. E, assim como 
esses sonhos, quando produzidos por adultos, so acompanhados por sentimentos de repulsa, tambm a lenda precisa incluir horror e autopunio. Sua modificao adicional 
se origina, mais uma vez, numa mal concebida elaborao secundria do material, que procurou explor-la para fins teolgicos. (Cf. o material onrico dos sonhos 
de exibio, em [1]) A tentativa de harmonizar a onipotncia divina com a responsabilidade humana deve, naturalmente, falhar em relao a esse tema, tal como em 
relao a qualquer outro.
          Outra das grandes criaes da poesia trgica, o Hamlet de Shakespeare, tem suas razes no mesmo solo que Oedipus Rex. Mas o tratamento modificado do mesmo 
material revela toda a diferena na vida mental dessas duas pocas, bastante separadas, da civilizao: o avano secular do recalcamento na vida emocional da espcie 
humana. No Oedipus, a fantasia infantil imaginria que subjaz ao texto  abertamente exposta e realizada, como o seria num sonho. Em Hamlet ela permanece recalcada; 
e - tal como no caso de uma neurose - s ficamos cientes de sua existncia atravs de suas conseqncias inibidoras. Estranhamente, o efeito esmagador produzido 
por essa tragdia mais moderna revelou-se compatvel com o fato de as pessoas permanecerem em completa ignorncia quanto ao carter do heri. A pea se alicera 
nas hesitaes de Hamlet em cumprir a tarefa de vingana que lhe  atribuda; mas seu texto no oferece nenhuma razo ou motivo para essas hesitaes, e uma imensa 
variedade de tentivas de interpret-las falhou na obteno de qualquer resultado. Segundo a viso que se originou em Goethe e  ainda hoje predominante, Hamlet representa 
o tipo de homem cujo poder de ao direta  paralisado por um desenvolvimento excessivo do intelecto. (Ele est "amarelecido, com a palidez do pensamento".) Segundo 
outra viso, o dramaturgo tentou retratar um carter patologicamente indeciso, que poderia ser classificado de neurastnico. O enredo do drama nos mostra, contudo, 
que Hamlet est longe de ser representado como uma pessoa incapaz de adotar qualquer atitude. Vemo-lo fazer isso em duas ocasies: primeiro, num sbito rompante 
de clera, quando trespassa com a espada o curioso que escuta a conversa por trs da tapearia, e em segundo lugar, de maneira premeditada e at ardilosa, quando, 
com toda a insensibilidade de um prncipe da Renascena, envia os dois cortesos  morte que fora planejada para ele mesmo. O que , ento, que o impede de cumprir 
a tarefa imposta pelo fantasma do pai? A resposta, mais uma vez, est na natureza peculiar da tarefa. Hamlet  capaz de fazer qualquer coisa - salvo vingar-se do 
homem que eliminou seu pai e tomou o lugar deste junto a sua me, o homem que lhe mostra os desejos recalcados de sua prpria infncia realizados. Desse modo, o 
dio que deveria impeli-lo  vingana  nele substitudo por auto-recriminaes, por escrpulos de conscincia que o fazem lembrar que ele prprio, literalmente, 
no  melhor do que o pecador a quem deve punir. Aqui traduzi em termos conscientes o que se destinava a permanecer inconsciente na mente de Hamlet; e, se algum 
se inclinar a cham-lo de histrico, s poderei aceitar esse fato como algo que est implcito em minha interpretao. A averso pela sexualidade expressa por Hamlet 
em sua conversa com Oflia ajusta-se muito bem a isto: a mesma averso que iria apossar-se da mente do poeta em escala cada vez maior durante os anos que se seguiram, 
e que alcanou sua expresso mxima em Timon de Atenas. Pois, naturalmente, s pode ser a prpria mente do poeta que nos confronta em Hamlet. Observo num livro sobre 
Shakespeare, de Georg Brandes (1896), uma declarao de que Hamlet foi escrito logo aps a morte do pai de Shakespeare (em 1601), isto , sob o impacto imediato 
de sua perda e, como bem podemos presumir, enquanto seus sentimentos infantis sobre o pai tinham sido recentemente revividos. Sabe-se tambm que o prprio filho 
de Shakespeare, que morreu em tenra idade, trazia o nome de "Hamnet", que  idntico a "Hamlet". Assim como Hamlet versa sobre a relao entre um filho e seus pais, 
Macbeth (escrito aproximadamente no mesmo perodo) aborda o tema da falta de filhos. Entretanto, assim como todos os sintomas neurticos e, no que tange a esse aspecto, 
todos os sonhos so passveis de ser "superinterpretados", e na verdade precisam s-lo, se pretendermos compreend-los na ntegra, tambm todos os textos genuinamente 
criativos so o produto de mais de um motivo nico e mais de um nico impulso na mente do poeta, e so passveis de mais de uma interpretao. No que escrevi, tentei 
apenas interpretar a camada mais profunda dos impulsos anmicos do escritor criativo. [1]
          
          No posso abandonar o tema dos sonhos tpicos sobre a morte de parentes queridos sem acrescentar mais algumas palavras, para lanar luz sobre sua importncia 
para a teoria dos sonhos em geral. Nesses sonhos, encontramos realizada a situao extremamente incomum de um pensamento onrico formado por um desejo recalcado 
que foge inteiramente  censura e passa para o sonho sem modificao. Deve haver fatores especiais em ao para possibilitar esse fato, e creio que a ocorrncia 
desses sonhos  facilitada por dois desses fatores. Em primeiro lugar, nenhum desejo parece mais distante de ns do que este: "no poderamos nem sonhar" - assim 
acreditamos - em desejar uma coisa dessas. Por essa razo, a censura do sonho no est armada para enfrentar tal monstruosidade, da mesma forma que o cdigo penal 
de Slon no continha nenhuma punio para o parricdio. Em segundo lugar, nesse caso o desejo recalcado e insuspeitado coincide parcialmente, com extrema freqncia, 
com um resduo do dia anterior sob a forma de uma preocupao com a segurana da pessoa em questo. Essa preocupao s consegue penetrar no sonho valendo-se do 
desejo correspondente, enquanto o desejo pode disfarar-se por trs da preocupao que se tornou ativa durante o dia. [ver em [1]] Podemos inclinar-nos a pensar 
que as coisas so mais simples do que isso e que o sujeito simplesmente d continuidade, durante a noite e nos sonhos, quilo que esteve revolvendo na mente durante 
o dia; nesse caso, porm, estaremos deixando os sonhos da morte de pessoas que so caras ao sonhador inteiramente no ar e sem qualquer ligao com nossa explicao 
dos sonhos em geral, e assim nos estaremos apegando, sem nenhuma necessidade, a um enigma perfeitamente passvel de soluo.
           tambm instrutivo considerar a relao desses sonhos com os sonhos de angstia. Nos sonhos que vimos examinando, um desejo recalcado encontrou um meio 
de fugir  censura - e  distoro que a censura implica. O resultado invarivel disso  que se experimentam sentimentos dolorosos no sonho. Da mesma forma, os sonhos 
de angstia s ocorrem quando a censura  total ou parcialmente subjugada; e, por outro lado, a subjugao da censura  facilitada nos casos em que a angstia j 
foi produzida como uma sensao imediata decorrente de fontes somticas. [Ver em [1]] Assim, podemos ver claramente a finalidade para a qual a censura exerce sua 
funo e promove a distoro dos sonhos: ela o faz para impedir a produo de angstia ou de outras formas de afeto aflitivo.
          
          Falei acima [em [1]-[2]] sobre o egosmo da mente das crianas, e posso agora acrescentar, com a sugesto de uma possvel ligao entre os dois fatos, 
que os sonhos tm a mesma caracterstica. Todos eles so inteiramente egostas: o ego amado aparece em todos eles, muito embora possa estar disfarado. Os desejos 
que neles se realizam so invariavelmente desejos do ego, e, quando um sonho parece ter sido provocado por um interesse altrusta, estamos apenas sendo enganados 
pelas aparncias. Eis aqui algumas anlises de exemplos que parecem contradizer essa afirmao.
          
          I
          
          Uma criana com menos de quatro anos de idade contou ter sonhado que vira um prato enorme com um grande pedao de carne assada e legumes. De repente, toda 
a carne foi comida - inteira e sem ser destrinchada. Ela no viu a pessoa que a comeu.
          Quem teria sido a pessoa desconhecida cujo suntuoso banquete de carne constitui o tema do sonho do menininho? Suas experincias durante o dia do sonho 
devem esclarecer-nos sobre o assunto. Por ordem mdica, ele fora submetido a uma dieta de leite nos ltimos dias. Na noite do dia do sonho ele se mostrara travesso 
e, como castigo, fora mandado para a cama sem jantar. Ele j havia passado por essa cura pela fome numa ocasio anterior e se portara com muita bravura. Sabia que 
no conseguiria nada, mas no se permitia demonstrar, nem mesmo por uma nica palavra, que estava com fome. A educao j comeara a surtir efeito nele: encontrou 
expresso em seu sonho, que exibe o incio da distoro onrica. No h nenhuma dvida de que a pessoa cujos desejos eram visados nessa generosa refeio - de carne, 
ainda por cima - era ele prprio. Mas, como sabia que isso no lhe era permitido, ele no se aventurou a sentar-se pessoalmente para desfrutar a refeio, como fazem 
as crianas famintas nos sonhos. (Cf. o sonho de minha filhinha Anna com os morangos, em [1]-[2].) A pessoa que se serviu da refeio permaneceu no anonimato.
          
          II
          
          Sonhei, certa noite, que via na vitrina de uma livraria um novo volume de uma das sries de monografias para conhecedores que tenho o hbito de comprar 
- monografias sobre grandes artistas, sobre histria mundial, sobre cidades famosas etc. A nova srie era intitulada "Oradores Famosos" ou "Discursos", e seu primeiro 
volume trazia o nome do Dr. Lecher.
          Quando vim a analisar isso, pareceu-me improvvel que devesse preocupar-me, em meus sonhos, com a fama do Dr. Lecher, o orador ininterrupto do grupo dos 
obstrucionistas do Partido Nacionalista Alemo no Parlamento. O caso foi que, alguns dias antes, eu recebera alguns pacientes novos para tratamento psicolgico, 
e agora estava obrigado a falar durante dez ou doze horas todos os dias. Assim, eu prprio  que era o orador ininterrupto.
          
          III
          
          De outra feita, sonhei que um homem conhecido meu, que fazia parte do pessoal da Universidade, me dizia: "Meu filho, o Mope." Seguiu-se ento um dilogo 
constitudo por curtas observaes e rplicas. Depois disso, houve ainda um terceiro fragmento do sonho no qual figurvamos eu prprio e meus filhos. No que dizia 
respeito ao contedo latente do sonho, o Professor M. e seu filho eram testas-de-ferro - um mero anteparo para encobrir a mim e a meu filho mais velho. Terei de 
voltar a este sonho mais adiante, em virtude de outra de suas caractersticas. [Ver em [1]]
          
          IV
          O sonho que se segue constitui outro exemplo de sentimentos egostas realmente baixos, ocultos por trs de uma preocupao afetiva.
          Meu amigo Otto parecia doente. Seu rosto estava marrom e ele tinha olhos esbugalhados.
          Otto  meu mdico de famlia, e devo-lhe mais do que tenho esperana de algum dia poder retribuir: ele tem cuidado da sade de meus filhos h muitos anos, 
tem tratado deles com xito quando adoecem e, alm disso, sempre que as circunstncias lhe do uma desculpa, tem-lhes dado presentes. [Ver em [1].] Ele nos visitara 
no dia do sonho, e minha mulher havia comentado que ele parecia fatigado e tenso. Naquela noite, tive meu sonho, que a apresentou com alguns dos sinais da doena 
de Basedow [de Graves]. Quem quer que interprete este sonho sem considerar minhas normas concluir que eu estava preocupado com a sade de meu amigo e que essa preocupao 
foi concretizada no sonho. Isso no apenas contradiria minha afirmao de que os sonhos so realizaes de desejos, como tambm minha outra afirmao de que eles 
s so acessveis a impulsos egostas. Mas eu gostaria que algum que interpretasse o sonho dessa forma tivesse a bondade de me explicar por que meus temores por 
Otto levaram  doena de Basedow - um diagnstico para o qual sua aparncia real no d o menor fundamento. Minha anlise, por outro lado, trouxe  tona o seguinte 
material, oriundo de uma ocorrncia de seis anos antes. Num grupinho que inclua o Professor R., seguamos de carruagem em completa escurido pela floresta de N., 
que ficava a algumas horas de viagem do lugar onde estvamos passando nossas frias de vero. O cocheiro, que no estava inteiramente sbrio, lanou-nos, com veculo 
e tudo, num barranco, e foi apenas por sorte que todos escapamos ilesos. Fomos obrigados, contudo, a passar a noite numa estalagem vizinha, onde a notcia do acidente 
nos trouxe grande dose de solidariedade. Um cavalheiro com sinais inconfundveis da doena de Basedow - alis, exatamente como no sonho, apenas com a descolorao 
castanha da pele do rosto e os olhos esbugalhados, mas sem bcio - colocou-se  nossa inteira disposio e perguntou o que poderia fazer por ns. O Professor R. 
respondeu,  sua maneira incisiva: "Nada, a no ser me emprestar um camisolo de dormir." Ao que o gentil cavalheiro retrucou: "Lamento, mas no posso fazer isso", 
e deixou o aposento.
           medida que continuei com minha anlise, ocorreu-me que Basedow era no s o nome de um mdico, mas tambm o de um famoso educador. (Em meu estado de 
viglia eu j no me sentia to seguro disso.) Mas meu amigo Otto era a pessoa a quem eu pedira que cuidasse da educao fsica de meus filhos, especialmente na 
poca da puberdade (da o camisolo de dormir), caso alguma coisa me acontecesse. Ao atribuir a meu amigo Otto, no sonho, os sintomas de nosso nobre auxiliador, 
eu estava evidentemente dizendo que, se alguma coisa me acontecesse, ele faria to pouco pelas crianas quanto o Baro L. fizera naquela ocasio, apesar de suas 
amveis ofertas de assistncia. Isso parece ser prova suficiente do substrato egosta do sonho.
          Mas onde encontrar sua realizao de desejo? No em eu me vingar de meu amigo Otto, cujo destino parece ser o de sofrer maus-tratos em meus sonhos, mas 
na considerao seguinte. Ao mesmo tempo que, no sonho, representei Otto como o Baro L., identifiquei-me com outra pessoa, a saber, o Professor R., pois, assim 
como na histria, R. fizera um pedido ao Baro L., eu tambm fizera um pedido a Otto. E esta  a questo. O Professor R., com quem eu realmente no me arriscaria 
a me comparar  maneira comum, assemelhava-se a mim no sentido de ter seguido um rumo independente fora do mundo acadmico, e s obtivera seu merecido ttulo na 
velhice. Assim, mais uma vez, eu estava querendo ser Professor! De fato, as prprias palavras "na velhice" eram uma realizao de desejo, pois implicavam que eu 
viveria o bastante para ver meus filhos atravessarem a poca da puberdade. [1] 
          
           (D3) OUTROS SONHOS TPICOS
          
          No tenho nenhuma experincia prpria de outras espcies de sonhos tpicos, nas quais o sonhador se descobre voando em pleno ar, com o acompanhamento de 
sensaes agradveis, ou se v caindo, com sensaes de angstia; e o que quer que tenha a dizer sobre o assunto se origina de psicanlise. As informaes proporcionadas 
por estas ltimas foram-me a concluir que tambm esses sonhos reproduzem impresses da infncia; isto , eles se relacionam com jogos que envolvem movimento, que 
so extraordinariamente atraentes para as crianas. No existe um nico tio que no tenha mostrado a uma criana como voar, precipitando-se pela sala com ela nos 
braos estendidos, ou que no tenha brincado de deix-la cair, balanando-a nos joelhos e de repente esticando as pernas, ou levantando-a bem alto e ento fingindo 
que vai deix-la cair. As crianas se deliciam com tais experincias e nunca se cansam de pedir que elas sejam repetidas, especialmente se houver nelas algo que 
provoque um pequeno susto ou uma tontura. Anos depois, elas repetem essas experincias nos sonhos; nestes, porm, elas deixam de fora as mos que as sustinham, de 
modo que flutuam ou caem sem apoio. O prazer que as crianas pequenas experimentam nas brincadeiras desse tipo (bem como nos balanos e gangorras)  bem conhecido, 
e quando elas passam a ver faanhas acrobticas num circo, sua lembrana de tais brincadeiras  revivida. Os ataques histricos nos meninos s vezes consistem meramente 
em reprodues de faanhas dessa espcie, executadas com grande habilidade. No  incomum que esses jogos de movimento, embora inocentes em si, dem lugar a sensaes 
sexuais. As "travessuras"["Hetzen"] infantis, se  que posso empregar uma palavra que comumente descreve todas essas atividades, so o que se repete nos sonhos de 
voar, cair, sentir tonteiras e assim por diante, enquanto as sensaes prazerosas ligadas a essas experincias so transformadas em angstia. Com bastante freqncia, 
porm, como toda me sabe, as travessuras entre as crianas realmente terminam em brigas e lgrimas.
          Assim, tenho bons motivos para rejeitar a teoria de que o que provoca os sonhos de voar e cair  o estado de nossas sensaes tcteis durante o sono, ou 
as sensaes de movimento de nossos pulmes etc. [Ver em [1]] A meu ver, essas sensaes so reproduzidas, elas prprias, como parte da lembrana a que remonta o 
sonho, isto , so parte do contedo do sonho, e no sua fonte.
          No posso, contudo, esconder de mim mesmo que sou incapaz de fornecer qualquer explicao completa sobre essa classe de sonhos tpicos. Meu material deixou-me 
em apuros precisamente neste ponto. Devo, entretanto, insistir na afirmao geral de que todas as sensaes tcteis e motoras que ocorrem nesses sonhos tpicos so 
evocadas to logo se verifica qualquer motivo psquico para utiliz-las, e podem ser desprezadas quando no surge tal necessidade deles. [Ver em [1].] Sou tambm 
de opinio que a relao desses sonhos com as experincias infantis foi estabelecida com certeza a partir das indicaes que obtive nas anlises de psiconeurticos. 
No sei dizer, porm, que outros significados podem ligar-se  lembrana dessas sensaes no curso de fases posteriores da vida - significados diferentes, talvez, 
em cada caso individual, apesar da aparncia tpica dos sonhos; e gostaria de poder preencher essa lacuna mediante uma anlise cuidadosa de exemplos claros. Se algum 
se sentir surpreso com o fato de, a despeito da freqncia precisamente dos sonhos de voar, cair, extrair dentes etc., eu estar me queixando de falta de material 
sobre esse tpico especfico, devo explicar que eu mesmo no tive nenhum sonho dessa natureza desde que voltei minha ateno para o tema da interpretao dos sonhos. 
Ademais, os sonhos dos neurticos, dos quais de outro modo eu me poderia valer, nem sempre podem ser interpretados - no, pelo menos, em muitos casos, de modo a 
revelarem a totalidade de seu sentido oculto; uma fora psquica particular, que se relacionou com a estruturao original da neurose e que  mais uma vez acionada 
quando se fazem tentativas de solucion-la, impede-nos de interpretar esses sonhos at seu ltimo segredo.
          
          (D4) SONHOS COM EXAMES
          
          Quem quer que tenha passado pelo vestibular no final de seus estudos escolares queixa-se da obstinao com que  perseguido por sonhos angustiantes de 
ter sido reprovado, ou de ser obrigado a refazer o exame etc. No caso dos que obtiveram um grau universitrio, esse sonho tpico  substitudo por outro que os representa 
como tendo fracassado em seus Exames Universitrios Finais; e  em vo que fazem objees, mesmo enquanto ainda esto adormecidos, de que h anos vm exercendo a 
medicina ou trabalhando como conferencistas da Universidade ou como chefes de escritrio. As lembranas inextirpveis dos castigos que sofremos por nossas ms aes 
na infncia tornam-se ativas em ns mais uma vez e se ligam aos dois pontos cruciais de nossos estudos - o "die irae, dies illa" de nossos exames mais duros. A "angstia 
de prestar exames" dos neurticos deve sua intensificao a esses mesmos medos infantis. Quando deixamos de ser estudantes, nossos castigos j no nos so infligidos 
por nossos pais ou por aqueles que nos criaram, ou, posteriormente, por nossos professores. As implacveis cadeias causais da vida real se encarregam de nossa educao 
ulterior, e passamos a sonhar com o Vestibular ou com os Exames Finais (e quem no tremeu nessas ocasies, mesmo que estivesse bem preparado para as provas?) sempre 
que, tendo feito algo errado ou deixado de fazer alguma coisa de maneira apropriada, esperamos ser punidos por esse acontecimento - em suma, sempre que sentimos 
o fardo da responsabilidade.
          Por uma explicao adicional sobre os sonhos com exames tenho de agradecer a um experiente colega [Stekel], que certa vez declarou, numa reunio cientfica, 
que, ao que ele soubesse, os sonhos com o Vestibular s ocorriam nas pessoas que tinham sido aprovadas, e nunca nas que foramreprovadas nele. Ao que parece, portanto, 
os sonhos de angstia referentes a exames (os quais, como j foi confirmado repetidas vezes, surgem quando o sonhador tem alguma responsabilidade pela frente no 
dia seguinte e teme que haja um fiasco) procuram alguma ocasio do passado em que uma grande angstia se tenha revelado injustificada e tenha sido desmentida pelos 
acontecimentos. Esse, portanto, seria um exemplo notvel de o contedo de um sonho ser mal interpretado pela instncia de viglia. [Ver em [1].] O que  considerado 
um protesto indignado contra o sonho - "Mas eu j sou mdico, etc.!" - seria, na realidade, o consolo trazido pelo sonho, e seu enunciado por conseguinte, seria: 
"No tenha medo do amanh! Pense s em como voc estava ansioso antes do Vestibular e, no entanto, nada lhe aconteceu. Voc j  mdico (etc.)!" E a angstia que 
 atribuda ao sonho decorreria, na realidade, dos restos diurnos.
          Os testes a que tenho submetido essa explicao com respeito a mim mesmo e a outras pessoas, embora no tenham sido suficientemente numerosos, tm confirmado 
sua validade. Por exemplo, eu prprio fui reprovado em Medicina Forense em meus Exames Finais, mas nunca tive de enfrentar essa matria nos sonhos, ao passo que, 
com muito freqncia, fui examinado em Botnica, Zoologia ou Qumica. Fiz prova dessas matrias com uma ansiedade bastante justificada, mas, fosse pela graa do 
destino ou dos examinadores, escapei  punio. Em meus sonhos com provas escolares, sou invariavelmente examinado em Histria, na qual me sa brilhantemente - embora 
apenas,  verdade, porque [no exame oral] meu bondoso mestre (o benfeitor de um olho s de outro sonho, ver em [1]) no deixou de notar que, no papel que lhe devolvi 
com as perguntas, eu havia riscado com a unha a questo do meio entre as trs formuladas, para avis-lo que no insistisse naquela pergunta especfica. Um de meus 
pacientes, que resolvera no fazer o Vestibular na primeira vez, mas depois foi aprovado nele, e que em seguida foi reprovado em seu exame para o exrcito, no tendo 
jamais obtido uma patente, contou-me que sonha com freqncia com o primeiro desses exames, mas nunca com o segundo.
          
          A interpretao dos sonhos com exames enfrenta a dificuldade a que j me referi como sendo caracterstica da maioria dos sonhos tpicos [em [1]]. S raramente 
o material que o sonhador nos fornece nas associaes  suficiente para interpretarmos o sonho. Somente reunindo um nmero considervel de exemplos desses sonhos 
 que poderemos chegar a uma melhor compreenso deles. No faz muito tempo cheguei  concluso de que a objeo "Voc j  mdico, (etc)!" no apenas oculta um consolo, 
como tambm significa uma recriminao. Esta seria: "Voc j est muito velho agora, com uma idade muito avanada, mas ainda continua a fazer essas coisas estpidas 
e infantis." Essa mescla de autocrtica e consolo corresponderia, assim, ao contedo latente dos sonhos com exames. Sendo assim, no supreenderia que as auto-recriminaes 
por ser "estpido" e "infantil" nestes ltimos exemplos se referissem  repetio de atos sexuais repreensveis.
          Wilhelm Stekel, que props a primeira interpretao dos sonhos com o Vestibular ["Matura"], era de opinio que eles estavam regularmente relacionados com 
provas sexuais e com a maturidade sexual. Minha experincia tem muitas vezes confirmado seu ponto de vista. [1]
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
        Captulo VI - O TRABALHO DO SONHO
          
          Todas as tentativas at hoje feitas de solucionar o problema dos sonhos tm lidado diretamente com seu contedo manifesto, tal como se apresenta em nossa 
memria. Todas essas tentativas esforaram-se para chegar a uma interpretao dos sonhos a partir de seu contedo manifesto, ou (quando no havia qualquer tentativa 
de interpretao) por formar um juzo quanto  natureza deles com base nesse mesmo contedo manifesto. Somos os nicos a levar algo mais em conta. Introduzimos uma 
nova classe de material psquico entre o contedo manifesto dos sonhos e as concluses de nossa investigao: a saber, seu contedo latente, ou (como dizemos) os 
"pensamentos do sonho", obtidos por meio de nosso mtodo.  desses pensamentos do sonho, e no do contedo manifesto de um sonho, que depreendemos seu sentido. Estamos, 
portanto, diante de uma nova tarefa que no tinha existncia prvia, ou seja, a tarefa de investigar as relaes entre o contedo manifesto dos sonhos e os pensamentos 
onricos latentes, e de desvendar os processos pelos quais estes ltimos se transformaram naquele.
          Os pensamentos do sonho e o contedo do sonho nos so apresentados como duas verses do mesmo assunto em duas linguagens diferentes. Ou, mais apropriadamente, 
o contedo do sonho  como uma transcrio dos pensamentos onricos em outro modo de expresso cujos caracteres e leis sintticas  nossa tarefa descobrir, comparando 
o original e a traduo. Os pensamentos do sonho tornaram-se imediatamente compreensveis to logo tomamos conhecimento deles. O contedo do sonho, por outro lado, 
 expresso, por assim dizer, numa escrita pictogrfica cujos caracteres tm de ser individualmente transpostos para a linguagem dos pensamentos do sonho. Se tentssemos 
ler esses caracteres segundo seu valor pictrico, e no de acordo com sua relao simblica, seramos claramente induzidos ao erro. Suponhamos que eu tenha diante 
de mim um quebra-cabea feito de figuras, um rbus. Ele retrata uma casa com um barco no telhado, uma letra solta do alfabeto, a figura de um homem correndo, com 
a cabea misteriosamente desaparecida, e assim por diante. Ora, eu poderia ser erroneamente levado afazer objees e a declarar que o quadro como um todo, bem como 
suas partes integrantes, no fazem sentido. Um barco no tem nada que estar no telhado de uma casa e um homem sem cabea no pode correr. Ademais, o homem  maior 
do que a casa e, se o quadro inteiro pretende representar uma paisagem, as letras do alfabeto esto deslocadas nele, pois esses objetos no ocorrem na natureza. 
Obviamente, porm, s podemos fazer um juzo adequado do quebra-cabeas se pusermos de lado essa crticas da composio inteira e de suas partes, e se, em vez disso, 
tentarmos substituir cada elemento isolado por uma slaba ou palavra que possa ser representada por aquele elemento de um modo ou de outro. As palavras assim compostas 
j no deixaro de fazer sentido, podendo formar uma frase potica de extrema beleza e significado. O sonho  um quebra-cabea pictogrfico desse tipo, e nossos 
antecessores no campo da interpretao dos sonhos cometeram o erro de tratar o rbus como uma composio pictrica, e como tal, ela lhes pareceu absurda e sem valor.
          
          (A) O TRABALHO DE CONDENSAO
          
          A primeira coisa que se torna clara para quem quer que compare o contedo do sonho com os pensamentos onricos  que ali se efetuou um trabalho de condensao 
em larga escala. Os sonhos so curtos, insuficientes e lacnicos em comparao com a gama e riqueza dos pensamentos onricos. Se um sonho for escrito, talvez ocupe 
meia pgina. A anlise que expe os pensamentos onricos subjacentes a ele poder ocupar seis, oito ou doze vezes mais espao. Essa relao varia com os diferentes 
sonhos, mas, at onde vai minha experincia, sua direo nunca varia. Em regra geral, subestima-se o volume de compreenso ocorrido, pois fica-se inclinado a considerar 
os pensamentos do sonho trazidos  luz como o material completo, ao passo que, se o trabalho de interpretao for levado mais adiante, poder revelar ainda mais 
pensamentos ocultos por trs do sonho. J tive ocasio de assinalar [ver em [1]] que, de fato, nunca  possvel ter certeza de que um sonho foi completamente interpretado. 
[1] Mesmo que a soluo parea satisfatria e sem lacunas, resta sempre a possibilidade de que o sonho tenha ainda outro sentido. Rigorosamente falando, portanto, 
 impossvel determinar o volume de condensao.
          H uma resposta, que  primeira vista parece extremamente plausvel, ao argumento de que a grande desproporo entre o contedo do sonho e os pensamentos 
do sonho implica que o material psquico passou por um extenso processo de condensao no curso da formao do sonho. Temos muitas vezes a impresso de que sonhamos 
muito durante toda a noite e depois nos esquecemos da maior parte do que foi sonhado. Sob esse ponto de vista, o sonho que recordamos ao acordar seria apenas um 
remanescente fragmentrio de todo o trabalho do sonho, e este, se pudssemos record-lo em sua totalidade, bem poderia ser to extenso quanto os pensamentos onricos. 
H sem dvida alguma verdade nisso: os sonhos certamente podem ser reproduzidos com a mxima exatido se tentarmos lembr-los to logo acordamos, e de que nossa 
lembrana deles se torna cada vez mais incompleta  medida quese aproxima a noite. Mas, por outro lado,  possvel mostrar que a impresso de termos sonhado muito 
mais do que podemos reproduzir baseia-se, muitas vezes, numa iluso, cuja origem examinarei depois. [Ver em [1] e [2].] Alm disso, a hiptese de que a condensao 
ocorre durante o trabalho do sonho no  afetada pela possibilidade de os sonhos serem esquecidos, uma vez que a correo dessa hiptese  comprovada pela quantidade 
de representaes que se relacionam com cada fragmento individual retido do sonho. Mesmo supondo que grande parte do sonho tenha escapado  lembrana, isso pode 
apenas ter impedido que tivssemos acesso a outro grupo de pensamentos do sonho. No h justificativa para supor que os fragmentos perdidos do sonho teriam relao 
com os mesmos pensamentos que j obtivemos a partir dos fragmentos do sonho que sobreviveram.
          Em vista do imenso nmero de associaes produzidas na anlise para cada elemento individual do contedo de um sonho, alguns leitores podero ser levados 
a questionar se, por princpio,  justificvel considerarmos como parte dos pensamentos do sonho todas as associaes que nos ocorrem durante a anlise subseqente 
- se  justificvel, em outras palavras, supormos que todos esses pensamentos j estavam ativos durante o estado de sono e desempenharam algum papel na formao 
do sonho. No ser mais provvel que tenham surgido no decorrer da anlise novas cadeias de idias que no tiveram nenhuma participao na formao do sonho? S 
posso dar assentimento parcial a essa argumentao. Sem dvida  verdade que algumas cadeias de idias surgem pela primeira vez durante a anlise. Mas em todos esses 
casos podemos convencer-nos de que essas novas ligaes s se estabelecem entre idias que j estavam ligadas de alguma outra forma nos pensamentos do sonho. As 
novas ligaes so, por assim dizer, circuitos fechados ou curtos-circuitos possibilitados pela existncia de outras vias de ligao mais profundas. Deve-se admitir 
que a grande maioria das idias que so reveladas na anlise j estava em ao durante o processo de formao do sonho, uma vez que, depois de se elaborar uma sucesso 
de idias quer parecem no ter qualquer ligao com aformao de um sonho, de repente se esbarra numa idia que est representada em seu contedo e que  indispensvel 
para sua interpretao, mas que no poderia ter sido alcanada seno por essa linha especfica de abordagem. Posso aqui recordar o sonho da monografia de botnica 
[em [1]], que d a impresso de ser produto de um surpreendente volume de condensao, muito embora eu no tenha relatado sua anlise integralmente.
          Como, ento, devemos retratar as condies psquicas durante o perodo de sono que precede os sonhos? Estaro todos os pensamentos do sonho presentes, 
um ao lado do outro? Ou ser que ocorrem em seqncia? Ou haver diversas cadeias de idias partindo simultaneamente de centros diferentes e depois se unindo? Em 
minha opinio, no h necessidade, no momento, de formar qualquer representao plstica sobre as condies psquicas no decorrer da formao dos sonhos. No se 
deve esquecer, porm, que estamos lidando com um processo inconsciente de pensamento, que pode diferir com facilidade do que percebemos durante a reflexo intencional 
acompanhada pela conscincia.
          Persiste o fato inegvel, contudo, de que a formao dos sonhos baseia-se num processo de condensao. Como se d essa condensao?
          Ao refletimos que somente uma pequena minoria de todos os pensamentos onricos revelados  reproduzida no sonho por um de seus elementos de representao, 
poderamos concluir que a condensao se apresenta por omisso: quer dizer, que o sonho no  uma traduo fiel ou uma projeo ponto por ponto dos pensamentos do 
sonho, mas uma verso altamente incompleta e fragmentria deles. Essa viso, como logo descobriremos,  extremamente inadequada. Mas podemos tom-la como um ponto 
de partida provisrio e passar para uma outra questo. Se apenas alguns elementos dos pensamentos do sonho conseguem penetrar no contedo do sonho, quais so as 
condies que determinam sua seleo?
          Para que lancemos alguma luz sobre essa questo, devemos voltar nossa ateno para os elementos do contedo do sonho que devem ter preenchido tais condies. 
E o material mais favorvel para essa pesquisa ser um sonho para cuja construo tenha contribudo um processo particularmente intenso de condensao. Comearei, 
ento, por escolher para esse propsito o sonho que j registrei em [1].
          
          I
          
          O SONHO DA MONOGRAFIA DE BOTNICA
          
          CONTEDO DO SONHO. - Eu havia escrito uma monografia sobre um gnero (no especificado) de plantas. O livro estava diante de mim e, naquele momento, eu 
virava uma lmina colorida dobrada. Encadernado no exemplar havia um espcimen seco da planta.
          O elemento que mais se destacava nesse sonho era a monografia de botnica. Isso vinha das impresses do dia do sonho: eu de fato vira um monografia sobre 
o gnero Ciclmen na vitrina de uma livraria. No havia meno desse gnero no contedo do sonho; tudo o que restava nele era a monografia e sua relao com a botnica. 
A "monografia de botnica" revelou de imediato sua ligao com o trabalho sobre cocana que eu havia escrito certa vez. De "cocana", as cadeias de idias levaram, 
por um lado, ao Festschrift e a certos acontecimentos num laboratrio da Universidade, e, por outro, a um amigo meu, o Dr. Knigstein, cirurgio oftalmologista que 
tivera participao na introduo da cocana. A figura do Dr. Knigstein fez-me lembrar ainda a conversa interrompida que eu tivera com ele na noite anterior e minhas 
vrias reflexes sobre o pagamento por servios mdicos entre colegas. Essa conversa foi o verdadeiro instigador correntemente ativo do sonho; a monografia sobre 
o ciclmen tambm foi uma impresso correntemente ativa, porm de natureza irrelevante. Como pude perceber, a "monografia de botnica" do sonho revelou-se uma "entidade 
intermediria comum" entre as duas experincias da vspera: foi extrada, sem nenhuma alterao, da impresso irrelevante, e foi ligada ao acontecimento psiquicamente 
significativo por abundantes conexes associativas.
          Entretanto, no s a idia composta, "monografia de botnica", como tambm cada um de seus componentes, "botnica" e "monografia", separadamente, levaram 
por numerosas vias de ligao a um ponto cada vez mais profundo no emaranhado dos pensamentos do sonho. "Botnica" estava relacionada com a figura do Professor Grtner 
[Jardineiro], com a aparncia florescente de sua mulher, com minha paciente Flora e com a senhora [Sra. L.] sobre quem eu contara a histria das flores esquecidas. 
Grtner, por sua vez, levou ao laboratrio a minha conversa com Knigstein. Minhas duas pacientes [Flora e Sra. L.] tinham sido mencionadas no decorrer dessa conversa. 
Uma cadeia de idias ligou a senhora das flores s flores favoritas de minha mulher, e da ao ttulo da monografia que eu vira por um momento durante o dia. Alm 
desses, "botnica" fez lembrar um episdio em minha escola secundria e um exame da poca em que eu estava na Universidade. A um novo tpico abordado em minha conversa 
com o Dr. Knigstein - meus passatempos favoritos - veio juntar-se, por meio do elo intermedirio do que eu, de brincadeira, chamava de minha flor favorita, a alcachofra, 
uma cadeia de idias proveniente das flores esquecidas. Por trs das "alcachofras" estavam, de um lado, meus pensamentos sobre a Itlia e, de outro, uma cena de 
minha infncia que fora o incio do que depois vieram a ser minhas relaes ntimas com os livros. Assim, "botnica" era um ponto nodal sistemtico no sonho. Para 
ele convergiam numerosas cadeias de idias que, como posso garantir, tinham entrado apropriadamente no contexto da conversa com o Dr. Knigstein. Estamos aqui numa 
fbrica de pensamentos onde, como na "obra-prima do tecelo",
          
          Ein Tritt tausend Fden regt,
          Die Schifflein herber hinber schiessen,
          Die Fden ungesehen fliessen,
          Ein Schlag tausend Verbindungen schlgt.
          
          Da mesma forma, a "monografia" do sonho tambm toca em dois assuntos: a parcialidade de meus estudos e o custo dispendioso de meus passatempos favoritos.
          Essa primeira investigao leva-nos a concluir que os elementos "botnica" e "monografia" penetraram no contedo do sonho porque possuam inmeros contatos 
com a maioria dos pensamentos do sonho, ou seja, porque constituam "pontos nodais" para os quais convergia um grande nmero de pensamentos do sonho, porque tinham 
vrios sentidos ligados  interpretao do sonho. A explicao desse fato fundamental tambm pode ser formulada de outra maneira: cada um dos elementos do contedo 
do sonho revelou ter sido "sobredeterminado" - ter sido representado muitas vezes nos pensamentos do sonho.
          Descobrimos ainda mais quando passamos a examinar os demais componentes do sonho em relao a seu aparecimento nos pensamentos onricos. A lmina colorida 
que eu estava desdobrando levou (ver a anlise, em [1]) a um novo tema: as crticas de meus colegas a minhas atividades e a uma que j estava representada no sonho 
- meus passatempos favoritos; e levou, alm disso,  lembrana infantil em que eu fazia em pedaos um livro com lminas coloridas. O espcimen seco da planta tocava 
no episdio do herbrio em minha escola secundria e ressaltou em particular essa lembrana.
          A natureza da relao entre o contedo do sonho e os pensamentos do sonho torna-se assim visvel. No s os elementos de um sonho so repetidamente determinados 
pelos pensamentos do sonho como tambm cada pensamento do sonho  representado neste ltimo por vrios elementos. As vias associativas levam de um elemento do sonho 
para vrios pensamentos do sonho e de um pensamento do sonho para vrios elementos do sonho. Assim, o sonho no  estruturado por cada pensamento ou grupo de pensamentos 
do sonho isoladamente, encontrando (de forma abreviada) representao separada no contedo do sonho - do modo como um eleitorado escolhe seus representantes parlamentares; 
o sonho , antes, construdo por toda a massa de pensamentos do sonho, submetida a uma espcie de processo manipulativo em que os elementos que tm suportes mais 
numerosos e mais fortes adquirem o direito de acesso ao contedo do sonho - de maneira anloga  eleio por scrutin de liste. No caso de todos os sonhos que submeti 
a uma anlise dessa natureza, encontrei invariavelmente confirmados estes mesmos princpios fundamentais: os elementos do sonho so construdos a partir de toda 
a massa de pensamentos do sonho e cada um desses elementos mostra ter sido multiplamente determinado em relao aos pensamentos do sonho.
          Certamente no ser descabido ilustrar a ligao entre o contedo do sonho e os pensamentos do sonho por mais um exemplo, que se distingue pela trama particularmente 
engenhosa de suas relaes recprocas.  um sonho produzido por um de meus pacientes - um homem que eu estava tratando em virtude de uma claustrofobia. Logo ficar 
evidente o motivo por que decidi dar a essa produo onrica excepcionalmente inteligente o ttulo de:
          
          II
          
          "UM SONHO ENCANTADOR"
          Ele se dirigia com um grande grupo  Rua X, onde havia uma estalagem despretensiosa. (O que no  o caso.) Nela se representava uma pea. Ora ele era platia, 
ora ator. Terminado o espetculo, eles tinham de mudar de roupa para voltarem  cidade. Alguns integrantes da companhia foram levados a aposentos no andar trreo 
e outros a aposentos no primeiro andar. Surgiu ento uma discusso. Os que estavam em cima ficaram zangados porque os de baixo no estavam prontos, e eles no podiam 
descer. O irmo dele estava l em cima e ele estava embaixo, e se aborreceu com o irmo porque estavam sendo muito pressionados. (Essa parte estava obscura.) Alm 
disso, tinha-se decidido e providenciado, j na chegada deles, quem ficaria em cima e quem deveria ficar embaixo. Depois, ele ia subindo sozinho a ladeira da Rua 
X em direo  cidade. Andava com tal dificuldade e tamanho esforo que parecia colado no lugar. Um senhor idoso dirigiu-se a ele e comeou a insultar o Rei da Itlia. 
No alto da ladeira ele pde andar com muito mais facilidade.
          Sua dificuldade em subir a ladeira foi to evidente que, depois de acordar, ele ficou por algum tempo em dvida se aquilo teria sido sonho ou realidade.
          No teramos uma opinio muito elevada desse sonho, a julgar por seu contedo manifesto. Desafiando as regras, comearei sua interpretao pela parte que 
o sonhador descreveu como a mais ntida.
          A dificuldade com que ele sonhou, e que provavelmente experimentou durante o sonho - a penosa subida pela ladeira, acompanhada de dispnia -, era um dos 
sintomas que o paciente com certeza exibira anos antes e que, na poca, fora atribudo, juntamente com certos outros sintomas,  tuberculose. (A probabilidade  
que esta tenha sido histericamente simulada.) A sensao peculiar de movimento inibido que ocorre nesse sonho j nos  familiar a partir dos sonhos de exibio [ver 
em [1]], e vemos mais uma vez que se trata de um material disponvel a qualquer momento para qualquer outra finalidade de representao. [Ver em [1]] A parte do 
contedo do sonho que descrevia como a subida comeara com dificuldade e se tornara fcil no fim da ladeira me fez recordar, quando a ouvi, a magistral introduo 
a Safo de Alfonse Daudet. Esse famoso trecho descreve como um jovem carrega sua amante nos braos escada acima: no incio, ela  leve como uma pluma, porm, quanto 
mais ele sobe, maior parece ser seu peso. A cena inteira prenuncia o curso de sua ligao amorosa, e Daudet pretendia fazer dela uma advertncia aos jovens no sentido 
de no permitirem que suas afeies se prendessem seriamente a moas de origem humilde e de passado duvidoso. Embora soubesse que meu paciente estivera envolvido 
com uma moa do meio teatral, num caso amoroso, que recentemente rompera, eu no esperava que se justificasse meu palpite para uma interpretao. Alm disso, a situao 
do Safo era o inverso do que fora no sonho. No sonho, a subida que antes fora difcil, tornara-se posteriormente fcil, ao passo que o simbolismo do romance s faria 
sentido se algo que tivesse comeado com facilidade terminasse por se tornar um fardo pesado. Mas, para meu espanto, o paciente respondeu que minha interpretao 
se ajustava muito bem a uma pea que ele vira no teatro na noite anterior. Chamava-se Rund um Wien [Ao Redor de Viena] e retratava a carreira de uma moa que comeara 
respeitvel, depois se transformara numa demi-mondaine e tivera liaisons com homens em posies elevadas, e assim "subira na vida", mas que acabara "descendo na 
vida". A pea, alm disso, f-lo lembrar-se de outra, a que assistira alguns anos antes, chamada Von Stufe zu Stufe [Passo a Passo], e que fora anunciada num cartaz 
exibindo uma escadaria com um lance de degraus.
          Continuando com a interpretao. A atriz com quem ele tivera essa recente liaison tumultuada morava na Rua X. No h nada que se assemelhe a uma estalagem 
nessa rua. Mas, ao passar parte do vero em Viena por causa dessa dama, ele se havia alojado [em alemo "abgestiegen", literalmente "descido os degraus"] num pequeno 
hotel nas vizinhanas. Ao sair do hotel, ele dissera ao cocheiro da carruagem de aluguel: "De qualquer maneira, tenho sorte por no ter apanhado nenhum verme." (Esta, 
alis, era outra de suas fobias.) A isso o cocheiro retrucara: "Como  que algum pode se hospedar num lugar desses! Isso no  um hotel,  s uma estalagem."
          A idia de estalagem trouxe-lhe  mente, de imediato, uma citao:
          
          Bei einem Wirte wundermild,
          Da war ich jngst zu Gaste.
          
          O hospedeiro do poema de Uhland era uma macieira; e segunda citao deu ento prosseguimento a sua cadeia de idias:
          
          FAUST (mit der Jungen tanzend):
          Einst hatt' ich einen schnen Traum;
          Da sah ich einen Apfelbaum,
          Zwei schne pfel glnzten dran,
          Sie reizten mich, ich stieg hinan.
          
          DIE SCHNE: 
          Der Apfelchen begehrt ihr sehr,
          Und schon vom Paradiese her.
          Von Freuden fhl' ich mich bewegt,
          Dass auch mein Garten solche trgt.
          
          No existe a menor dvida quanto ao que representavam a macieira e as mas. Alm disso, os seios encantadores da atriz tinham estado entre os atrativos 
que haviam seduzido o sonhador.
          O contexto da anlise deu-nos todos os fundamentos para supor que o sonho remontava a uma impresso da infncia. Se assim for, deveria referir-se  ama-de-leite 
do sonhador, que agora era um homem de quase trinta anos. Para um beb, os seios da ama-de-leite no so nada mais, nada menos que uma estalagem. A ama-de-leite, 
bem como Safo, de Daudet, pareciam ser aluses  amante que o paciente recentemente abandonara.
          O irmo (mais velho) do paciente tambm aparecia embaixo. Isso, mais uma vez, era o inverso da situao real, pois, como eu sabia, o irmo perdera sua 
posio social, enquanto o paciente mantivera a dele. Ao repetir para mim o contedo do sonho, o paciente evitara dizer que seu irmo estava l em cima e ele prprio, 
"no andar trreo". Esse relato teria exposto a situao com demasiada clareza, uma vez que, aqui em Viena, quando dizemos que algum est "no andar trreo", queremos 
dizer que perdeu seu dinheiro e sua posio - em outras palavras, que "desceu na vida". Ora, devia haver uma razo para que parte desse trecho do sonho fosse representada 
por seu inverso. Ademais, a inverso deveria aplicar-se tambm a alguma outra relao entre os pensamentos do sonho e o contedo do sonho [ver em [1]]; e temos um 
indcio de onde buscar essa inverso. Evidentemente, ela deve estar no final do sonho, onde, mais uma vez, houve uma inverso da dificuldade de subir escadas descrita 
em Safo. Podemos ento ver facilmente qual  a inverso pretendida. Em Safo, o homem carreava uma mulher que tinha um relacionamento sexual com ele; nos pensamentos 
do sonho, essa posio estava invertida, e uma mulher carregava um homem. E, como isso s pode acontecer na infncia, a referncia era, mais uma vez,  ama-de-leite, 
carregando o peso do beb em seus braos. Portanto, o final do sonho fazia uma referncia simultnea a Safo e  ama-de-leite.
          Assim como o autor do romance, ao escolher o nome "Safo", tinha em mente uma aluso a prticas lsbicas, tambm as partes do sonho que falavam de pessoas 
"l em cima" e "l embaixo" aludiam a fantasias de natureza sexual que ocupavam a mente do paciente, e que, como desejos suprimidos, no deixavam de ter relao 
com sua neurose. (A interpretao do sonho no nos mostrou, por si s, que o que estava assim representado no sonho eram fantasias e no lembranas de fatos reais; 
e anlise nos d apenas o contedo de uma idia e deixa a nosso critrio determinar sua realidade.  primeira vista, fatos reais e imaginrios aparecem nos sonhos 
como tendo igual validade; e isso ocorre no apenas nos sonhos, como tambm na produo de estruturas psquicas mais importantes.)
          Um "grande grupo" significava, como j sabemos [ver em [1]], um segredo. O irmo dele era apenas o representante (introduzido na cena infantil por uma 
"fantasia retrospectiva") de todos os seus rivais posteriores na afeio das mulheres. O episdio do cavalheiro que insultava o Rei da Itlia relacionava-se, mais 
uma vez, por intermdio de uma experincia recente e irrelevante em si mesma, com pessoas de categoria inferior que foram seu ingresso na alta sociedade. Era como 
se a criana ao seio estivesse recebendo uma advertncia paralela  que Daudet fizera aos rapazes.
          Para oferecer uma terceira oportunidade de estudarmos a condensao na formao dos sonhos, fornecerei parte da anlise de outro sonho, que devo a uma 
mulher madura que est em tratamento psicanaltico. Como seria de esperar pelos graves estados de angstia de que sofria a paciente, seus sonhos continham um nmero 
muito grande de idias sexuais cujo reconhecimento inicial a surpreendeu e a alarmou. Como no poderei levar a interpretao do sonho at o fim, seu material parecer 
enquadrar-se em vrios grupos sem nenhuma ligao visvel.
          
          III
          
          "O SONHO DO BESOURO-DE-MAIO"
          
          CONTEDO DO SONHO. - Ela se lembrou de que tinha dois besouros-de-maio numa caixa e precisava libert-los, caso contrrio ficariam sufocados. Abriu a caixa 
e os besouros estavam em estado de esgotamento. Um deles voou pela janela aberta, mas o outro foi esmagado pelo caixilho da janela enquanto ela a fechava a pedido 
de algum. (Sinais de repulsa.)
          ANLISE. - O marido da paciente estava temporiamente ausente de casa e a filha de quatorze anos vinha dormindo na cama ao lado dela. Na noite anterior, 
a menina lhe chamara a ateno para uma mariposa que cara em seu copo d'gua, mas ela no a retirara e ficara penalizada pelo pobre inseto na manh seguinte. O 
livro que estivera lendo  noite contava como alguns meninos haviam atirado um gato em gua fervente e descrevia as convulses do animal. Essas foram as duas causas 
precipitantes do sonho - em si mesmas, irrelevantes. Ela prosseguiu ento no assunto da crueldadepara com os animais. Alguns anos antes, quando passavam o vero 
em certo lugar, a filha da paciente havia sido muito cruel com os animais. Apanhava borboletas e pedia arsnico  me para mat-las. Numa outra ocasio, uma mariposa 
com um alfinete atravessado no corpo continuara a voar pelo quarto durante muito tempo; de outra feita, algumas lagartas que a menina estava guardando para que se 
transformassem em crislidas morreram de fome. Numa idade ainda mais tenra, essa mesma menina tinha o hbito de arrancar as asas de besouros e borboletas. Mas hoje, 
ficava horrorizada diante de todas essas aes cruis - tornara-se muito bondosa.
          A paciente refletiu a respeito dessa contradio. Ela a fez lembrar-se de outra contradio, entre a aparncia e o carter, tal como George Elliot a retrata 
em Adam Bede: uma moa que era bonita, porm ftil e ignorante, e outra que era feia, mas de carter elevado; um nobre que seduziu a moa tola, e um operrio que 
se sentia e agia com verdadeira nobreza. Como era impossvel, comentou ela, reconhecer essas coisas nas pessoas! Quem poderia imaginar, olhando para ela, que ela 
era atormentada por desejos sensuais?
          No mesmo ano em que a menina comeara a colecionar borboletas, o distrito em que se encontravam tinha sido seriamente atingido por uma praga de besouro-de-maio. 
As crianas ficaram furiosas com os insetos e os esmagavam sem piedade. Naquela ocasio, minha paciente vira um homem que arrancava as asas dos besouros-de-maio 
e, em seguida, comia-lhes os corpos. Ela prpria nascera em maio e se casara em maio. Trs dias aps o casamento, escrevera aos pais dizendo o quanto se sentia feliz. 
Mas isso estava longe de ser verdade.
          Na noite anterior ao sonho ela estivera remexendo em algumas cartas antigas e lera algumas delas - umas srias, outras cmicas - em voz alta para os filhos. 
Havia uma carta muito divertida de um professor de piano que a cortejara quando mocinha, e outra de um admirador de bero nobre.
          Ela se censurava porque uma de suas filhas pusera as mos num livro "pernicioso" de Maupassant. O arsnico que a menina tinha pedido f-la recordar-se 
das plulas de arsnico quer restauraram o vigor juvenil do Duque de Mora em O Nababo [de Daudet].
          "Libert-los" fez com que ela pensasse num trecho de A Flauta Mgica:
          
          Zur Liebe kann ich dich nicht zwingen, 
          Doch geb ich dir die Freiheit nicht
          Os "besouros-de-maio" tambm a fizeram pensar nas palavras de Ktchen:
          
          Verliebt j wie ein Kfer bist du mir.
          
          E, em meio a tudo isso, veio uma citao de Tannhauser:
          
          Weil du von bser Lust beseelt...
          
          Ela vivia numa preocupao constante com o marido ausente. Seu medo de que algo pudesse acontecer-lhe em sua viagem encontrava expresso em numerosas fantasias 
de viglia. Pouco tempo antes, no decorrer de sua anlise, ela havia deparado, entre seus pensamentos inconscientes, com uma queixa sobre o marido estar "ficando 
senil". A idia desejante oculta pelo presente sonho talvez seja mais simples de conjecturar se eu mencionar que, alguns dias antes de ter o sonho, ela ficara horrorizada, 
em meio a seus afazeres cotidianos, com uma frase no modo imperativo que lhe veio  cabea e que visava ao marido: "V se enforcar!" Ocorre que, algumas horas antes, 
ela lera em algum lugar que, quando um homem  enforcado, ele tem um forte ereo. Era o desejo de uma ereo que havia emergido do recalcamento sob esse disfarce 
pavoroso. "V se enforcar!" equivalia a "Consiga uma ereo a qualquer preo!" As plulas de arsnico do Dr. Jenkins em O Nababo enquadravam-se nisso. Mas minha 
paciente tambm tinha conhecimento de que o afrodisaco mais poderoso, as cantridas (comumente conhecidas como "moscas espanholas"), era preparado com besouros 
esmagados. Fora esse o sentido da parte principal do contedo do sonho.
          Abrir e fechar janelas era um dos principais temas de discusso entre ela e o marido. Ela prpria era aeroflica em seus hbitos de dormir; o marido era 
aerofbico. O esgotamento era o principal sintoma de que ela se queixava na poca do sonho.
          
          Em todos os trs sonhos que acabo de registrar, indiquei por meio de grifos os pontos em que um dos elementos do contedo do sonho reapareceu nos pensamentos 
do sonho, de modo a indicar com clareza a multiplicidade das ligaes que surgem a partir dos primeiros. No entanto, uma vez que a anlise de nenhum desses sonhos 
foi seguida at o fim, talvez valha a pena considerar um sonho cuja anlise foi registrada exaustivamente, para mostrar como seu contedo  sobredeterminado. Para 
esse fim, tomarei o sonho da injeo de Irma [em [1]]. Ser fcil verificar, a partir desse exemplo, que o trabalho de condensao utiliza mais de um mtodo na construo 
dos sonhos.
          A principal figura do contedo do sonho era minha paciente Irma. Ela aparecia com suas feies da vida real, e portanto, em primeiro lugar, representava 
a si mesma. Mas a posio em que a examinei junto  janela derivava de outra pessoa: da dama pela qual, como indicaram os pensamentos do sonho, eu queria trocar 
minha paciente. Na medida em que Irma parecia ter uma membrana diftrica, que me fez recordar minha angstia com relao  minha filha mais velha, ela representava 
essa criana e, por trs desta, uma vez que tinha o mesmo nome que minha filha, estava oculta a figura de minha paciente que sucumbira ao envenenamento. No curso 
ulterior do sonho, a figura de Irma adquiriu ainda outros significados, sem que ocorresse qualquer alterao em sua imagem visual no sonho. Ela se transformou numa 
das crianas que havamos examinado no departamento neurolgico do hospital infantil, onde meus dois amigos revelaram suas ndoles contrastantes. A figura de minha 
prpria filha foi, evidentemente, o degrau para essa transio. A mesma resistncia "de Irma" em abrir a boca trouxe uma aluso a outra senhora que eu examinara 
certa vez, e, atravs da mesma conexo,  minha mulher. Alm disso, as alteraes patolgicas que descobri em sua garganta envolviam aluses a toda uma srie de 
outras figuras.
          Nenhuma dessas figuras com que deparei ao acompanhar "Irma" apareceu no sonho em forma corporal. Estavam ocultas por trs da figura onrica de "Irma", 
que assim se transformou numa imagem coletiva dotada, h que admitir, de diversas caractersticas contraditrias. Irma tornou-se a representante de todas essas outras 
figuras que tinham sido sacrificadas ao trabalho de condensao, j que transferi para ela, ponto por ponto, tudo o que me fazia lembrar-me delas.
          Existe outro meio pelo qual se pode produzir uma "figura coletiva" para fins de condensao onrica, ou seja, reunindo-se as feies reais de duas ou mais 
pessoas numa nica imagem onrica. Foi assim que se construiu o Dr. M. de meu sonho. Ele trazia o nome do Dr. M., falava e agia como ele; massuas caractersticas 
fsicas e suas doenas pertenciam a outra pessoa, ou melhor, a meu irmo mais velho. Uma caracterstica nica, seu aspecto plido, fora duplamente determinada, uma 
vez que era comum a ambos na vida real.
          O Dr. R. de meu sonho com meu tio de barba amarela [em [1]] era uma figura composta semelhante. Em seu caso, porm, a imagem onrica fora ainda construda 
de outra forma. No combinei as feies de uma pessoa com as de outra, omitindo da imagem mnmica, nesse processo, certos traos de cada uma delas. O que fiz foi 
adotar o procedimento por que Galton produzia retratos de famlia: a saber, projetando duas imagens sobre uma chapa nica, de modo que certas feies comuns a ambas 
eram realadas, enquanto as que no se ajustavam uma  outra se anulavam mutuamente e ficavam indistintas na fotografia. No sonho com meu tio, a barba loura emergia 
de forma proeminente de um rosto que pertencia a duas pessoas e que estava conseqentemente indistinto; alis, a barba envolvia ainda uma aluso a meu pai e a mim 
mesmo por meio da idia intermediria de ficar grisalho.
          A construo de figuras coletivas e compostas  um dos principais mtodos por que a condensao atua nos sonhos. Logo terei ocasio de abord-los em outro 
contexto. [Ver em [1]]
          A ocorrncia da idia de "disenteria" no sonho da injeo de Irma tambm teve uma determinao mltipla: primeiro, em virtude da sua semelhana fontica 
com "difteria" [ver em [1]] e, em segundo lugar, por causa da sua ligao com o paciente que eu enviara ao Oriente e cuja histeria no fora reconhecida.
          Outro exemplo interessante de condensao nesse sonho foi a meno nele feita a "propilos" [em [1]]. O que estava contido no pensamento do sonho no era 
"propilos", mas "amilos". Poder-se-ia supor que um nico deslocamento ocorrera nesse ponto na construo do sonho. Esse era realmente o caso. Mas o deslocamento 
servira s finalidades da condensao, como  provado pelo acrscimo que se segue  anlise do sonho. Quando permiti que minha ateno se demorasse um pouco mais, 
na palavra "propilos", ocorreu-me que soava como "Propileu". Mas h propileus no s em Atenas, como tambm em Munique. Um ano antes do sonho eu tinha ido a Munique 
visitar um amigo que estava gravemente enfermo na ocasio - o mesmo amigo a que aludi inequivocamente no sonho por intermdio da palavra "trimetilamina", que ocorreu 
logo depois de "propilos".
          Deixarei de lado o modo surpreendente como, nesse caso, tal como em outras anlises de sonhos, utilizam-se associaes da mais variada importncia intrnseca 
para estabelecer ligaes de idias, como se tivessem peso igual, e cederei  tentao de apresentar, por assim dizer, uma imagem plstica do processo pelo qual 
os mamilos, nos pensamentos do sonho, foram substitudos por propilos no contedo do sonho.
          Por um lado, vemos o grupo de representaes ligado a meu amigo Otto, que no me compreendia, que tomava partido contra mim e que me presenteara com um 
licor com aroma de amilo. Por outro, vemos - ligado ao primeiro grupo por seu prprio contraste - o grupo de representaes relacionado com meu amigo de Berlim [Wilhelm 
Fliess], que de fato me compreendia, que tomava meu partido, e a quem eu devia tantas informaes valiosas que tratavam, entre outras coisas, da qumica dos processos 
sexuais.
          As causas excitantes recentes - os instigadores reais do sonho - determinaram o que iria atrair minha ateno no grupo "Otto"; o mamilo se achava entre 
esses elementos seletos, que estavam predestinados a fazer parte do contedo do sonho. O copioso grupo "Wilhelm" foi excitado precisamente por estar em contraste 
com "Otto", e nele se enfatizaram os elementos que faziam eco aos que j tinham sido incitados em "Otto". Em todo o sonho, de fato, fiquei a me voltar de algum 
que me aborrecia para algum que pudesse ser agradavelmente contrastado com ele; ponto por ponto, eu evocava um amigo contra um opositor. Assim, o amilo do grupo 
"Otto" produziu no outro grupo lembranas do campo da qumica; dessa maneira, a trimetilamina, que recebia apoio de vrias direes, penetrou no contedo do sonho. 
O prprio "amilo" poderia ter entrado sem alterao no contedo do sonho, mas ficou sob a influncia do grupo "Wilhelm", pois toda a gama de lembranas abrangida 
por esse nome foi vasculhada para que se encontrasse algum elemento que pudesse proporcionar uma determinao bilateral para "amilos". "Propilos" estava intimamente 
associado com "amilos", e Munique, do grupo "Wilhelm", com seu "propileu", vinha parcialmente a seu encontro. Os dois grupos de idias convergiram para "propilos-propileu", 
e, como que por um ato de conciliao, esse elemento intermedirio foi o que penetrou no contedo do sonho. Aqui se construra uma entidade intermediria comum que 
admitia determinao mltipla.  evidente, portanto, que a determinao mltipla deve tornar mais fcil a um elemento impor-se ao contedo do sonho. No sentido de 
estruturar um elo intermedirio dessa natureza, aateno  deslocada, sem hesitao, daquilo que  realmente pretendido para alguma associao vizinha.
          Nosso estudo do sonho da injeo de Irma j nos permitiu adquirir certo discernimento dos processos de condensao no decorrer da formao dos sonhos. 
Pudemos observar alguns de seus detalhes, tais como o modo como se d preferncia aos elementos que ocorrem vrias vezes nos pensamentos do sonho, como se formam 
novas unidades (sob a forma de figuras coletivas e estruturas compostas), e como se constroem entidades intermedirias comuns. As demais questes relativas  finalidade 
da condensao e aos fatores que tendem a produzi-la no sero levantadas at que tenhamos considerado toda a questo dos processos psquicos que atuam na formao 
dos sonhos. [Ver em [1] e Captulo VII, Seo E, especialmente em [1]] Contentar-nos-emos, por ora, em reconhecer o fato de que a condensao onrica  uma caracterstica 
notvel da relao entre os pensamentos do sonho e o contedo do sonho.
          O trabalho de condensao nos sonhos  visto com mxima clareza ao lidar com palavras e nomes.  verdade, em geral, que as palavras so freqentemente 
tratadas, nos sonhos, como se fossem coisas, e por essa razo tendem a se combinar exatamente do mesmo modo que as representaes de coisas. Os sonhos desse tipo 
oferecem os mais divertidos e curiosos neologismos.
          
          I
          
          Certa ocasio, um colega mdico me enviara um artigo que tinha escrito, no qual a importncia de uma recente descoberta fisiolgica era, em minha opinio, 
superestimada, e no qual, acima de tudo, o assunto era tratado de maneira demasiado emocional. Na noite seguinte, sonhei com uma frase que se referia claramente 
a esse artigo: "Est escrito num estilo positivamente norekdal.". A anlise dessa palavra causou-me, de incio, algumadificuldade. No havia dvida alguma de que 
era uma pardia dos superlativos [alemes] "colossal" e "piramidal", mas sua origem no era muito fcil de adivinhar. Finalmente, vi que a monstruosidade era composta 
por dois nomes, "Nora" e "Ekdal" - personagens de duas peas famosas de Ibsen. [Casa de Boneca e O Pato Selvagem] Alguns tempo antes, eu lera um artigo de jornal 
sobre Ibsen, escrito pelo mesmo autor cuja ltima obra eu estava criticando no sonho.
          
          II
          
          Uma de minhas pacientes narrou-me um sonho curto que terminava num composto verbal sem sentido. Sonhou que estava com o marido numa festa de camponeses 
e dizia: "Isso vai terminar num 'Maistollmtz' geral." No sonho, ela experimentava uma vaga sensao de que se tratava de uma espcie de pudim de milho - uma espcie 
de polenta. A anlise dividiu a palavra em "Mais" ["milho"], "toll" ["louco"], "mannstoll" ["ninfomanaca" - literalmente, "louca por homens"] e Olmtz [uma cidade 
da Morvia]. Verificou-se que todos esses fragmentos eram remanescentes de uma conversa que ela tivera  mesa com parentes. As seguintes palavras estavam por trs 
de "Mais" (alm de uma referncia  Exposio do Jubileu recm-inaugurada): "Meissen" (uma figura de porcelana de Meissen [Dresden] representando um pssaro); "Miss" 
(a governanta inglesa de seus parentes acabara de partir para Olmtz); e "mies" (termo judaico de gria empregado em tom de brincadeira para significar "repulsivo"). 
Uma longa cadeia de idias e associaes partia de cada slaba dessa confuso verbal.
          
          III
          
          Uma rapaz cuja campainha da porta fora tocada tarde da noite por um conhecido que desejava deixar um carto de visita com ele, teve um sonho nessa noite: 
Um homem estivera trabalhando at tarde da noite para consertar o telefone de sua casa. Depois que ele foi embora, o aparelho continuou a tocar - no continuamente, 
mas com toques intermitentes. Seu criado foi buscar o homem de volta, e este comentou: " engraado comoat mesmo as pessoas que so 'tutelrein' na verdade so inteiramente 
incapazes de lidar com uma coisa dessas."
          Veremos que a causa excitante irrelevante do sono s abrange um de seus elementos. Esse episdio s adquiriu alguma importncia pelo fato de o sonhador 
t-lo colocado na mesma srie de uma experincia anterior, que, apesar de igualmente irrelevante em si, recebera da imaginao dele um significado substitutivo. 
Quando menino, morando com o pai, ele havia entornado um copo de gua no cho, quando estava meio adormecido. Os fios de telefone tinham ficado encharcados e seu 
tilintar contnuo perturbara o sono do pai. Como o tilintar contnuo correspondia a ficar molhado, os "toques intermitentes" foram utilizados para representar gotas 
caindo. A palavra "tutelrein" pde ser analisada em trs sentidos e levou, dessa maneira, a trs dos assuntos representados nos pensamentos do sonho. "Tutel"  um 
termo jurdico para designar "guarda" ["tutela"]. "Tutel" (ou possivelmente "Tuttel")  tambm um termo vulgar para o seio feminino. A parte restante da palavra, 
"rein" ["limpo"], combinada com a primeira parte de "Zimmertelegraph" ["telefone domstico"], forma "zummerrein" ["treinado em casa"] - que se relaciona estreitamente 
a molhar o cho e, alm disso, tinha um som muito semelhante ao do nome de um membro da famlia do sonhador.
          
          IV
          
          Num sonho confuso e um tanto extenso que eu mesmo tive, cujo ponto central parecia ser uma viagem martima, a escala seguinte parecia chamar-se "Hearsin", 
e depois dela vinha "Fliess". Est ltima palavra era o nome de meu amigo de B[erlim], que muitas vezes fora o objetivo de minhas viagens. "Hearsing" era um composto. 
Parte dela derivava de nomes de lugares ao longo da ferrovia suburbana perto de Viena, que to freqentemente terminam em "ing": Hietzing, Liesing, Mdling (Medelitz, 
"meae deliciae", era seu antigo nome - ou seja, "meine Freud" ["meu deleite"]). A outra parte derivou-se da palavra inglesa "hearsay" (boato). Esta sugeria calnia 
e estabeleceu a ligao do sonho com seu instigador irrelevante da vspera: um poema no peridico Fliegende Bltter sobre um ano caluniador chamado "Sagter Hatergesagt" 
["disse-me-disse"]. Se a slaba "ing" fosse acrescentada ao nome "Fliess", teramos "Vlissingen", que era com certeza a escala na viagem martima que meu irmo fazia 
sempre que vinha da Inglaterra nos visitar. Mas o nome ingls para Vlissingen  "Flushing", que em ingls significa "enrubescer", que que me fez lembrar dos pacientes 
que tratei por sofrerem de ereutofobia, e tambm de um artigo recente de Bechterew sobre essa neurose, que me causara certo aborrecimento.
          
          V
          
          Em outra ocasio, tive um sonho que consistiu em duas partes separadas. A primeira parte era a palavra "Autodidasker", da qual se recordava nitidamente. 
A segunda era a reproduo exata de um fantasia curta e inocente que eu produzira alguns dias antes. Essa fantasia era no sentido de que, quando encontrasse o Professor 
N. da prxima vez, eu deveria dizer-lhe: "O paciente sobre cujo estado eu recentemente o consultei est, na verdade, sofrendo apenas de uma neurose, justamente como 
o senhor suspeitava." Assim, o neologismo "Autodidasker" precisava satisfazer duas condies: em primeiro lugar, deveria ter ou representar um sentido composto; 
e em segundo, esse sentido deveria estar firmemente relacionado com a inteno, que eu reproduzira na vida de viglia, de me desculpar junto ao Professor N.
          
          A palavra "Autodidasker" pde ser com facilidade decomposta em "Autor" [autor], "Autodidakt" [autodidata] e "Lasker", com a qual tambm associei o nome 
de Lassalle. A primeira dessas palavras levou  causa precipitante do sonho - desta vez, uma causa significativa. Eu dera a minha mulher diversos volumes de autoria 
de um clebre escritor [austraco] que era amigo de meu irmo, e que, como fui informado, era natural de meu prprio torro natal: J. J. David. Uma noite, ela me 
falara da profunda impresso que lhe havia causado a trgica histria de um dos livros de David a respeito da maneira como um homem talentoso se arruinou; e nossa 
conversa se voltara para um exame dos dons de que vamos indcios em nossos prprios filhos. Sob o impacto do que estivera lendo, minha mulher externou uma preocupao 
com as crianas, e eu a consolei com o comentrio de que aqueles eram precisamente os perigos que podiam ser afastados por meio de uma boa educao. Meu fluxo de 
idias prosseguiu no decorrer da noite; tomei a preocupao de minha mulher e entremeei nela toda sorte de outras coisas. Um comentrio feito pelo autor a meu irmo 
sobre o tema do casamento indicou a meus pensamentos um caminho pelo qual eles poderiam vir a ser representados no sonho. Esse caminho levou a Breslau, para onde 
uma dama com quem mantnhamos grandes laos de amizade se dirigira a fim de casar-se e ali fixar residncia. A preocupao que eu sentia com o perigo de me arruinar 
por causa de uma mulher - pois esse era o cerne de meus pensamentos onricos - encontrou um exemplo em Breslau nos casos de Lasker e Lassalle, o qual possibilitou 
dar uma imagem simultnea das duas maneiras por que essa influncia fatal pode ser exercida. "Cherchez da femme", a frase em que esses pensamentos podiam ser resumidos, 
levou-me, tomada em outro sentido, a meu irmo ainda solteiro, cujo nome  Alexandre. Percebi ento que "Alex", a forma abreviada do nome pela qual o chamamos, tem 
quase o mesmo som de um anagrama de "Lasker", e que esse fator devia ter tido sua participao na conduo de meus pensamentos pelo caminho via Breslau.
          
          No entanto, o jogo que eu aqui fazia com nomes e slabas tinha ainda outro sentido. Expressava o desejo de que meu irmo pudesse ter uma vida domstica 
feliz, e o fez dessa forma. No romance de Zola sobre a vida de um artista, L'oeuvre, cujo tema deve ter estado prximo de meus pensamentos onricos, o autor, como 
se sabe, introduziu a si mesmo e a sua prpria felicidade domstica como um episdio. Ele aparece sob o nome de "Sandoz".  provvel que se obtenha essa transformao 
da seguinte maneira: se escrevemos "Zola" de trs para frente (o tipo de coisa que as crianas tanto gostam de fazer), chegaremos a "Aloz". Sem dvida, isso parecia 
muito pouco disfarado. Assim, ele substituiu "Al", que  a primeira slaba de "Alexander", por "Sand", que  a terceira slaba do mesmo nome: e assim nasceu "Sandoz". 
Meu prprio "Autodidasker" surgiu da mesmssima forma.
          Devo agora explicar como foi que minha fantasia de dizer ao Professor N. que o paciente que ambos havamos examinado sofria apenas de uma neurose se insinuou 
no sonho. Pouco antes do fim de meu ano de trabalho, iniciei o tratamento de um novo paciente que frustrou por completo meus poderes de diagnstico. A presena de 
uma grave doena orgnica - talvez alguma degenerao da medula espinhal - sugeriu-se acentuadamente, mas no pde ser estabelecida. Teria sido tentador diagnosticar 
uma neurose (o que teria solucionado todas as dificuldades), no fosse o paciente haver repudiado com tanta energia a histria sexual sem a qual eu me recuso a reconhecer 
a presena de uma neurose. Em minha perplexidade, procurei ajuda do mdico a quem, como muitas outras pessoas, respeito mais do que qualquer outro homem, e perante 
cuja autoridade estou inteiramente pronto a me inclinar. Ele escutou minhas dvidas, disse-me que eram justificadas, e ento emitiu sua opinio: "Mantenha o homem 
em observao; deve ser uma neurose." Como soubesse que ele no partilhava de meus conceitos sobre a etiologia das neuroses, no apresentei minha contra-argumentao, 
mas no escondi meu ceticismo. Alguns dias depois, informei ao paciente que nada podia fazer por ele e recomendei que procurasse outra orientao. Diante disso, 
para meu intenso espanto, ele comeou a se desculpar por ter mentido para mim. Esteve muito envergonhado de si mesmo, disse, e ento revelou precisamente a etiologia 
sexual que eu vinha esperando e sem a qual ficara impossibilitado de aceitar sua doena como uma neurose. Fiquei aliviado, mas, ao mesmo tempo, humilhado. Tive de 
admitir que meu orientador, no se deixando enganar pela considerao da anamnese, enxergara commais clareza do que eu. E me propus dizer-lhe exatamente isso quando 
o encontrasse da prxima vez - que ele estava certo e eu, errado.
          Foi precisamente isso o que fiz no sonho. Mas que espcie de realizao de desejo teria havido em confessar que eu estava errado? Estar errado, porm, 
era justamente o que eu desejava. Eu queria estar errado em meus temores, ou, para ser mais exato, queria que minha mulher, cujos temores eu adotara nos pensamentos 
do sonho, estivesse enganada. O tema em torno do qual girava a questo de certo ou errado no sonho no estava muito longe daquilo em que os pensamentos do sonho 
estavam realmente interessados. Havia a mesma alternativa entre prejuzo orgnico e funcional causado por uma mulher, ou, mais apropriadamente, pela sexualidade: 
paralisia tabtica ou neurose? (O tipo de morte de Lassalle podia ser displicentemente classificado nesta ltima categoria.)
          Nesse sonho de trama cerrada e, depois de cuidadosamente interpretado, muito transparente, o Professor N. desempenhou um papel no s por causa dessa analogia 
e do meu desejo de estar errado, e em virtude das suas ligaes incidentais com Breslau e com a famlia de nossa amiga que ali se fixara aps o casamento, como tambm 
por causa do seguinte episdio que ocorreu no fim de nossa consulta. Depois de dar sua opinio e assim encerrar nossa discusso mdica, ele passou a assuntos mais 
pessoais: "Quantos filhos voc tem agora?" - "Seis". Ele fez um gesto de admirao e interesse. - "Meninas ou meninos?" - "Trs e trs: so meu orgulho e meu tesouro." 
- "Bem, ento, trate de se prevenir! As meninas so bastante seguras, mas educar meninos leva a dificuldades mais tarde." - Protestei que os meus se haviam comportado 
muito bem at ali.  evidente que esse segundo diagnstico, sobre o futuro de meus meninos, no me agradou mais do que o primeiro, consoante o qual meu paciente 
estava sofrendo de uma neurose. Assim, essas duas impresses estavam ligadas por sua contigidade, pelo fato de terem sido experimentadas numa mesma ocasio; e, 
ao inserir a histria da neurose em meu sonho, eu a estava colocando em lugar da conversa sobre criao de filhos, que tinha mais ligao com os pensamentos do sonho, 
j que se referia to de perto s preocupaes posteriormente externadas por minha mulher. Assim, at meu medo de que N. pudesse ter razo no que disse sobre a dificuldade 
de educar meninos encontrou um lugar no sonho, pois jazia oculto por trs da representao de meu desejo de que eu mesmo estivesse errado em abrigar tais temores. 
A mesma fantasia serviu, sem alteraes, para representar ambas as alternativas opostas.
          
          IV
          
          "Hoje cedo, entre o sonhar e o despertar, experimentei um belo exemplo de condensao verbal. No curso de uma massa de fragmentos onricos de que mal podia 
lembrar-me, fui detido, por assim dizer, por uma palavra que vi diante de mim como se estivesse meio manuscrita e meio impressa. A palavra era 'erzefilisch' e fazia 
parte de uma frase que se insinuou em minha memria consciente, independente de qualquer contexto e em completo isolamento: 'Isso tem uma influncia erzefilisch 
nas emoes sexuais.' Soube imediatamente que a palavra deveria na verdade ter sido 'erzieherisch' ['educacional']. E fiquei em dvida, por algum tempo, se o segundo 
'e' de 'erzefilisch' no teria sido um 'i'. Com respeito a isso, ocorreu-me a palavra 'sfilis' e, comeando a analisar o sonho enquanto estava ainda meio adormecido, 
quebrei a cabea num esforo para descobrir como aquela palavra podia ter entrado em meu sonho, j que eu nada tinha a ver com essa doena, quer pessoalmente, quer 
profissionalmente. Pensei ento em 'erzehlerisch' [outra palavra sem sentido], e isso explicou o 'e' da segunda slaba de 'erzefilisch', fazendo-me lembrar que, 
na noite anterior, eu fora solicitado por nossa governanta [Erzieherin] a lhe dizer alguma coisa a respeito do problema da prostituio, e lhe dera o livro de Hesse 
sobre a prostituio para influenciar sua vida emocional - que no se desenvolvera com inteira normalidade; depois disso, eu tinha conversado [erzhlt] muito com 
ela sobre o problema. Vi ento, de uma s vez, que a palavra 'sfilis' no devia ser tomada literalmente, mas representava 'veneno' - naturalmente, em relao  
vida sexual. Quando traduzida, portanto, a frase do sonho tinha bastante lgica: 'Minha conversa [Erzhlung] pretendia ter uma influncia educacional [erzieherisch] 
sobre a vida emocional de nossa governanta [Erzieherin]; mas temo que talvez tenha tido, ao mesmo tempo, um efeito venenoso.' 'Erzefilisch' compunha-se de 'erzh-' 
e 'erzieh-'."
          
          As malformaes verbais nos sonhos se assemelham muito s que so conhecidas na parania, mas que tambm esto presentes na histeria e nas obsesses. Os 
truques lingsticos feitos pela crianas, que, s vezes, tratam realmente as palavras como se fossem objetos, e alm disso inventam novas lnguas e formas sintticas 
artificiais, constituem a fonte comum dessas coisas tanto nos sonhos como nas psiconeuroses.
          A anlise das formas verbais absurdas que ocorrem nos sonhos  particularmente adequada para exibir as realizaes do trabalho do sonho em termos de condensao. 
O leitor no deve inferir da escassez dos exemplos que forneci que esse tipo de material  raro ou apenas excepcionalmente observado. Pelo contrrio,  muito comum. 
Mas em decorrncia do fato de que a interpretao dos sonhos depende do tratamento psicanaltico, apenas um nmero muito reduzido de exemplos  observado e registrado, 
e as anlises desses exemplos, em geral, s so inteligveis para os peritos na patologia das neuroses. Assim, um sonho dessa natureza foi relatado pelo Dr. von 
Karpinska (1914), contendo a forma verbal absurda "Svingnum elvi". Vale tambm a pena mencionar os casos em que aparece num sonho uma palavra que no , em si mesma, 
sem sentido, mas que perdeu seu significado prprio e combina diversos outros significados com os quais est relacionada da mesmssima forma que estaria uma palavra 
"sem sentido". Foi isso o que ocorreu, por exemplo, no sonho do menino de dez anos sobre uma "categoria", que foi registrado por Tausk (1913). "Categoria", nesse 
caso, significava "rgos genitais femininos", e "categorizar" significava o mesmo que "urinar".
          Quando nos sonhos ocorrem frases faladas, expressamente distinguidas como tais dos pensamentos, a norma invarivel  que as palavras faladas no sonho derivam 
de palavras faladas lembradas no material onrico. O texto do enunciado  ento mantido inalterado, ou externado com algum ligeiro deslocamento. Um enunciado, num 
sonho,  freqentemente composto por vrios enunciados relembrados, permanecendo o texto idntico, mas sendo-lhe atribudos, se possvel, vrios significados, ou 
um sentido diferente do original.   
          
          (B) O TRABALHO DE DESLOCAMENTO
          
          Ao fazer nossa coletnea de exemplos de condensao nos sonhos, a existncia de outra relao, provavelmente de importncia no inferior, j se tornara 
evidente. Via-se que os elementos que se destacam como os principais componentes do contedo manifesto do sonho esto longe de desempenhar o mesmo papel nos pensamentos 
do sonho. E, como corolrio, pode-se afirmar o inverso dessa assero: o que  claramente a essncia dos pensamentos do sonho no precisa, de modo algum, ser representado 
no sonho. O sonho tem, por assim dizer, uma centrao diferente dos pensamentos onricos - seu contedo tem elementos diferentes como ponto central. Assim, no sonho 
da monografia de botnica [em [1]], por exemplo, o ponto central do contedo do sonho era, evidentemente, o elemento "botnica", ao passo que os pensamentos do sonho 
concerniam s complicaes e conflitos que surgem entre colegas por suas obrigaes profissionais, e ainda  acusao de que eu tinha o hbito de fazer sacrifcios 
demais em prol de meus passatempos. O elemento "botnica" no ocupava absolutamente nenhum lugar nesse ncleo dos pensamentos do sonho, a menos que a eles se ligasse 
vagamente por uma anttese - pelo fato de que a botnica jamais figurara entre meus estudos favoritos. No sonho de minha paciente sobre Safo [em [1]], a posio 
central era ocupada por subir e descer e por estar encima e embaixo; os pensamentos do sonho, porm, versavam sobre os perigos das relaes sexuais com pessoas de 
classe social inferior. De modo que apenas um nico elemento dos pensamentos do sonho parece ter penetrado no contedo do sonho, embora esse elemento fosse desproporcionalmente 
ampliado. De forma semelhante, no sonho dos besouros-de-maio [em [1]], cujo tpico foram as relaes entre sexualidade e crueldade,  certo que o fator crueldade 
surgiu no contedo onrico; mas o fez com respeito a outra coisa e sem qualquer meno  sexualidade, ou seja, fora de seu contexto e por conseguinte transformado 
em algo estranho. Mais uma vez, em meu sonho sobre meu tio [em [1]], a barba loura que formava seu ponto central no parece ter tido qualquer ligao em seu significado 
com meus desejos ambiciosos, que, como vimos, constituram o ncleo dos pensamentos do sonho. Tais sonhos do uma impresso justificvel de "deslocamento". Em completo 
contraste com esses exemplos, podemos ver que, no sonho da injeo de Irma [em [1]], os diferentes elementos puderam reter, no curso do processo de construo do 
sonho, o lugar aproximado que ocupavam nos pensamentos do sonho. Essa relao adicional entre os pensamentos do sonho e o contedo do sonho, inteiramente varivel 
como  em seu sentido ou direo, destina-se, a princpio, a causar espanto. Ao considerarmos um processo psquico na vida normal e verificarmos que uma de suas 
vrias representaes integrantes foi destacada das demais e adquiriu um grau especial de nitidez na conscincia, costumamos encarar esse efeito como prova de que 
uma dose especialmente elevada de valor psquico - um grau particular de interesse - est ligada a essa representao predominante. Mas agora descobrimos que, no 
caso dos diferentes elementos dos pensamentos do sonho, esse tipo de valor no persiste ou  desconsiderado no processo da formao do sonho. Nunca h qualquer dvida 
quanto a quais dos elementos dos pensamentos do sonho tm o mais alto valor psquico; tomamos cincia disso por julgamento direto. No curso da formao de um sonho, 
esses elementos essenciais, carregados como esto de um intenso interesse, podem ser tratados como se tivessem um valor reduzido e seu lugar pode ser tomado, no 
sonho, por outros elementos sobre cujo pequeno valor nos pensamentos do sonho no h nenhuma dvida.  primeira vista,  como se nenhuma ateno fosse dispensada 
 intensidade psquica das vrias representaes ao se proceder  escolha entre elas para o sonho, e como se a nica coisa considerada fosse o maior ou menor grau 
e multiplicidade de sua determinao. O que aparece nos sonhos, poderamos supor, no  o que  importante nos pensamentos do sonho, mas o que neles ocorre repetidas 
vezes. Mas essa hiptese no nos ajuda muito em nossa compreenso da formao dos sonhos, visto que, a julgar pela natureza das coisas, parece evidente que os dois 
fatores da determinao mltipla e do valor psquico intrnseco devem necessariamente atuar no mesmo sentido. As representaes mais importantes entre os pensamentos 
do sonho sero, quase certamente, as que com mais freqncia ocorrem neles, uma vez que os diferentes pensamentos onricos, por assim dizer, delas se irradiaro. 
No obstante, o sonho pode rejeitar os elementos assim altamente enfatizados em si prprios e reforados a partir de muitas direes, e selecionar para seu contedo 
outros elementos que possuam apenas o segundo desses atributos.
          Para resolver essa dificuldade, utilizaremos outra impresso derivada de nossa investigao [na seo anterior] da sobredeterminao do contedo dosonho. 
Talvez alguns dos que leram essa investigao j tenham chegado  concluso independente de que a sobredeterminao dos elementos dos sonhos no  uma descoberta 
muito importante, j que  evidente em si mesma. E isso porque, na anlise, partimos dos elementos do sonho e anotamos todas as associaes que deles defluem, de 
modo que nada h de surpreendente no fato de, no material ideativo assim obtido, depararmos com esses mesmos elementos com peculiar freqncia. No posso aceitar 
essa objeo, mas eu prprio expressarei em palavras algo que no soa muito diferente dela. Entre as idias que a anlise traz  luz, h muitas que esto relativamente 
afastadas do ncleo do sonho e que parecem interpolaes artificiais feitas para algum fim especfico. Tal objetivo  fcil de adivinhar. So precisamente elas que 
constituem uma ligao, quase sempre forada e exagerada, entre o contedo do sonho e os pensamentos do sonho; e se esses elementos fossem eliminados da anlise, 
o resultado seria, muitas vezes, que as partes integrantes do contedo do sonho ficariam no apenas sem sobredeterminao, mas tambm sem qualquer determinao satisfatria. 
Seremos levados a concluir que a determinao mltipla que decide o que ser includo num sonho nem sempre  um fator primordial na construo do sonho, mas  freqentemente 
o produto secundrio de uma fora psquica que ainda nos  desconhecida. No obstante, a determinao mltipla deve ser importante na escolha dos elementos especficos 
que entraro num sonho, pois  patente que um considervel dispndio de esforo  empregado para produzi-la nos casos em que ela no provm sem auxlio do material 
do sonho.
          Portanto, parece plausvel supor que, no trabalho do sonho, est em ao uma fora psquica que, por um lado, despoja os elementos com alto valor psquico 
de sua intensidade, e, por outro, por meio da sobredeterminao, cria, a partir de elementos de baixo valor psquico, novos valores, que depois penetram no contedo 
do sonho. Assim sendo, ocorrem uma transferncia e deslocamento de intensidade psquicas no processo de formao do sonho, e  como resultado destes que se verifica 
a diferena entre o texto do contedo do sono e o dos pensamentos do sonho. O processo que estamos aqui presumindo  nada menos do que a parcela essencial do trabalho 
do sonho, merecendo ser descrito como o "deslocamento do sonho". O deslocamento do sonho e a condensao do sonho so os dois fatores dominantes a cuja atividade 
podemos, em essncia, atribuir a forma assumida pelos sonhos.
          No penso tampouco que teremos qualquer dificuldade em reconhecer a fora psquica que se manifesta nos fatos do deslocamento do sonho. A conseqncia 
do deslocamento  que o contedo do sonho no mais se assemelha ao ncleo dos pensamentos do sonho, e que este no apresentamais do que uma distoro do desejo do 
sonho que existe no inconsciente. Mas j estamos familiarizados com a distoro do sonho. Descobrimos sua origem na censura que  exercida por uma instncia psquica 
da mente sobre outra. [Ver em [1]] O deslocamento do sonho  um dos principais mtodos pelos quais essa distoro  obtida. Is fecit cui profuit. Podemos presumir, 
portanto, que o deslocamento do sonho se d por influncia da mesma censura - ou seja, a censura da defesa endopsquica.
          A questo da interao desses fatores - deslocamento, condensao e sobredeterminao - na construo dos sonhos, bem como a questo de qual deles  o 
fator dominante e qual  o fator subordinado -, tudo issodeixaremos de lado para uma investigao posterior. [Ver, por exemplo, em [1]]. Mas podemos enunciar provisoriamente 
uma segunda condio que deve ser atendida pelos elementos dos pensamentos do sonho que penetram no sonho: eles tm que escapar da censura imposta pela resistncia. 
E daqui por diante, ao interpretarmos os sonhos, levaremos em conta o deslocamento do sonho como um fato inegvel.
          
          (C) OS MEIOS DE REPRESENTAO NOS SONHOS
          
          No processo de transformar os pensamentos latentes no contedo manifesto de um sonho, vimos dois fatores em ao: a condensao e o deslocamento do sonho. 
 medida que prosseguirmos em nossa investigao encontraremos, alm destes, dois outros determinantes que exercem indubitvel influncia na escolha do material 
que ter acesso ao sonho.
          Primeiramente, porm, mesmo com o risco de parecer que estou interrompendo nosso progresso, gostaria de dar uma olhadela preliminar nos processos envolvidos 
na efetivao da interpretao de um sonho. No posso disfarar de mim mesmo que a maneira mais fcil de tornar claros esses processos de defender sua fidedignidade 
das crticas seria tomar como amostra algum sonho especfico, proceder a sua interpretao (como fiz com o sonho da injeo de Irma em meu segundo captulo) e, em 
seguida, reunir os pensamentos onricos descobertos e reconstruir, a partir deles, o processo por que o sonho foi formado - em outras palavras, completar a anlise 
de um sonho por meio de uma sntese do sonho. De fato, executei essa tarefa, para minha prpria orientao, com diversas amostras, mas no posso reproduzi-las aqui, 
j que estou proibido de faz-lo por motivos relacionados com a natureza do material psquico em jogo - motivos que so de muitas espcies e que sero aceitos como 
vlidos por qualquer pessoa sensata. Tais consideraes interferiram menos na anlise dos sonhos, uma vez que uma anlise poderia ser incompleta e, no obstante, 
conservar seu valor, muito embora penetrasse apenas um pouco na trama do sonho. No caso da sntese de um sonho, porm, no vejo como pode ela ser convincente a menos 
que seja completa. Eu s poderia dar uma sntese completa de sonhos de pessoas desconhecidas do pblico leitor. Visto, contudo, que essa condio  preenchida apenas 
por meus pacientes, que so neurticos, devo adiar essa parte de minha exposio do assunto at que possa - em outro volume - conduzir a elucidao psicolgica das 
neuroses at um ponto em que ela possa estabelecer contato com nosso tpico atual. [1]
          
          Minhas tentativas de estruturar sonhos por sntese a partir dos pensamentos do sonho ensinaram-me que o material que emerge no curso da interpretao no 
 todo do mesmo valor. Parte dele  composta dos pensamentos onricos essenciais - ou seja, aqueles que substituem completamente o sonho, e que, se no houvesse 
censura dos sonhos, seriam suficientes em si mesmos para substitu-lo. A outra parte do material deve ser em geral considerada de menor importncia. Tampouco  possvel 
sustentar o ponto de vista de que todos os pensamentos desse segundo tipo tenham tido uma participao na formao do sonho. [Ver em [1] e [2].] Pelo contrrio, 
pode haver entre eles associaes que se relacionem com acontecimentos ocorridos depois do sonho, entre os momentos do sonho e da interpretao. Essa parte do material 
inclui todas as vias de ligao que levaram do contedo manifesto do sonho aos pensamentos latentes do sonho, bem como as associaes intermedirias e de ligao 
por meio das quais, no decorrer do processo de interpretao, chegamos a descobrir essas vias de ligao. [1]
          Estamos interessados, aqui, apenas nos pensamentos onricos essenciais. Estes geralmente emergem como um complexo de idias e lembranas da mais intricada 
estrutura possvel, com todos os atributos das cadeias de idias que nos so familiares na vida de viglia. No raro, so cadeias de idias que partem de mais de 
um centro, embora tendo pontos de contato. Cada cadeia de idias  quase invariavelmente acompanhada por sua contrapartida contraditria, vinculada a ela por associao 
antittica.
          
          As diferentes pores dessa complicada estrutura mantm,  claro, as mais diversificadas relaes lgicas entre si. Podem representar o primeiro e o segundo 
planos, digresses e ilustraes, condies, seqncias de provas e contra-argumentaes. Quando a massa inteira desses pensamentos do sonho  submetida  presso 
do trabalho do sonho, e quando seus elementos so revolvidos, transformados em fragmentos e aglutinados - quase como uma massa de gelo - surge a questo do que acontece 
s conexes lgicas que at ento formaram sua estrutura. Que representao fornecem os sonhos para "se", "porque", "como", "embora", "ou ...ou", e todas as outras 
conjunes sem as quais no podemos compreender as frases ou os enunciados?
          Num primeiro momento, nossa resposta deve ser que os sonhos no tm a seu dispor meios de representar essas relaes lgicas entre os pensamentos do sonho. 
Em sua maioria, os sonhos desprezam todas essas conjunes, e  s o contedo substantivo dos pensamentos do sonho que eles dominam e manipulam. A restaurao dos 
vnculos que o trabalho do sonho destruiu  uma tarefa que tem de ser executada pelo processo interpretativo.
          A incapacidade dos sonhos de expressarem essas coisas deve estar na natureza do material psquico de que se compem os sonhos. As artes plsticas da pintura 
e da escultura vivem, a rigor, sob uma limitao semelhante, quando comparadas  poesia, que pode valer-se da fala; e aqui, mais uma vez, a razo de sua incapacidade 
est na natureza do material que essas duas formas de arte manipulam em seu esforo de expressar alguma coisa. Antes que a pintura se familiarizasse com as leis 
de expresso pelas quais se rege, ela fez tentativas de superar essa desvantagem. Nas pinturas antigas, pequenas etiquetas eram penduradas na boca das pessoas representadas, 
contendo, em caracteres escritos, os enunciados que o pintor perdia a esperana de representar pictoricamente.
          Neste ponto, talvez se levante uma objeo contra a idia de que os sonhos so incapazes de representar relaes lgicas. Pois existem sonhos em que ocorrem 
as mais complicadas operaes intelectuais, em que as afirmaes so contrariadas ou confirmadas, ridicularizadas ou comparadas, tal como acontece ao pensamento 
de viglia. Aqui, porm, mais uma vez as aparncias enganam. Se nos aprofundarmos na interpretao de sonhos como esses, verificaremos que a totalidade disso faz 
parte do material dos pensamentos do sonho e no  uma representao do trabalho intelectual realizado durante o prprio sonho. O que  reproduzido pelo aparente 
pensamentono sonho  o tema dos pensamentos do sonho e no as relaes mtuas entre eles, cuja assero constitui o pensamento. Exporei alguns exemplos disso. [Ver 
em [1]] Mas o ponto mais fcil de estabelecer a esse respeito  que todas as frases orais que ocorrem nos sonhos e so especificamente descritas como tais constituem 
reprodues no modificadas ou ligeiramente modificadas de enunciados que tambm se encontram entre as lembranas do material dos pensamentos do sonho. Esse tipo 
de enunciado muitas vezes no passa de uma aluso a algum acontecimento includo entre os pensamentos do sonho, e o sentido do sonho pode ser totalmente diferente. 
[Ver em [1]]
          No obstante, no negarei que uma atividade crtica de pensamento, que no  uma simples repetio do material dos pensamentos do sonho, tem efetivamente 
uma participao na formao dos sonhos. Terei de elucidar o papel desempenhado por esse fator no fim desse exame. Ficar evidente, ento, que essa atividade de 
pensamento no  produzida pelos pensamentos do sonho, mas pelo prprio sonho, depois de, num certo sentido, j ter sido concludo. [Ver a ltima Seo deste Captulo 
(em [1]).]
          Provisoriamente, portanto,  possvel dizer que as relaes lgicas entre os pensamentos onricos no recebem nenhuma representao isolada nos sonhos. 
Por exemplo, quando ocorre uma contradio num sonho, ou ela  uma contradio do prprio sonho ou uma contradio oriunda do tema de um dos pensamentos do sonho. 
Uma contradio num sonho s pode corresponder a uma contradio entre os pensamentos do sonho de maneira extremamente indireta. Mas, assim como a arte da pintura 
finalmente encontrou um modo de expressar por outros meios que no as etiquetas balouantes, pelo menos a inteno das palavras dos personagens representados - afeio, 
ameaas, advertncias e assim por diante -, h tambm um meio possvel pelo qual os sonhos podem levar em conta algumas das relaes lgicas entre seus pensamentos 
onricos, efetuando uma modificao apropriada no mtodo de representao caracterstico dos sonhos. A experincia demonstra que os diferentes sonhos variam muito 
nesse aspecto. Enquanto alguns sonhos desprezam completamente a seqncia lgica de seu material, outros tentam dar uma indicao to completa quanto possvel dela. 
Ao faz-lo, os sonhos se afastam ora mais, ora menos amplamente do texto de que dispem para manipular. Alis, os sonhos variam de forma semelhante em seu tratamento 
da seqncia cronolgica dos pensamentos do sonho, caso tal seqncia tenha-se estabelecido no inconsciente (como, por exemplo, no sonho da injeo de Irma. [Ver 
em [1]]).
          
          Que meios possui o trabalho do sonho para indicar nos pensamentos onricos essas relaes que so to difceis de representar? Tentarei enumer-las uma 
a uma.
          Em primeiro lugar, os sonhos levam em conta, de maneira geral, a ligao que inegavelmente existe entre todas as partes dos pensamentos do sonho, combinando 
todo o material numa nica situao ou acontecimento.
          Eles reproduzem a ligao lgica pela simultaneidade no tempo. Nesse aspecto, agem como o pintor que, num quadro da Escola de Atenas ou do Parnaso, representa 
num nico grupo todos os filsofos ou todos os poetas.  verdade que, de fato, eles nunca se reuniram num nico salo ou num nico cume de montanha, mas certamente 
formam um grupo no sentido conceitual.
          Os sonhos levam esse mtodo de reproduo aos menores detalhes. Sempre que nos mostram dois elementos muito prximos, isso garante que existe alguma ligao 
especialmente estreita entre o que corresponde a eles nos pensamentos do sonho. Da mesma forma, em nosso sistema de escrita, "ab" significa que as duas letras devem 
ser pronunciadas numa nica slaba. Quando se deixa uma lacuna entre o "a" e o "b", isso significa que o "a"  a ltima letra de uma palavra e o "b", a primeira 
da seguinte. Do mesmo modo, as colocaes nos sonhos no consistem em partes fortuitas e desconexas do material onrico, mas em partes que so mais ou menos estreitamente 
ligadas tambm nos pensamentos do sonho.
          Para representar relaes causais, os sonhos possuem dois procedimentos que so, em essncia, os mesmos. Suponhamos que os pensamentos do sonho fossem 
do seguinte teor: "Uma vez que isso foi assim e assim, tal e tal estava fadado a acontecer." Nesse caso, o mtodo mais comum de representao seria introduzir a 
orao subordinada como um sonho introdutrio e acrescentar a orao principal como o sonho principal. Se interpretei corretamente, a seqncia temporal pode ser 
invertida. Mas a parte mais extensa do sonho sempre corresponde  orao principal.
          Uma de minhas pacientes forneceu certa vez um excelente exemplo desse modo de representar a causalidade num sonho, que mais adiante registrarei na ntegra. 
[Ver em [1]; tambm examinado em [1] e [2].] Consistiu um breve preldio e num fragmento muito difuso de sonho que se centralizou, em grau acentuado, num nico tema, 
e poderia ser intitulado "A Linguagem das Flores".
          O sonho introdutrio foi o seguinte: Ela entrou na cozinha, onde estavam as suas duas empregadas, e repreeendeu-as por no terem aprontado sua "comidinha". 
Ao mesmo tempo, ela viu uma enorme quantidade de loua comum de cermica, emborcada na cozinha para escorrer; estava amontoada em pilhas. As duas criadas foram buscar 
gua e tiveram de entrar numa espcie de rio que chegava at bem junto da casa ou entrava no quintal. Seguiu-se ento o sonho principal, que comeava assim: Ela 
estava descendo de uma elevao sobre algumas paliadas estranhamente construdas e se sentia contente por seu vestido no ter ficado preso nelas... etc.
          O sonho introdutrio relacionava-se com a casa dos pais da sonhadora. Sem dvida, ela muitas vezes ouvira a me empregar as palavras que ocorreram no sonho. 
As pilhas de louas comum provinham de uma modesta loja de ferragens que estava localizada no mesmo prdio. A outra parte do sonho continha uma referncia ao pai 
dela, que sempre corria atrs das empregadas e que acabou contraindo uma doena fatal durante uma inundao. (A casa ficava perto da margem de um rio.) Assim, o 
pensamento oculto por trs do sonho introdutrio dizia o seguinte: "Como nasci neste casa, em circunstncias to mesquinhas e deprimentes..." O sonho principal tomou 
o mesmo pensamento e apresentou-o numa forma modificada pela realizao de desejo: "Sou de alta linhagem." Assim, o verdadeiro pensamento subjacente era: "Como sou 
de linhagem to baixa, o curso de minha vida tem sido assim e assim."
          A diviso de um sonho em duas partes desiguais no significa invariavelmente, at onde posso ver, que exista uma relao causal entre os pensamentos por 
trs das duas partes. Muitas vezes,  como se o mesmo material fosse representado nos dois sonhos a partir de diferentes pontos de vista. (Isso  certamente o que 
acontece quando uma srie de sonhos durante uma noite termina numa emisso ou num orgasmo - uma srie em que a necessidade somtica encontra o caminho para uma expresso 
progressivamente mais clara.) Ou ento os dois sonhos podem ter brotado de centros separados nomaterial onrico, e seu contedo pode superpor-se, de modo que o que 
 o centro num sonho est presente como mera sugesto no outro, e vice-versa. Todavia, em certo nmero de sonhos, uma diviso em um sonho preliminar mais curto e 
uma seqncia longa significa, de fato, que h uma relao causal entre as duas partes.
          O outro mtodo de representar uma relao causal adapta-se ao material menos extenso e consiste na transformao de uma imagem do sonho, seja ela de uma 
pessoa ou de uma coisa, em outra. A existncia de uma relao causal s deve ser levada a srio se a transformao realmente ocorrer diante de nossos olhos, e no 
se apenas notarmos que uma coisa apareceu no lugar de outra.
          Afirmei que os dois mtodos de representar uma relao causal eram essencialmente os mesmos. Em ambos os casos a causao  representada pela seqncia 
temporal: num deles, por uma seqncia de sonhos e, no outro, pela transformao direta de uma imagem em outra. Na grande maioria dos casos, cabe confessar, a relao 
causal no , em absoluto, representada, mas se perde na confuso de elementos que inevitavelmente ocorre no processo do sonhar.
          A alternativa "ou ... ou" no pode ser expressa em sonhos, seja de que maneira for. Ambas as alternativas costumam ser inseridas no texto do sonho como 
se fossem igualmente vlidas. O sonho da injeo de Irma contm um exemplo clssico disso. Seus pensamentos latentes diziam nitidamente [ver em [1]-[2]]: "No sou 
responsvel pela persistncia das dores de Irma; a responsabilidade esta ou na resistncia dela a aceitar minha soluo, ou nas condies sexuais desfavorveis em 
que ela vive e que eu no posso alterar, ou no fato de que suas dores de modo algum so histricas, mas de natureza orgnica." O sonho, por outro lado, preencheu 
todas essas possibilidades (que eram quase mutuamente exclusivas), e no hesitou em acrescentar uma quarta soluo, baseada no desejo do sonho. Aps interpretar 
o sonho, procedi  insero do "ou ... ou" no contexto dos pensamentos do sonho.
          Quando, no entanto, ao reproduzir um sonho, seu narrador se sente inclinado a utilizar "ou ... ou" - por exemplo, "era ou um jardim ou uma sala de estar" 
-, o que estava presente nos pensamentos do sonho no era uma alternativa, e sim um "e", uma simples adio. "Ou ... ou"  predominantemente empregado para descrever 
um elemento onrico que tenha uma caracterstica de impreciso - que, contudo,  passvel de ser desfeita. Em tais casos, a norma de interpretao : trate as duas 
aparentes alternativas como se fossem de igual validade e ligue-as por um "e".
          
          Por exemplo, certa ocasio um amigo meu estava na Itlia e eu ficara sem seu endereo por um tempo considervel. Tive ento um sonho no qual recebia um 
telegrama com o endereo abaixo. Vi-o impresso em azul no formulrio telegrfico. A primeira palavra era vaga:
          
          "Via", talvez,                                         a segunda estava clara:
          ou "Villa"                                                "Secerno"
          ou possivelmente at ("Casa")
          
          A segunda palavra soava como algum nome italiano e me fez lembrar as discusses que eu tivera com meu amigo sobre a questo da etimologia. Tambm expressava 
minha raiva dele por ter mantido seu endereo em segredo para mim por tanto tempo. Por outro lado, cada uma das trs alternativas da primeira palavra revelou ser, 
na anlise, um ponto de partida independente e igualmente vlido para uma cadeia de idias. [1]
          Durante a noite anterior ao funeral de meu pai, tive um sonho com um aviso, placar ou cartaz impresso - bem semelhante aos avisos proibindo que se fume 
nas salas de espera das estaes de trem - onde aparecia, ou:
          
                  "Pede-se que voc feche os olhos"
          
          ou, "Pede-se
          que       voc
          feche       um
          olho".                
          
          Costumo escrever isto na forma:
          
                                                  o(s)                        
          "Pede-se que voc feche                olho(s)."                        
                                                  um
          
          Cada uma dessas duas verses tinha um sentido prprio e levou numa direo diferente quando o sonho foi interpretado. Eu escolhera o ritual mais simples 
possvel para o funeral, pois conhecia as opinies de meu pai sobre essas cerimnias.Mas alguns outros membros da famlia no simpatizavam com tal simplicidade puritana 
e achavam que ficaramos desonrados aos olhos dos que comparecessem ao enterro. Da uma das verses: "Pede-se que voc feche um olho", ou seja "feche os olhos a" 
ou "faa vista grossa". Aqui,  particularmente fcil ver o sentido da impreciso expressa pelo "ou ... ou". O trabalho do sonho no conseguiu estabelecer um enunciado 
unificado para os pensamentos dos sonhos, que pudesse ao mesmo tempo ser ambguo, e, conseqentemente, as duas principais linhas de pensamento comearam a divergir 
at no contedo manifesto do sonho. [1]
          
          Em alguns casos, a dificuldade de representar uma alternativa  superada dividindo-se o sonho em duas partes de igual extenso.
          A maneira como os sonhos tratam a categoria dos contrrios e dos contraditrios  altamente digna de nota. Ela  simplesmente desconsiderada. O "no" no 
parece existir no que diz respeito aos sonhos. Eles mostram uma preferncia particular por combinar os contrrios numa unidade ou por represent-los como uma s 
coisa. Os sonhos se sentem livres, alm disso, para representar qualquer elemento por seu oposto imaginrio, de modo que no h maneira de decidir,  primeira vista, 
se qualquer elemento que admita um contrrio est presente nos pensamentos do sonho como positivo ou negativo.
          Num dos sonhos registrados logo acima, cuja primeira orao j foi interpretada ("como minha linhagem foi tal e tal" [ver em [1]]), a sonhadora se viu 
descendo sobre paliadas, segurando um ramo florido na mo. Em conexo com essa imagem ela pensou no anjo segurando um buqu de lrios nos quadros da Anunciao 
- seu prprio nome era Maria - e nasmeninas de tnicas brancas andando nas procisses de Corpus Cristi, quando as ruas so decoradas com ramos verdes. Assim, o ramo 
florido do sonho aludia, sem dvida alguma,  inocncia sexual. Contudo, o ramo estava coberto de flores vermelhas, cada uma delas semelhante a uma camlia. No final 
de sua caminhada - assim prosseguia o sonho -, os botes em flor j estavam bem murchados. Seguiram-se ento algumas aluses inconfundveis  menstruao. Por conseguinte, 
o mesmo ramo que era carregado como um lrio e como que por uma menina inocente era, ao mesmo tempo, uma aluso  Dame aux camlias, que, como sabemos, costumava 
usar uma camlia branca, salvo durante suas regras, quando usava uma vermelha. O mesmo ramo em flor (cf. "des Mdchens Blten" ["os botes da donzela"] no poema 
de Goethe "Der Mllerin Verrat") representava tanto a inocncia sexual como seu contrrio. E o mesmo sonho que expressava sua alegria por ter conseguido passar pela 
vida imaculadamente apresentava vislumbres, em certos pontos (por exemplo, no emurchecimento dos botes em flor), da cadeia de idias contrrias - de ela ter sido 
culpada de vrios pecados contra a pureza sexual (em sua infncia, quer dizer). Ao analisar o sonho, foi possvel distinguir claramente as duas cadeias de idias 
das quais a consoladora parecia ser a mais superficial, e a auto-reprovadora, a mais profunda - cadeias de idias que eram diametralmente opostas uma  outra, mas 
cujos elementos semelhantes, embora contrrios, foram representados pelos mesmos elementos no sonho manifesto. [1]
          Uma e apenas uma dessas relaes lgicas  extremamente favorecida pelo mecanismo da formao do sonho; a saber, a relao de semelhana, consonncia ou 
aproximao - a relao de "tal como". Essa relao, diversamente de qualquer outra,  possvel de ser representada nos sonhos de mltiplas maneiras. Os paralelos 
ou exemplos de "tal como" inerentes ao material dos pensamentos do sonho constituem as primeiras fundaes para a construo de um sonho; e uma parte nada insignificante 
do trabalho do sonho consiste em criar novos paralelos onde os que j esto presentes no conseguem penetrar no sonho em virtude da censura imposta pela resistncia. 
A representao da relao de semelhana  auxiliada pela tendncia do trabalho do sonho  condensao.
          A semelhana, a consonncia, a posse de atributos comuns - tudo isso  representado nos sonhos pela unificao, que pode j estar presente no material 
dos pensamentos do sonho ou pode ser novamente construda. A primeira dessas possibilidades pode ser descrita como "identificao", e a segunda, como "composio". 
A identificao  empregada quando se trata de pessoas; a composio, quando as coisas so o material da unificao. No obstante, a composio tambm pode aplicar-se 
s pessoas. As localidades so freqentemente tratadas como pessoas.
          
          Na identificao, apenas uma das pessoas ligadas por um elemento comum consegue ser representada no contedo manifesto do sonho, enquanto a segunda ou 
as demais pessoas parecem ser suprimidas dele. Mas essa figura encobridora nica aparece no sonho em todas as relaes e situaes que se aplicam quer a ela, quer 
s figuras que ela encobre. Na composio, quando esta se estende s pessoas, a imagem onrica contm traos que so peculiares a uma ou outra das pessoas em causa, 
mas no comuns a elas; de modo que a combinao desses traos leva ao aparecimento de uma nova unidade, uma figura composta. O processo efetivo de composio pode 
ser realizado de vrias maneiras. Por um lado, a figura onrica pode ter o nome de uma das pessoas que com ela se relacionam - em cujo caso simplesmente sabemos 
diretamente, de maneira anloga a nosso conhecimento de viglia, que esta ou aquela pessoa  visada -, enquanto seus traos visuais podem pertencer  outra pessoa. 
Ou, por outro lado, a prpria imagem onrica pode ser composta de traos visuais pertencentes, na realidade, em parte a uma pessoa e em parte  outra. Ou, ainda, 
a participao da segunda pessoa na imagem onrica pode estar no em seus traos visuais, mas nos gestos que atribumos a ela, nas palavras que a fazemos pronunciar, 
ou na situao em que a colocamos. Nesse ltimo caso, a distino entre a identificao e a construo de uma figura composta comea a perder sua nitidez. Mas  
tambm possvel que a formao de uma figura composta dessa natureza seja malsucedida. Quando isso ocorre, a cena no sonho  atribuda a uma das pessoas em causa, 
enquanto a outra (e, em geral, a mais importante) aparece como uma figura concomitante, sem qualquer outra funo. O sonhador pode descrever essa posio numa frase 
como: "Minha me tambm estava l." (Stekel.) Um elemento dessa espcie no contedo do sonho pode ser comparado aos "determinantes" empregados na escrita hieroglfica, 
que no visam a ser pronunciados, servindo meramente para elucidar outros sinais.
          O elemento comum que justifica, ou, antes, causa a combinao das duas pessoas pode ser representado no sonho ou omitido dele. Em geral, a identificao 
ou construo de uma pessoa composta se d exatamente para fins de evitar a representao do elemento comum. Em vez de dizer: "A temsentimentos hostis para comigo, 
e o mesmo ocorre com B", formo uma figura composta por A e B no sonho, ou imagino A executando um ato de alguma outra natureza, que  caracterstico de B. A figura 
onrica assim construda aparece no sonho num contexto inteiramente novo, e o fato de ela representar tanto A como B justifica minha insero no ponto apropriado 
do sonho do elemento que  comum a ambos, a saber, uma atitude hostil para comigo. Muitas vezes,  possvel chegar dessa maneira a um volume notvel de condensao 
no contedo de um sonho; poupo-me a necessidade de fornecer uma representao direta de circunstncias muito complicadas relativas a uma dada pessoa, se puder encontrar 
outra pessoa a quem alguma dessas circunstncias se apliquem igualmente.  tambm fcil ver o quanto esse mtodo de representao por meio da identificao pode 
servir bem para se fugir  censura causada pela resistncia, que impe condies to severas ao trabalho do sonho. Aquilo a que a censura faz objeo pode estar 
precisamente em certas representaes que, no material dos pensamentos do sonho, esto ligadas a uma pessoa especfica; assim, passo a procurar uma segunda pessoa 
que tambm esteja ligada ao material objetvel, mas apenas a uma parte dele. O contato entre as duas pessoas nesse aspecto censurvel justifica ento minha construo 
de uma figura composta caracterizada por traos irrelevantes oriundos de ambas. Essa figura, obtida por identificao ou por composio, fica ento admissvel ao 
contedo do sonho, sem censura, e assim, utilizando a condensao do sonho, atendi s reivindicaes da censura onrica.
          Quando um elemento comum entre duas pessoas  representado num sonho, isso costuma ser uma sugesto para que procuremos outro elemento comum oculto cuja 
representao tenha sido impossibilitada pela censura. Fez-se deslocamento no tocante ao elemento comum para, por assim dizer, facilitar sua representao. O fato 
de a figura composta aparecer no sonho com um elemento comum irrelevante leva-nos a concluir que outro elemento comum, longe de ser indiferente, est presente nos 
pensamentos do sonho.
          Portanto, a identificao ou a produo de figuras compostas serve a vrias finalidades nos sonhos: em primeiro lugar, para representar um elemento comum 
a duas pessoas, em segundo, para representar um elemento comum deslocado, e, em terceiro, tambm para expressar um elemento comum meramente imaginrio. Visto que 
desejar que duas pessoas tivessem um elemento comum muitas vezes coincide com a troca de uma pela outra, esta segunda relao tambm se expressa nos sonhos por meio 
da identificao. No sonho da injeo de Irma, eu desejava troc-la por outra paciente: ou seja, desejava que a outra mulher pudesse ser minha paciente, tal comoIrma. 
O sonho levou esse desejo em conta, mostrando-me uma pessoa que se chamava Irma, mas que era examinada numa posio em que eu s havia tido oportunidade de ver a 
outra mulher [em [1]]. No sonho com meu tio, uma troca dessa natureza tornou-se o ponto central: eu me identifiquei com o Ministro, no tratando nem julgando meus 
colegas melhor do que ele o fez. [Ver em [1]]
           minha experincia, e uma experincia para a qual no encontrei nenhuma exceo, que todo sonho versa sobre o prprio sonhador. Os sonhos so inteiramente 
egostas. Sempre que meu prprio ego no aparece no contedo do sonho, mas somente alguma pessoa estranha, posso presumir com segurana que meu prprio ego est 
oculto, por identificao, por trs dessa outra pessoa; posso inserir meu ego no contexto. Em outras ocasies, quando meu prprio ego de fato aparece no sonho, a 
situao em que isso ocorre pode ensinar-me que alguma outra pessoa jaz oculta, por identificao, por trs de meu ego. Nesse caso, o sonho me alertaria a transferir 
para mim mesmo, ao interpret-lo, o elemento comum oculto ligado a essa outra pessoa. H tambm sonhos em que meu ego aparece juntamente com outras pessoas que, 
uma vez desfeita a identificao, revelam-se mais uma vez como meu ego. Essas identificaes ento me possibilitariam pr em contato com meu ego certas representaes 
cuja aceitao fora proibida pela censura. Assim, meu ego pode ser representado num sonho vrias vezes, ora diretamente, ora por meio da identificao com pessoas 
estranhas. Por meio de vrias dessas identificaes torna-se possvel condensar um volume extraordinrio de material do pensamento. O fato de o ego do prprio sonhador 
aparecer num sonho vrias vezes, ou de vrias formas, no , no fundo, mais marcante do que o fato de o ego estar contido num pensamento consciente vrias vezes 
ou em diferentes lugares ou contextos - por exemplo, na frase "quando eu penso em como eu fui uma criana sadia."
          As identificaes no caso de nomes prprios de localidades se desfazem ainda mais facilmente do que no caso de pessoas, j que aqui no h interferncia 
por parte do ego, que ocupa um lugar to dominante nos sonhos. Num de meus sonhos sobre Roma [ver em [1]], o lugar em que me encontrava chamava-se Roma, mas eu ficava 
atnito com a quantidade de cartazes em alemo na esquina de uma rua. Esse segundo ponto era uma realizao de desejo, que imediatamente me fez pensar em Praga; 
e o prprio desejo talvez datasse de uma fase nacionalista-alem pela qual passei durante minha juventude, mas que depois superei. Na ocasio em que tive o sonho, 
havia uma perspectiva de eu encontrar meu amigo [Fliess] em Praga; de modo que a identificao de Roma e Praga pode ser explicada como um elemento desejante comum: 
eu preferiria encontrar meu amigo em Roma e gostaria de trocar Praga por Roma para fins desse encontro.
          A possibilidade de criar estruturas compostas destaca-se como a mais importante entre as caractersticas que tantas vezes emprestam aos sonhos uma aparncia 
fantstica, pois introduz no contedo dos sonhos elementos que nunca poderiam ter sido objetos de percepo real. O processo psquico de construir imagens compostas 
nos sonhos , evidentemente, o mesmo de quando imaginamos ou retratamos um centauro ou um drago na vida de viglia. A nica diferena  que a que determina a produo 
da figura imaginria na vida de viglia  a impresso que a prpria nova estrutura pretende causar, ao passo que a formao da estrutura composta num sonho  determinada 
por um fator estranho  sua forma real - a saber, o elemento comum nos pensamentos do sonho. As estruturas compostas nos sonhos podem ser formadas de uma grande 
variedade de maneiras. O mais ingnuo desses procedimentos representa meramente os atributos de uma coisa, acompanhados pelo conhecimento de que tambm pertencem 
a uma outra coisa. Uma tcnica mais elaborada combina os traos de ambos os objetos numa nova imagem e, ao proceder assim, utiliza com habilidade quaisquer semelhanas 
que os dois objetos acaso possuam na realidade. A nova estrutura pode aparecer inteiramente absurda ou causar-nos a impresso de um sucesso imaginativo, conforme 
o material e a habilidade com que seja aglutinada. Quando os objetos a serem condensados numa s unidade so por demais incongruentes, o trabalho do sonho muitas 
vezes se contenta em criar uma estrutura composta com um ncleo relativamente distinto, acompanhando por diversos traos menos distintos. Nesse caso,  possvel 
dizer que o processo de unificao numa imagem nica falhou. As duas representaes se superpem e produzem algo da ordem de uma competio entreas duas imagens 
visuais. Poder-se-ia chegar a representaes semelhantes num desenho, caso se tentasse ilustrar o modo pelo qual um conceito geral  formado a partir de vrias imagens 
perceptivas isoladas.
          Os sonhos so, na verdade, uma massa dessas estruturas compostas. Forneci alguns exemplos delas em sonhos que j analisei; e acrescentarei agora mais alguns. 
No sonho relatado mais adiante, em [1] [tambm anteriormente, em [1]-[2]], que descreve o curso da vida da paciente "na linguagem das flores", o ego do sonho segurava 
na mo um ramo de botes de flores que, como vimos, representava tanto a inocncia como a pecaminosidade sexual. O ramo, graas  maneira como as flores estavam 
colocadas nele, tambm fez a sonhadora lembrar-se de flor de cerejeira; as prprias flores, consideradas individualmente, eram camlias, e, alm disso, a impresso 
geral era a de um crescimento extico. O fator comum entre os elementos dessa estrutura composta foi indicado pelos pensamentos do sonho. O ramo florido era composto 
de aluses a presentes que lhe tinham sido oferecidos com o propsito de conquistar, ou tentar conquistar, seu favores. Assim, tinham-lhe dado cerejas na infncia 
e, em poca posterior da vida, uma planta de camlias; j "extico" era uma aluso a um naturalista muito viajado que tentara conquistar suas boas graas com o desenho 
de uma flor. - Outra de minhas pacientes produziu, num de seus sonhos, algo intermedirio entre uma cabine de banho  beira-mar, um quartinho externo no campo e 
um sto numa casa urbana. Os dois primeiros elementos tm em comum uma ligao com pessoas nuas e em desalinho; e sua combinao com o terceiro elemento leva  
concluso de que (em sua infncia) um sto tambm fora uma cena de desnudamento. - Outro sonhador produziu uma localidade composta a partir de dois lugares onde 
se fazem "tratamentos", sendo um deles meu consultrio e o outro, o local de entretenimento onde ele travara conhecimento com sua mulher. - Uma moa sonhou, depois 
de seu irmo mais velho ter-lhe prometido um banquete de caviar, que as pernas desse mesmo irmo estavam inteiramente cobertas de gros negros de caviar. O elemento 
de "contgio" (no sentido moral) e a lembrana de uma erupo em sua infncia, que lhe cobrira inteiramente as pernas de manchas vermelhas, em vez de negras, tinham-se 
combinado com os gros de caviar num conceito novo - a saber, o conceito "o que ela pegara de seu irmo". Nesse sonho, como em outros, as partes do corpo humano 
foram tratadas como objetos. -Num sonho registrado por Ferenczi [1910], ocorreu uma imagem composta que era formada da figura de um mdico e de um cavalo e estava 
tambm vestida de camiso de dormir. O elemento comum a esses trs componentes foi alcanado na anlise depois de a paciente reconhecer que o camiso de dormir era 
uma aluso a seu pai numa cena da infncia. Em todos os trs casos, a questo era um objeto de sua curiosidade sexual. Quando criana, ela fora muitas vezes levada 
por sua bab a um haras militar onde teve amplas oportunidades de satisfazer o que, na poca, era sua curiosidade ainda no inibida.
          Afirmei anteriormente [em [1]] que os sonhos no tm meios de expressar a relao de uma contradio, um contrrio ou um "no". Passarei agora a fazer 
uma primeira negao dessa assertiva. Uma classe de casos que podem ser reunidos sob o ttulo de "contrrios" , como j vimos [em [1]], simplesmente representada 
por identificao - ou seja, casos em que a idia de uma troca ou substituio pode ser posta em ligao com o contraste. Apresentei vrios exemplos disso. Outra 
classe de contrrios nos pensamentos do sonho, que se enquadram numa categoria que pode ser descrita como "pelo contrrio" ou "justamente o inverso", penetra nos 
sonhos da seguinte maneira notvel, que quase merece ser descrita como um chiste. O "justamente o inverso" no  representado, em si mesmo, no contedo do sonho, 
mas revela sua presena no material pelo fato de uma parte do contedo onrico, que j foi construda e por acaso (por algum outro motivo) lhe  adjacente, ser - 
digamos como que numa reconsiderao - virada no outro sentido. O processo  mais fcil de ilustrar do que de descrever. No interessante sonho do "em cima e embaixo" 
(em [1]), a representao da subida no sonho foi o inverso do que era em seu prottipo nos pensamentos do sonho - ou seja, na cena introdutria de Safo, de Daudet: 
no sonho, a subida era difcil no comeo, porm mais fcil depois, enquanto que, na cena de Daudet, era fcil no incio porm cada vez mais difcil depois. Alm 
disso, o "l em cima" e o "l em baixo" na relao entre o sonhador e seu irmo foram representados de maneira invertida no sonho. Isso apontou para a presena de 
uma relao invertida ou contrria entre duas partes do material dos pensamentos do sonho, e fomos encontr-la na fantasia infantil do sonhador de ser carregado 
por sua ama-de-leite, que era o contrrio da situao do romance, onde o heri estava carregando sua amante. Do mesmomodo, em meu sonho do ataque de Goethe a Herr 
M. (ver adiante, em [1]), existe um "justamente o inverso" semelhante, que tem de ser posto em ordem antes que o sonho possa ser interpretado com xito. No sonho, 
Goethe fazia um ataque a um jovem, Her M.; na situao real contida nos pensamentos do sonho, um homem importante, meu amigo [Fliess], fora atacado por um jovem 
escritor desconhecido. No sonho, fiz um clculo baseando-me na data da morte de Goethe; na realidade, o clculo fora feito a partir do ano de nascimento do paciente 
paraltico. O pensamento que se revelou decisivo nos pensamentos do sonho foi uma contradio da idia de que Goethe deveria ser tratado como se fosse um luntico. 
"Justamente o inverso", disse [o sentido subjacente de] o sonho; "se voc no compreende o livro,  voc [o crtico] que  um dbil mental, e no o autor". Penso, 
alm disso, que todos esses sonhos de virar as coisas ao contrrio incluem uma referncia s implicaes desdenhosas da idia de "voltar as costas a alguma coisa". 
(Por exemplo, o virar as costas do sonhador em relao a seu irmo no sonho de Safo [em [1]].)  relevante observar, alm disso, o quanto  freqente a inverso 
empregada precisamente nos sonhos oriundos de impulsos homossexuais recalcados.
          Alis, a inverso, ou transformao de uma coisa em seu oposto,  um dos meios de representao mais favorecidos pelo trabalho do sonho, e  passvel de 
utilizao nos sentidos mais diversos. Ela serve, em primeiro lugar, para dar expresso  realizao de um desejo em referncia a algum elemento especfico dos pensamentos 
do sonho. "Ah, se ao menos tivesse sido ao contrrio!" Esta  muitas vezes a melhor maneira de expressar a reao do ego a um fragmento desagradvel da memria. 
Alm disso, a inverso tem uma utilidade muito especial como auxlio  censura, pois produz uma massa de distoro do material a ser representado, e isto tem um 
efeito positivamente paralisante, para comear, sobre qualquer tentativa de compreender o sonho. Por essa razo, quando um sonho se recusa obstinadamente a revelar 
seu sentido, sempre vale a pena ver o efeito de inverter em particular alguns elementos de seu contedo manifesto, depois do qu toda a situao, com freqncia, 
torna-se logo evidente.
          
          E, independentemente da inverso do assunto, a inverso cronolgica no deve ser negligenciada. Uma tcnica bastante comum da distoro do sonho consiste 
em representar o resultado de um acontecimento ou a concluso de uma cadeia de idias no incio de um sonho, e em colocar em seu final as premissas em que se basearam 
a concluso ou as causas que levaram ao acontecimento. Quem quer que deixe de ter em mente esse mtodo tcnico adotado pela distoro onrica ficar inteiramente 
perdido quando se deparar com a tarefa de interpretar um sonho.
          Em alguns casos, de fato, s  possvel chegar ao sentido de um sonho depois de se ter efetuado um bom nmero de inverses de seu contedo sob vrios aspectos. 
Por exemplo, no caso de um jovem neurtico obsessivo, ocultava-se por trs de um de seus sonhos a lembrana de um desejo de morte que datava de sua infncia e era 
dirigido contra seu pai, a quem ele temera. Eis aqui o texto do sonho: Seu pai o repreendia por voltar para casa to tarde. O contexto em que o sonho ocorreu no 
tratamento psicanaltico e as associaes do paciente mostraram, contudo, que as palavras originais deviam ter sido que ele estava com raiva do pai, e que, em sua 
opinio, o pai sempre voltava para casa cedo demais (ou seja, muito antes do tempo). Ele teria preferido que o pai no voltasse para casa em absoluto, e isso era 
a mesma coisa que um desejo de morte contra o pai. (Ver em [1]). E isso porque, quando muito pequeno, no decorrer da ausncia temporria do pai, ele fora culpado 
de um ato de agresso sexual contra algum e, como punio, fora ameaado com estas palavras: "Espere s at seu pai voltar!"
          Se desejarmos levar mais avante nosso estudo das relaes entre o contedo do sonho e os pensamentos do sonho, o melhor plano ser tomar os prprios sonhos 
como nosso ponto de partida e considerar o que certas caractersticas formais do mtodo de representao nos sonhos significam em relao aos pensamentos subjacentes 
a elas. As mais destacadas dentre essas caractersticas formais, que no podem deixar de nos impressionar nos sonhos, so as diferenas de intensidade sensorial 
entre imagens onricas especficas e as diferenas na nitidez de certas partes dos sonhos ou de sonhos inteiros quando comparados entre si.
          As diferenas de intensidade entre imagens onricas especficas abrangem toda a gama que se estende desde uma nitidez de definio que nos sentimos inclinados, 
sem dvida injustificamente, a considerar como maior do que a da realidade, e um irritante carter vago que declaramos ser caracterstico dos sonhos, porque no 
 inteiramente comparvel a nenhum grau de indistino que jamais percebemos nos objetos reais. Alm disso, em geral descrevemos uma impresso que tenhamos de um 
objeto indistinto num sonho como "fugaz", enquanto sentimos que as imagens onricas que so mais ntidas foram percebidas por uma extenso considervel de tempo. 
Surge ento a questo de investigar, no material dos pensamentos do sonho, o que  que determina essas diferenas na nitidez das partes especficas do contedo de 
um sonho.
          Devemos comear por contrariar certas expectativas que quase inevitavelmente se apresentam. Como o material de um sonho pode incluir sensaes reais experimentadas 
durante o sono,  provvel que se presuma que estas, ou os elementos do sonho delas oriundos, recebem destaque no contedo do sonho, aparecendo com intensidade especial; 
ou, de forma inversa, que o que quer que seja muito especialmente ntido num sonho pode ser rastreado at sensaes reais durante o sono. Em minha experincia, porm, 
isso nunca foi confirmado. No se constata que os elementos de um sonho derivados de impresses reais no decorrer do sono (ou seja, de estmulos nervosos) se distingam, 
por sua nitidez, de outros elementos que surjam de lembranas. O fator da realidade no tem importncia alguma na determinao da intensidade das imagens onricas.
          Do mesmo modo, poder-se-ia esperar que a intensidade sensorial (ou seja, a nitidez) das imagens onricas especficas estivesse relacionada com a intensidade 
psquica dos elementos nos pensamentos onricos correspondentes a elas. Nestes ltimos, a intensidade psquica coincide com o valorpsquico: os elementos mais intensos 
so tambm os mais importantes - os que formam o ponto central dos pensamentos do sonho. Sabemos,  verdade, que so estes precisamente os elementos que, em virtude 
da censura, em geral no conseguem penetrar no contedo do sonho; no obstante,  bem possvel que seus derivados imediatos, que os representam no sonho, tivessem 
um grau mais elevado de intensidade, sem por isso constituir, necessariamente, o centro do sonho. Mas tambm essa expectativa  frustrada pelo estudo comparativo 
dos sonhos e do material de que derivam. A intensidade dos elementos de um no tem nenhuma relao com a intensidade dos elementos do outro: o fato  que ocorre 
uma completa "transposio de todos os valores psquicos" [na expresso de Nietzsche] entre o material dos pensamentos onricos e o sonho. Muitas vezes, um derivado 
direto daquilo que ocupa uma posio dominante nos pensamentos do sonho s pode ser descoberto, precisamente, em algum elemento transitrio do sonho, que  muito 
ofuscado por imagens mais poderosas.
          A intensidade dos elementos de um sonho mostra ter uma outra determinao - e por dois fatores independentes. Em primeiro lugar,  fcil ver que os elementos 
pelos quais a realizao de desejo se expressa so representados com especial intensidade. [Ver em [1]] E, em segundo, a anlise mostra que os elementos mais ntidos 
de um sonho constituem o ponto de partida das mais numerosas cadeias de idias - que os elementos mais ntidos so tambm aqueles que possuem o maior nmero de determinantes. 
No estaremos alterando o sentido dessa assero de base emprica se a enunciarmos nestes termos: a intensidade mxima  exibida pelos elementos de um sonho em cuja 
formao se despendeu o maior volume de condensao. [Ver em [1]] Podemos esperar que eventualmente venha a ser possvel expressar esse determinante e o outro (isto 
, a relao com a realizao de desejo) numa nica frmula.
          O problema de que acabo de tratar - as causas da maior ou menor intensidade ou clareza de certos elementos de um sonho - no deve ser confundido com outro 
problema, que se relaciona com a clareza varivel de sonhos inteiros ou de partes de sonhos. No primeiro caso, a clareza contrasta com a indeterminao, mas, no 
segundo, contrasta com a confuso. No obstante, no se pode duvidar de que o aumento e a reduo das qualidades nessas duas escalas correm paralelamente. Uma parte 
de um sonho que nos parea clara geralmente conter elementos intensos; um sonho obscuro, por outro lado,  composto de elementos de pequena intensidade. Todavia, 
o problema apresentado pela escala que se estende desde o que  aparentementeclaro at o que  obscuro e confuso  muito mais complicado do que o problema dos graus 
variveis de nitidez dos elementos do sonho. Realmente, por motivos que surgiro depois, o primeiro desses problemas ainda no pode ser examinado. [Ver em [1].]
          Em alguns casos, verificamos, para nossa surpresa, que a impresso de clareza ou indistino fornecida por um sonho no tem absolutamente nenhuma relao 
com a constituio do prprio sonho, mas decorre do material dos pensamentos onricos e  parte integrante dele. Assim, lembro-me de um sonho que me causou a impresso, 
quando acordei, de ser to particularmente bem construdo, impecvel e claro que, ainda meio tonto de sono, pensei em introduzir uma nova categoria de sonhos que 
no estariam sujeitos aos mecanismos de condensao e deslocamento, mas deveriam ser descritos como "fantasias durante o sono". Um exame mais atento provou que essa 
raridade entre os sonhos exibia em sua estrutura as mesmas lacunas e os mesmos defeitos de qualquer outro; e, por essa razo, abandonei a categoria de "fantasias 
onricas". O contedo do sonho, uma vez obtido, representou-me expondo a meu amigo [Fliess] uma teoria difcil e h muito buscada sobre a bissexualidade; e o poder 
de realizao de desejos do sonho era responsvel por considerarmos essa teoria (que, alis, no foi fornecida no sonho) como clara e impecvel. Assim, o que eu 
tomara por um julgamento sobre o sonho concludo era, na realidade, uma parte, e a rigor a parte essencial, do contedo do sonho. O trabalho do sonho tinha, nesse 
caso, usurpado, por assim dizer, meus primeiros pensamentos de viglia, e me transmitira como um julgamento sobre o sonho a parte do material dos pensamentos onricos 
que ele no tinha conseguido representar com exatido no sonho. Certa vez deparei com uma contrapartida exata disso no sonho de uma paciente no decorrer da anlise. 
De incio, ela se recusou inteiramente a cont-lo a mim, "porque era muito indistinto e confuso".Finalmente, em meio a repetidos protestos de que no tinha nenhuma 
certeza de que seu relato fosse correto, ela me informou que vrias pessoas tinham entrado no sonho - ela prpria, o marido e o pai - e que era como se ela no soubesse 
se seu marido era seu pai, ou quem era seu pai, ou algo dessa espcie. Esse sonho, considerado juntamente com suas associaes durante a sesso analtica, mostrou, 
sem dvida, que se tratava da histria algo comum da criada que era obrigada a confessar que estava esperando um beb, mas estava incerta quanto a "quem era realmente 
o pai (da criana)". Logo, tambm nesse caso, a falta de clareza exibida pelo sonho era parte do material que a instigara, ou seja, parte desse material estava representada 
na forma do sonho. A forma de um sonho, ou a forma como  sonhado,  empregada, com surpreendente freqncia, para representar seu tema oculto.
          As explicaes a respeito de um sonho ou os comentrios aparentemente inocentes a seu respeito servem, muitas vezes, para disfarar da maneira mais sutil 
parte do que foi sonhado, embora, de fato, traindo-a. Por exemplo, um sonhador comentou que, num dado ponto, "o sonho tinha sido lavado"; e a anlise levou a uma 
lembrana infantil de ele escutar algum se limpando depois de defecar. Ou temos aqui outro exemplo que merece ser registrado com pormenores. Um rapaz teve um sonho 
muito claro que o fez recordar-se de algumas fantasias de sua meninice que haviam permanecido conscientes. Sonhou que era noite e que ele se encontrava num hotel, 
numa estao de veraneio. Confundiu o nmero de seu quarto e entrou num outro em que uma mulher madura e suas duas filhas estavam se despindo para dormir. Prosseguiu 
ele: "Aqui existem umas lacunas no sonho; alguma coisa est faltando. Finalmente, havia um homem no quarto que tentou me expulsar, e eu tive de entrar numa luta 
com ele." O sonhador fez esforos inteis para recordar a essncia e o tema da fantasia infantil a que o sonho evidentemente fazia aluso; at que, por fim, surgiu 
a verdade de que aquilo que ele estava procurando j se encontrava em seu poder, em seu comentrio sobre a parte obscura do sonho. As "lacunas" eram os orifcios 
genitais das mulheres que estavam indo dormir; e "alguma coisa est faltando" descrevia o espectro principal dos rgos genitais femininos. Quando rapaz, ele tivera 
uma ardente curiosidade de ver os rgos genitais de uma mulher e estivera inclinado a sustentar a teoria sexual infantil segundo a qual as mulheres possuem rgos 
masculinos.
          Uma lembrana anloga de outro sonhador assumiu uma forma muito semelhante. Ele sonhou o seguinte: "Eu estava entrando no Restaurante Volksgarten com a 
Srta. K..., surgiu ento um pedao obscuro, uma interrupo..., em seguida, vi-me no salo de um bordel, onde vi duas ou trs mulheres, uma delas de combinao e 
calcinhas."
          ANLISE - A Srta. K. era a filha de seu antigo chefe, e, como ele prprio admitiu, uma irm substituta para ele. O rapaz raramente tivera oportunidade 
de conversar com ela, mas, certa ocasio, tiveram uma conversa em que "foi exatamente como se tivssemos tomado conscincia de nosso sexo, como se eu devesse dizer 
'eu sou um homem e voc  uma mulher.'" Apenas uma vez ele estivera no restaurante em questo, com a irm de seu cunhado, uma moa que nada significa para ele. Outra 
vez, fora com um grupo de trs senhoras at a entrada do mesmo restaurante. Essas damas eram sua irm, sua cunhada e a irm do cunhado que acabamos de mencionar. 
Todas elas lhe eram altamente indiferentes, mas todas trs se enquadravam na categoria de "irms". Raras vezes ele visitara um bordel - apenas duas ou trs vezes 
na vida.
          A interpretao baseou-se no "pedao obscuro" e na "interrupo" do sonho, e props uma viso de que, em sua curiosidade infantil, ele havia ocasionalmente 
inspecionado, mesmo que s raras vezes, os rgos genitais de uma irm alguns anos mais nova que ele. Alguns dias depois, ele teve uma lembrana consciente do mau 
feito a que o sonho aludira.
          O contedo de todos os sonhos que ocorrem na mesma noite faz parte do mesmo todo; o fato de estarem divididos em vrias sees, bem como o agrupamento 
e nmero dessas sees -, tudo isso tem sentido e pode ser encarado como uma informao proveniente dos pensamentos latentes do sonho. Ao interpretar sonhos que 
consistam em vrias sees principais ou, em geral, sonhos que ocorram durante a mesma noite, no se deve desprezar a possibilidade de que os sonhos separados e 
sucessivos dessa natureza tenham o mesmo sentido e possam estar dando expresso aos mesmos impulsos em material diferente. Sendo assim, o primeiro desses sonhos 
homlogos a ocorrer  muitas vezes o mais distorcido e tmido, ao passo que o seguinte ser mais confiante e ntido.
          Os sonhos do Fara na Bblia sobre as vacas e as espigas de milho, interpretados por Jos, eram desse tipo. Eles so mais minuciosamenterelatados por Josefo 
(Ancient History of the Jews, Livro 2, Captulo 5) do que a Bblia. Depois de narrar seu primeiro sonho, disse o Rei: "Aps ter tido essa viso, despertei de meu 
sono; e, estando em desordem e considerando comigo mesmo o que devia ser essa apario, adormeci novamente, e vi outro sonho, mais maravilhoso que o anterior, que 
ainda mais me assustou e perturbou..." Aps ouvir o relato do sonho do Rei, respondeu Jos: "Esse sonho,  Rei, embora visto sob duas formas, significa um e o mesmo 
fato...".
          Em sua "Contribuio  Psicologia do Boato", Jung (1910b) descreve como o sonho ertico disfarado de uma escolar foi compreendido por suas colegas sem 
qualquer interpretao e como foi adicionalmente elaborado e modificado. Observa ele em relao a uma dessas histrias onricas: "A idia final numa longa srie 
de imagens onricas contm precisamente aquilo que a primeira imagem da srie tentara retratar. A censura mantm o complexo  distncia o maior tempo possvel, mediante 
uma sucesso de novos encobridores simblicos, deslocamentos, disfarces inocentes etc." (Ibid., 87.) Scherner (1861, 166) estava bem familiarizado com essa peculiaridade 
do mtodo de representao nos sonhos e o descreve, no tocante  sua teoria dos estmulos orgnicos [ver em [1]], como uma lei especial: "Em ltima anlise, contudo, 
em todas as estruturas onricas simblicas provenientes de estmulos nervosos especficos, a imaginao observa uma lei geral: no comeo de um sonho, ela s retrata 
o objeto do qual provm o estmulo por meio das mais remotas e inexatas aluses, mas, no final, depois que a efuso pictrica se esgotou, ela representa cruamente 
o prprio estmulo, ou, conforme o caso, o rgo envolvido ou a funo desse rgo, e com isso o sonho, tendo designado sua causa orgnica real, atinge seu objetivo..."
          Otto Rank (1910) forneceu uma bela confirmao dessa lei de Scherner. Um sonho de uma moa, relatado por ele, compunha-se de dois sonhos isolados, com 
um intervalo entre eles, sonhados no decorrer da mesma noite, tendo o segundo terminado num orgasmo. Foi possvel efetuar uma interpretao pormenorizada desse segundo 
sonho, mesmo sem muitas contribuies da sonhadora: e o nmero de ligaes entre os contedos dos dois sonhos possibilitou ver que o primeiro sonho representa, de 
maneira mais tmida, a mesma coisa que o segundo. De modo que este, o sonho com o orgasmo, contribuiu para a completa explicao do primeiro. Rank baseia acertadamente 
nesse exemplo um exame da importncia geral dos sonhos com orgasmo ou emisso para a teoria do sonhar. [Ver em [1]]
          No obstante, em minha experincia, s raramente ficamos em condies de interpretar a clareza ou confuso de um sonho pela presena de certeza ou dvida 
em seu material. Posteriormente, terei de revelar um fator na formao dos sonhos que ainda no mencionei e que exerce a influncia determinante sobre a escala dessas 
qualidades em qualquer sonho especfico. [Ver em [1]]
          Por vezes, num sonho em que a mesma situao e cenrio persistem por algum tempo, ocorre uma interrupo que  descrita com estas palavras: "A foi como 
se, ao mesmo tempo, fosse outro lugar, e l aconteceu tal e tal coisa." Aps algum tempo, o fio da meada principal do sonho pode ser retomado, e aquilo que o interrompeu 
revela ser uma orao subordinada no material onrico - um pensamento interpolado. Uma orao condicional nos pensamentos do sonho  representada neste ltimo por 
simultaneidade: "se" transforma-se em "quando".
          Qual  o sentido da sensao de movimento inibido que to comumente aparece nos sonhos e que se aproxima tanto da angstia? O sujeito tenta mover-se para 
a frente, mas se descobre colado ao cho, ou tenta alcanar algo, mas  retido por uma srie de obstculos. Um trem est prestes a partir, mas fica-se impossibilitado 
de apanh-lo. O sujeito ergue a mo para revidar um insulto, mas verifica que ela est impotente. E assim por diante. J deparamos com essa sensao nos sonhos de 
exibio [em [1] e [2]], mas ainda no fizemos nenhuma tentativa sria de interpret-la. Uma resposta fcil, mas insuficiente, seria dizer que a paralisia motora 
prevalece no sono e que dela tomamos conhecimento na sensao que estamos examinando. Mas pode-se perguntar por qu, nesse caso, no estamos perpetuamente sonhando 
com esses movimentos inibidos; e  razovel supor que essa sensao, embora possa ser evocada a qualquer momento durante o sono, sirva para facilitar algum tipo 
especfico de representao, sendo despertada apenas quando o material dos pensamentos do sonho precisa ser representado dessa maneira.
          Esse "no poder fazer nada" nem sempre aparece nos sonhos como uma sensao, mas  s vezes, simplesmente, parte do contedo do sonho. Um caso dessa natureza 
me parece particularmente apto a lanar luz sobre o sentido desse aspecto do sonhar. Eis aqui uma verso abreviada de um sonho em que, aparentemente, fui acusado 
de desonestidade. O local era uma mescla de um sanatrio particular e de vrias outras instituies. Um criado apareceu para me convocar para um exame. Eu sabia, 
no sonho, que algo estava desaparecido e que o exame se devia a uma suspeita de que eu me apropriara do artigo desaparecido. (A anlise demonstrou que o examedevia 
ser entendido em dois sentidos e inclua um exame mdico.) Ciente de minha inocncia e do fato de que eu ocupava o posto de consultor no estabelecimento, acompanhei 
o criado tranqilamente.  porta, fomos recebidos por outro criado, que disse, apontando para mim: "Por que voc o trouxe? Ele  uma pessoa respeitvel." Entrei 
ento, desacompanhado, num grande saguo onde havia mquinas, que me lembraram um Inferno com seus instrumentos de tortura diablicos. Estendido num aparelho vi 
um de meus colegas, que tinha todos os motivos para reparar em mim; mas ele no prestou nenhuma ateno. Disseram-me ento que eu podia ir. Mas no consegui encontrar 
meu chapu e, afinal, no pude ir.
          A realizao de desejo do sonho estava, evidentemente, em eu ser reconhecido como um homem honesto e informado de que podia ir embora. Devia haver, portanto, 
toda sorte de material nos pensamentos do sonho contendo uma contradio disso. O fato de eu poder ir embora era um sinal de minha absolvio. Por conseguinte, se 
aconteceu algo no final do sonho que me impediu de ir, parece plausvel supor que o material suprimido que continha a contradio se estivesse fazendo sentir naquele 
ponto. O fato de eu no conseguir encontrar meu chapu significava, portanto: "Afinal de contas, o senhor no  um homem honesto." Assim, o "no poder fazer alguma 
coisa", nesse sonho, foi uma forma de expressar uma contradio - um "no" -; de modo que minha declarao anterior [em [1]] de que os sonhos no podem expressar 
o "no" requer uma correo. [1]
          
          Em outros sonhos, nos quais a "no execuo" de um movimento ocorre como uma sensao, e no simplesmente como uma situao, a sensao da inibio de 
um movimento d uma expresso mais enrgica  mesma contradio - expressa uma volio que  contraposta por uma contravolio. Assim, a sensao de inibio de 
uma movimento representa um conflito da vontade. [Ver em [1].] Veremos mais adiante [em [1]] que a paralisia motora que acompanha o sono  precisamente um dos determinantes 
fundamentais do processo psquico enquanto se sonha. Ora, um impulso transmitido pelas vias motoras nada mais  do que uma volio, e o fato de termos tanta certeza 
de que sentiremos esse impulso inibido durante o sono  o que torna todo o processo to admiravelmente adequado para representar um ato de volio e um "no" que 
a ele se ope.  tambm fcil perceber, com base em minha explicao da angstia, por que a sensao de uma inibio da vontade se aproxima to de perto da angstia 
e  to freqentemente ligada a ela nos sonhos. A angstia  um impulso libidinal que tem origem no inconsciente e  inibido pelo pr-consciente. Quando, portanto, 
a sensao de inibio est ligada  angstia num sonho, deve tratar-se de um ato de volio que um dia foi capaz de gerar libido - em outras palavras, deve tratar-se 
de um impulso sexual.
          Examinarei, em outro ponto (ver adiante [em [1]]), o sentido e a importncia psquica do julgamento que muitas vezes surge nos sonhos, expresso na frase 
"afinal, isto  apenas um sonho." [1] Direi aqui apenas, a ttulo de antecipao, que ele se destina a minimizar a importncia do que est sendo sonhado. O interessante 
problema correlato do que se pretende dizer quando parte do contedo de um sonho  descrito no prprio sonho como "sonhado" - o enigma do "sonho dentro do sonho" 
- foi solucionado num sentido semelhante por Stekel [1909, 459 e seg.], que analisou alguns exemplos convincentes. A inteno , mais uma vez, minimizar a importncia 
do que  "sonhado" no sonho, retirar-lhe sua realidade. O que  sonhado num sonho, depois que se acorda do "sonho dentro do sonho",  o que o desejo do sonho procura 
colocar no lugar de uma realidade obliterada.   seguro supor, ento, que o que foi "sonhado" no sonho  uma representao da realidade, a verdadeira lembrana, 
ao passo que a continuao do sonho, pelo contrrio, meramente representa o que o sonhador deseja. Incluir algo num "sonho dentro do sonho" equivale, assim, a desejar 
que a coisa descrita como sonho nunca tivesse acontecido. Em outras palavras, [1] quando um evento especfico  inserido num sonho como sonho pelo prprio trabalho 
do sonho, isso implica a mais firme confirmao da realidade do evento - sua afirmao mais forte. O trabalho do sonho se serve do sonhar como forma de repdio, 
confirmando assim a descoberta de que os sonhos so realizaes de desejos. [1]



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A Interpretao dos Sonhos I  -  Sigmund Freud
